Associação Brasileira de Antropologia

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Fórum

 

A ideia da presente seção é funcionar como uma espécie de “seminário virtual”, centrado em uma questão (teórica ou política) contemporânea, em torno da qual pesquisadoras serão convidadas a refletir criticamente. Não se trata de um dossiê, propriamente, apenas composto por artigos de pesquisas individuais, mas sim de uma discussão proposta em torno de um problema específico.

A seção funciona do seguinte modo: um pesquisador propõe uma questão, denominada aqui de "O Problema"; em seguida, pesquisadores são convidados a apresentar suas reflexões sobre o problema lançado, submetendo textos inéditos, e que podem ser articulados com suas pesquisas; por fim, com a publicação do número de Novos Debates, toda leitora interessada pode enviar sua contribuição ao Fórum, de modo a dialogar com os textos inicialmente publicados.

Os textos de leitoras serão recebidos até quatro meses após a publicação do número e devem ser enviados ao email This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it. . A extensão máxima é de 5 páginas, incluindo bibliografia, e prezaremos pela sua qualidade. Convidamos, assim, nossos leitores a enviar suas contribuições e construir conosco esse importante Fórum de debates.

 

 

Fórum v.1, n.1

 

O problema

 

Guilhermo Aderaldo

Doutor em Antropologia Social
Universidade de São Paulo

 

Gleicy Mailly da Silva

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade de São Paulo

 


O ano de 2013, particularmente o mês de junho, foi marcado por uma profusão de manifestações que tomaram as ruas de mais de 400 cidades brasileiras. A luta pela revogação do aumento no preço das passagens dos transportes públicos funcionou como um rastilho de pólvora que culminou no entrelaçamento de uma variedade de agendas em torno de um mesmo problema, qual seja, o desgaste das estruturas verticais que dão sustentação aos modelos de gestão pública atualmente vigentes na administração das cidades.

Além disso, evidenciou-se o modo como os veículos corporativos de mídia cumprem a função de verdadeiros atores neste processo, por exemplo, ao reduzirem as motivações dos referidos eventos a questões como a da polarização entre “pacifistas” e “vândalos”.

Cabe destacar, neste sentido, o modo como variados coletivos midiativistas atuaram, buscando atribuir visibilidade pública a temas e setores normalmente negligenciados pela imprensa[1].

O uso de novas tecnologias de comunicação por parte desses coletivos possibilitou, entre outras coisas, que moradores de áreas marcadas por processos de precarização sócio-urbana e representantes de distintos movimentos sociais, trouxessem pautas como a da monopolização de serviços públicos por parte de conglomerados empresariais privados e os problemas decorrentes da confusão que estas “parcerias público-privado” estabelecem entre as noções de “cidadão” e “consumidor”, dado que o Estado frequentemente perde sua capacidade regulatória na defesa do interesse público e questões como o preço das tarifas de transportes, o oferecimento de serviços básicos à população e a ocupação dos territórios urbanos, passam a ser pautadas por critérios de mercado[2].

O alargamento desses debates, por sua vez, traz à tona uma mesma questão de fundo, afinal: quais os limites da noção de “cidade” enquanto conceito urbanístico e administrativo? Quando dizemos “cidade”, do que, de fato, estamos falando?

Vale considerar uma brevíssima reflexão de David Harvey, ao dizer que:

 

A questão do tipo de cidade que desejamos é inseparável da questão do tipo de pessoa que desejamos nos tornar. A liberdade de fazer e refazer a nós mesmos e a nossas cidades dessa maneira é (...) um dos mais preciosos de todos os direitos humanos” (HARVEY, 2013, p. 28).

 

Tendo, portanto, em vista essa espécie de “retorno da utopia” no momento em que o conceito hegemônico (urbanístico/administrativo) de “cidade” passa a ser interpelado por uma considerável variedade de atores sociais, no espaço das ruas, esta seção convida alguns pesquisadores a, com base em suas pesquisas, refletirem sobre a seguinte questão: Como a reflexão antropológica e as etnografias realizadas na escala microssocial, podem contribuir com o debate atual sobre o modo pelo qual a própria noção de “cidade” vem sendo disputada por distintos e variados princípios e agendas no mundo urbano contemporâneo?

Partindo desta questão, o texto de Taniele Rui traz à tona um dos dilemas mais importantes vividos atualmente no país. Referimo-nos aqui ao modo como certa representação normativa – profundamente partilhada pelos veículos de mídia –, referente aos corpos e às práticas dos usuários de crack nos distintos contextos de uso da droga, estimula políticas de gestão urbana, às quais tendem a produzir formas violentas e espacializadas de segregação. Ao ler o texto da autora perguntamo-nos: afinal, que “cidade” nos apresentam os usuários de crack?

Já Andressa Morais, mostra-nos em seu texto, a forma como a “cidade” vêm sendo apropriada e simbolizada por parte dos movimentos “okupa” e seu “pluriativismo”. Tratam-se de atores vinculados a distintos e simultâneos movimentos reivindicativos, que têm em comum a adesão à prática de ocupação de imóveis abandonados, com a finalidade de tornarem inteligíveis os efeitos deletérios do capital imobiliário na vida social urbana.

