Associação Brasileira de Antropologia

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OS TERNOS DE CONGADO EM MINAS GERAIS: SUAS VARIAÇÕES MÍTICAS, RITUAIS E O ESQUEMA FESTIVO

  

1. congadeiros e bandeira de n. sra do rosrio 1.Congadeiros e bandeira de N. Sra. do Rosário. São João del Rei, 2007. Créditos Daniel Albergaria Silva

 

Daniel Albergaria Silva
Doutorando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora

 

Os coletivos denominados “ternos de congado” realizam cortejos em algumas festas organizadas em homenagem à “Nossa Senhora do Rosário”, onde através do canto, da dança e da manipulação de objetos simbólicos saúdam santos não apenas católicos, coroam Reis Congos e dialogam com outros grupos de congado. Para além dos materiais etnográficos coletados por ocasião da dissertação de mestrado (Silva, 2009), pretendo explorar agora temas míticos e rituais dos festejos, assim como estender a abordagem sobre suas variações valendo-se de um esquema geral desta festa que ocorre em diferentes locais do Brasil. 

 Em trabalhos anteriores, buscava evidenciar, no âmbito da interlocução com os membros dos grupos de congado, o processo de elaboração dos conceitos etnográficos: a expressão “estar no Rosário” servia tanto aos congadeiros quanto ao pesquisador para esclarecer não apenas os significados de ações rituais em curso, mas o modo como os participantes as apreendiam e nelas se envolviam. Ao levar a sério as concepções dos atores compreende-se então como os diversos grupos, com seus procedimentos rituais específicos, estendem relações sociais a agentes humanos e não-humanos, como interagem não só com outros ternos, mas também com os santos católicos, as entidades afro-brasileiras e os seus antepassados. Como continuidade ao trabalho, pretendo agora discutir as variações que se pode observar na performance ritual dos diferentes ternos de congado, assim como nas narrativas míticas sobre a “aparição de Nossa Senhora do Rosário”.

Os estilos dos ternos de congado registrados durante o trabalho de campo variam segundo características das indumentárias, dos instrumentos, dos toques musicais, das cantigas, das danças realizadas e demais movimentos rituais. Valendo-se destes sinais diacríticos, os grupos sublinham suas relações uns com os outros, e assumem a sua diante dos santos católicos e não católicos, dos ancestrais mortos e dos seus próprios reis.

 

2. marujos descansando

2. Grupo de marujos descansa após almoço. Festa no bairro São Geraldo em São João Del Rei,  2008. 
Créditos Danielle Rodrigues de Moraes

 

 

3. congado rio das mortes

3. Terno de Congado N. Sra. Do Rosário do distrito do Rio das Mortes. Festa do Divino Espírito Santo em São João Del Rei, 2008. Créditos Danielle Rodrigues de Moraes

 

Na região onde observei os ternos de Moçambique, no Campo das Vertentes, sudeste do estado de Minas Gerais, o mito de aparição de Nossa Senhora do Rosário descreve, em linhas breves, as tentativas frustradas de remoção da santa pelos vários grupos, até que o terno de moçambique, cantando, tocando e dançando, consegue que “a santa” o acompanhe até o interior de uma igreja. Os personagens da narrativa mítica estão também presentes nas festas da região: além do moçambique, ali aparecem os marujos, os vilões, o catopé e o congado. Já na região central de Minas Gerais, registrei a seguinte versão: os índios avistaram Nossa Senhora do Rosário numa ilha, no meio da mata, mas não conseguiram trazê-la até a margem do rio, chamaram os marujos para auxiliar, mas estes também não conseguem retirar a santa de seu local de aparição, chamam então os negros, representados pelo terno de catopé. Guiados pelos índios (o terno de caboclinho) e transportados pelos marujos, o grupo de catopé canta, dança e toca para a santa, e esta o acompanha até o interior da igreja. Nos festejos locais, assim como no mito, ali se apresentam os caboclinhos, os marujos e o catopé, todos eles indispensáveis ao bom êxito da empreitada.

