ENTALHANDO MEMÓRIAS E ESCULPINDO IDENTIDADES

Uma análise do Centro de Produção de Arte Santeira do Poti Velho, Teresina – PI



Andressa Nunes Soilo
Universidade Federal do Rio Grande do Sul


Foto 01 – Fachada do Centro de Produção de Arte Santeira. Teresina – PI, 20/07/2015. Fonte: Portal PMT.

Por meio da presente investigação apeteço analisar se os esforços empreendidos pela Prefeitura Municipal de Teresina para a criação de um Centro de Produção de Arte Santeira têm logrado êxito, sobretudo, em termos de uma preocupação em resguardar a memória da comunidade e a afirmação da sua identidade enquanto artistas santeiros/as através da produção artística por eles/as desempenhada.

Inaugurado no dia 21 de outubro de 2015 por meio da Secretaria Municipal de Economia Solidária – SEMEST, o primeiro Centro de Produção de Arte Santeira da capital tem o intuito de valorizar essa vertente da arte popular, dando maior visibilidade ao trabalho executado pelos/as artistas do bairro Poti Velho e promover a descoberta de novos talentos no ramo por meio de cursos de capacitação. Segundo Olavo Braz, secretário da SEMEST na época, há na capital cerca de 90 santeiros/as, sendo que 70 deles/as cumprem intensivamente o ofício[1].

Munido dessas informações associadas a constantes visitas ao local, a abordagem com o coordenador do Centro, Antônio[2], foi se dando de forma casual com vistas a obter o maior proveito dos diálogos. Quando indagado sobre a perpetuação do exercício de fazer santos, ele deixa claro que a prática artística em questão, no Piauí, sempre foi muito individualista com relação à produção. “Os artistas mais antigos não querem trabalhar com o coletivo, cada um produz na sua própria casa e lá mesmo vende suas peças, por isso o ofício da arte santeira está morrendo, por não haver quem queira ensinar”. Neste caso, o máximo que se faz é passar esse aprendizado “de pai para filho”[3] e não para a população ou para a comunidade em geral.

Tomando isso como pressuposto, o Centro de Produção oferece cursos de capacitação em arte santeira. Estes são de fluxo contínuo, não seguem uma estrutura rígida e grade curricular fechada, não há teoria, os/as alunos/as aprendem na prática e costumam frequentá-lo de acordo com a sua disponibilidade, de acordo com Antônio “alguns vão três dias, outros a semana inteira”. A matéria prima desses/as artistas é a madeira proveniente de madeireiras que possuem um selo de reflorestamento ambiental e que é fornecida pela Prefeitura. Primeiramente, os/as alunos/as aprendem a desenhar na madeira, depois talhá-la (o que segundo o coordenador se constitui o “ABC” da arte santeira) e, por último, começam a esculpir.

Com o agravante de que os/as jovens do bairro não apresentam interesse na prática de talhar/esculpir santos, pois conforme Antônio, eles/as preferem engajar-se em atividades que lhes possibilitem galgar “níveis mais altos” no mercado de trabalho, como por exemplo, em cursos técnico-profissionalizantes, a formação das turmas só é possível porque ele sai às ruas “recrutando” pessoas disponíveis para os cursos, uma vez que elas não procuram o Centro por vontade própria. Geralmente, os/as alunos/as das turmas misturam-se entre adolescentes, adultos e idosos, sendo que a maioria é oriunda de bairros distantes do Centro de Produção.

A arte santeira insere-se aqui, enquanto marcador identitário do bairro Poti Velho, como o meio pelo qual os sujeitos têm a possibilidade de contarem suas próprias histórias, vivências e cultivar a memória construída em coletividade. O que se discute aqui é que cada obra assume uma dimensão simbólica importante tanto para quem a produz quanto para quem a aprecia, não expressando algo isolado de sua esfera histórico-social (Lopes, 2014).

É importante ressaltar que, por “memória coletiva” entende-se uma construção que é instituída pluralmente e que demanda a permanência de fatos que são importantes para determinado grupo (Halbwahcs, 1990). Uma vez que a memória coletiva recai sobre um movimento contínuo de seus particulares, cabe enfatizar que não há memória individual que não faça referência à primeira. A memória coletiva apresenta-se como um produto do grupo social, ou seja, há vozes consonantes que ecoam através do pensamento de cada indivíduo e que, embora se expressem neste, foram construídas coletivamente.

Quando se diz que através da arte santeira coloca-se em evidência essa memória, o que se pretende deixar claro é que durante o processo de criação de cada peça o/a artista, imbuído/a de suas tradições, transfere para sua obra as representações coletivas do grupo social ao qual está inserido, incluindo nelas elementos que enaltecem segmentos de sua cultura local e regional, circunscrevendo assim uma identidade, uma assinatura, ou ainda um “código de barras cultural” ao produto final. No tocante às representações coletivas, estas são uma das expressões do fato social e correspondem aos modos como a sociedade vê a si mesma e o que se encontra ao seu redor (Quintaneiro, 2002). É à existência da noção de “nós”, de grupo, que a construção da memória é possível e a arte santeira, ao colocar-se nesse processo, resulta na reconstrução de si mesma.