O terceiro e último trabalho apresentado nesta rodada inicial de discussões[3], traz uma reflexão a respeito das performances visuais urbanas protagonizadas pelo artista mexicano Jose Enrique Porras na cidade de Paris. Ao longo de um ano (2011-2012), durante o período em que Guilhermo Aderaldo atuou como pesquisador visitante no Centre D’Études Africaines da École Des Hautes Études En Sciences Sociales (EHESS), sob supervisão do professor Dr. Michel Agier, o autor pôde acompanhar e filmar o trabalho do referido artista, que têm como uma de suas questões centrais, o modo pelo qual determinadas fronteiras simbólicas podem tornar-se aparentes através da forma como certos elementos materiais se distribuem e interagem com o espaço.

Ao fim, todos os trabalhos parecem concordar com a ideia de que, é quando esquecemos (de certa forma) a “cidade” enquanto conceito, que podemos enxergá-la enquanto processo. Boa leitura!

 

 Referências citadas

 

ADERALDO, Guilhermo André. 2013. Reinventando a "cidade": disputas simbólicas em torno da produção e exibição audiovisual de "coletivos culturais" em São Paulo. Tese (Doutorado em Antropologia Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-17122013-124311/pt-br.php>. Acesso em: 2013-12-18.

CASTELLS, Manuel. 2013. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet, Rio de Janeiro, Ed. Zahar.

HARVEY, David. 2013. “A liberdade da cidade” In: Ermínia MARICATO et al, Cidades Rebeldes: passe livre e manifestações que tomaram as ruas do Brasil, São Paulo, Ed. Boitempo/Carta Capital: 27-34.

 

 

Guilhermo Aderaldo
Doutor em Antropologia Social
Universidade de São Paulo
Currículo Lattes
 
 
Gleicy Mailly da Silva
Doutoranda em Antropologia Social
Universidade de São Paulo
Currículo Lattes

 


 

 



[1] Sobre as ações destes coletivos, bem como sobre suas formas de organização e interação em distintos contextos ver Castells (2013) e Aderaldo (2013).

[2] Sobre isso ver o artigo “A cidade como mercadoria”, de Silvio Caccia Bava, publicada no periódico Le Monde Diplomatique Brasil de Agosto de 2013, pp 4-5.

[3] Lembrando que esta seção continuará aberta à recepção de textos por parte daqueles que pretenderem enviar trabalhos que dialoguem com o tema aqui proposto.

 

   

A cidade, desde as cracolândias

 

 

Taniele Rui

Doutora em Antropologia
Universidade Estadual de Campinas

 

 

 

Parto do princípio de que a cidade deve ser percebida etnograficamente. E, nesse sentido, considero tarefa da pesquisa antropológica, de um lado, observar e questionar com rigor dinâmicas urbanas contemporâneas e, de outro, procurar incessantemente modos variados e perspectivas múltiplas de descrevê-las. Nos últimos sete anos, tenho perseguido tal tarefa, visando uma contribuição a esse campo de discussão, a partir de pesquisas empíricas realizadas em territorialidades itinerantes (Frugoli e Spaggiari[1]) de uso de crack em Campinas, São Paulo e, mais recentemente, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte[2].

 
 

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Região da Cracolândia, na cidade de São Paulo.

 
 

De modo específico, é das práticas espaciais (De Certeau) oriundas das chamadas cracolândias que eu tento ver a ‘cidade’ – evitando, assim, reificar abordagens desde cima, frequentemente normativas (ainda que as considere foco nada desprezível de observação). Para tanto, lanço um olhar que se desafia a apreender a dinâmica destas territorialidades na interação delas com a corporalidade dos usuários de crack, com esses usuários e diversos atores urbanos, mas também com as ações estatais que lhes são direcionadas. Em outras palavras, é desde as cracolândias que tento, não sem dificuldades, ensaiar uma maneira antropológica de descrever articulações e intersecções entre consumo de crack, (auto)controle/cuidado de si, mobilidade, territorialidades, apreensão da cidade e gestão urbana.

Esse suporte analítico e descritivo é decorrente da minha percepção de que a principal “novidade” trazida pela droga parece ser justamente a aparição no espaço público de considerável número de indivíduos que, com seus corpos, movimentações e ocupações inusitadas, se tornam visíveis para a cidade e, uma vez assim, lidam com e incitam a produção dos mais distintos aparatos de gestão, tratamento e atenção. Dado que a “novidade” é, portanto, esse simulacro mais que perfeito entre corpo e espaço (afinal, “a cracolândia é onde eles estão”), tenho buscado apreender tais territorialidades a partir de suas ambivalências: locais onde consumidores da droga podem encontrar abrigo e proteção durante o uso, mas que também oferecem perigo para eles e para os que por ali passam; alvos de violência e promotores dela. O mesmo ocorre em relação ao deslocamento e mobilidade dos usuários, que estão nesses espaços ora porque foram expulsos de outros, ora porque os tomaram como refúgio. Espécie, portanto, de degredo e autodegredo.