Nos festejos são realizadas as seguintes etapas: oferta de alimentos aos congadeiros, saudação aos mastros de santos católicos ali erguidos com antecedência para este fim, visita a residências, cortejos com andores de santos católicos e com as cortes de reis congos, missa campal e encontros entre grupos de congado nas ruas próximas. As festividades podem anunciar-se em nome de um ou outro santo católico, entretanto, por toda parte é justamente Nossa Senhora do Rosário que ocupa uma “posição privilegiada” no festejo e na devoção dos congadeiros. Elas ocorrem em períodos variados e os ternos convidam uns aos outros.

 

4. procisso com andor

4. Procissão com andor de N. Sra. do Rosário em São João Del Rei, 2007. Detalhe de terno de congado ao fundo.
Créditos Daniel Albergaria Silva

 

 

5. levantamento do mastro

5. "Levantamento do mastro" para festa do bairro São Dimas, São João Del Rei, 2008. Créditos Daniel
Albergaria Silva

 

A despeito das variações nas etapas rituais, nas versões míticas de “aparição de Nossa Senhora do Rosário” e nos grupos presentes nos festejos, Souza (2002) destaca que para onde foram enviados escravos africanos entre os séculos XVI e XIX, teria emergido um mesmo esquema festivo, no qual a celebração de santos católicos encontra-se associada à coroação de reis negros por grupos de escravos ou ex-escravos. São seus descendentes que, reunidos hoje em grupos, atualizam o referido esquema festivo. As festas que os grupos congadeiros promovem nos dias de hoje, ainda que de diferentes maneiras e ênfases, estariam à primeira vista, a discorrer ritualmente sobre temas inerentes à formação da sociedade brasileira, como a dominação colonial dos indígenas e à escravidão dos africanos, tanto quanto acerca das simbologias religiosas acionadas de maneiras diversas pelos rituais.

No início do século XX, Fernando Ortiz registrou em Cuba grupos denominados “cabildos”, que se aproximam do esquema festivo anunciado. Arthur Ramos (2001) viu nos cabildos cubanos exemplo de um sincretismo supostamente comum às populações africanas de origem banto, em contraponto às influencias dos sudaneses. Os negros “bantos” e “sudaneses” são eixos genéricos que reúnem diferentes populações africanas enviadas para as Américas, estudadas por Bastide (1974), Ramos (2001) e outros mais. Em meio à dificuldade de se precisar as influências étnicas nas tradições afro-brasileiras (Dantas, 1988), destacam-se três pontos: as “origens étnicas” de populações oriundas do continente africano; as possíveis transformações dos “grupos étnicos” em decorrência de processos sócio-históricos (Parés, 2007); as populações escravas “classificadas etnicamente” segundo os portos africanos de embarque, os “grupos de procedência” (Soares, 2000).  Parés (2007) estabelece uma crítica aos “grupos de procedência” enfatizando sua ligação às teorias da etnicidade que privilegiam uma origem, não conseguindo abarcar as possíveis transformações étnicas. Para pensar as diferenças entre estilos de ternos de congado enquanto alusões a transformações étnicas a abordagem de Parés (2007) se mostra interessante.

As denominações de diferentes populações africanas no Brasil registradas nas irmandades católicas indicam uma preponderância de bantos no estado de Minas Gerais (Borges, 2006), já em Pernambuco, Marc Cord (2003) salienta o vínculo entre bantos e o esquema festivo realizado pelos maracatus no século XIX. As influências de diferentes grupos de origem africana reunidos entre bantos e sudaneses, e a dificuldade em precisá-los, remete ao que Carneiro da Cunha (2012) chamou de “pulverização étnica” dos negros africanos no Brasil colônia. Evitando a falácia do recurso a uma pureza banto, todavia, me parece evidente que as diferenças culturais que preexistiam no seio das populações africanas aprisionadas pelos traficantes de escravos, vieram a informar de modo mais ou menos decisivo as relações sociais e religiosas que emergiram no Brasil colonial, ainda que transformadas devido a influências diversas.

Minha hipótese é que as festas registradas atualmente e o esquema festivo proposto por Souza (2002), oferecem um contexto privilegiado onde se expressam variadas influências culturais, concepções religiosas e práticas rituais engendradas ao longo do período colonial. Haverá neste esquema festivo, resultado do entrelaçamento de elementos de tradições socioculturais diversas, referidos a períodos históricos distintos, algo do que o africanista Luc de Heusch (1973) chamou de “sistema mágico-religioso bantú”? A partir de quais ontologias funda-se o esquema festivo atual?

