Associação Brasileira de Antropologia

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“BRILHAM ESTRELAS DE SÃO JOÃO!”: HOMOSSEXUALIDADES E TRAVESTILIDADES MASCULINAS NAS FESTAS JUNINAS DO PARÁ

  

Rafael da Silva Noleto
Doutorando em Antropologia Social
Universidade de São Paulo

 

Esta pesquisa assume como ponto de partida a noção de que os períodos de congregação social, os quais, muitas vezes, denominamos como “festas” podem ser compreendidos tanto como ocasiões rituais de aproximação de pessoas e grupos sociais quanto como momentos de transposição das fronteiras que delimitam esferas de significação e atuação para diferentes sujeitos inseridos em um dado contexto social[1]. Assim, esta pesquisa é dedicada à análise de um contexto festivo (as festas juninas) a partir da problematização do protagonismo homossexual e travesti identificado nos concursos de danças juninas e de “Miss Caipira Gay” realizados no mês de junho na cidade de Belém e em muitos municípios do interior do Estado do Pará.

Os concursos de dança são denominados como “concursos de quadrilhas”. Por “quadrilhas”, entende-se os grupos organizados e compostos por certo número de pessoas, distribuídas em duplas de dançarinos – que sugerem a configuração de um casal heterossexual, ainda que essas pessoas não tenham um vínculo conjugal, afetivo ou sexual – que, em conjunto, dançam uma coreografia que representa determinados costumes atrelados à certa ideia de ruralidade. No Pará, esses concursos de quadrilha ocorrem, majoritariamente, nas periferias da cidade de Belém (capital do estado) e em outros municípios do interior. Entretanto, além desses concursos espontâneos, organizados por iniciativa de associações de moradores e de paróquias católicas, há concursos de quadrilha financiados pelo governo do Pará e pelas prefeituras da maioria dos municípios do estado.

Apesar do componente heterossexual contido nas coreografias dos concursos de danças juninas, o estado do Pará e, atualmente, outros estados brasileiros agregaram sujeitos homossexuais e travestis como participantes legítimos dos concursos de quadrilha. Na maioria das vezes, homossexuais e travestis desempenham os papeis femininos nas danças, isto é, ocupam o lugar da mulher na composição da díade heterossexual homem/mulher requerida pelas coreografias. No Pará, a demanda pela participação homossexual e travesti nos concursos juninos se deve ao fato da formação de grupos juninos compostos por muitos sujeitos que se reconhecem como homens homossexuais e/ou travestis.

A visibilidade homossexual e travesti durante as festas juninas no Pará é pública, pois estes sujeitos, em geral, se destacam em diversas esferas da produção das festas juninas, sejam elas relativas aos bastidores (coreografia das quadrilhas, confecção de figurinos, criação de maquiagem, organização e manutenção dos grupos) ou à cena (quando são os próprios homossexuais e travestis quem assumem a função de dançarinos e candidatos a “miss”, apresentando-se ao público e aos jurados dos concursos de quadrilha e de beleza). O protagonismo destes sujeitos foi documentado em reportagem de Suely Nascimento, intitulada “Será que ele é?” e publicada em 10 de junho de 2001 no jornal “O Liberal”, de circulação estadual, quando houve ampla discussão quanto à possibilidade de os regulamentos dos concursos de quadrilhas realizados no Pará permitirem a formação de casais de dançarinos compostos por pessoas do mesmo sexo.

Devido à competitividade entre os grupos juninos que disputam os concursos oficiais financiados pelo governo, a polêmica do protagonismo homossexual e travesti nas festas juninas veio à tona a partir da descoberta de que um grupo junino de Belém tinha como dançarinas uma travesti (Raíssa), que assumia o papel feminino e fazia par com dançarinos homens durante a apresentação de seu grupo junino, e uma lésbica (Paula), que se vestia como homem para dançar com outras mulheres, fazendo questão de desempenhar o papel masculino nas coreografias. A reportagem foi publicada somente em 2001, no entanto, a presença da homossexualidade e da travestilidade (sobretudo masculinas) neste contexto é bem mais antiga e descentralizada da capital do Estado, como mostra o caso da quadrilha “Roceiros da Papa Mingau” – grupo exclusivamente voltado para dançarinos homens (alguns deles autoidentificados como homossexuais e travestis), sediado no município de Salinópolis (região do litoral nordeste do Pará) cuja fundação remonta ao ano de 1989 (de acordo com dados fornecidos por Adilson Maia, um dos componentes da diretoria do grupo).

Além dos concursos de quadrilhas, voltados para grupos juninos que apresentam coreografias coletivas, há os concursos de “Miss Caipira Gay”, reservados, exclusivamente, a homens homossexuais e travestis. Esses concursos são caracterizados por apresentações individuais onde homossexuais e travestis, vestidos com fantasias de temática junina ou temática livre, dançam uma coreografia individual e disputam a premiação que reconhece a beleza, a feminilidade, a qualidade performática e a melhor fantasia exibidas a um júri especializado. Da mesma forma que os concursos de quadrilhas, os concursos de “Miss Caipira Gay” ocorrem em boa parte do interior do Pará e nos bairros periféricos de Belém. Contudo, o ápice dessas disputas parece ser os concursos de “Miss Caipira Gay” institucionalizados pelo governo do estado e pela prefeitura de Belém, que mobilizam homossexuais e travestis de diversos municípios do interior e de muitos bairros da capital, tal como ocorre com os concursos de quadrilhas.