A arte santeira faz alusão a uma identidade cultural que, por sua vez, está alicerçada sob os fundamentos da memória coletiva por ser fruto de uma interação com o meio social. Segundo Pollak (1992), os acontecimentos vividos pessoal ou coletivamente, somados aos eventos situados fora do espaço-tempo de um indivíduo ou grupo formam os elementos constitutivos da memória, pois ainda que não vivido ou experienciado determinados contextos sociais, os indivíduos estabelecem uma relação de identificação com tais fatos através de uma socialização política ou histórica. As personagens se inserem no mesmo quadro dos acontecimentos, podendo ser pessoas que viveram a mesma época de um grupo ou não. Os lugares, igualmente, fazem referência a uma lembrança pessoal, como também podem estar fora do tempo-espaço de um sujeito ou coletividade. 

Tomando essas três categorias: acontecimentos, personagens e lugares, torna-se possível perceber o quanto elas estão interligadas à noção de memória defendida aqui como decorrente da atividade de fazer santos. A arte santeira é revestida de uma memória que denuncia acontecimentos que são comuns a determinados grupos ou indivíduos, tendo grandes personagens como fonte de inspiração e que se tornaram verdadeiros ícones, neste caso Mestre Dezinho[4], e por fim os lugares, ou mais precisamente, a cultura local que é ressaltada através de cada traço na madeira. 

Ora, se a identidade traz consigo a noção de pertencimento e auto-afirmação (Cuche, 1999), o fato de os/as artistas santeiros/as incrementarem suas obras com elementos que fazem referência ao nordeste, como a feição sofrida dos anjos e santos remetendo ao campesino (Lopes, 2014), por exemplo, não é nada mais nada menos do que afirmar seu pertencimento a um lugar, consolidando a identidade de um povo mediante a arte de esculpir santos. Apreende-se assim, uma estreita relação entre memória e identidade, pois os costumes que vão passando de uma geração à outra assumem uma dimensão tradicional, correspondendo a certos anseios da sociedade carregados de uma significação própria para determinada coletividade.

 Em decorrência desses quatro anos de atuação, o Centro já conseguiu formar aproximadamente cem artistas com carteirinhas expedidas pela Central de Artesanato[5]. As relações forjadas entre mestres/as e aprendizes propiciam uma troca de experiências que culminam no “saber fazer” do ofício. Entendendo a memória como algo que, em certa medida é herdada, é essa relação que proporciona a sua perpetuação aos mais jovens e é justamente aqui que reside o ponto-chave da questão, pois a importância do Centro de Produção consiste exatamente no fato de colocar-se como o meio pelo qual essas relações são concretizadas, dando continuidade à prática artística e trazendo maior visibilidade do trabalho que é efetuado pelo mesmo à sociedade como um todo.

Referências bibliográficas

CUCHE, Denys. 1999. “Cultura e identidade”. In: A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru: EDUSC. pp. 175-202.

HALBWACHS, Maurice. 1990. A memória coletiva. São Paulo: Vértice.

LOPES, Katiuscy da R. 2014. Arte Santeira do Piauí: entalhando imaginários. Dissertação de Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural, IPHAN – Rio de Janeiro.

POLLAK, Michael. 1992. Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, 5(10): 200-212.

QUINTANEIRO, Tania. 2002. Um toque de clássicos: Marx, Durkheim e Weber. 2. ed. rev. amp. Belo Horizonte: Editora UFMG.


[1] Esta informação foi concedida pelo mesmo em uma entrevista realizada pelo portal da Prefeitura Municipal de Teresina na ocasião de inauguração do local. Disponível em http://www.portalpmt.teresina.pi.gov.br/noticia/Prefeito-Firmino-Filho-inaugura-Centro-de-Producao-de-Arte-Santeira-de-Teresina/8879. Acesso em 12/09/2018.

[2] Nome fictício atribuído ao coordenador do Centro de Produção.

[3] Enquanto um Cientista Social ciente das questões de gênero, entendo que tanto mães quanto filhas podem desempenhar o ofício de artistas santeiras, no entanto, faço uso da referida expressão para conservar algo que foi proferido pelo próprio coordenador do Centro.

[4] Pertencente à primeira geração de artistas, José Alves de Oliveira, conhecido popularmente como Mestre Dezinho, é um dos maiores expoentes da arte santeira piauiense.

[5] Instituição que coordena a prática artística e artesanal no Piauí.