A investigação busca estabelecer então, um horizonte comparativo com o que se denominou por “sistema mágico-religioso bantú” (De Heusch, 1973), objetivando a descrição e a interpretação estrutural do esquema festivo atual, enfocando suas expressões ritualizadas, as narrativas míticas a ele relacionadas e suas formas de sociabilidade. À certa distância das abordagens que pretendem identificar sobrevivências africanas nas religiões afro-brasileiras, conhecida como “afro-cêntrica”, ou das que destacam as inovações culturais, como as “teorias da crioulização”, esta análise dos festejos do congado procura focalizar a tensão que ali sobressai entre o empuxo de reprodução das tradições e a dinâmica de mudança cultural, ou, entre o esquema prévio e ações rituais efetivas. Sobre este ponto Goldman (2009) destaca que, se entendermos por ontologia a multiplicidade intensiva de todas as virtualidades, o devir e o ser são uma mesma afirmação.

A abordagem tem-se desenvolvido então em três níveis. A análise estrutural das versões míticas, em conjunto com os esquemas rituais registrados em diferentes localidades, que possibilitará a construção de um panorama contrastivo amplo e uma compreensão sistêmica destes eventos (Lévi-Strauss, 2003). A interpretação dos elementos simbólicos em jogo no esquema festivo, com atenção aos significados que são publicamente afirmados nos festejos. E a percepção dos próprios congadeiros que articulam os festejos aos contextos rituais e às relações sociais que os sustentam enquanto tais.

 

6. basto de capito

6."Bastão de capitão", Moçambique de Ibituruna, 2008.Créditos Daniel Albergaria Silva

 

 

7. capito saudando mastro

7. Capitão de congado canta ajoelhado e apoiado em seu bastão diante do mastro e da bandeira de São Benedito. São João Del Rei, 2007. Créditos Danielle Rodrigues de Moraes.

 

 

REFERÊNCIAS:

 

BASTIDE, Roger. 1974. As Américas Negras: as civilizações africanas no novo mundo. São Paulo, Difusão Europeia do livro. Ed. da USP.

BORGES, Célia Maia. 2005. Escravos e Libertos nas Irmandades do Rosário: devoção e solidariedade em Minas Gerais: séculos XVIII e XIX. Juiz de Fora. Editora da UFJF.

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela Carneiro. 2012. Negros, Estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à África. 2ª ed. São Paulo: Companhia da Letras.

DANTAS, Beatriz Góis. 1988. Vovó Nagô e papai branco: usos e abusos da África no Brasil. Rio de Janeiro: Graal.

DE HEUSCH, Luc. 1973. “Enfoque estructuralista del pensamiento mágico-religioso bantú” In. Estructura y Práxis. Siglo veintiuno editores s.a.

GOLDMAN, Márcio. , 2009. “História, devires e fetiches das religiões afro-brasileiras: ensaio de simetrização antropológica”. In: Análise Social, vol.XLIV (190). p.105-137.

LÉVI-STRAUSS, Claude. 2003. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

MARC CORD, Marcelo. 2003. “Identidades Étnicas, Irmandades do Rosário e Rei do Congo: sociabilidades cotidianas recifenses – século XIX”. Campos 4,. 51-66.

PARÉS, Luis Nicolau. 2007. A formação do Candomblé. História e ritual da nação jeje na Bahia. 2ª Ed. Ver. – Campinas, SP: Editora da Unicamp.

RAMOS, Arthur. 2001. O Negro Brasileiro. 1ºvol.: etnografia religiosa, 5ª Ed. Rio de Janeiro: Graphia.

SILVA, Daniel Albergaria. 2009. O ritual da Congada e o “estar no rosário”: um estudo acerca das festas e das mediações São João del-Rei. Dissertação de Mestrado. Juiz de Fora: Universidade Federal e Juiz de Fora.

SOUZA, Marina de Mello e. 2002.Reis Negros no Brasil Escravista. Historia da Festa de Coroação de Rei Congo. Belo Horizonte: Editora UFMG.

SOARES, Mariza Carvalho. 2000. Devotos da cor: Identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro, século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

 

 

Daniel Albergaria Silva
Doutorando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora

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