Aglutina toda a minha preocupação o fato de que intervenções violentas das autoridades no cotidiano desses usuários, sob todas as alegações possíveis e imagináveis, são hoje lugar-comum nos centros urbanos brasileiros. Nesse passo, desocupação de prédios e construções abandonadas, erguimento de barreiras físicas, demolição de imóveis, grandes e espetaculares operações policiais visando combater o consumo e o tráfico de crack têm se tornado intervenções constantes nas cidades, materializando espacialmente uma complexa injunção entre polícia e cidade, que corrobora, no cenário atual, aquilo que Vera Telles e Daniel Hirata apreendem como gramática bélica, cada vez mais militarizada, aplicada aos espaços urbanos[3].

Se é esse o arcabouço mais geral, o exame antropólogico não pode se dar por satisfeito. É preciso também seguir os desafios trazidos pelo próprio ‘campo’ – o que, no caso, implica em enfrentar semelhanças e diferenças que cada territorialidade especifica. Para dar um exemplo, na minha tese de doutorado escolhi três cenários específicos – a linha do Paranapanema, o prédio da Vila Industrial (ambos na cidade de Campinas) e a mais famosa territorialidade de uso de crack do país, a chamada “cracolândia”, na região da Luz, em São Paulo; e a partir deles objetivei mostrar que cada um desses espaços implica diferentes interações. Relações travadas entre usuários de crack e traficantes ; entre usuários de crack, moradores dos bairros, projetos modelos das gestões municipais e operações policiais (sejam as performáticas, sejam as cotidianas); entre usuários de crack, jornalistas, pesquisadores, instituições religiosas, assistenciais e serviços médicos e todas essas relações se apresentavam como produtos e produtoras de interesses políticos e imobiliários, repressivos e humanitários, conformando dinâmicas caóticas, de muito difícil compreensão. Mostrei com esses exemplos que, a depender de onde os usuários de crack se localizam e como interagem, há níveis distintos e diferenciados de violência física e simbólica, gestão social e policial, segregação espacial e moral.

Além dessas diferenças, o trabalho de campo abarcou outras, desta vez formuladas pelos próprios usuários de crack, que estabeleciam distinções entre as territorialidades de consumo abertas e fechadas (na visão deles, os espaços de uso fechados tinham a potencialidade de serem, a um só tempo e sem contradição, os ‘mais seguros e os mais perigosos’) e as territorialidades centrais e periféricas (no que eles chamavam de centro diziam ser mais difícil parar de usar crack porque era mais fácil conseguir dinheiro e no que eles chamavam de periferia a rede de relações sociais era fundamental para a produção do autocontrole).

Instigada por essas ideias, pude argumentar que o manejo da quantidade de droga consumida se liga intimamente às interações sociais e materiais possibilitadas em cada um desses espaços; que, a partir de tais falas e experiências é possível chegar a uma teorização “nativa” sobre a cidade ; e, ainda, que qualquer ação pública sobre tais territorialidades peca por excesso de localidade.

Uma vez cumprida a opção de seguir a face miúda dessas dinâmicas, imaginei ser possível, novamente e com mais elementos, crescer na análise e ampliar o foco para compreender as gestões urbanas. Dito de outra forma, é desde as cracolândias que percorri as intervenções urbanas e mesmo os planos normativos para as áreas, mesclando  várias esferas de governo, com o intuito de desvelar o confronto entre usuários de crack e órgãos assistenciais, sanitários e repressivos e com a pretensão de lançar luz sobre as ‘práticas de Estado’. Essa torção da perspectiva de observação é, para mim, a grande chave para não fazer da análise antropológica mera reificação erudita de um ‘bom planejamento urbano’.

Assim, lançando mão de uma visada que opera em várias escalas e observando empiricamente processos gerais e específicos de atuação estatal face à questão, almejo, de um lado, perceber apropriações locais de best practices que se multiplicam nas gestões das cidades; de outro, notar como os usuários de crack, à sua maneira, sofrem os impactos, mas também impulsionam e (re)criam, aparatos e técnicas políticas de manejo dos territórios e das populações. Trata-se de saber como o poder e a resistência a ele também se territorializam. 

 Em suma, a partir do exemplo da minha pesquisa, busco contribuir com o debate aqui proposto argumentando que a abordagem conjunta e comparada, que se movimenta por distintas escalas e que não cede ao quadro normativo (mas o leva em conta) é o que confere força e vida à antropologia, no seu intuito de compreensão do mundo urbano contemporâneo. Ao final e com os dados apresentados, espero também não deixar dúvidas de que já é impossível pensar em tais espaços como alijados das dinâmicas urbanas, ou das suas formas de governo. Ao contrário, ao olhar a cidade desde as cracolândias, percebe-se que é justamente aí, nos espaços mais precários e desprezados, que se nota a cidade acontecendo em uma “inesgotável riqueza de variações” (Benjamin, 2000), enfrentamentos, disputas e atrocidades.

 

Referências bibliográficas

 

AGIER, Michel. 2011. Antropologia da cidade: lugares, situações e movimentos. São Paulo: Editora Terceiro Nome.

