Associação Brasileira de Antropologia

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AL-HARAKAT SHIBAAB SITTAH ABRIL. PERFORMATIVIDADE E MEMÓRIA CORPORAL NA PRIMAVERA ÁRABE CAIROTA, EGITO

 

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Imagem utilizada pelo Al-Harakat Shibaab Sittah Abril em seus manifestos

  

Potyguara Alencar dos Santos
Doutorando em Antropologia Social
Universidade de Brasília


“The modern Egyptian metropolis, to the inhabitants of which most of the contents of the following pages relate, is now called ‘Masr’; more properly, ‘Misr’; but was formerly named 'El-Kahireh’; whence Europeans have formed the name of Cairo” (Lane, 1973 [1833-1835]: 4).

 

“Não lhe ocorre deixar que o egípcio fale por si mesmo, visto que, presumivelmente, qualquer egípcio que venha a falar será antes, ‘o agitador que quer criar dificuldades’” (Said 1990: 44).

 

 O nome de uma praça nunca antes noticiado para o mundo de maneira tão expressiva agora surgia pela imagem de uma multidão da qual não sabíamos se estava concentrada para festejar uma ritualística cívica ou para praguejar contra o nome do “seu” governante: “Saia, Mubarak!”. Tahrir, no centro da metrópole cairota, abria-se aos eventos que a imprensa alcunharia a partir de então de Primavera Árabe; denominação genérica que passava a representar os movimentos sociais em proliferação nos países da África Norte-Saariana, Oriente Médio e Península Arábica, resultando na derrubada de uma série de governantes nacionais. O termo Primavera Árabe é tomado de empréstimo da denominada Primavera dos Povos (Les Printemps des Peuples) que eclodiu no ano de 1848, na Europa central e oriental, quando representantes das classes média e baixa de alguns países passaram a questionar a continuidade dos regimes monárquicos e autocráticos desinteressados com os problemas econômicos e políticos nacionais (Fejto 1948).  

O texto em apresentação procurará dissertar e inaugurar questões ao desenvolvimento de um projeto de pesquisa. A proposta aproxima seu foco sobre o surgimento e a reprodução das práticas militantes que fundaram o Al-Harakat Shibaab Sittah Abril (أبريلستةشبابحركة – Movimento Jovem 6 de Abril), grupo político não partidarizado constituído por jovens cairotas que atuaram em dois eventos históricos da Primavera Árabe: junto à greve operária da cidade de Mahalla al Kubra, no Delta do Nilo, quando criaram a conta virtual “Facebook '6 de abril: o Dia da Raiva'”, e na derrubada do governo militar de Hosni Mubarak, com a concentração na praça Tahrir. O objetivo focalizado é o de reconstruir a memória corporal do movimento através das  suas principais lideranças, produzindo uma etnografia que analise as intervenções performáticas urbanas que ainda mantêm em atuação os seus integrantes na cena política da cidade do Cairo contemporânea. Como a corporeidade dos atores políticos se tornou um elemento importante ante a construção de uma memória do militantismo juvenil na metrópole cairota? Pressupõe-se que uma compreensão etnográfica do Al-Harakat Shibaab Sittah Abril deve ressaltar não somente o fato de ser um dos primeiros movimentos políticos difundidos pelas redes sociais de um país árabe, mas observar também a organização performática particular do coletivo que participou dos eventos históricos mais recentes daquele país. No nível do seu debate teórico, o projeto propõe uma revisão dos estudos em antropologia da performance e da política e, principalmente, dos conceitos clássicos de “evento crítico”, de Veena Das (1995), e de “violência coletiva”, de Stanley Tambiah (1996). A pesquisa ainda justifica a sua importância em vista das poucas produções de antropólogos brasileiros na região norte-saariana do continente africano e da necessidade de empreender iniciativas de pesquisa em direção a temáticas do mundo árabe contemporâneo.     

O que se coloca em proposta neste artigo é, antes de qualquer esforço, o objetivo de tentar justificar uma escolha de unidade analítica; algo que caberia numa indagação assim formulada: por que articular um projeto de pesquisa de doutoramento com a temática dos movimentos sociais no contexto da Primavera Árabe no Egito seria uma proposta possível, apesar das dificuldades atreladas ao tema? A que vale o desenvolvimento de um projeto que se imiscua com os assuntos urgentes da contemporaneidade, a exemplo das transformações históricas capazes de modificar configurações sociais e políticas de toda uma macrorregião do mundo?

As indagações assim produzidas partem da ansiedade atual desse pesquisador em definir e conduzir seus problemas de pesquisa. Os questionamentos que procuro levantar atentam para a discussão das condições práticas de possibilidade que surgem diante das iniciativas de pesquisa de qualquer antropólogo. Mas para além dessa ponderação, acho necessário também apresentar os estímulos que subsistem a um projeto intelectual. Creio que pensar sobre “o prático efeito” que condiciona a pesquisa, assim como sobre os seus riscos, seja um segundo momento depois que podemos decifrar satisfatoriamente a razão do nosso estímulo para seguirmos em direção um campo de investigação novo. Tenho por hipótese que uma “antropologia no risco” (Soraya 2010) já tem seus inícios antes mesmo do conhecimento físico do campo; o risco é uma condição de previsão, uma forma de apontar e nos direcionarmos para um estado de coisas sobre as quais não sabemos da existência material, quando muito nos permitimos inferir sobre as suas existências ideológicas. Lembro, aqui, daqueles pesquisadores que, assim como eu, estão impossibilitadas de fazer um pré-campo antes da qualificação, e para quem aquele mundo de lá é, na maioria das vezes, tão mal noticiado e, talvez, por isso mesmo, tão desejado enquanto lugar de uma exploração etnográfica intensiva possível.

