Associação Brasileira de Antropologia

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“É PRECISO CONHECER O CONTEXTO DA COMUNIDADE”: POLÍTICAS CULTURAIS NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DE CASTAINHO, PE

 

Jaqueline de Oliveira e Silva
Mestranda em Antropologia
Universidade Federal de Pernambuco

  

O presente texto refere-se à pesquisa de mestrado em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco, que se encontra atualmente nos momentos iniciais de elaboração.  Situada no campo da Antropologia da Política, seu foco são os discursos e tensões envolvidos no processo de planejamento e execução de políticas culturais em comunidades tradicionais. Como um estudo de caso, trato da comunidade quilombola de Castainho, localizada no agreste do estado de Pernambuco.

Conhecida nacionalmente em virtude de seu pioneirismo na luta pela regularização do território, Castainho atrai um grande número de visitantes, pesquisadores, estudantes, professores, artistas, militantes de movimentos sociais, com o intuito de conhecer a comunidade ou de desenvolver alguma ação junto à mesma, através dos chamados projetos. No decorrer do trabalho, irei explicitar quais são as relações entre políticas públicas e os projetos, mas a princípio, pode-se dizer que as ações políticas recorrentes no território acontecem principalmente em forma de projetos. Mesmo financiado por órgãos públicos, o termo ressalta o caráter temporário e pontual de uma ação, em contraposição a uma política publica contínua e de amplo acesso. 

Na dissertação irei analisar duas ações realizadas na comunidade quilombola de Castainho financiadas por órgãos públicos. O primeiro é o Projeto Xirê, resultado de uma parceria entre a Prefeitura de Garanhuns, através do CRAS Quilombo, com o SESC da mesma cidade. O projeto, finalizado em 2011, foi escolhido por ser apontado pelos moradores como um dos mais significativos na área da cultura, e que teve como desdobramento a promoção de um grupo de dança e um grupo de percussão da comunidade, reunidos sob o nome de Quilombo Axé.

A outra ação a ser analisada é o Festival de Inverno de Garanhuns (FIG), organizado pela Secretaria Estadual de Cultura de Pernambuco/ Fundação do Patrimônio histórico e Artístico de Pernambuco (SECULT/Fundarpe). O FIG acontece a vinte e três anos na cidade de Garanhuns, e a doze possui uma programação extensa na comunidade de Castainho. O Festival acontece durante quinze dias de julho e envolve um grande número de sujeitos, desde comunidades tradicionais da região, produtores culturais, prefeituras, ong´s, patrocinadores, além de diversas diretorias dentro da própria Fundarpe. Existe um pólo na comunidade chamado de Pólo Castainho, onde as ações devem ser pensadas para o contexto quilombola. Quais são estas ações e o que o poder público entende como contexto são alguns dos aspectos que serão questionados no decorrer do trabalho.

É importante ressaltar que o FIG é um evento e, como tal, deve ter o seu caráter efêmero e pontual ressaltado. Todavia, o foco desta pesquisa está nas situações de negociação e tensão que envolvem o planejamento e a execução do festival, enquanto parte de uma política pública para a cultura, uma vez que a ênfase dada aos eventos pela atual Secretaria de Cultura de Pernambuco, tem levados os funcionários do governo a definir suas ações como parte de uma “política de festivais”. O FIG faz parte do programa Festival Pernambuco Nação Cultural (FPNC), que envolveu em 2012 uma série de dez festivais, que acontecem em todo o estado de Pernambuco.

É possível perceber, nestas duas ações, a presença de uma visão de “cultura” quilombola em diálogo com uma noção de “cultura” negra ou afro. Sob este contexto, acreditamos que estes projetos se relacionam a um conceito de “cultura”[1] em constante disputa e, por conseguinte, em transformação, pela ação dos diferentes sujeitos envolvidos neste processo.

De acordo com as proposições de Fraser (2007), estas ações de política cultural podem ser pensadas como políticas de reconhecimento. Tais políticas partem do que a autora chama de “modelo de identidade”, em que a identidade de grupo passa a ser objeto de reconhecimento. Este modelo traz em si uma série de problemas como a simplificação da identidade de um grupo, negando a complexidade da vida dos indivíduos, a multiplicidade de suas identificações e as intersecções das suas várias afiliações.

A análise de Fraser nos ajuda a pensar como estas políticas públicas de reconhecimento trazem em si padrões institucionalizados de valoração cultural, que, ao invés fornecer aos membros de uma sociedade a possibilidade de participar como iguais na vida social acaba por fortalecer a subordinação social, no sentido de ser privado de participar como igual da vida social. Segundo este raciocínio, a própria criação de direitos políticos estaria baseada numa idéia de identidade de grupo que homogeniza toda a diversidade interna existente na cultura. Isto, por si só, não invalida os avanços ocasionados por estas políticas, mas chama atenção para as tensões existentes nesse processo.