BENJAMIN, Walter. 2000. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense.

DE CERTEAU, Michel. 1994. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Ed. Vozes, Petrópolis.

FELTRAN, Gabriel e CUNHA, Neiva V. (orgs.). 2013. Dossiê Fronteiras Urbanas, São Carlos, Contemporânea, v.3, n.2.

FRÚGOLI JR., Heitor. (org.). 2012. Dossiê Luz. São Paulo. Ponto Urbe (NAU-USP), v. 11.

FRÚGOLI JR., Heitor e SPAGGIARI, Enrico. 2010.“’Da “cracolândia” aos nóias: percursos etnográficos no bairro da Luz1”. Ponto Urbe, n.6.

RUI, Taniele. 2012. Corpos Abjetos : etnografia em cenários de uso e comércio de crack, Tese de doutorado, Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

 

 

Taniele Rui

Doutora em Antropologia
Universidade Estadual de Campinas
Currículo Lattes

 


[2]O que congrega questões desenvolvidas na minha tese de doutorado, defendida junto ao PPGAS-UNICAMP (RUI, 2012) e desdobramentos delas num pós-doutorado, recém-iniciado com financiamento do Social Science Research Council – EUA (Drugs, Secutity and Democracy Fellowship).

 

 

Pluriativismo Okupa

 

 

Andressa Lídicy Morais Lima

Mestre em Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

 

 

O convite para este debate me colocou de volta ao início de minha jornada como antropóloga, no ano de 2005, quando ainda na graduação em Ciências Sociais - período em que me lancei ao projeto de fazer uma etnografia comparada sobre o Movimento Okupa[1] em Natal-RN, Porto Alegre-RS e Rio de Janeiro-RJ. Neste momento, havia em mim a curiosidade e o afinco pela pesquisa de campo e vivência okupa, eu me encontrava seduzida pelo conteúdo de protesto e exaltação do grupo e desejava saber mais. Para materializar meu desejo, por meio de um processo de mobilidade acadêmica, fui para Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde daria continuidade às disciplinas da graduação em ciências sociais ao mesmo tempo em que faria pesquisa de campo em Porto Alegre, que naquele momento se apresentava como um lugar em que havia no mínimo três okupas acontecendo.

 

 

 

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Mais tarde em Fortaleza-CE, entre 2010 e 2012, agora já cursando o mestrado em Antropologia Social na UFRN, procurei novamente dedicar atenção etnográfica ao Movimento Okupa. Isso significou dar continuidade ao estudo sobre as okupas, que se tornou para mim um irresistível projeto etnográfico. Fortaleza oferecia um conjunto de inquietações sobre o grupo torenianx. Um grupo cosmopolita composto por diversos jovens, adultos, crianças e com interlocutores dos mais variados movimentos sociais. Lembro-me de olhar para as ruas da cidade e ver nos traços e riscos o grito de protesto que eu reconhecia ser okupa.

No período descrito acima, não havia toda essa visibilidade em torno das pesquisas sobre “okupas”. O sentimento de desconhecimento era geral e obviamente as poucas produções a esse respeito estavam situadas no lugar do punk, enquanto identidade juvenil e suas práticas de sociabilidade. Sobre a prática exclusivamente okupa, minha monografia, de fato, estava inaugurando um objeto empírico de estudo e, claro, em razão também do desconhecimento, de pouco apelo ou interesse sócioantropológico.

De lá para cá, já se foram oito anos investidos na pesquisa etnográfica a respeito do Movimento Okupa, em que procurei entender os significados compartilhados por agentes – autodenominados okupas – em contextos de interação intersubjetiva durante a ocupação de prédios em estado de abandono.

A experiência adquirida na vivência em estudo fez com que eu aprendesse que existe um diálogo muito mais rico entre muitos grupos e pessoas que fazem intervenções sobre a cidade. E que os okupas buscam, mais ou menos de modo geral, alternativas culturais de vida na cidade. Isto é, estabelecem formas de interagir diferenciadas e dessa maneira revelam suas insatisfações e anseios por uma cidade sensível às suas demandas de “autenticidade” (TAYLOR, 2011). Aliás, creio que seja justamente aqui, nas demandas de autenticidade que encontraremos o conteúdo normativo que alimenta as diferentes formas de luta que este grupo constrói dentro da cidade, fazendo da mesma o seu ponto de partida para práticas de intervenção urbana. Traduzida em novo modo de vida na cidade: o modus vivendi okupa.

A rigor, a okupa assume uma importância estratégica, exatamente para o encontro dos fluxos, dos corpos, que estão praticando a cidade e que fazem suas intervenções quase sempre móveis. Assim, percebi o quanto essa noção de cidade provoca ruídos e protestos e o quanto ela é plural e reivindicada. Pois nesse período de atenção voltada para a prática okupa houve muitas manifestações e ações coletivas entre diversos segmentos e grupos aos quais os okupas estavam conectados[2].

