ENTRE PADRÕES E VIADÕES

Notas sobre uma etnografia de festas gays



Fabricio Campos Longo da Silva
Universidade do Estado ro Rio de Janeiro

“A Pipper é como se fosse o Brasil e a
The Week é os Estados Unidos.”

Thiago, material de campo, maio de 2017.
Introdução 

De certa forma, perguntar o que significa “ser gay” é o que fiz a vida toda. Assim, o maior desafio enfrentado por mim nessa pesquisa – meu trabalho de conclusão do curso de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – foi o de abraçar seu caráter autobiográfico. Afinal, o pertencimento ao universo do trabalho foi fundamental para meu acesso ao campo e também para a troca com os interlocutores. 

O trabalho de campo começou formalmente em março de 2017 e foi até o mês de maio do mesmo ano, tendo como objeto festas gays cariocas e através de entrevistas informais com os frequentadores. As diferenças de classe, raça e comportamento de gênero que observei eram expressas nos discursos de meus interlocutores sobre a diferenciação entre uns e outros, geralmente em relação de proximidade ou de distanciamento daquilo que é considerado “padrão”.

Na pista pra negócio: identidades em disputa sob as luzes da boate

Em seu site oficial[1], a boate paulistana The Week traz a promessa de “um universo de experiências únicas e surpreendentes”. Uma filosofia que segue na filial carioca, onde a excelência é apontada como uma das razões da fidelidade do público à marca, sendo a outra a ideia geral de que o público da casa é “selecionado” e composto por “pessoas bonitas”.

Seu oposto é a festa V de Viadão, que se apresenta como um movimento político que simbolicamente seria a antítese de tudo que a The Week representa. Apoiada nos discursos difundidos através de memes[2] e discussões sobre sexualidade e gênero nas redes sociais, a festa nasceu no final de 2013 como um produto do papel da internet naquele período, sempre fazendo uma afirmação positiva do “dar pinta de viado”.

Braga (2018), falando sobre a cena gay, argumenta que “festas e clubes que se dirigem a um público específico (…) seriam exemplos de rediferenciação interna dentro do que se poderia chamar de noite gay” (p. 16) e também que “festas que enfatizam certo compartilhamento estilístico e de gostos musicais, de moda e de arte, mais do que uma modalidade de interação erótica específica, e em que a diversidade de tais interações é vista como um valor, seriam exemplos de desdiferenciação externa” (p. 17). Assim, temos o movimento de diferenciação dentro da própria comunidade gay e também uma tensão relacional com o “mundo hétero”, em que pesem os posicionamentos políticos “acerca dos usos da cidade, do corpo e do prazer, presente no discurso e nas práticas de muitos participantes” (Idem).

Durante a pesquisa, na porta da The Week, duas passagens merecem destaque. O relato de Felipe – homem negro, estudante de jornalismo e morador da zona norte[3] –, apresenta a disputa entre “afeminados” e “padrõezinhos” que parece nortear a divisão de público que observei em campo. 

A galera fala muito em padrão por causa dos bombados, como se isso fosse opressivo por si só, mas esse estilo afeminado-empoderado-V de viadão é o novo padrão. Por que esse pessoal é universitário, zona sul, fala de negro e de periferia, mas não vive isso. Então é diferente do público de Madureira. Aí se alguém não é como eles, acaba sendo apontado como opressor, mas isso também é uma forma de opressão. (Felipe, material de campo, abril de 2017)

Por outro lado, a fala de Thiago, um jovem branco e musculoso que naquela noite tinha deixado de ir à festa Pipper – a mais estabelecida festa LGBT de apelo popular na cidade – para ir à The Week, ilustra o significado relacional de “padrão” em sua multiplicidade:

O público das festas não se mistura principalmente por causa da questão do padrão. Lá o pessoal é mais feminino, mais solto, aqui eles imprimem mais o hétero, gente muito forte e tal. A diferença total entre a Pipper e a The Week é beleza por causa do padrão. Pipper é como se fosse o Brasil e a The Week é os Estados Unidos.(Thiago, material de campo, maio de 2017). 

O que significa dizer que aquilo que separa os públicos de duas festas é a “beleza por causa do padrão”? No “microcosmo gay” que separa essas festas não existem grupos isolados fisicamente, mas a afirmação de que eles “não se comunicam” permite enxergar as tensões de identificação que criam um abismo. 

É uma questão que aparece nas conversas que tive com os frequentadores das festas durante a pesquisa, onde a eleição e a crítica a “opostos ideais” são constantes. No mais, um ponto significativo no que diz respeito a “ser ou não ser padrão” é o capital erótico (Hakim, 2012), uma vez que estar mais ou menos próximo desse ideal afeta as possibilidades eróticas e afetivas dos indivíduos de maneiras variáveis em cada festa. O conceito é definido como: 

Uma obscura, embora crucial, combinação de beleza, sex appeal, capacidade de apresentação pessoal e habilidades pessoais – uma união de atrativos físicos e sociais que torna homens e mulheres companhias agradáveis e bons colegas, atraentes para todos os membros de sua sociedade e especialmente, para o sexo oposto. (p. 7). 

