IMAGENS E DESLOCAMENTOS

Narrativas sobre conflitos e negociações na trajetória de uma mulher lésbica



Pâmela Laurentina Sampaio Reis
Universidade Estadual do Piauí


Nesta comunicação, apresento um excerto de minha pesquisa de Mestrado já concluída pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI). A referida investigação problematizou a conformação e os movimentos de redes de relações envolvendo mulheres na faixa de 28 a 46 anos que se relacionavam afetivo-sexualmente com outras mulheres na cidade de Teresina, Piauí. Tratei especificamente de pensar o lugar dos afetos e dos desejos nas dinâmicas de interação e nas trajetórias de vida, privilegiando a produção e a negociação de moralidades como meios de acesso a micropolíticas particulares. Durante o trabalho de campo, realizado entre julho de 2012 e janeiro de 2015, tive ampla oportunidade de inserção no universo de redes sociais (network) de mulheres que compõem casais afetivo-sexuais e que possuem mesmo nível socioeconômico – brancas, em sua maioria, com curso superior completo, com pós-graduação em diversas áreas –, permitindo-me acompanhar seus percursos, suas trajetórias e seus devires da experiência cotidiana.

 Para este texto, destaco a trajetória de uma interlocutora, por meio da qual analiso as imagens que elabora de si, sendo estas construídas e reformuladas em situações específicas. Nesse sentido, apresento, por meio da reconstrução das narrativas, os deslocamentos performáticos que ora se aproxima de uma imagem “encaixada” ora “[…] desencaixada, produzindo um efeito questionador frente às operações de hierarquização que demarcam uma superioridade moral da heterossexualidade em detrimento de outras orientações sexuais” (OLIVEIRA, 2019). Assim, por meio de suas narrativas, analiso como a articulação entre gênero e (homo)sexualidade cria tensões e conflitos no âmbito familiar, situado em contextos rurais e interioranos (Gontijo e Erick 2015). Por fim, acompanho como são acionados seus espaços de agência e seus campos de possibilidades (Velho 2003).

A trajetória foi analisada a partir do conceito de etnobiografia, esboçado por Marcos Antônio Gonçalves (2012), por considerar as narrativas biográficas como uma escrita de si, atravessada por aspectos performáticos que imprimem formas de ser e de atuar no mundo, possibilitando-nos acessar a complexa combinação de narrativas pessoais e de situações históricas construídas por meio de intersubjetividade derivada de potência relacional, rompendo com a noção de unidade evidente, atribuída ao sujeito, ressaltando a constituição desses por intermédio dos dados da experiência.

Imagens através da memória: família e expectativas

Amora é uma mulher que nasceu no interior do Piauí, em 1967, em um ambiente interiorano, caracterizado por valores conservadores. Ao reconstruir a sua trajetória, as narrativas dão densidades às cenas através das quais se articulam gênero, sexualidade e expectativas, tecendo situações de conflitos e tensões entre aspirações individuais e o caráter englobador da família, a partir do qual o repertório social atribuía à mulher, a filha mais velha, expectativas nos termos do que Rich (2012) conceitua como heterossexualidade compulsória. Eis a narrativa da interlocutora da pesquisa:

Eu nasci no interior, morava nas terras do meu avô. Eu fui [ainda] criança para uma cidadezinha vizinha para estudar. Nós tínhamos uma professora dentro de casa, até os sete anos. Eu e minhas irmãs assistíamos às aulas com ela, que também dava aula para as crianças que moravam nessa terra. Meu pai era o agricultor, o médico, era o que aplicava a injeção, era a pessoa que cuidava das pessoas que estavam por lá, porque era a pessoa mais bem informada, eu nem gosto de usar essa expressão, mas era o letrado do lugar.

O início dessa cena mostra a composição de uma estrutura familiar tipicamente aristocrática, marcada pelas “terras do avô”, deixando entrever a posição de classe da família naquele contexto, ao evocar a figura do avô e do “pai letrado”, oportunizando que os primeiros anos de estudos fossem realizados em casa, ou seja, reforçando a posição das mulheres dentro daquele âmbito doméstico, lugar socialmente compreendido como feminino. Amora fala mais sobre essa hierarquia interna:

Meu pai tinha problemas com álcool, eu sou a filha mais velha, existiam expectativas da minha mãe, aí, é uma coisa simplista, mas que eu considero importante, eu digo que pode implicar em interpretações simplistas, mas minha mãe dizia que se tivesse tido um filho homem, papai não se comportaria daquela maneira. Na verdade, era o discurso dela naquele cotidiano. Ela me empurrava, de certa maneira, para o lugar da responsabilidade. De certa maneira, ela dizia isso como uma precariedade.