  São muitas as agendas que encontrei mobilizadas por meus interlocutores: os protestos que envolveram o Acquário Ceará [“Não aos aquários de konformismo!” [3], “Não deixe que te devore, organize-se para resistir e lutar”]; a luta pela Humanização do Parto, a GIG Antivivisecção [“Em manifestação ao dia mundial contra testes em animais”, “Pelo fim da crueldade em nome da ciência”]; os protestos em defesa dos Presos Políticos; reciclagem [“Outro consumo é possível!” - comida, materiais plásticos, vidro, papel, resíduos humanos – compostagem]; autodidatismo e educação libertária; voto nulo [“Ação direta e liberdade! Existe política além do voto!”]; boicote à mídia [“Por uma outra comunicação”, “A mídia que explora, ilude, engana, oprime”]; demarcação das terras indígenas [“Belo monte de merda, monte fétido de agonia, monte de morte, belo money!”] e quilombolas [“Não às estradas da morte”, “Não às usinas da desgraça”, “Não às refinarias de sangue”]. Enfim, uma vastidão de ações coletivas em que esses sujeitos se fizeram presentes compondo o repertório de ações diretas sobre a cidade, quase sempre, traduções de suas “fontes de indignação” (BOLTANSKI & CHIAPELLO, 2009) e, sobretudo, de uma necessidade de busca de um novo conceito de cidade.

Esses gritos revoltosos do Movimento Okupa, entendido enquanto sujeito coletivo revela o conteúdo que faz parte das manifestações, o tom que se usa para protestar e mobilizar, além de demonstrar os diversos diálogos que esses okupas fazem com outros grupos que protestam por uma noção diferenciada de cidade. Compreendida como um lugar em que coexistam várias formas de vida, em que se respeite a fala daqueles que historicamente estiverem à margem dela.  

A cidade é aqui um lugar que nos permite observar as inúmeras formas de agrupamento e a diversidade com que os sujeitos se organizam no seu interior, o quanto é objeto de disputas por diferentes grupos. Revela não só o uso estratégico para ação contínua da economia, a ação dos especuladores imobiliários, por exemplo, ou dos investidores do setor da construção civil, a abordagem sob esse conceito de cidade revela ou macula fatos interessantes sobre os grupos institucionais públicos e empresariais privados, nos colocando à revelia de seus interesses.

A racionalidade e operacionalidade com a qual se projetou a cidade moderna passa a se degradar, afetada por seus agentes que tomam para si a tarefa de reinvenção do seu lugar, de reinventar a sua cidade, para que de fato ela possa ser “sua” (LIMA, 2009). Desse modo, a okupa é um lugar por onde passa, de modo peculiar, essa reinvenção da cidade. Logo, o conteúdo afetivo atribuído à cidade pelos okupas é tão importante quanto as suas operações funcionais para construção de um cotidiano urbano.

O fenômeno das okupas no cenário urbano, isto é, a ocupação de casas abandonadas dentro da cidade, tem dois apelos inicias, a saber: 1. Porque esses imóveis estão destinados ao abandono? 2. Porque esses sujeitos ocupam esses imóveis? Para esse debate me interessa responder de imediato a essas duas questões para adentrar o universo desses sujeitos em maior profundidade.

1. Atendendo à construção da cidade-global (SASSEN, 1991), há um interesse de agentes econômicos naqueles imóveis localizados em bairros com a oferta de serviços e equipamentos urbanos. E esses investidores terão garantido um aumento no valor de compra dos imóveis, tornando-se um investimento atrativo para as construtoras de edificações verticalizadas.

2. Com as ocupações de imóveis ociosos, os okupas têm perturbado essa lógica do mercado imobiliário, fator importante de contestação praticada na rua para deslegitimação do pensamento mercadológico. Na medida em que permite o abandono em face do déficit habitacional que atinge nosso país, produz segregação urbana, portanto, são ações isoladas, mas que, no entanto, convergem numa mesma direção: o conflito com os proprietários e confrontos com a polícia. Okupar, resistir e insistir (LIMA, 2012).  

De fato, qualquer forma de resistência “anticapitalista e antiautoritária” ganha força com a juventude anarcopunk, privilegiando a questão do conflito com as autoridades ou com o sistema de valores vigente. Ainda que haja certa intimidade nesse combate na selva de pedra que é a cidade, ele pode começar de qualquer lugar, a qualquer instante, assim grita uma interlocutora acalorada a luta é como círculo, pode começar em qualquer ponto!

Desse modo, é curioso perceber as diferentes forças motivadoras desses sujeitos, ou seja, o que significa ter, nesse grupo, um plural de mobilizações em torno de variadas demandas simbólicas com uso da ação direta para okupar aquele espaço da vida intermediária, transformando-o no lugar em que o público e privado tem suas fronteiras borradas - lugares praticados como descrito por De Certeau (1994) ou as zonas autônomas temporárias ocupadas clandestinamente das quais fala Hakim Bay (1990). São espaços fluídos, o que chamo espaços do instante onde o pluriativismo se expressa, por onde os sujeitos atribuem sentidos ao que lhes cerca ao que lhes falta, ao que consideram sua disposição para o enfrentamento constante, em busca do reconhecimento de sua estima social, de suas identidades plurais, de sua forma de existência e porque não dizer de seus modos de vida.

