GÊNERO E GERAÇÃO

Relatos de experiências de mulheres que envelhecem em movimento



Daiany Cris Silva
Universidade Estadual de Maringá


Foto 1: Registro de uma mulher idosa caminhando em uma praia,
Florianópolis (SC), Maio de 2020

Quando avistei de longe essa mulher de cabelos brancos que caminhava pela areia da praia, logo me dispus a observá-la. Sempre achei curioso o comportamento de mulheres idosas, tanto é que me desafiei a estudá-las e parte dos resultados dessa curiosidade apresentarei aqui. A mulher idosa que eu avistava ali caminhava vagarosamente e durante pequenas pausas encarava o mar calmo e imenso. Ela possuía a postura de quem refletia e então, decidiria retomar a sua caminhada. Entre inúmeras e repetitivas pausas e reflexões ela permanecia constante e em movimento. Quanto mais perto de mim aquela mulher chegava, melhor eu conseguia perceber seus passos firmes e persistentes de quem busca algo e elabora sobre si. Eu não conseguiria deixar de relacionar essa cena ao presente contato que estava tendo com os relatos de experiências das minhas interlocutoras, que são mulheres que envelhecem se movimentando. Eu acompanhei aquela caminhada como se estivesse visualizando o movimento de uma mulher que percorre a sua trajetória de vida social com os pés pesados, solapados pela areia da praia mas, que, ainda assim, mantinha o seu caminhar.

Dado a minha curiosidade em observar mulheres de mais idade, eu as escolhi como minhas interlocutoras de pesquisa por acreditar que estabelecer um diálogo com elas, que já atravessaram processos sociais tão bem demarcados em sua geração, me proporcionaria compreender a minha própria vivência como mulher e até mesmo questionar pré-concepções sobre o envelhecimento, que é considerado uma fase da vida de perdas e custos (Debert 1994; Motta 2010).

Por isso, este texto traz consigo reflexões sobre o envelhecimento de mulheres, mais especificamente das que mantiveram uma vida pública ativa durante suas trajetórias, liderando, participando ou atuando profissionalmente em espaços diversos da vida política e social. Por meio de entrevistas semiestruturadas compostas por questões que objetivavam resgatar trajetórias e compreender as percepções que mulheres idosas com vida pública ativa possuem sobre si e o mundo, entrevistei seis mulheres de diferentes regiões do país: Lídia, 68 anos, advogada, empresária e engajada no associativismo de mulheres do ramo empresarial; Raquel, 76 anos, religiosa, atuante em organizações do catolicismo e enfermeira dedicada a políticas de saúde da infância e da família; Fátima, 74 anos, que se classifica como  pedagoga de formação e agricultora por acidente, atualmente possui uma das propriedades rurais mais produtivas do país; Elena, 68 anos, historiadora especialista em gênero e raça, foi pesquisadora do IBGE durante 30 anos e na atualidade é ativista em uma Rede de Mulheres Negras e no Movimento LGBTTI[1]; Leonor, 63 anos, advogada e sindicalista, na juventude foi militante no combate a ditadura militar e atualmente é membro de organização partidária e; Fernanda, a mais jovem do grupo, com 53 anos, é educadora e ativista no movimento de mulheres transexuais[2].

Essas mulheres me mostraram um caminhar de vida semelhante ao que descrevo acima sobre a idosa que caminhava na praia, de permanência e constante movimento. E é esse caminhar que buscarei apresentar aqui diante de discussões teóricas e metodológicas na antropologia. O objetivo principal das entrevistas realizadas foi avaliar a importância atribuída pelas interlocutoras a sua condição de gênero e vivência na velhice.

Com relação à metodologia, a denominei como uma coleção de relatos de experiências, ao articular o conceito de “escrevivência” da escritora brasileira Conceição Evaristo (2006), que a literata define como um recurso discursivo e por meio do qual busca revelar posições políticas e condições sociais. No caso da obra de Conceição Evaristo, esse posicionamento é demarcado pela sua condição de mulher negra, por meio da qual ela busca valorizar uma versão da história da população negra que é encoberta pela historiografia tradicional (Evaristo 2006). Dessa maneira, compreende-se que escrever vivências é uma atitude política mobilizada por intelectuais negros para visibilizar perspectivas da história oral que são atravessadas por vivências da vida cotidiana.

Essa característica de explorar a cotidianidade e as interpretações de mundo de seres individuais é muito presente nas Ciências Sociais (Simmel 2006, 1979; Elias1994). Diante disso, uma aproximação da escrita de vivências femininas à escrita etnográfica torna-se passível pois, neste estudo sobre o envelhecimento feminino, busco mobilizar a recuperação de histórias de mulheres como meio de avaliar como a memória feminina pode se revelar um instrumento atento a detalhes dos processos sociais, dado a sua especificidade no registro de perspectivas, produzindo então, interpretações sobre o mundo que são plurais e bem localizadas socialmente. A escrita etnográfica torna-se, portanto, um espaço de registro dessa escrita de vivências que é mobilizada analiticamente.

