DIÁLOGOS SOBRE PESSOAS E TERRITÓRIO NA COMUNIDADE QUILOMBOLA LAGOINHA DE CIMA



Marina Mantovani Rodrigues de Castro
Universidade Federal de Mato Grosso


Os estudos sobre as populações negras no Brasil, desde os primórdios da antropologia de gabinete evolucionista, suscitaram, em seus diversos períodos, diferentes formas e questões políticas e sociais inseridas em seus contextos históricos. Seu percurso se inicia nos primeiros encontros e descrições que partem da biologia, medicina e criminologia na compreensão das diferenças entre as populações negras e brancas, como fez Nina Rodrigues, por exemplo. Em seguida os estudos foram marcados pelo processo de racialização, etnicidade e mestiçagem das raças, durante o qual, em termos gerais, o país passava por uma cobrança política em relação à presença da cultura negra e seus processos de inserção social (Rodrigues 1977; Bandeira 1988; Schwarcz 1993).

O que sucede esses tempos não tão longínquos quanto gostaríamos (final do século XIX até meados do XX), é a preocupação com a garantia de direitos humanos, de continuidade e incentivo de práticas culturais, com o racismo em suas várias vertentes, religiões afro-brasileiras, saúde, festas, educação e o direito ao seu território tradicional. O território pode ser pensado como um dos pilares para a garantia de outros direitos, em especial após a Constituição de Brasileira de 1988, que oficializa e posteriormente regulariza o acesso à terra, promovendo também a continuidade e incentivo de práticas e saberes ancestrais que constituem, hoje, as pessoas remanescentes de quilombos.

Muitas das comunidades quilombolas se encontram atualmente imersas em conflitos relacionados à posse, regulamentação e usufruto de seus territórios, o que não é diferente no caso da Comunidade Remanescente de Quilombo Lagoinha de Cima, foco desta etnografia realizada em 2017[1]. Lagoinha de Cima é localizada na área rural do município de Chapada dos Guimarães, cerca de 20 quilômetros do centro da cidade mato-grossense, cercada por grandes monoculturas rotativas de soja, milho e algodão que utilizam grande e constante quantidade de agrotóxicos.

Não é preciso longas conversas com as pessoas de lá para que essa questão fique nítida. A expansão do agronegócio pelas paisagens de cerrado local deixou seus rastros para além dos conflitos de terras, resultando em violentos embates entre fazendeiros e quilombolas, mudanças de práticas sociais, impossibilidade de cultivo e contaminação das roças por conta dos agrotóxicos, bem como doenças (como o câncer, dificilmente visto anteriormente), diminuição das roças e dos peixes, mudanças climáticas, do regime de chuvas, poluição do ar e da água, além da fertilidade do solo. “Nós dormia no meio do cerrado, aí o menino veio aqui falando: ele quer derrubar minha casa, aí que eu falei: não, aqui não tem nada roubado, eu falei: esses aí nasceram e criaram aqui, eu conheci a mãe e o pai deles, como o que vocês querem fazer isso? Não pode não!”, contava Dona Vanildes, tronco antigo da comunidade, se referindo a uma das várias invasões a suas terras (Castro 2018).

A partir da etnografia, é possível perceber como o território se constitui como parte do cotidiano alimentar, de moradia, trabalhos e trajetos, mas também engendrando as relações pessoais, de parentesco, de gênero e do cuidado de si e do outro. Esses vários aspectos da vida relacionados ao território tradicional se articulam na construção dessas pessoas e suas identidades, dando sentido as suas vidas, práticas e cotidianos coletivos. O presente texto pretende, assim, trazer as categorias de cuidado, gênero e território numa perspectiva da noção de pessoa (Viveiros de Castro et al. 1979) afim de levantar algumas discussões e possibilidades no olhar para essas pessoas quilombolas.

Foto 1: Dona Vanildes contando histórias no terreiro
de sua casa (Acervo pessoal).

