Associação Brasileira de Antropologia

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As crianças, o brincar e os brinquedos: refletindo a partir da exposição fotográfica “Toy Stories”de Gabriele Galimberti



 

 

Cassianne Campos Diniz
Mestranda em Antropologia
Universidade de Brasília

 

Utilizar fotografias e vídeos como registro etnográfico é recorrente na antropologia e realizar esses registros é uma velha prática antropológica. Contudo, o registro fotográfico que direcionará as reflexões desse texto não é de minha autoria, ele foi realizado pelo fotógrafo italiano membro da Riverboom Ltd[1] , Gabriele Galimberti. Galimberti trabalhou durante dezoito meses no projeto chamado “Toy Stories” [2] em que ele fotografou crianças de três a seis anos de idade em diversas cidades do mundo com seus brinquedos favoritos. 

Refletir sobre as traduções possíveis através das fotografias de Galimberti, por meio das imagens e das descrições destas, trouxe a tona percepções acerca do métier antropológico. Isso porque ambas, as fotografias e as traduções, resultam de um enquadramento inicial e ao enquadrar corremos o risco de limitar as reflexões acerca das experiências dos personagens que compõem o referido quadro, já que abrevia o que não aparece no primeiro plano.

As fotografias de Galimberti, em sua maioria, mostram brinquedos industrializados, com suas características voltadas a atrair as crianças. Algumas crianças foram apresentadas como possuidoras de poucos brinquedos e fotografadas em ambientes que sugeriam pobreza. Essas crianças só possuíam brinquedos porque ganharam de voluntários de ONGs, entre elas estão a Chiwa (Mchinji, Malavi) e a Bethsaida (Porto Príncipe, Haiti) que ganharam: a primeira, bichinhos de pelúcia e um dinossauro de plástico e, a segunda, uma boneca e roupas de boneca. O pai de Farida (Cairo, Egito) trabalha para uma empresa de petróleo e está, constantemente, fora do país em que sua filha reside, mas toda vez que retorna da viagem traz consigo um presente para Farida, costumeiramente, um brinquedo. O brinquedo preferido dela é um urso de pelúcia que o pai trouxe do Canadá.

Ralf praticamente cresceu dentro de um carro[3] , contou a mãe da criança à Galimberti. A mãe de Ralf (Riga, Letônia) é motorista de Taxi desde antes de o menino nascer. Seu nome é Ralf, como o campeão de Fórmula 1. – disse a mãe. A trajetória da mãe se conecta a trajetória do filho e são suas trajetórias que aparecem como justificativa para o gosto do menino por carros de brinquedo. Ralf posa para a fotografia rodeado por muitos deles, de vários tamanhos e cores, seu filme infantil favorito é Carros e  por isso tem brinquedos que são a reprodução dos personagens do filme. As descrições de Galimberti de outras fotografias também contêm expectativas dos pais sobre suas crianças, conectando essas expectativas ao modo como elas brincam.

Mateus (Rio de Janeiro, Brasil) posa com sua bola de futebol e seu sonho é ser um famoso jogador de futebol da seleção brasileira. Lucas (Sidney, Austrália) opera trens, ele tem vários e espera que quando for adulto poderá trabalhar no metrô de sua cidade. Pavel (Kiev, Ucrânia) gosta de brincar com armas de fogo e, ordinariamente, prende seu irmão mais novo, o interroga e o acusa de ter roubado carros; ele é o policial, o irmão o bandido, são raras as vezes que Pavel permite a inversão. Naya (Manágua, Nicarágua) gosta de brincar com panelinhas, ela usa lama e grama do jardim para fazer bolos para a sua irmã mais velha, no futuro ela quer ter um restaurante e cozinhar para os turistas.

As crianças projetam seu futuro, ao falar sobre possíveis ofícios que estão vinculados ao seu brincar no presente, elas evidenciam que conhecem o ciclo da vida de uma pessoa. Nesse processo o brinquedo se transforma, ele deixa de ser apenas um objeto criado para a criança e passa a ser uma sugestão para interpretações da criança.

A provocação por excelência que busquei anunciar durante o texto tem o seu foco no processo de traduzir – submeter a uma interpretação – realizado constantemente pelos/as antropólogos/as. O exercício antropológico que parte do pressuposto que a aproximação possibilita traduzir com coerência e objetividade deveria nos conduzir a desconfiar do que está sendo dito ou mostrado, pois objetividade e coerência não são uma constante do cotidiano. Realizar pesquisa com crianças provoca a pesquisadora a desestabilizar esse centro adulto. Dispensar nosso tempo vivendo junto das crianças e seus brinquedos possivelmente nos levará a perceber que o adulto não é o único foco da criança. Para que a etnografia com crianças esteja isenta de adultocentrismo torna-se necessário ter tempo e disposição para aceitar convites para brincar com elas e deixar cair por terra a idéia de que há uma criança universal que brinca – e brinca para imitar – de maneira similar em qualquer lugar do mundo.

As relações prováveis e possíveis das crianças com os brinquedos podem se projetar a partir das imagens capturadas por Galimberti. Contudo, o que existe às margens daquela fotografia? Quais são os outros objetos que circundam a cena? O exercício de pesquisa antropológico que pode nos levar a traduções sensíveis, em consonância com o que vivencia os/as interlocutores/as, diz respeito a, como uma criança que ainda não compreende a rigidez do tubo televisivo, pretender enfiar a cabeça através daquele retrato fixo e desvelar experiências e coisas que estavam ocultas pelo enquadramento da imagem.

 

Cassianne Campos Diniz
Mestranda em Antropologia
Universidade de Brasília
Currículo Lattes

 

 



[1] A Riverboom Ltd é uma sociedade fundada por repórteres, seus membros são fotógrafos, diretores de cinema, artistas gráficos, jornalistas e escritores. (Acesso em http://cms.riverboom.com/home/, 19/04/2013)

[2] Parte das imagens registradas por Gabriele Galimberti está disponível no seu site oficial: http://www.gabrielegalimberti.com/ (Acessado em 19/04/2013) e mais algumas podem ser encontradas nesse site: http://archive.instituteartistmanagement.com/offer/529 (acessado em 19/04/2013).

[3] Os trechos das descrições do fotógrafo Gabriele Galimberti inseridos no texto serão encontradas sempre em itálico e são traduções livres do inglês.

NOTA: A imagem apresentada está disponível para domínio público e não compõe a exposição da qual trata esta resenha, nem mesmo a obra do fotógrafo Gabriele Galimberti.