Um debate essencial para se pensar o envelhecimento feminino é a articulação do conceito de gênero e geração, duas categorias norteadoras para se aferir como as histórias individuais das mulheres desta pesquisa podem informar sobre a experiência coletiva de toda uma geração, a experiência individual revelando experiências sociais (Kofes 2001, 1994).

Nessa perspectiva, o conceito de geração é baseado nas discussões do pioneiro dos estudos geracionais, o sociólogo Karl Mannheim (1961): o autor define geração como a situação social constituída pelo compartilhamento de uma condição social que não só é constituída biológica e cronologicamente mas, que possui uma estrutura social bem definida. Uma geração pode compreender diversos grupos de pessoas, com vivências plurais, que estão conectadas por uma posição e atuação comum no tempo histórico do processo social (Mannheim 1961). No que se refere ao conceito de gênero, utilizo a concepção da teórica feminista Joan Scott (1990), que apresenta a categoria gênero como um referencial de análise que possibilita localizar essa condição social como um elemento constitutivo das relações sociais baseadas na sexualização, o que nos permite significar as relações de poder vividas cotidianamente (Scott 1990: 86).

Articular esses conceitos têm sido um exercício importante para mobilizar a atualidade do uso de geração como categoria analítica dos processos sociais, assim como destaca Wivian Weller (2010). Acredito que compreender os movimentos geracionais é uma maneira de mensurar como a experiência social pode ser atravessada por diversas situações sociais, nesse sentido, geração pode articular as vivências de classe social, gênero e raça sobre um pano de fundo da constituição geracional.

As seis interlocutoras deste estudo me proporcionaram dimensionar as suas percepções sobre a atuação da vida pública durante o processo do envelhecimento de maneira articulada com os conceitos de gênero e geração ao demonstrarem em seus relatos de experiências que ser mulher pode influenciar na maneira com que elas se constroem como agentes sociais e o seu envelhecimento sofre as consequências da sua condição de mulher em sociedade.

Envelhecer em movimento se mostra como uma tarefa árdua até mesmo para elas que mantém uma trajetória de vida ativa, porém, primordial para quem construiu toda uma história pautada por valores e posições políticas tão bem esclarecidas.

No que se refere ao sentido do envelhecimento é possível perceber que todas as mulheres entrevistadas buscaram atenuar o sentir-se velha ou demonstrar como elas conseguem prolongar uma vida ativa quando se movimentam, quando permanecem ‘vivendo a vida’, cultivam o ‘estar na vida’, indicando sempre movimento, negando a condição de pessoa idosa reclusa, que se abstém da vida em sociedade.

Para não se sentir velha você não pode parar, você tem que estar sempre querendo fazer isso ou aquilo. Eu não digo assim fisicamente, mas mentalmente eu não sou velha não, eu me vejo como uma jovem capaz de fazer tudo o que eu já fiz. (Fátima, 74 anos, Maringá – PR, 17/04/2019)

O maior amparo para justificar esses movimentos em suas vidas é a alegação de que a mente ainda é agitada, o que não corresponde com a condição física de um corpo envelhecido, mas tal como uma mente jovem, elas se consideram capazes de elaborar ações e intervenções na vida pública e, talvez, de maneira até mais perspicaz dado ao acúmulo de experiências. Porém, para que essa saúde mental seja mantida é preciso obter uma atitude positiva e incisiva perante o comando de sua própria vida.

O movimentar-se é constituído por uma luta constante entre as falências do corpo e as insubordinações de uma mente que se considera “jovem”, vivaz. Este estudo nos mostra como se constrói a possibilidade de viver o processo do envelhecimento de modo ativo, mas distante das ilusões de pensar o “estar na vida”, como denominou a minha interlocutora Elena, como um prolongamento da juventude ou de uma vida social ancorada na cadeia produtiva do mercado de trabalho.

Eu me dedico ao ativismo o dia inteiro, se eu não tiver o ativismo eu vou fazer o quê? Sabe? Pra mim é uma coisa que enriquece, que me faz estar sempre na vida, na vida, estar no ativismo é estar aqui conversando com você, sabe? Estar conversando com você é estar todos os dias em atividade, é estar todo dia viva acompanhando as coisas e analisando e ponderando e pensando, sabe? É estar vivendo, porque eu acho que o ativismo traz isso, ele traz um cansaço danado, ele traz muitos momentos em que a gente quer desistir […] mas independente disso, eu pretendo ser militante até o último dia, posso até mudar a minha militância, elaborar outras coisas, ter outros olhares como eu tenho feito, há várias questões em relação a militância, em relação aos processos da militância, mas ser militante. (Elena, 68 anos, Curitiba – PR, 16/05/2019)

“Estar na vida” é viver se movimentando, elaborando discursos sobre si e sobre o mundo, colaborando para a construção de espaços sociais, viabilizando maneiras de sobrevivência e vivência social dignas a todas as idades e, sobretudo, construindo um referencial do que é envelhecer.