É evidente que a ênfase em “tornar-se atraente para o sexo oposto” deve ser compreendida, nos espaços de sociabilidade homossexual, como a potencialidade dos indivíduos em atrair parceiros do mesmo sexo. Contudo, colocar a performatividade de gênero (Butler, 2015) para compreender sujeitos sociais, na narrativa, ilumina os extremos que fazem com que a (esperada) relação de complementaridade entre “masculino” e “feminino” seja transformada numa relação de disputa entre pessoas homossexuais.

Judith Butler (2015) analisa a concepção ocidental de sexo e de gênero partindo da crítica de que o sexo é o meio discursivo/cultural pelo qual a ideia de gênero também é construída, sem representar uma “superfície politicamente neutra sobre a qual age a cultura” (p. 27). Ela entende que “o gênero pode ser compreendido como um significado assumido por um corpo (já) diferenciado sexualmente” (p. 31) em relação a um outro significante. Assim, a discussão sobre uma identidade de gênero e a pressuposição de que as identidades são idênticas, persistentes ao longo do tempo e internamente coerentes transforma em “inteligíveis” os gêneros que “mantêm relações de coerência e continuidade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo” (p. 43). 

Em outras palavras, a natureza opressora do discurso que hierarquiza “afeminados” e “boys padrão”, como colocado por meus interlocutores, é análoga àquela que marginaliza todas as práticas e vivências “não-hétero” em relação ao modelo ideal da heterossexualidade. A coerência de gênero é desejada e performada através de palavras, atos e gestos, produzindo na superfície do corpo a organização da identidade. 

Em seu trabalho sobre o Buraco da Lacraia, Díaz-Benítez (2008) observa que quanto menos elitizado é um local, mais clientes negros ele possui. A autora argumenta que é em oposição a uma imagem dominante do gay branco que o Buraco, como é comumente chamado, é visto como um lugar “feio” e “trash” porque são gays negros e/ou pobres que frequentam. Entretanto, a lógica racista do mercado erótico valoriza os homossexuais negros em papéis fetichizados de hipermasculinidade, inclusive no tocante à pobreza. Nesse contexto, homossexuais pobres e afeminados são chamados de “bichinha pão com ovo” e menosprezados – ainda mais se forem negros e/ou gordos – enquanto aqueles que, apesar de pobres, se comportam de maneira masculinizada são cobiçados.

Assim, é possível entender o que Thiago quis dizer com “beleza por causa do padrão” como o valor atribuído a um ideal de masculinidade – e ainda de branquitude e poder econômico – que representa uma alegoria do gênero masculino. Algo que serve de capital erótico para os frequentadores da The Week e que, quando é rejeitado, o é não pela efetiva desvalorização do “padrão”, mas pela percepção da própria inadequação a ele de quem olha criticamente. 

Considerações Finais 

E então, para retomar a pergunta que me fiz durante toda a vida, o que é “ser gay”? Para uns, a afirmação de uma performance afeminada é ao mesmo tempo uma crítica e uma solução ao não enquadramento à heteronormatividade. Para outros, a hipermasculinidade e a associação a marcadores de classe elevada é o caminho, até pelo verniz de respeitabilidade que essas posturas emprestariam a uma identidade desviante. 

As pessoas vão às festas em busca dos seus. E se categorias como “padrão” ou “viadão” enunciam uma fragmentação identitária que vai transformar cada termo em uma “tribo” de fronteiras definidas, talvez isso não seja nenhuma novidade. Afinal somos nós, pesquisadores, que nos colocamos nesse lugar de fazer perguntas. As pessoas simplesmente são.

Referências Bibliográficas

BRAGA, Gibran Teixeira. “O fervo e a luta”: políticas do corpo e do prazer em festas de São Paulo e Berlim. 2018. 292f. Tese (Doutorado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015.

DÍAZ-BENÍTEZ, Maria E. “Buraco da Lacraia: interação entre raça, classe e gênero”. In: VELHO, Gilberto (Org.) Rio de Janeiro: cultura, política e conflito. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Tradução, ALBUQUERQUE, M. T. C.; ALBUQUERQUE, J. A. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

FRANÇA, Isadora L. Consumindo lugares, consumindo nos lugares: Homossexualidade, consumo e subjetividades na cidade de São Paulo. Rio de Janeiro: EdUerj, 2012.

FRY, Peter. Para inglês ver: identidade e política na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

HAKIM, Catherine. Capital erótico: pessoas atraentes são mais bem-sucedidas – a ciência garante. Rio de Janeiro: Best Business, 2012.

MAUSS, Marcel. Uma categoria do espírito humano: A noção de pessoa, a de “eu”. In: MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2015. 

PARKER, Richard. Abaixo do equador: Culturas do desejo, homossexualidade masculina e comunidade gay no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2002.

PERLONGHER, Néstor Osvaldo. O negócio do michê: prostituição viril em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1987.


[1]  http://www.theweek.com.br/ acessado em 27/02/2019.

[2]  Imagens usadas para a comunicação na internet, frequentemente carregadas de humor.

[3] Na cidade do Rio de Janeiro, a elite é concentrada na zona sul, próxima às praias.