Desta forma, a comunidade quilombola de Castainho mostra-se um campo profícuo para pensar os incentivos externos à cultura no contexto quilombola, no qual são marcantes as questões de etnicidade e identidade cultural, relacionado às quais seriam os reais rebatimentos desta política para a comunidade. Além disso, tal discussão poderá trazer importantes contribuições conceituais a respeito da noção de africanidade e cultura “afro” no campo das políticas culturais.

No que diz respeito à especificidade da comunidade em questão, pretende-se deslocar o foco das discussões que comumente envolvem comunidades quilombolas no Brasil. Reconhece-se que a questão do território é de extrema relevância, podendo ser considerada com uma das maiores causas da situação de vulnerabilidade e insegurança na qual vive grande parte dos quilombos do Brasil. Destarte, questões territoriais e fundiárias tornaram-se pauta freqüentes na bandeira dos movimentos sociais quilombolas, e ganhou grande destaque nas produções acadêmicas.

Acredito não ser possível desvencilhar a discussão sobre quilombos da questão do território, mas acredito também que ela não pode se restringir a este aspecto. Neste trabalho, o foco da discussão não estará, portanto, em questões relacionadas à dinâmica territorial da comunidade de Castainho, mesmo que esta seja uma questão de fundo, uma vez que as ações de política cultural existentes no território partem do reconhecimento da comunidade enquanto quilombo e do seu direito garantido pela Constituição Federal. E, como já foi dito, a projeção nacional alcançada pela comunidade está relacionada à sua luta pelo território. Todavia, as perguntas que faço dizem respeito à política cultural numa comunidade publicamente reconhecida como culturalmente diferenciada, mesmo que juridicamente esta não possua a documentação final de posse da terra.

Desta forma, ressalto a comunidade como um importante local de encontro entre diferentes visões, sentidos e conceitos, por meio das políticas públicas da cultura. Questiono se é possível pensar uma comunidade como Castainho tratando de seus processos internos, (identidade, política, território) ou externos (mobilização, acesso a recursos, visibilidade) de forma isolada. Acredito, e tentarei demonstrar durante o trabalho, que partindo do que acontece no ambiente da comunidade é possível perceber as concepções que estão em trânsito e em disputa na elaboração de políticas de políticas públicas para a cultura.

 

Bibliografia

 

CUNHA, Manuela Carneiro da. 2009. Cultura com aspas. São Paulo: Cosac Naify.

FRASER, Nancy. 2007. “Reconhecimento sem ética”. Revista Lua Nova, 70:101-138, São Paulo. Disponivel em: < http://www.scielo.br/pdf/ln/n70/a06n70.pdf>. Acesso em 10/09/2012.

RUBIM, Antonio Albino Canelas (Org.). 2010. Políticas culturais no governo Lula.  Salvador : Edufba. pp. 9-24.

____. 2007. Políticas culturais: entre o possível e o impossível. In: G. MARCHIORI (Org), Teorias e políticas da cultura: visões multidisciplinares. Salvador: EDUFBA. pp 139-158.

 

 

Jaqueline de Oliveira e Silva
Mestranda em Antropologia
Universidade Federal de Pernambuco
Bolsista Capes
Currículo Lattes

 



[1] Neste momento, faço referência proposta por Cunha (2009) acerca dos diversos sentidos atribuídos atualmente a este termo pelos grupos sociais, diferenciando-se conceitualmente no que a autora define como “cultura com e sem aspas”. Tal diferenciação mostra-se bastante eficiente para pensar como uma determinada sociedade articula diversas ações em prol do que ela considera como pertencente à cultura.

 

Novas Pesquisas - Blog



OS TERNOS DE CONGADO EM MINAS GERAIS: SUAS VARIAÇÕES MÍTICAS, RITUAIS E O ESQUEMA FESTIVO

  

1. congadeiros e bandeira de n. sra do rosrio 1.Congadeiros e bandeira de N. Sra. do Rosário. São João del Rei, 2007. Créditos Daniel Albergaria Silva

 

Daniel Albergaria Silva
Doutorando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora

 

Os coletivos denominados “ternos de congado” realizam cortejos em algumas festas organizadas em homenagem à “Nossa Senhora do Rosário”, onde através do canto, da dança e da manipulação de objetos simbólicos saúdam santos não apenas católicos, coroam Reis Congos e dialogam com outros grupos de congado. Para além dos materiais etnográficos coletados por ocasião da dissertação de mestrado (Silva, 2009), pretendo explorar agora temas míticos e rituais dos festejos, assim como estender a abordagem sobre suas variações valendo-se de um esquema geral desta festa que ocorre em diferentes locais do Brasil. 