Para quem hoje se destina a levar – e deixar-se levar – pelo seu campo até a cidade do Cairo, no Egito, é conveniente pensar em todas as condições que poderiam desautorizar a realizar uma pesquisa dessa natureza: (i.) minhas experiências de pesquisa naquele contexto temático e etnográfico são praticamente nulas; (ii.) nunca estive associado a grupos de pesquisadores envolvidos central ou indiretamente com o tema mais amplo sobre o mundo árabe social e geopolítico; (iii.) em curto prazo, as condições políticas do Egito aparentemente inviabilizariam a minha viagem e minha estada naquele país, tenha visto tudo que se noticia sobre aquele contexto (iv.); tenho poucas opções de interlocutores acadêmicos brasileiros à mão que possam me auxiliar a partir dessa proposta, já que tanto o acontecimento histórico do despertar dos movimentos sociais no contexto do que se chamou de Primavera Árabe egípcia, quanto a tradição de pesquisas etnográficas empreendidas por brasileiros na porção norte-saariana do continente africano são escassas. O arrolamento dessas negativas à proposição da pesquisa é tão pungente que poderiam inclusive descartar o esforço de quase um ano de pesquisa, durante o tempo em que produzi levantamento de dados secundários, iniciei minha rede de contatos virtuais e presenciais junto a pessoas envolvidas com os movimentos sociais egípcios – tais como os cidadãos daquele país que trabalham no posto da Embaixada do Egito em Brasília – e comecei meu aprendizado lento e sofrível da língua e da cultura política do mundo árabe. Mesmo sob essas condições, porque ainda se destinar a esta proposta de pesquisa?

Um retorno às notícias e publicações acadêmicas relativas aos movimentos sociais no contexto da chamada Primavera Árabe do Egito nos coloca diante de produções que ressaltam tanto o caráter “eventualístico” dos acontecimentos que antecederam e sucederam a derrubada do presidente Hosni Mubarak, quanto procuram registrar o ambiente contemporâneo de incertezas relativas à concretização das demandas populares por justiça social e por administrações comprometidas com um real Estado Democrático de Direito (Khalid 2012; Rashed 2011). Essas publicações ainda se ressentem da mesma incerteza e entusiasmo que ocorrem às próprias populações daquele país, por isso não arriscam promover iniciativas analíticas precipitadas e não informadas pelas transformações sociais e políticas em curso. Também por esse motivo esses textos acabam incorrendo num superficialismo que não acerca a problemática do ponto de vista da constituição dos grupos envolvidos com os movimentos sociais e dos processos de atribuição de valores a essas dinâmicas por parte desses segmentos.

Uma pesquisa em antropologia envolvida com o tema procuraria pensar a constituição particular das dinâmicas de grupos que deram conteúdo dramático aos eventos emergentes da Primavera Árabe egípcia, com foco, é claro, sobre o contexto de formação e reprodução de práticas militantes do Al-Harakat Shibaab Sittah Abril. Um investimento nesse sentido procuraria somar um material etnográfico complementar à série de relatos que já são produzidos sobre os movimentos sociais egípcios, mas que não conseguem localizar os protagonismos, os valores relativos às condutas políticas e às motivações mais características das intervenções performáticas urbanas, tais como as ocupações dos espaços públicos, as expressões verbais e escritas de ordem, as revoltas pacíficas e violentas, os atentados a prédios, pessoas e símbolos patrimoniais públicos daquele país. Acredita-se que por esse investimento e, obviamente, atentando às vicissitudes históricas que ainda aquecem o tema das revoluções entre os países árabes, o projeto conseguirá justificar suas contribuições.   

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

DAS, Veena, 1995. Critical Events: An Anthropological Perspective on Contemporary India. Delhi: Oxford University Press.

FAJTO, François (org.). 1948. Les Printemps des Peuples: 1848 dans le Monde (Tome I). Paris: Les Éditions de Minuit.

FLEISCHER, Soraya Resende. 2010. "Hematomas, terçados e riscos". Teoria & Pesquisa, v. XIX. pp. 50-70.

KHALID, Ashraf. 2012. Liberation Square: Inside the Egyptian Revolution and the Rebirth of a Nation. New York: St. Martins Press.

LANE, Edward William. 1973. An Account of the Manners and Customs of the Modern Egyptians: Written in Egypt during the Years 1833-1835. New York: Dover Publications.

RASHED, Abouelleil Mohammed. 2011. "The Egyptian revolution: a participant’s account from the Tahrir Square, January and Febuary 2011". Anthropology Today, vol. 27, n. 2, April, pp. 12-18.  

SAID, Edward. 1990. Orientalismo: o Oriente como Invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras.

TAMBIAH, Stanley. 1996. Leveling Crowds: ethnonationalist conflitcts and collective violence in South Asia. Berkeley: University of California Press.

  

 

 

Potyguara Alencar dos Santos
Doutorando em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Bolsista do CNPq
Currículo Lattes