Associação Brasileira de Antropologia

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SAPOS E PRINCESAS

 

RESENHA: VENCATO, Anna Paula. 2013. Sapos e Princesas: prazer e segredo entre praticantes de crossdressing no Brasil. São Paulo: Annablume.

 

 

 Reprodução da capa do livro resenhado

 

Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Bolsista CAPES

 

 

A leitura da etnografia realizada entre crossdressers por Anna Paula Vencato promove ao leitor uma experiência significativa de transporte ao universo dos sujeitos que ela nos apresenta. São detalhes sobre homens que se vestem de mulheres, uma experiência transitória de posição no gênero diferente ao qual está habituado. Antes de se montar são sapos, com a montagem – maneira como chamam estar vestida de mulher –, são princesas.

 

Resultado de sua tese de doutoramento defendida em 2009, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Sapos e Princesas: prazer e segredo entre praticantes de crossdressing no Brasil, editado pela Annablume, trata-se de um trabalho importante por situar de maneira não patologizante as experiências de crossdressings no nosso país. O livro se divide em cinco capítulos que situam o leitor de maneira detalhada entre os eventos organizados pelas crossdressers, e com isso, a análise de seus processos, a visibilidade de suas categorias nativas de explicação de suas práticas, e as nuanças entre noções de masculino e feminino, corpo e desvio.

Foram três anos de trabalho de campo, de 2007 a 2009 – iniciado de maneira mediada pela Internet no início de 2007 e efetivado face a face no final do mesmo ano –, que Vencato circula por histórias e vivências de se vestir do outro gênero entre homens de classe média e classe média alta do contexto São Paulo-Rio de Janeiro, principalmente. A autora se defronta com interlocutores multissituados, reunindo-se em ocasiões para compartilharem e se apoiarem no se vestir de mulher. Etnografia que se mostrou de difícil realização, pela dificuldade de acesso inicial.

A autora se defronta com uma série de negociações realizadas pelos sujeitos entre estar montada e suas outras instâncias de vida, como trabalho, relações familiares e amorosas etc. Definir essa experiência do crossdressing como simplesmente se vestir do outro gênero acaba por limitar o entendimento desse fenômeno, como bem nos explica a autora. Para o saber biomédico e psi, teríamos diante de nós uma experiência que representaria um transtorno de identidade de gênero. Afinal, desde que John Money (1981) surgiu com a naturalidade do gênero, e Stoller, em certa medida, institucionalizou tal transtorno, parece difícil, a este saber, pensar em diferentes maneiras de vivenciar o gênero que não seja o aliado à norma geral em vigor. Parece inconcebível a tais entendimentos que um homem possa desejar se vestir de mulher e construir todo um conjunto de esquemas interpretativos que continuem ou não com sua masculinidade quando não estiver montada. Parece que a transição, na maioria das vezes transitória, que essa experiência enseja, materializaria uma transfiguração do homem e do masculino que se permite transitivar-se pelo feminino e pela mulher.

Anna Paula ultrapassa os limites de como os sujeitos pensam as noções de gênero nessa experiência de crossdressing e reflete sobre as sociabilidades em torno de negociações, noções de desvio, hierarquias, diferenças, interferências corporais, vestuário, relações intrafamiliares a partir do crossdressing; e, o que descreve com detalhes, a organização, ou o que Simmel (1950) chamaria, a associação de indivíduos com pensamentos em comum, mas diferentes, sendo esse autor muito influente no trabalho de Vencato, inclusive nas entrelinhas.

As crossdressers se organizam em grupos secretos para se ajudarem na experiência se montar ou se vestir de mulher. Nisso, cria-se contornos de lidar com o medo de sair às ruas vestidas de mulheres e a de se reconhecerem enquanto crossdressers. Embora o Brazilian Crossdresser Club seja conhecido de certo modo, as identidades de seus membros são protegidas, uma vez que nem sempre têm revelado em casa sua prática. E, é através das relações estabelecidas por meio desse Clube que a autora irá realizar sua etnografia situada inicialmente no evento das Olim...piadas. Um evento grande que abarca socialidades entre crossdressers e apoiadoras (Supportive Opposites, Genetic Girls) em um hotel afastado do olhar transeunte, que protege e dá liberdade para sentirem o vestir e o transitar no gênero feminino.

Esta resenha não me permite maiores delongas. Dentre as muitas contribuições deste livro encontram-se as observações da autora, de base etnográfica, de que as crossdressers não constituem um grupo homogêneo, podendo haver vários crossdressings – o que é importante para não engessar identidades. Além disso, pontua que não se trata de uma experiência de indivíduos transtornados ou doentes; e, a principal contribuição que visualizo é a de posicionar as falas desses sujeitos em esquemas de significado e de interpretação da própria vida de maneira legítima. São homens, “são quase mulheres”, estão entre o montar-se e o desmontar-se. São princesas aptas a viverem suas feminilidades, seu prazer, e sapos em terem suas práticas em segredo.

 

Referências Bibliográficas:

MONEY, John. 1981. Os papéis sexuais. São Paulo: Brasiliense.

SIMMEL, Georg. 1950. The Sociology of Georg Simmel. Translated and Edited by Kurt. H. Wolff. Glencoe, Illinois: The Free Press.

 

 

Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego

 

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Bolsista CAPES
Currículo Lattes