Associação Brasileira de Antropologia

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Fórum

 

A ideia da presente seção é funcionar como uma espécie de “seminário virtual”, centrado em uma questão (teórica ou política) contemporânea, em torno da qual pesquisadoras serão convidadas a refletir criticamente. Não se trata de um dossiê, propriamente, apenas composto por artigos de pesquisas individuais, mas sim de uma discussão proposta em torno de um problema específico.

A seção funciona do seguinte modo: um pesquisador propõe uma questão, denominada aqui de "O Problema"; em seguida, pesquisadores são convidados a apresentar suas reflexões sobre o problema lançado, submetendo textos inéditos, e que podem ser articulados com suas pesquisas; por fim, com a publicação do número de Novos Debates, toda leitora interessada pode enviar sua contribuição ao Fórum, de modo a dialogar com os textos inicialmente publicados.

Os textos de leitoras serão recebidos até quatro meses após a publicação do número e devem ser enviados ao email This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it. . A extensão máxima é de 5 páginas, incluindo bibliografia, e prezaremos pela sua qualidade. Convidamos, assim, nossos leitores a enviar suas contribuições e construir conosco esse importante Fórum de debates.

 

 

Fórum v.1, n.2

 

O PROBLEMA

 

 

Wagner Xavier Camargo

Pós-doutorando em Antropologia
Universidade Federal de São Carlos
Bolsista FAPESP

 

 

 

 

Se você quer compreender o que é a ciência, você deve olhar, em primeiro lugar, não para as suas teorias ou as suas descobertas, e certamente não para o que seus apologistas dizem sobre ela; você deve ver o que os praticantes da ciência fazem. (Clifford Geertz, 2011: 4)

 

 

A Copa do Mundo de Futebol tem mobilizado emoções de diversas ordens, ocasionado revoltasde indivíduos e grupos, de militantes e ativistas, de ricos, pobres e de uma “classe média alta” (que até fez protesto com camiseta, em campanha publicitária), incitado debates públicos acerca de gastos com as estruturas, gerado debates infinitos sobre desvio de verbas e causado um desconforto generalizado. Nos momentos anteriores à abertura e ao início do torneio internacional em terras brasileiras, não sabemos exatamente o que sentimos, e muito menos o que esperamos de dentro e fora dos gramados.

Numa iniciativa inédita, a Revista Novos Debates traz a/aos leitoras/es deste fórum de discussões uma polêmica viva acerca do momento em que vivemos: o que pensar da Copa do Mundo de Futebol (masculino) e quais as implicações de todas as problemáticas que a envolvem na atualidade? Para tanto, alguns cientistas sociais que se debruçam sobre uma sociologia/antropologia práticas esportivas foram convidados a se expressarem e a nos mostrarem como as pensam cientificamente.

Assim, o propósito deste espaço de discussão não é engessar problemáticas ou pré-determinar linhas de argumentação. As temáticas sobre a Copa do Mundo de Futebol (masculino) estavam à disposição e cada um ponderou como quis. Eis o resultado. A seguir, temos belos e críticos textos de cientistas sociais empenhados a entender (mais e melhor) os fenômenos que envolvem este evento e os (então denominados) megaeventos esportivos.

Partindo, desse modo, de todo um emaranhado de questões, o texto de entrada do fórum de discussões é de Arlei Damo, que reitera, à semelhança do que faz um psicólogo frente a um surto psicótico de seu paciente, um dado de realidade visível e inconteste: vai ter Copa no Brasil! Sua afirmação principal é a de que, em que pese a campanha “não vai ter Copa”, impulsionada por movimentos sociais e partidos políticos específicos, a competição efetivamente se realizará. Por isso, segundo o autor, “Copa para quem?” seria um slogan mais instigante para refletir sobre o contexto. Da leitura de suas inquietações, resta-nos indagar se os ativistas, direta ou indiretamente, semearão, de fato, durante a Copa a colheita dos protagonistas das Eleições Gerais de outubro?