Esse trecho mostra a manifestação das associações de poder que estruturam as relações de gênero no contexto familiar, disciplinando, regulando a família, a sexualidade e os corpos com vistas a estabelecer práticas moralmente apropriadas para a seguinte posição: inicialmente, a responsabilidade associada à posição de filha mais velha, apta a “arrumar um bom casamento”, garantindo, assim, a coerência, a solidez e a permanência da norma – que são realizadas por meio de investimentos continuados, reiterados e repetidos (Foucault 1988).

Além disso, dar continuidade aos negócios da família, apesar da posição “precária” da “sucessora”, que carregava o “peso” de ser mulher. Encontramos aqui outro sentido conferido à responsabilidade, pautado no investimento educacional e profissional. É a tensão desse paradoxo que mobiliza e impulsiona a potência de criação de um espaço de agência na trajetória de Amora, na medida em que a coloca na produção de outras intensidades que deslizam e escapam, negando a coerência e a continuidade suposta entre sexo-gênero-sexualidade, assentada na reprodução sexual e, consequentemente, sobre a heterossexualidade, deslocando as duas posições descritas acima, produzindo uma imagem de “desencaixe”.

A criação de uma imagem (des)encaixada

No final da década de 1980, aos 14 anos, Amora seguiu para a capital do estado, com a intenção de dar continuidade ao investimento educacional. Aos 17 anos, concluiu o ensino médio, já na década de 1990. Em 1992, matriculou-se em um preparatório conhecido como pré-vestibular. Nesse período, conheceu Fátima, sua primeira namorada: “[…] nos conhecemos aqui em Teresina e eu me apaixonei”. Em seguida: “[…] ela foi passar as férias lá em casa, foram 30 dias e ficamos numa casa ao lado da casa dos meus pais”.

Amora, ao reconstruir sua trajetória, cria uma imagem de pessoa desafiadora que não temia “ousar”. Desafio no sentido de marcar sua posição contrária ao projeto familiar. Ousar, levando “minha redinha e a dela para aquela casa”. Ela sabia que seus pais haviam passado as férias discutindo sobre a presença de Fátima. Aquelas noites não foram silenciosas:

Minha mãe passava a noite acordada e eu percebia, porque eu também estava acordada [risos]. Eu a percebia discutindo com meu pai sobre isso. Eu tinha dezoito anos e não escondi nem da cidade e nem da minha família. Todo mundo ficou sabendo. A mamãe brigava, eu fui admoestada pela cidade por causa disso, por meus amigos, que me chamavam de sapatão, isso já na década de noventa.

O sentido que Amora confere a essa cena não é pautado na lógica da injúria, da humilhação ou do estigma. O fluxo do movimento sinaliza para a construção de si como uma pessoa transgressora que desestabiliza as normas. Contudo, nessas relações de conflito e de poder, a família resolve enviar as filhas à Fortaleza para prestar vestibular. Era a “[…] alternativa, porque minha mãe sempre foi amorosa e ela não faria nada, nem um corte, que representasse um castigo nesse sentido de cortar grana, embora ela fosse bastante severa”.

Sua estadia na capital cearense foi curta: “[…] como sempre eu tive o que eu quis, eu vim embora e em vez de ir diretamente para minha cidade, eu segui direto para a casa de Fátima, que ficava em uma cidade próxima”. Outros 30 dias se passaram “[…] sem nem mamãe saber onde eu estava”. As noites, antes compartilhadas nas redes, agora se consagravam na “cama” do quarto de Fátima. Amora havia interrompido os estudos e os retomou depois dos 30 dias na companhia de Fátima. De volta à capital teresinense, retomou as aulas no pré-vestibular e, no mesmo ano, foi aprovada para o curso de Ciências Sociais da UFPI, que, apesar de ter apreciado, não concluiu. Em seguida, ingressou no curso de Jornalismo pela mesma instituição. Depois de uns períodos, resolveu abandoná-lo. Por fim, concluiu o Bacharelado em Direito na UFPI, para “teimar com a mamãe”, que não acreditava na conclusão do curso.