Por isso, okupar a cidade é sinônimo de gritar por cidadania e produzir diálogos. Compreendam bem, estou chamando de “diálogos com a cidade”: os protestos coletivos organizados entre os okupas, ativistas ligados a outros movimentos sociais, o tipo de comunicação utilizada pelo grupo (visual, escrita, oral), a relação face à face (com os vizinhos, a polícia, a justiça), e, não menos importante, a relação com a pesquisa e a pesquisadora. Mais do que isso, espera-se que não haja dúvidas a respeito de sua seriedade, nem da exequibilidade do seu quadro geral de engrenagens, ou seja, o que eu defino como “pluriativismo”. Seja na “revolta do busão” ou na “marcha das vadias”, seja “na okupa torém” ou “squat flor do asfalto”, seja no protesto contra o “Acquário Ceará” ou “contra os aumentos abusivos das tarifas de ônibus”. Creio encontrar um mesmo sentido plural da agenda de mobilizações.

Não é apenas na vida doméstica, ou no que chamo de tempo interno da ksa (o lugar compartilhado no cotidiano de quem mora, efetivamente na okupa, dia e noite) que esses okupas discutem sobre sua vida, que fazem suas manifestações artísticas, que vivem sua intimidade em coletivo. O mais admirável para mim durante essa pesquisa foi perceber que esse espaço do instante pode estar situado num endereço qualquer, mas volto a dizer, está naquilo que caracteriza a subjetividade humana, o lugar onde as ideias ganham sentido ou existência, por onde esses okupas protestam, esse espaço do instante é também, e em primeiro plano, o seu próprio corpo.

A ksa é uma via por onde passa essa expressão coletiva, um lugar dos encontros desses corpos em trânsito, um lugar de passagem e um trampolim para sua atividade política, uma estratégia de organização e conquista de espaço dentro da cidade. A okupa é construída a partir do campo de possibilidades no qual “o projeto e a memória associam-se e articulam-se ao dar significado à vida e às ações dos indivíduos, em outros termos, à própria identidade” (VELHO, 1994).

Por sua vez, a expansão do capitalismo gera um novo padrão de mobilização coletiva, sedimentada na procura de ideais de boa vida (HABERMAS, 1987). Isto é, a busca por outra forma de gestão da vida, algo bem distinto da clássica luta por redistribuição (FRASER, 2007). Observa-se, desse modo, um deslocamento para uma “nova zona de conflito”, onde surgem “novos movimentos sociais” movidos por formas diversas de resistência aos processos de globalização, normatização e padronização da vida coletiva, essa última acelerada pela expansão das novas tecnologias de informação e comunicação.

O pluriativismo okupa é um mural de opções e lugares para a expressão de uma vivência livre, um grito de protesto, a construção de narrativas individuais, de atitudes posicionadas em busca de autonomia e, sobretudo, de suas fontes de indignação. Dessa forma, protestam criando a gramática moral de seu modo de vida. Assim o sujeito okupa foge às práticas disciplinadoras do espaço urbano e permite que a astúcia combinada à subversão tornem o ambiente urbano, apropriado por ele, no palco de sua intervenção, no lugar onde as suas reivindicações políticas aparecem a fim de terem seu espaço praticado permitido e sua estima social alcançada.

Com efeito, concluí que a apropriação política e estética feita pelos sujeitos sobre o espaço urbano significa, no contexto observado, a expressão cultural do que defino como “pluriativismo”, isto é, práticas de intervenção sobre a cidade, orientadas por agendas plurais de ação coletiva. E que revelam sentidos de justiça (BOLTANSKI & CHIAPELLO, 2009) motivados por demandas de reconhecimento (HONNETH, 2003).

O pluriativismo okupa pode oferecer contribuições para pensar empiricamente as mobilizações de junho em Natal-RN e espalhadas pelo Brasil. Assim como outros movimentos sociais que da cena contemporânea e que nos permitem relativizar o conceito administrativo/urbanístico e normativo de “cidade”.

O Movimento Okupa, ao fazer uso das redes sociais e das inovações tecnológicas, o faz como estratégia de alcance e subversão. Creio que um dos aspectos mais relevantes deste grupo é o de comunicar à esfera pública e convocá-la a serviço da construção de uma democracia em busca de ampliar a cidadania, a partir da nova gramática social advinda do conteúdo desse protesto. Dito de outro modo, os okupas em sua intervenção política e estética fazem a justiça repensar seu conteúdo normativo diante dessas novas demandas sociais. Além disso, através dos okupas, percebe-se novas modalidades de ativismo num contexto de descenso das formas “tradicionais” de militância.

Refletir sobre os “contextos de justiça” (FORST, 2010) praticados no uso eletivo de “okupar” versus “invadir”, mostra, de modo exemplar, a indispensável atualização desses agentes numa compreensão que implique considerar a especificidade do reconhecimento intersubjetivo – precisamente em sua face política de reconhecimento. Entre algumas questões, penso: em que medida essa conexão entre crítica social e crítica estética pode ser combustível para a produção de um novo tipo de reconhecimento?