A seguir, deparamo-nos com o ensaio sagaz de Luiz Henrique de Toledo. O autor mostra o triunfante retorno do bordão “futebol, ópio do povo”, agora insinuado dentro do contexto caótico da realização da Copa mundial de futebol e o recoloca justamente no centro dos protestos contra o evento, no sentido de dizer que a FIFA, com suas imposições, controle e designações acerca do imponente “Padrão FIFA”, reatualizaria tal pecha para si mesma na atualidade. Além disso, pondera ainda sobre uma provocação de Bruno Latour, pensada a partir de uma exposição de artes, na Alemanha, início dos anos 2000. Iconoclash é a instabilidade, o enigma, distante da iconofilia e da iconoclastia, escolhido para “lugares, objetos e situações em que há uma ambiguidade, uma hesitação, (...) quanto a como interpretar a construção da imagem e a destruição da imagem” (Latour, 2008: 123). Para Toledo, o interessante agora é perceber os iconoclashes que circundam e envolvem o futebol, produzindo contrapontos ou desestabilizações acerca da iconoclastia em torno do próprio fenômeno (e de sua estrutura).

Por sua vez, Alexandre Vaz brinda-nos com um escrito que traz algumas facetas do futebol enquanto negócio. Há, para ele, uma dimensão mercadológica em torno do esporte que se iniciou nos anos 1970 e já expusera, àquela época, os volumosos ganhos da então FIFA, sob o comando do brasileiro João Havelange. Passados 40 anos, o business em torno do fenômeno futebolístico só cresceu: haja vista, segundo o autor, as obras de recuperação ou construção dos 12 estádios e suas estruturas. Como bem salienta Vaz – e de tácita concordância para quem conhece algumas das megaestruturas esportivas em âmbito internacional – tais estádios oferecerão mais do que espaço para uma contenda. São lugares de conforto, de venda e consumo de mercadorias, de visibilização de produtos dos clubes, de construção de verdadeiras experiências, no sentido estrito do termo. Participando ou não de tudo isso, Vaz profetiza que nada, nem ninguém, ficará imune à Copa de Futebol no Brasil.

Em seguida há as ponderações de José Renato Araújo, que arquiteta uma conexão entre as políticas públicas adotadas no país em respeito aos megaeventos esportivos e a tentativa de compreensão das mesmas por parte de cientistas sociais, que estabelecem pressupostos importantes para desvelar os arranjos responsáveis pelo pagamento das contas em níveis municipal, estadual e federal. Relata-nos, portanto, sobre suas investigações junto aos Tribunais de Contas Estaduais, responsáveis oficiais pelo controle de gastos das unidades da federação, e sobre suas intenções de pesquisa nos Tribunais de Conta da União. Das etapas preliminares, segundo o autor, resulta que os investimentos feitos para a realização da Copa provieram de recursos públicos, fato que realmente alça ao centro do debate tais tribunais de contas e o próprio Estado brasileiro, passando a serem, assim, tópicos investigativos fundamentais.

Um último exercício de escrita deste compêndio crítico, e notadamente desviante das problemáticas em pauta até então postuladas, encontra-se na reflexão de minha autoria que generifica a Copa e o futebol. Deixo leitoras/es instigadas/os a lê-la, porém, adianto que tento desvelar pressupostos e prerrogativas tácitas em relação a gêneros, corpos e sexualidades que estão subsumidos a todas essas discussões que dizem respeito ao futebol e a sua Copa Mundial (masculina) em processo de realização no Brasil.

Ao fim e ao cabo, os escritos deste fórum pretenderam abordar o futebol nacional/global e a Copa masculina mundial da FIFA sob distintas perspectivas analíticas (interdisciplinares, inclusive), que, juntas, oferecem um mosaico interessante de ser apreciado. Como de praxe, resta-me apenas desejar-lhes boa leitura!

 

Referências Bibliográficas

GEERTZ, Clifford. 2011. A Interpretação das Culturas. 1 ed [reimpr.]. Rio de Janeiro: LTC.

