Associação Brasileira de Antropologia

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Mulheres, futebol e o “Padrão FIFA”


 

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 Treinos no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), em São Paulo. Créditos: Mariane Pisani.

 

Mariane da Silva Pisani
Doutoranda em Antropologia
Universidade de São Paulo

  

No início de 2013, inúmeras manifestações sociais eclodiram pelo país mostrando o descontentamento da população com os altos investimentos realizados para a organização da Copa do Mundo que será sediada no Brasil em 2014. “O povo exige escolas, hospitais, estradas, segurança pública, saneamento e moradia no ‘Padrão FIFA’”. Essa e outras mensagens eram encontradas nos cartazes e faixas expostos pelos manifestantes durante as passeatas nas grandes capitais brasileiras. Na qualidade de grande entusiasta do futebol, sobretudo do Futebol Feminino, confesso que por vezes senti-me incomodada com tais dizeres. Dessa forma, mais do que apontar a Copa do Mundo como vilã usurpadora dos investimentos financeiros públicos, acredito ser importante refletir como as atletas, especificamente as jogadoras de futebol brasileiras, posicionaram-se a respeito desses protestos. 

 Mas por que escolher as jogadoras de futebol para pensar nas reverberações de tais manifestações? Porque falar de esporte no Brasil é falar de futebol. Por ser considerado o principal esporte nacional, emissoras de televisão, rádios, jornais e internet destinam cotidianamente suas principais manchetes a todo tipo de informação advinda dessa prática. O futebol, inclusive, é considerado um caminho para a ascensão social e financeira de quem o pratica. Pais investem desde cedo na carreira futebolística de seus filhos pequenos. Assim, das transferências multimilionárias à exposição da vida pessoal dos atletas, nada escapa aos meios de comunicação. Contudo, não é sobre qualquer futebol de que se fala. O futebol que é amplamente noticiado, estudado e divulgado é aquele praticado por e feito para homens. Mulheres que pratiquem futebol e que o escolham como meio de vida são pouco vistas ou pouco lembradas, e, diferente dos homens, raramente enriquecem através dessa prática esportiva.

Nas produções acadêmicas antropológicas brasileiras, destinadas a pensar e problematizar os esportes, o futebol praticado por homens também ocupa um espaço de destaque. Ainda são poucos os pesquisadores e as pesquisadoras que se propõem a pensar outras práticas esportivas, e quando o fazem precisam, na maioria das vezes, enfrentar alguns obstáculos advindos das escolhas metodológicas e teóricas para realizar seus trabalhos de campo.

Após quatro anos pesquisando exclusivamente a prática esportiva do Futebol Feminino, alguns percalços precisaram ser superados para que esse estudo encontrasse seu lugar de reconhecimento dentro da própria Antropologia, bem como dentro da Antropologia dos Esportes. O principal deles é não utilizar o futebol dos homens como objeto de comparação, pois apesar de ser o mesmo esporte, o futebol praticado por mulheres e o futebol praticado por homens possuem lógicas e organizações distintas. Outra dificuldade encontrada foi a escolha e delimitação do arcabouço teórico. Por vezes, por se tratar de uma pesquisa sobre futebol e mulheres, é exigido que a pesquisa esteja ancorada majoritariamente nos Estudos de Gênero. Contudo, a Antropologia Urbana aliada à Antropologia do Esporte, e seus desdobramentos nas sociedades complexas, conseguem abarcar e problematizar com maestria os questionamentos que nascem deste campo de pesquisa.

 

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Treinos no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), em São Paulo.
Créditos: Mariane Pisani.

 

 

 

Para superar tais obstáculos e dificuldades, foi preciso compreender e explicitar que é através das práticas esportivas – futebol, vôlei, basquete, tênis – que podemos evidenciar distintas formas de organização das sociedades. Afinal, estudar diferentes tipos de esporte e as diferentes pessoas que os praticam é mostrar como se constroem, se estabelecem ou se perpetuam, internamente nos grupos com os quais convivemos, as estruturas de poder, os aspectos sociais, políticos e culturais, a organização mercadológica e também, é claro, as questões de gênero.

Dessa maneira, repensar novas formas de se fazer Antropologia do Esporte no Brasil é mostrar como os outros esportes, e não somente o futebol dos homens, podem ser espaços profícuos para o estudo de novas formas de organização política, social e cultural. O Futebol Feminino, bem como as outras práticas esportivas, constituem-se enquanto campos de investigação com múltiplas potencialidades e tornam-se espaços significativos de alcances simbólicos. Assim, as jogadoras de futebol brasileiras tornam-se uma parcela representativa da população que exprime desejos políticos e sociais de acordo com os seus interesses.