 

Referências Bibliográficas

 

BEY, Hakim. 2001. TAZ: zona autônoma temporária. (Coleção Baderna) São Paulo: Conrad.

BOLTANSKI, Luc e CHIAPELLO, Ève. 2009. O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes.

DE CERTEAU, Michel. 1994. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes.

FORST, Rainer. 2010. Contextos de justiça: filosofia política para além de liberalismo e comunitarismo. São Paulo: Boitempo.

FRASER, Nancy. 2007. “Reconhecimento sem ética?”. Lua Nova, São Paulo, v.70: 101-138.

HABERMAS, Jürgen. 1987. “A nova intransparência”. Novos Estudos CEBRAP, nº 18: 112.

HARVEY, David et al. 2012. Occupy. São Paulo: Boitempo: Carta Maior.

HONNETH, Axel. 2003. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: ed. 34.

LIMA, Andressa Lídicy Morais. 2012. Okupar, resistir e insistir: uma etnografia das práticas de ocupação urbana – Fortaleza/ Ceará. Dissertação - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.

_____. 2009. Squat: espaço de sociabilidade e (re) invenção do social. Monografia - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal.

SASSEN, Saskia. 1991. The global city: New York, London, Tokyo. Princeton, NJ. Princeton University Press.

TAYLOR, Charles. 2011. A ética da autenticidade. São Paulo: Realizações Editora.

VELHO, Gilberto. 1994. Projeto e metamorfose: Antropologia das Sociedades Complexas, Rio de Janeiro, Jorge Zahar.

Andressa Lídicy Morais Lima

Mestre em Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Núcleo de Estudos Críticos em Subjetividades e Direitos Humanos (UFRN)
Centro de Referência em Direitos Humanos
Currículo Lattes


[1] Movimento que tem origem na Europa da cena contracultural da década de 1960, cujo lema consiste em ocupar prédios em estado de abandono, que estão ociosos no meio urbano sob a vigilância da especulação imobiliária. A partir de um conteúdo político anarcolibertário, o grupo desenvolve ações de okupação desses espaços para construir centros culturais e promover atividades autogestionadas junto às comunidades da vizinhança. Pressupõe um estilo de vida baseado no lema “do it yourself!” – faça você mesmo. 

[2] Na virada do milênio, a vibrante força de protesto “improvisada” com pano de fundo antiautoritário e de resistência anticapitalista já tinha força na Europa e América do Norte, com conteúdo anticapitalista e libertário que se multiplicava em okupas aqui no Brasil. Durante esses anos de pesquisa (até 2012), mapeei 41 okupas, que tiveram início em 1989 com a Squat Casarão em Florianópolis-SC. Ao mesmo tempo em que é significativo a existência dessa prática okupa no Brasil, ganhando certo status de protesto atualizado, passa a ser confundida com uma série de protestos e ações que emergiram entre 2011 e 2012 e que foram tema do livro Occupy: Movimentos de protesto que tomaram as ruas (a respeito dessas diferenciações ver LIMA, 2012).

[3] Essa fala está presente num cartaz que estava colado na parede-mural da okupa. Assim como as demais frases que seguem nesse parágrafo, essa é retirada de cartazes, zines, stencils, camisas serigrafadas na okupa.

 

A arte de dobrar fronteiras/ The  art of folding  borders

 

 

Jose Enrique Porras

Artista Plástico
Mestre em Producción Artística
Universidad Politecnica de Valencia, Espanha
École  Nationale Superieure des Arts  Décoratifs de Paris

 

Guilhermo Aderaldo

Doutor em Antropologia Social
Universidade de São Paulo

 

 

Une ville: de la pierre, du béton, de l’asphalte. Des inconnus, des monuments, des institutions. Mégalopoles. Villes tentaculaires. Artères. Foules. Fourmilières? Qu’est-ce que le cœur d’une ville? L’âme d’une ville? Pourquoi dit-on qu’une ville est belle ou qu’une ville est laide? Qu’y a-t-il de beau et qu’y a-t-il de laid dans une ville? Comment connaît-on une ville? Comment connaît-on sa ville?

 

Méthode: il faudrait, ou bien renoncer à parler de la ville, à parler sur la ville, ou bien s’obliger à en parler le plus simplement du monde, en parler évidemment, familièrement. Chasser toute idée préconçue. Cesser de penser en termes tout préparés, oublier ce qu’ont dit les urbanistes et les sociologues (...) (Perec, 1992, p. 85)[1] .

 

 

 

 

 Artista: Jose Enrique Porras; Câmera: Guilhermo Aderaldo

  

 

Conforme disse Michel Agier (2011, p. 159), é quando “o invisível da cidade dialoga com sua matéria visível” que vemos surgir os espaços urbanos na sua forma mais nobre, pois relacional. Algo particularmente claro em Paris, onde a monumentalidade do espaço urbano é rodeada pela mobilidade gerada pelos efeitos perversos de uma topografia política excludente, responsável pela geração de fluxos de moradores de rua, vendedores ambulantes, imigrantes ilegais e desempregados, que lutam por espaço em meio aos circuitos endinheirados do turismo.

