Editorial

Vinicius Kauê Ferreira
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Mariani Pisani
Universidade Federal do Tocantins

Estevão Rodrigues
Universidade Federal de Rondônia

Chegamos ao quinto volume da Novos Debates em um momento bastante diverso daquele, do primeiro número, em 2014. A Antropologia se depara com um contexto a partir do qual questões diretamente relacionadas à luta pela manutenção da Democracia, da Liberdade de Expressão e do Ensino e Pesquisa de qualidade nos são, mais que nunca, impostas quotidianamente e em todas as frentes possíveis. Nestes anos, temas relacionados a lugar de fala, interdisciplinaridade, interseccionalidades e o papel que sujeitos periféricos – política, institucional ou epistemicamente – ocupam, dentro e fora da Academia, nestas novas frentes, são questões a serem enfrentadas. Este número é um reflexo direto disso.

O Fórum organizado por Igor Erick (UFPA) e Bruno Rodrigo Carvalho Domingues (UFRGS), intitulado Corpos, Sensações e Paisagens, explora os debates mais contemporâneos sobre gênero e sexualidades em contextos periféricos e interioranos. O conjunto de trabalhos que compõem a seção são testemunha da capacidade da antropologia brasileira em se renovar continuamente na busca por abordagens teóricas e metodologias capazes de produzir interpretações consistentes sobre temas que desafiam as abordagens clássicas da disciplina. Mais do que isso, os artigos que apresentamos neste Fórum, produzidos por colegas alocados em universidades do Sul ao Norte do país, reafirmam a potência interpretativa de perspectivas epistêmicas descentradas em termos regionais e institucionais.

A tradicional seção Novas Pesquisas, como sempre, tem pouco de tradicional: música, eleições, deficiência, gênero e envelhecimento, além de temas mais clássicos – mas sempre renovados – como patrimônio e reforma agrária. Um ponto que merece ser destacado é que as submissões que temos recebido para a seção abrangem um espectro cada vez maior de instituições menos centrais de alunos de graduação e mestrado. A qualidade desses textos nos motiva a continuar trabalhando na construção de uma publicação que se coloca o desafio de acolher escritos de estudantes e pesquisadores em todos os níveis de formação e estágios da carreira sem abrir mão do rigor com o qual avaliamos.

Na seção Composições, além de dois ensaios fotográficos, publicamos também um vídeo. A publicação de produções fílmicas é uma aposta que realizamos desde 2015, apesar das incertezas que ela representa em termos de avaliação pela CAPES, mas temos convicção sobre o interesse desse movimento para a disciplina. Outras revistas têm feito o mesmo, algumas especializadas em Antropologia Visual, e esperamos que esta se torne uma prática cada vez mais comum entre as revistas eletrônicas.

Em Ensaios, temos três contribuições críticas, bastante distintas entre si: o feminismo de um ponto de vista indígena, o COVID-19 de um ponto de vista de classe, e as identidades mediterrâneas de um ponto de vista pós-colonial. Complementar a estas leituras à conta-pelo, temos uma entrevista com Saskia Sassen, realizada pelos professores Daniel de Souza Leão Vieira Francisco Sá Barreto e Alex Vailati, todos da UFPE. Trata-se de uma reflexão sensível sobre as interseções produzidas, de um ponto de vista etnográfico, entre uma pandemia global e cidades globais.

Em seu processo de constante reinvenção, Novos Debates segue mantendo seu objetivo: de dar espaços para pesquisas inovadoras temática ou metodologicamente, não enquadradas em campos circunscritos e/ou constituídas desde as margens disciplinares. Novos olhares têm surgido nesse constante alinhavar, graças a contribuição das várias pessoas que usam este espaço para compartilharem suas preocupações estéticas e intelectuais. A todas elas, nossa imensa gratidão.