Como bem pontuou outra interlocutora deste estudo, Lídia, “nós somos na realidade um resultado de várias experiências que te transformam na pessoa que você é, a vida que você leva, aquilo que você faz”, o que significa que construir valores que orientam sua trajetória de vida e produzem significados é imprescindível para a manutenção de uma vida pública das mulheres idosas que fazem parte deste estudo. E tudo isso só é possível por haver uma coleção de experiências que proporcionaram esse destino, que é comum a todas as interlocutoras deste estudo: o de manter-se ativa social e politicamente durante o processo do envelhecimento.

As seis entrevistas realizadas demonstram que o encontro pessoal e as entrevistas semiestruturadas são o método mais eficiente de coleta de dados, principalmente quando se trata de um grupo geracional que tanto valoriza as conversas cotidianas. Ao resgatar as trajetórias dessas mulheres, verificar a importância por elas atribuída aos problemas de gênero e como se percebem em uma fase que é considerada como a última do ciclo de vida, a velhice, foi possível compreender que envelhecer só se torna uma questão porque a elas é imposto uma maneira de ser e agir típica dos envelhecidos, em que a passividade e a imobilidade se tornam atitudes esperadas para a vida em sociedade, pelo menos é o que consensualmente se espera. No entanto, por mais que o corpo envelhecido apresente desafios, a vivacidade de suas mentes e os anseios políticos e sociais, tão presentes durante todo o curso de suas vidas, não permitem que seja esse o comportamento aderido por elas.

O contexto que tornou possível a vida pública ativa para essas mulheres ao envelhecer está ligado ao período histórico compartilhado por elas, que possibilitou sua profissionalização, acesso ao conhecimento científico e técnico, sua participação em cargos de trabalho de destaque, condições que resultam do processo de democratização de direitos, protagonizado por essas mulheres. Este estudo indica que o conceito de geração é um posicionamento teórico de análise que proporcionnfora o dimensionamento de como trajetórias de vida podem informar sobre os valores e possibilidades cultivados por toda uma geração e como isso impacta vivências cotidianas.

O caminhar que as interlocutoras deste estudo desenharam em seus relatos de vida é de um percurso de elaboração de si e de busca de um posicionamento no mundo. Diante disso, o envelhecer em movimento é uma realidade para muitas mulheres na atualidade, principalmente para a geração atual de mulheres idosas pois, elas fazem parte de um processo histórico que possibilita essa reflexão sobre os lugares que mulheres ocupam em sociedade e paralelamente colaboram para a ressignificação das maneiras como se vislumbra a vivência social da velhice.

Referências Bibliográficas

DEBERT, Guita. Grin.  1994. “Gênero e Envelhecimento”, Revista Estudos Feministas 1: 33-51.

ELIAS, Norbert. 1994. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora.

EVARISTO, Conceição. 2006. “Escrevivências da Afro-Brasilidade: história e memória”. Releitura 1: 5-11.

KOFES, Suely. Uma trajetória em narrativas. Campinas – SP: Mercado das Letras, 2001.

_____. 1994. “Experiências sociais, interpretações individuais: histórias de vida, suas possibilidades e limites”. Cadernos Pagu 3: 117-141.

MANNHEIM, Karl. 1982. “O problema sociológico das gerações”. In: Marialice M. Foracchi e Karl Mannheim: Sociologia. Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática.

_____. 1961. “O Problema da juventude na sociedade moderna”. In: Diagnóstico de Nosso Tempo. Rio de Janeiro: Zahar.

MOTTA, Alda de Britto. 2010. “A atualidade do conceito de gerações na pesquisa sobre o envelhecimento”. Sociedade e Estado 25(2): 225-250.

SCOTT, Joan Wallach. 1990. “Gênero: uma Categoria Útil para a Análise Histórica”. Educação e Realidade 16(2): 71-99.

SIMMEL, Georg. 2006. “O âmbito da sociologia.” In: Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar.

_____. 2006. “O nível social e nível individual”. In: Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade. Rio de Janeiro: Zahar.

_____. 1979. “A metrópole e a vida mental”. In: Otávio Velho (Org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora.

WELLER, Wivian. 2010. “A atualidade do conceito de gerações de Karl Mannheim”. Sociedade e Estado 25(2): 205-224.

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[1] Acredito ser importante demarcar os motivos pelos quais decido utilizar essa nomenclatura para tratar da população LGBTTI. A sigla se refere a pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transsexuais e Intersexo, de acordo com a denominação indicada pela ABGLT (Associação Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsexuais), instituição da qual uma das agentes dessa pesquisa é representante. Sobre o tema, consultar site oficial da instituição: https://www.abglt.org/ .

[2] Destaco que todos os nomes utilizados são fictícios, o intuito é preservar certo conforto de escrita ao realizar as análises diante do anonimato das participantes.