LATOUR, Bruno. 2008. “O que é iconoclash? ou, há um mundo além das guerras de imagem?” Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 14, n. 29, p. 111-150, jan./jun.

 

 

 

Wagner Xavier Camargo

Pós-doutorando em Antropologia
Universidade Federal de São Carlos
Bolsista FAPESP
Currículo Lattes

 

VAI TER COPA NO BRASIL

 

 

Arlei Sander Damo

Doutor em Antropologia Social
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/UFRGS

 

  

Por uma série de razões, o Brasil seria sede de uma Copa do mundo de futebol mais dia, menos dia. Lula tem sido criticado pela adesão ao projeto da FIFA, mas qualquer outro chefe de Estado que estivesse em seu lugar, naquelas circunstâncias, provavelmente teria feito o mesmo. Por parte da FIFA, havia o desejo de realizar o torneio no continente sul-americano e por razões econômicas, políticas e futebolísticas o Brasil era o país preferido. Nossa economia expandia-se vigorosamente e a crise de 2008 não estava no horizonte – a oficialização da escolha foi em novembro de 2007, mas Lula e Blatter haviam batido o martelo, pelo menos, um ano antes. A diplomacia esforçava-se para tornar o país influente na política internacional. A população era amplamente favorável, como revelaram pesquisas de opinião da época. Relatórios feitos por consultorias prestigiadas no mercado faziam previsões alvissareiras e a grande mídia as divulgava como se fossem confiáveis – uma dessas consultoras, muito bem reputada pelo mercado, chegou a prever, só com os megaeventos, a geração anual de empregos equivalente ao total do que foi efetivamente gerado nos anos de 2011 e 2012 juntos! Como poderia um presidente com pretensões eleitorais recusar a oportunidade oferecida pela FIFA em tais circunstâncias? 

Não é novidade que Lula, além de gostar de futebol, é um otimista contumaz, do contrário não teria chegado à presidência. Mas nesse caso, ele foi um pouco longe demais, acreditando no discurso envernizado da FIFA - articulado no tripé: oportunidade, investimento e legado – e numa convergência improvável de iniciativas a fim de preparar o Brasil para uma disputa futebolística em padrões europeus. Para que a Copa se tornasse um sucesso teria sido necessário que a gestão pública – federal, estadual e municipal – fosse articulada e eficiente, tanto na elaboração de projetos quanto no licenciamento, contratação e fiscalização das obras; que a iniciativa privada estivesse disposta a correr riscos, investindo por conta própria ou em parceria com o governo; que os dirigentes de futebol fossem probos e tomassem a iniciativa de organizar o evento, como ocorre em quase todos os países onde se realizam megaeventos; que a imprensa dita burguesa se comportasse em relação à malversação de recursos públicos e obras mal projetadas ou mal executadas como se comporta quando seus parceiros estão no poder – o que não é bem o caso; que o Ministério Público, o Tribunal de Contas da União e outras agências de fiscalização deixassem de realizar o elementar que se espera delas; que no Congresso Nacional não houvesse oposição; que todos os movimentos sociais fossem acomodados nos ministérios. Enfim, que o Brasil fosse muito diferente do que é. 

Em que pese a campanha “não vai ter Copa”, patrocinada por alguns movimentos sociais e coletivos mais arrojados – liderados, basicamente, por anarquistas e por quadros ligados ao PSOL e ao PSTU –, a competição vai se realizar, mas com muitas nuances em relação à festa que a FIFA e seus parceiros comerciais imaginaram. Mesmo que ao longo da competição haja uma mudança radical de atitude, não teremos uma multidão nas ruas dançando abraçada à mascote oficial do evento. A pouco tempo do início dos jogos, não há entusiasmo nas ruas e nas manchetes dos jornais predominam notícias ruins, apesar da mobilização governamental para reverter o quadro. Poucas vitrines exibem a decoração alusiva à Copa e as crianças ainda não estão fantasiadas a caráter, como de costume. A convocação do time que vai representar o Brasil ocorreu no final de maio, sem lobby, contestação ou polêmica, muito diferente do habitual. 