Observamos que a interlocutora tem a intenção de acionar um afastamento em relação às “regras”, às normas que hierarquizavam as relações de poder no contexto familiar. Dessa forma, afastava-se do projeto familiar ao qual fora destinada. Para ela, isso teria uma estreita ligação com sua orientação sexual. A esse respeito, relata:

Eu não acho estético se encaixar, eu acho estético é não se encaixar. Acho que essa é a questão. Pode ser uma questão de vaidade ou uma forma de chamar a atenção, pra mim, no âmbito familiar […] eu nunca senti que eu estivesse encaixada até mesmo por gostar de mulher.

A relação entre o “estético” e o desejo de “não se encaixar” dão densidade à cena descrita, na qual a interlocutora marca uma posição inclinada a desafiar as normas regulatórias da sociedade, assumindo, por vezes, o rótulo de desviante, movimentando o “desejo de contestar”, por meio do qual permite a negociação com a realidade. É a tensão desse paradoxo que mobiliza e impulsiona a potência de criação de um espaço de agência na trajetória de Amora, na medida em que a coloca na produção de outras intensidades que deslizam e escapam, negando a coerência e a continuidade suposta entre sexo-gênero-sexualidade, assentada na reprodução sexual e, consequentemente, sobre a heterossexualidade, produzindo, assim, uma imagem de “desencaixe”.

Imagens que contestam

Amora, ao reconstruir detalhes da sua trajetória, apresenta movimentos que dão contornos significativos sobre a noção de performance de gênero (Butler 2003). Nesse sentido, os atos performáticos, por meio da construção de imagens, contestam as operações de hierarquização (Oliveira 2019). Amora é a filha mais velha de uma família composta por mais três irmãs, a mãe e o pai. Na ausência de um “filho varão”, criaram em torno dela expectativas relacionadas à sua posição dentro da hierarquia familiar, ou seja, como filha mais velha, deveria dar o exemplo, por meio dos estudos e do “bom casamento”. Por um lado, ela não seguiu o projeto familiar esboçado pelos “valores convencionais”; por outro lado, o das expectativas familiares, o investimento educacional deu certo, pois, apesar de algumas interrupções nos estudos, a carreira profissional, como símbolo, expressava o sucesso, a ascensão social.

Amora parece ter um manejo nas suas interações, nas suas performances de gênero articuladas à sexualidade, permitindo, por meio de negociações, a construção de seus territórios existenciais a partir dos seus lugares de sujeito na contramão do contexto simbólico familiar. Nesse sentido, por meio da articulação dos marcadores sociais da diferença, é possível entender que as imagens acionadas revelam o espaço de agência, ao contestar a normatividade em relação às expectativas de gênero e, ao mesmo tempo, a marcação dos efeitos do tempo encarnados na trajetória, pensada em constante devir.

Por fim, os fluxos e os movimentos das narrativas apresentam a escrita de si atravessada por aspectos performáticos que imprimem formas de ser e de atuar no mundo, possibilitando o acesso à complexa combinação de narrativas pessoais e situações históricas construídas por meio da intersubjetividade derivada da potência relacional, rompendo com a noção de unidade evidente atribuída ao sujeito, ressaltando a constituição do seu atravessar de experiências.

Referências

BUTLER, Judith. 2003. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

FOUCAULT, Michael. 1988. História da sexualidade 1: A vontade de Saber. Rio de Janeiro: Edições Graal.

GONTIJO, Fabiano; ERICK, Igor. 2015. “A Diversidade Sexual e de Gênero em Contextos Rurais e Interioranos no Brasil: ausências, lacunas, silenciamentos e… exortações”. ACENO: Revista de Antropologia do Centro-Oeste 2(4): 24-40.

GONÇALVES, Marcos Antônio. 2012. “Etnobiografia: biografia e etnografia ou como se encontram pessoas e personagens”. In: Marcos Antônio Gonçalves, Vania Cardoso e Roberto Marques. (Orgs.). Etnobiografia: subjetividade e etnografia. Rio de Janeiro: 7 Letras. pp. 12-37.

OLIVEIRA, Leandro de. 2019. “A ‘vergonha’ como uma ‘ofensa’: homossexualidade feminina, família e micropolíticas da emoção”. Horizontes Antropológicos 25(54): 141-171.

RICH, A. 2012. “Heterossexualidade compulsória e existência lésbica”. Bagoas – Estudos gays: gêneros e sexualidades 4(5): 17-44.

VELHO, Gilberto. 2003. Projeto e metamorfose. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.