Na esteira das manifestações ocorridas em meados de 2013, atletas, árbitras e técnicas da modalidade posicionaram-se de modo diferente ao da maioria dos manifestantes, não porque achassem que as reivindicações de melhorias na saúde, no transporte ou no saneamento não fossem necessárias, mas porque a Copa do Mundo de Futebol traria outros avanços também considerados importantes. Novos investimentos e reformas seriam feitos nos estádios dos times de futebol praticado por homens para os quais elas torciam, e isso era um ponto a ser considerado uma vez que, na qualidade de torcedoras, sentiam-se contempladas. Outro motivo para apoiarem a organização da Copa devia-se ao fato de que o governo brasileiro estava, finalmente, voltando sua atenção para a prática futebolística das mulheres. Inclusive, alguns investimentos foram feitos na área nos anos de 2012 e 2013 e um novo campeonato nacional foi criado: o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino. Algumas acreditam ainda que através da Copa do Mundo de Futebol, dos Jogos Olímpicos de 2016 e dos investimentos que têm sido feitos em nome desses megaeventos, que outras modalidades esportivas podem adquirir importância no cenário político, social e cultural brasileiro.

Contudo, mesmo ancoradas nesses motivos para apoiar e desejar a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos de 2016, as jogadoras de futebol com quem conversei acreditam, também, que ao final desses eventos o Futebol Feminino voltará a ser um esporte marginalizado e desvalorizado. Dizem ainda que a boa onda de investimentos para os outros esportes irá até o ano de 2016, quando os Jogos Olímpicos finalmente acontecerão no Brasil. Após 2017, segundo elas, os esportes brasileiros, que não sejam o futebol dos homens, estarão novamente relegados a um segundo plano.

 

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Treinos no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), em São Paulo. Créditos: Mariane Pisani.

 

Há ambiguidade nos discursos dessas jogadoras, é evidente, mas fica cada vez mais exposta também a existência dos grupos não contemplados que permanecem à espera e lutam por um pouco mais de justiça ou visibilidade. A instabilidade e a insegurança que assolam o Futebol Feminino, bem como outras práticas esportivas, nos mostram que mais do que apenas desejar escolas, hospitais, estradas, segurança pública, saneamento e moradia é preciso desejar, urgentemente, educação Padrão FIFA. Ela certamente poderá ser alcançada pelas práticas de modalidades esportivas diversas que ganhem status de importância nacional e social, como hoje tem o futebol praticado por homens. Talvez assim, os esportes possam ser escolhas legítimas para pessoas que desejem viver deles. Como desdobramentos dessa paridade esportiva, novas formas de redistribuição e aplicação de dinheiro público seriam planejadas e, à medida que outros esportes adquiram também um caráter social relevante na sociedade brasileira, mais cidadãos poderão escolher o esporte como forma legítima de vida. Assim, em vez de privilégio de poucos, viver das ou para as práticas esportivas seria uma realidade mais equânime em nosso país.

 

 

 

Mariane da Silva Pisani
Doutoranda em Antropologia
Universidade de São Paulo
Currículo Lattes

Opinião



Mulheres, futebol e o “Padrão FIFA”


 

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 Treinos no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP), em São Paulo. Créditos: Mariane Pisani.

 

Mariane da Silva Pisani
Doutoranda em Antropologia
Universidade de São Paulo

  

No início de 2013, inúmeras manifestações sociais eclodiram pelo país mostrando o descontentamento da população com os altos investimentos realizados para a organização da Copa do Mundo que será sediada no Brasil em 2014. “O povo exige escolas, hospitais, estradas, segurança pública, saneamento e moradia no ‘Padrão FIFA’”. Essa e outras mensagens eram encontradas nos cartazes e faixas expostos pelos manifestantes durante as passeatas nas grandes capitais brasileiras. Na qualidade de grande entusiasta do futebol, sobretudo do Futebol Feminino, confesso que por vezes senti-me incomodada com tais dizeres. Dessa forma, mais do que apontar a Copa do Mundo como vilã usurpadora dos investimentos financeiros públicos, acredito ser importante refletir como as atletas, especificamente as jogadoras de futebol brasileiras, posicionaram-se a respeito desses protestos. 

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Estratégias de redefinição do Estado no contexto de reconhecimento das Terras de Quilombo no Brasil


 

Estratégias de redefinição do Estado no contexto de reconhecimento das Terras de Quilombo no Brasil

Quilombo da Lapinha (MG). Créditos: Elisa Cotta (PPGA/UFF)

 

Eliane Cantarino O’Dwyer
Professora  de Antropologia
Universidade Federal Fluminense

 

O objetivo deste texto é apresentar algumas reflexões e pontos de vista construídos a partir do papel que a disciplina antropologia tem desempenhado no campo da aplicação dos direitos territoriais às comunidades de quilombo, segundo a Constituição Federal de 1988[1]. 

No contexto dos debates sobre a aplicação do artigo 68 do ADCT, alguns deles travados no Congresso Nacional, e em diálogo com o Ministério Público Federal, a ABA, como associação científica, tem se manifestado a partir das posições disciplinares da antropologia e de um saber experiencial dos pesquisadores que a integram. Tais tomadas de posição têm questionado a utilização de formas de identificação e classificação estranhas aos próprios atores sociais, baseadas em critérios “historiográficos”, “arqueológicos”, “raciais” e/ou “culturais”, em busca do “sentido” considerado “correto”, “válido” e “verdadeiro”. Ao contrário, os antropólogos têm insistido na compreensão dos novos significados que o uso de termos, como “remanescentes de quilombos”, adquire nas ações sociais orientadas pela existência do dispositivo constitucional. 

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