As 14 famílias que vivem na comunidade moram espalhadas numa grande porção de terra[2], onde as casas são dispostas mais próximas às faixas de cerrado preservado nas margens do rio Lagoinha. Muitos membros das famílias, e até famílias inteiras, se mudaram para cidades próximas em busca de melhores condições de vida, principalmente de melhores oportunidades de emprego e estudo, alegando sempre a instabilidade, medo e falta de perspectivas ao continuar vivendo ali. O centro da comunidade se constitui em torno da Associação (sede da antiga escola) e das casas onde moram as pessoas mais antigas do local, como Dona Vanildes, Sr. João e da falecida Laurinda.

Assim como também mostra em pesquisas realizadas em outras comunidades rurais e quilombolas (Bourdieu 1970; Mccallum e Bustamente 2012; Pina-Cabral e Silva 2013), a casa, com suas extensões e conformações, aparece, em comunidades rurais, como um espaço importante nas socialidades e processos individuais e coletivos, tecendo as relações das pessoas, seja com os parentes, amigos, pessoas de fora e também consigo mesmas. Muito além de um pano de fundo, o espaço da casa compõe e designa lugares e tarefas que homens e mulheres devem ocupar ou mesmo dividir, fazendo parte dos processos de individuação na formação de pessoas generizadas (imbuída de gênero) (Mccallum e Bustamante 2012; Castro 2018).

Montar casa […] é criar um contexto de constituição de pessoas, um contexto espacial onde outros coabitam com o casal. A casa existe não para que o casal viva junto, mas para que viva junto com outros -filhos, parentes e também amigos que visitam (Pina-Cabral e Silva 2013: 89).

O que é chamado de casa, em Lagoinha de Cima, pode ser pensado em dois sentidos, a “casa em si”, que normalmente é construída de barro e madeira ou de “material”, e a casa no sentido amplo do terreno, compreendendo a “casa em si”, o terreiro, a roça e a horta. A casa de Dona Vanildes, onde fiquei hospedada durante os 4 meses de campo, é de “material” e tem dois quartos, banheiro, sala e uma cozinha que é mais utilizada para guardar os alimentos, com uma geladeira, armários e um fogão a gás. Na casa dorme ela e mais um filho. No terreno, há ainda outra casa, a “casa antiga”, construída com barro, madeiras nas vigas e telhado de folha de babaçu, onde há mais três quartos, um utilizado como depósito e outros dois onde dormem seus outros dois filhos, que moram com ela.

A cozinha também é feita do mesmo material, mas fica separada, pois Dona Vanildes diz que “com a fumaça do fogão as paredes e o teto ficam tudo preto”, se referindo a fumaça que sobe do fogão a lenha. É nessa cozinha onde fica toda a coleção de panelas (na maioria das casas há dezenas de panelas dispostas em seus conjuntos de cores e formatos iguais), pratos, talheres, potes. É nesse espaço que as mulheres se reúnem para cozinhar aos finais de semana, onde os parentes se juntam na casa de Vanildes para “assar carne” ou fazer pamonha na época da colheita do milho.

No terreiro – o que muitas pessoas chamariam de quintal – é onde fica a caixa d’água para lavar alimentos, roupa e louça, várias árvores frutíferas, galinhas e cachorros. Uma parte do terreiro é reservado ao plantio de ervas e plantas medicinais, muito utilizadas pelas mulheres para temperos, mas, principalmente, medicamentos, chás e benzeções. Próximo à casa fica a horta, com plantio de salsa, cebolinha, coentro, couve, abóbora, maxixe, quiabo, normalmente alimentos do dia a dia. A roça, mais afastada da casa, normalmente nos arredores do terreiro ou no meio do “mato”, é onde são plantadas as plantas de ciclo longo, milho, cana de açúcar e a mandioca, principal alimento e também meio de subsistência de famílias que vendem as sacas ou produzem farinha para comercialização na cidade.

Foto 2: Dona Vanildes, Maria e João (da esquerda para direita) conversando enquanto as duas lavam louças à beira da caixa d’água (Acervo pessoal).