Cinco miniaturas da torre Eiffel produzidas na China custam “somente um euro”, grita o ambulante de descendência africana. Alguns metros embaixo dele, num corredor do metrô, a plaquinha de “j’ai faim[2] desafia os olhares dos turistas que, caso consigam vencê-la sem colocar as mãos nos bolsos, dividirão espaço no vagão do trem com os incontáveis músicos que tocam por uma “petite pièce[3] . A dobradura desses mundos parece configurar territorialidades próprias, que tendem a nos contar a história da Paris (e do mundo) de hoje muito melhor do que os livros de “história”.

 E que tipo de arte pode revelar-se no momento em que tentamos aferir visibilidade a essas fronteiras simbólicas (e políticas), surgidas dos espaços intersticiais que se desdobram nestas zonas liminares? Que tipo de ação artística pode fazer buracos nas barragens que impedem o livre curso do rio caudaloso e violento que parece estar contido por estas fronteiras? Foi esse o ponto de partida que incentivou um diálogo frutífero entre as linguagens da arte e da antropologia, cujo resultado é o trabalho que apresentamos aqui.

O vídeo e as séries de fotografias expostos, registram algumas das performances do artista mexicano Jose Enrique Porras. Tal iconografia, porém, não revela objetos ou simples imagens estáticas, mas ações. Valem mais pelo que buscam fazer refletir do que por suas formas pictóricas.

Foram as possibilidades de configurar ações espontâneas que pudessem simbolizar as fronteiras moduladas pelos processos dinâmicos que constituem (a contrapelo dos interesses governamentais e urbanísticos) as formas atuais do urbano, que determinaram o uso dos materiais (gesso, madeira, tapetes e sobras deixadas no lixo) encontrados durante nossas caminhadas pelas ruas da capital francesa.

Aqui a “cidade” não é apenas um pano de fundo, nem um modelo administrativo que se esgota em sua forma conceitual, mas um verdadeiro ator, que se configura no sentido simbólico dado à forma (inesperada) com que os elementos trabalhados interagem com o espaço.

A busca por causar uma espécie de “efeito tetris” – onde a utilização de um elemento na estrutura da paisagem a ressignifica por completo –, por exemplo, quando um tapete é retirado do lixo, cortado e reaproveitado in situ, adaptando-se ao espaço estreito e irregular de uma calçada, teve por objetivo representar artisticamente o lugar político das fronteiras nos processos de constituição das cidades contemporâneas.

A exemplo do que dizem autores como Marc Augé (2010, pp. 19-26) e Michel de Certeau, 1994 [1980], p. 214, a noção de “fronteira” caracteriza-se como uma categoria que se encontra “no cerne da atividade simbólica” (AUGÉ, 2010, p. 19), justamente pelo fato de funcionar como um dispositivo que regula as relações (hierarquizadas) entre aqueles que se veem demarcados pelos limites que ela estabelece.

Neste sentido, ao buscar tornar as fronteiras visíveis, fazendo o “lixo” de Paris incorporar-se à sua monumentalidade, o artista, ao mesmo tempo em que provoca o olhar dos citadinos que se aproximam, aponta para o fato de que as cidades também nascem de suas margens. Trata-se, portanto, de uma arte que busca revelar a cidade, justamente na medida em que a esquece.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Referências citadas

  

AGIER, Michel. Antropologia da cidade: lugares, situações e movimentos, Ed. Terceiro Nome, São Paulo, 2011.

AUGÉ, Marc. Por uma antropologia da mobilidade, Ed. Unesp/Edufal, Maceió, 2010.

DE CERTEAU, Michel. A Invenção do cotidiano: artes de fazer, Ed. Vozes, Petrópolis, 1994 [1980].

PEREC, Georges. Espèces d’espaces, Ed. Galilée, Paris, 1992. 

 

 

Jose Enrique Porras

Artista Plástico
Mestre em Producción Artística

Universidad Politecnica de Valencia, Espanha
École  Nationale Supérieure des Arts  Décoratifs de Paris
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Guilhermo Aderaldo

Doutor em Antropologia Social
Universidade de São Paulo
Currículo Lattes



[1]  "Uma cidade: da pedra, do concreto, do asfalto. Dos desconhecidos, dos monumentos, das instituições. Megalópoles. Cidades tentaculares. Artérias, multidões, formigueiros? O que é o coração de uma cidade? A alma de uma cidade? Por que dizemos que uma cidade é bonita ou feia? O que há na cidade de belo ou feio? Como conhecemos uma cidade? Como conhecemos uma cidade? Método: Seria preciso deixar de falar da cidade, de falar sobre a cidade, ou então se obrigar a falar simplesmente sobre o mundo, falando, evidentemente, familiarmente. Desfazer-se de todas as ideias preconcebidas. Deixar de pensar em termos prontos, esquecer aquilo que dizem os urbanistas ou sociólogos." (Tradução: Guilhermo Aderaldo).

[2] “Tenho fome!”

[3] “moedinha”