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AL-HARAKAT SHIBAAB SITTAH ABRIL. PERFORMATIVIDADE E MEMÓRIA CORPORAL NA PRIMAVERA ÁRABE CAIROTA, EGITO

 

potyguaraalencar menor
Imagem utilizada pelo Al-Harakat Shibaab Sittah Abril em seus manifestos

  

Potyguara Alencar dos Santos
Doutorando em Antropologia Social
Universidade de Brasília


“The modern Egyptian metropolis, to the inhabitants of which most of the contents of the following pages relate, is now called ‘Masr’; more properly, ‘Misr’; but was formerly named 'El-Kahireh’; whence Europeans have formed the name of Cairo” (Lane, 1973 [1833-1835]: 4).

 

“Não lhe ocorre deixar que o egípcio fale por si mesmo, visto que, presumivelmente, qualquer egípcio que venha a falar será antes, ‘o agitador que quer criar dificuldades’” (Said 1990: 44).

 

 O nome de uma praça nunca antes noticiado para o mundo de maneira tão expressiva agora surgia pela imagem de uma multidão da qual não sabíamos se estava concentrada para festejar uma ritualística cívica ou para praguejar contra o nome do “seu” governante: “Saia, Mubarak!”. Tahrir, no centro da metrópole cairota, abria-se aos eventos que a imprensa alcunharia a partir de então de Primavera Árabe; denominação genérica que passava a representar os movimentos sociais em proliferação nos países da África Norte-Saariana, Oriente Médio e Península Arábica, resultando na derrubada de uma série de governantes nacionais. O termo Primavera Árabe é tomado de empréstimo da denominada Primavera dos Povos (Les Printemps des Peuples) que eclodiu no ano de 1848, na Europa central e oriental, quando representantes das classes média e baixa de alguns países passaram a questionar a continuidade dos regimes monárquicos e autocráticos desinteressados com os problemas econômicos e políticos nacionais (Fejto 1948).  

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A STUDY OF/ON INDIA’S MIDDLE CLASS

 

Soumodip Sinha
M. Phil in Sociology
University of Hyderabad, India

 

Colonialism (either in a settled or non-settled form) has been a common feature to the Global South. In the Indian context, a significant product of the colonial regime and its administrative policies was the middle class. An organic link can be established between colonialism and this class. However, in contemporary times, the discussion on the changing contours of the middle class has rejuvenated and has assumed significance in India as well as globally. This discussion has absorbed itself within the contemporary debates on globalization, global capitalism and social change. What are the significant factors behind these developments? Why has the middle class assumed enormous significance in contemporary times and how do we study it? In my research work, I have reviewed and analyzed the literature (debates and discussions) on the middle class, especially on the ‘new’ middle class; in doing so, I have assessed the range and depth of the debates taking place on this conceptual category and have located the theoretical approaches that have been used to study it. 

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“É PRECISO CONHECER O CONTEXTO DA COMUNIDADE”: POLÍTICAS CULTURAIS NA COMUNIDADE QUILOMBOLA DE CASTAINHO, PE

 

Jaqueline de Oliveira e Silva
Mestranda em Antropologia
Universidade Federal de Pernambuco

  

O presente texto refere-se à pesquisa de mestrado em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco, que se encontra atualmente nos momentos iniciais de elaboração.  Situada no campo da Antropologia da Política, seu foco são os discursos e tensões envolvidos no processo de planejamento e execução de políticas culturais em comunidades tradicionais. Como um estudo de caso, trato da comunidade quilombola de Castainho, localizada no agreste do estado de Pernambuco.

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“BRILHAM ESTRELAS DE SÃO JOÃO!”: HOMOSSEXUALIDADES E TRAVESTILIDADES MASCULINAS NAS FESTAS JUNINAS DO PARÁ

  

Rafael da Silva Noleto
Doutorando em Antropologia Social
Universidade de São Paulo

 

Esta pesquisa assume como ponto de partida a noção de que os períodos de congregação social, os quais, muitas vezes, denominamos como “festas” podem ser compreendidos tanto como ocasiões rituais de aproximação de pessoas e grupos sociais quanto como momentos de transposição das fronteiras que delimitam esferas de significação e atuação para diferentes sujeitos inseridos em um dado contexto social[1]. Assim, esta pesquisa é dedicada à análise de um contexto festivo (as festas juninas) a partir da problematização do protagonismo homossexual e travesti identificado nos concursos de danças juninas e de “Miss Caipira Gay” realizados no mês de junho na cidade de Belém e em muitos municípios do interior do Estado do Pará.

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