Esses espaços exercem as funções e conformações descritas e também vão tecendo de forma consubstancial identidades a partir das relações e atividades exercidas nos locais. Esperasse de um homem que ele assegure o sustento da família, trabalhando fora, o que no contexto da comunidade se dá em empreitas[3] e serviços gerais carpindo, montando as cercas, plantando, colhendo e operando máquinas agrícolas nas propriedades dos fazendeiros. Os homens também são responsáveis pela roça, preparação do solo, plantio e colheita, buscar e cortar lenha, pescar e caçar, ocupando locais mais longe da casa e o mato (floresta, cerrado).

Trabalhar e ocupar esses espaços é visto como uma forma de se importar e cuidar da sua família. São atributos de um “homem trabalhador”, cuidador. Essa é uma categoria local importante para pensar os papeis não só de gênero, mas também de parentesco que as pessoas se compreendem e desempenham. O cuidado, diferente de outros contextos, não aparece somente para se referir aos trabalhos realizados pelas mulheres em relação à casa e/ou educação dos filhos, mas também aos homens, que ao prover dinheiro, lenha ou alimento, estão demonstrando o cuidado e consideração que tem pela sua família, amigos e até pessoas de fora que precisem de ajuda.

Os espaços da casa, da horta, canteiros de ervas e animais de criação (galinha, porco) é normalmente ocupado pelas mulheres, envolvendo a limpeza da casa e das roupas, alimentação e cuidado dos filhos. O trabalho na roça e no mato costuma acontecer em ocasiões específicas, como para coletar alguma planta, pescar ou ajudar na colheita e plantio da roça. O cuidado delas também é visto como provedor e importante, formando um encaixe com os homens na distribuição dos espaços sociais, demonstrando que a construção dessas pessoas e de suas individualidades acontece de forma processual e intersubjetiva, numa relação de oposição e partilha com o “outro”, mulheres e homens.

A ato de cuidar é destinado à várias pessoas, parentes ou não, mas é reforçado pelo sentimento de consideração. Sentir consideração por alguém é derivado de acontecimentos e situações da vida que fazem com que as pessoas se aproximem e desenvolvam afetos. Dona Vanildes sempre conta de Minervina, sua “prima-irmã” ou “irmã de consideração”, pois “nasceram e criaram juntas, na mesma casa”. Ela conta que Minervina, no final de sua vida, ficou internada por 20 dias no hospital e foi Dona Vanildes que cuidou dela. “Eu levava as roupas daqui, dava banho, comida, eu que fazia tudo, ninguém do povo dela ficou lá, fui eu que cuidei até morrer”. Falas como essa reforçam a ideia do cuidado também como demonstração de consideração, ou consideração demonstrada pelo cuidado. Cuidar em momentos de doença, doar galinhas e alimentos, roupas, sapatos, dar carona ou abrigo, são formas dessas demonstrações.

Essas ações que reforçam o cuidar e prover também são vistas durantes os bailes, festas, jogos de futebol ou idas ao bar, nos momentos em que há desejos e paqueras entre as pessoas. Os homens “bons” e interessantes são aqueles que mostram interesse nas mulheres oferecendo comidas, bebidas, presentes, demonstrando que são capazes de cuidar delas e elas de lhes retribuírem. É dessa forma que também são selecionados os melhores pretendentes para casar, constituir família e ter a sua casa.

Trago esses diálogos e vozes das pessoas de Lagoinha de Cima e de suas vidas para pensar a importância que o território tem na constituição dessas pessoas, e de como ele pode ser integrante das dinâmicas sociais sendo palco e parte de sentidos das experiências. Ele é um território existencial das multiplicidades que vão para o lado oposto ao de dualismos indivíduo/coletivo e espaço/pessoa, por exemplo, abrindo um campo de possibilidades e trazendo consigo as memórias e marcas do passado, permitindo infinitas conformações identitárias compartilhadas. Deixar o território para ir morar em outras cidades por medo de invasões ou falta de oportunidades, é, principalmente para as pessoas mais velhas, deixar também uma parte de si, que lhe dá significado às suas experiências (Guattari 2004).