Entendendo as festas juninas como momentos de congregação social, portanto, marcadas por um caráter ritual, esta pesquisa pressupõe que estudar a participação destes sujeitos neste contexto festivo pode oferecer importantes informações acerca das relações de gênero e das convenções de sexualidade e moralidade vigentes no Pará. Assim, com uma abordagem que privilegia a análise do contexto etnográfico a partir da problematização de marcadores sociais da diferença tais como raça, classe, gênero, sexualidade, geração (Brah 2006), dedico-me ao entendimento dos modos de inserção de sujeitos homossexuais e travestis na produção e no protagonismo das festas juninas do estado do Pará.

Até o presente momento, não há, na antropologia brasileira, nenhuma etnografia cujo foco de análise seja o protagonismo homossexual e travesti nas festas juninas do Pará ou de outro estado brasileiro, o que, por um lado, implica a necessidade de uma discussão das posições ocupadas por esses sujeitos neste contexto festivo e, por outro lado, sublinha a originalidade da proposta desta pesquisa. Na ausência de etnografias que conectem as festas juninas aos estudos de gênero e sexualidade, busco dialogar com uma literatura antropológica brasileira que problematizou o carnaval (sobretudo as discussões empreendidas por Roberto DaMatta que foram revisitadas e criticadas na etnografia de Fabiano Gontijo) como um momento ritual que coloca em cena certos “dilemas brasileiros” que dizem respeito à constituição de uma sociedade hierárquica. Para DaMatta (1981), o carnaval brasileiro (onde alguns homens são autorizados a vestirem-se, ritualmente, como mulheres) promove uma “feminilização” do mundo. Em crítica a DaMatta (1981), Gontijo (2009) defende a ideia de que o carnaval brasileiro, na verdade, promove uma “homossexualização” do mundo[2].

Partindo dessas perspectivas elaboradas para compreender um período festivo (o carnaval), pretendo compreender quais “dilemas” morais, sexuais e de gênero podem ser explicitados a partir da observação deste campo que se apresenta nas festas juninas. Sendo assim, a partir da produção de uma etnografia dos concursos de quadrilhas e de “Miss Caipira Gay” realizados em Belém e em algumas cidades do nordeste do Pará e da Ilha do Marajó (Salinópolis, Ipixuna, Augusto Corrêa, Vigia, Santo Antônio do Tauá, Barcarena, Soure e Ponta de Pedras), minha pesquisa está centrada nos modos pelos quais esse protagonismo homossexual e travesti se constitui dentro desse universo junino, problematizando as posições ocupadas por esses sujeitos e suas contribuições para o entendimento das relações de gênero e convenções de moralidade no estado do Pará. O desafio ao qual me proponho é acompanhar o processo de produção dessas festas e concursos, assim como os deslocamentos desses sujeitos homossexuais e travestis por algumas cidades do Pará com vistas à participação efetiva nesses concursos intermunicipais. Assim, a partir do recorte das festas juninas, dedico-me à problematização das relações de gênero e das convenções de sexualidade dentro de um contexto ritual compreendido como “festa”.

 

Bibliografia

 

BRAH, Avtar. 2006 [1996]. “Diferença, diversidade, diferenciação”. Cadernos Pagu, 26 (1): 329-376.

CAVALCANTI, Maria Laura V.C. 2006 [1994]. Carnaval carioca dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.

____. 2002. “Os sentidos do espetáculo”. Revista de Antropologia, 45 (1): 38-78.

____. 2012. “Luzes e sombras no dia social: o símbolo ritual em Victor Turner”. Horizontes antropológicos, 37 (1): 103-131.

DAMATTA, Roberto. 1981. Universo do carnaval: imagens e reflexões. Rio de Janeiro: Pinakotheke.

     ____. 1997 [1979]. Carnavais, malandros e heróis. Rio de Janeiro: Rocco.

GONTIJO, Fabiano. 2009. O Rei Momo e o arco-íris:homossexualidade e carnaval no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garamond.

PEREZ, Léa F.; AMARAL, Leila; MESQUITA, Wania (Orgs.). 2012. Festa como perspectiva e em perspectiva. Rio de Janeiro: Garamond.

SILVA, Marco Aurélio da. 2003. Se Manque! Uma etnografia do carnaval no pedaço GLS da Ilha de Santa Catarina. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis.

 

Matéria de Jornal

 

NASCIMENTO, Suely. 2001. “Será que ele é?” In: O Liberal, Caderno Troppo,  10 jun. Belém. pp. 16-18.

 

 

Rafael da Silva Noleto
Doutorando em Antropologia Social
Universidade de São Paulo
Bolsista CAPES
Currículo Lattes
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[1] Há uma vasta literatura antropológica brasileira que discute a dimensão ritualística das festas. Dentre esses trabalhos, destaco alguns textos que uso como parâmetros teóricos para a discussão que tenho empreendido sobre as festas juninas, tais como as contribuições de DaMatta (1997 [1979]), Cavalcanti (2006 [1994]; 2002; 2012), Gontijo (2009); Perez, Amaral e Mesquita (2012).

[2] Destaco ainda o trabalho de Silva (2003), que faz uma conexão entre homossexualidade e carnaval a partir de etnografia desenvolvida em Santa Catarina.