Vanildes: Vôte, eu não presto pra morar em Cuiabá não, eu chego lá já quero voltar para cá.

Marina: Por que?

Vanildes: Lá não dá pra viver, é aquele barulho de carro o dia inteiro, você quer sair não dá porque tudo lá é perigoso, fica trancada em casa o dia inteiro. Quando eu vou lá na Gonça, minha irmã, fico um, dois dias e já volto, parece que tô presa (Entrevista com Dona Vanildes, 2017).

Esses processos identitários, devo lembrar, não acontecem em corpos neutros, mas sim marcados pelos papeis e performances de gênero, não enquanto um repositório determinista de significados, mas enquanto parte do processo coletivo e relacional de entendimento e elaboração de si. Os processos subjetivos das pessoas são entrecruzados e relacionais, interdependentes e consubstanciais, não há construção de homens sem que haja a presença das mulheres e vice e versa, a relação é conjunta, e essa polaridade só evidencia sua relacionalidade (Sahlins 2011).

A forma como o território é divido e ocupado pelas pessoas em Lagoinha de Cima mostra essa coexistência de dimensões sociais e subjetivas, juntamente com a noção de cuidado vinculado ao provimento de mulheres e homens (seu e do outro), além da consideração enquanto um afeto que intensifica laços e trocas. É mostrando essa importância do território na constituição dessas pessoas que volto a um dos pilares dos estudos de quilombo: a essencialidade emergente na regularização e demarcação do território histórico de direitos, de memórias, identidades e múltiplas existências.

Referências bibliográficas

BANDEIRA, Maria de L. 1988. Território Negro em Espaço Branco. São Paulo: Editora Brasiliense.

BOURDIEU, Pierre. 1999. “A casa kabyle ou o mundo às avessas”. Cadernos De Campo 8(8): 147-159.

CASTRO, Marina M. R. 2018. Pessoa, Gênero e Cuidado na Comunidade Quilombola Lagoinha de Cima, Chapada dos Guimarães – Mato Grosso. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Mato Grosso – Cuiabá.

GUATTARI, Félix. 2004. Caosmose: Um novo paradigma estético. São Paulo: Editora 34 Ltda.

McCALLUM, Cecilia; BUSTAMANTE, Vania. 2012. “Parentesco, gênero e individuação no cotidiano da casa em um bairro popular de Salvador da Bahia”. Etnográfica 16(2): 221-246.

PINA-CABRAL, João de; SILVA, Vanda A. 2013. Gente Livre: consideração e pessoa no baixo sul da Bahia. São Paulo: Terceiro Nome.

RODRIGUES, Nina. 1977. Os Africanos no Brasil. São Paulo: Editora Nacional.

SAHLINS, Marshall. 2011. What Kinship is – and is not. Chicago: The University of Chicago Press.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. 1993. O espetáculo das raças. Cientistas, Instituições e Questão Racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Cia. das Letras.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo; SEEGER, Anthony; DAMATTA, Roberto. 1979. “A construção da pessoa nas sociedades indígenas brasileiras”. Boletim do Museu nacional 32: 2-19.

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[1] Dissertação de mestrado intitulada “Pessoa, Gênero e Cuidado na Comunidade Quilombola Lagoinha de Cima, Chapada dos Guimarães – Mato Grosso”, defendida em 2018 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Mato Grosso.

[2] O número exato de famílias ainda está em pesquisa no quadro do processo de elaboração do laudo antropológico para regularização e demarcação da Comunidade Remanescente de Quilombo Lagoinha de Cima, juntamente com as comunidades de Ribeirão Itambé e Morro do Cambambi, todas localizadas no município de Chapada dos Guimarães (MT). O Termo de Execução Descentralizada é coordenado pela Prof.ª. Dra. Sonia Regina Lourenço vinculada à Universidade Federal de Mato Grosso em parceria com o INCRA.

[3] Serviços prestados por dia, sem contrato, onde o emprega combina o preço anteriormente de acordo com o trabalho a ser realizado.