Parece que a Copa vai ser em Plutão e o anticlímax se deve, em grande medida, aos protestos que ocorreram em junho de 2013, cujo ápice coincidiu com a Copa das Confederações, evento teste para a competição principal. Na ocasião, protestou-se contra tudo e contra todos, inclusive contra a Copa. “Copa para quem?” foi um slogan bem pensado, que colocou em cheque os interesses da FIFA e a pertinência dos gastos governamentais. O dinheiro disponibilizado para a construção e reforma dos estádios é menos do que 10% do orçamento anual do Ministério da Saúde ou da Educação e terá de ser devolvido ao BNDES nos próximos anos – por empreiteiras ou por governos estaduais. Desta perspectiva, o aporte de recursos públicos não soa tão disparatado – ou não mais do que o usual, pois o BNDES, uma agência pública, empresta altas quantias a grandes empresas privadas. O que deixou a população indignada foi antes uma questão de economia moral, muito bem performatizada em cartazes carregados pelos manifestantes, que exigiam o “padrão FIFA” para escolas e hospitais. 

A propósito, o que se passa com a Copa lembra, em muitos aspectos, a comemoração dos “500 anos do ‘descobrimento’”. Naquela ocasião, o governo programou uma festa, esquecendo-se que a ocupação europeia poderia ter outro significado. Foi um desrespeito absurdo com os povos tradicionais e a festa não poderia senão ter terminado de forma melancólica, com uma comemoração oficial envergonhada e uma manifestação incisiva dos movimentos sociais que se solidarizaram às causas indígenas e quilombolas. Pouco mais de uma década depois desse triste episódio, repetem-se alguns equívocos. Por mais grandioso que seja um evento como a Copa, seu impacto é incomparável à conquista e à dominação europeia iniciada há 500 anos. Mas é muito impopular usar recursos públicos para atender às demandas da FIFA, não só porque esses recursos fazem falta em outras áreas tidas como essenciais pela população, mas também porque as novas arenas não serão acessíveis à população durante a Copa. Menos de 1% dos brasileiros, a maior parte de classe média e alta, verão os jogos nas caríssimas e requintadas arenas. Os outros 99% assistirão pela TV, como sempre o fizeram.  O time que representa o Brasil nas copas tornou-se um símbolo laico da nação, entre outros motivos, porque constituído, invariavelmente, por diferentes perfis de classe e de etnia, espelhando uma ideia de nação idealizada. As novas arenas vão exibir um perfil de público elitizado, que escancara um projeto de nação excludente e concretamente realizado.  

Os protestos de 2013 tiveram múltiplas pautas e agentes, por isso é difícil produzir uma síntese sobre eles. Qualquer tentativa nesse sentido passa pela constatação de que tiveram ao menos duas fases, embora isso não tenha ocorrido em todas as cidades. Na primeira fase, tinham como pauta principal a mobilidade urbana e se articularam a partir do calendário anual de aumento das passagens. Saíram às ruas, basicamente, estudantes veiculados a partidos de esquerda (com destaque para PSOL e PSTU) e coletivos de diferentes matizes que sequer se reivindicam como movimentos sociais. 

De início, os gastos com a organização da Copa no Brasil não tinham maior destaque nos protestos. Mas em São Paulo e no Rio, houve uma protelação no aumento das passagens, de março para junho, e a mobilização contra o reajuste entrou no calendário da Copa das Confederações. O que era para ser um evento festivo, apenas, acabou incorporando elementos contestatórios. E o que era para ser uma manifestação política, transformou-se em boa medida numa festa, potencializando as reivindicações. Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar, muitas delas elegendo uma causa entre muitas que estavam à disposição – transporte público, saúde, educação, corrupção, direitos sexuais e assim por diante. 

As ideias anarquistas, renovadas pelo Occupy Wall Street (on line/off line) e pelos whistleblowers (on line), exerceram grande influência desde a primeira fase das manifestações, ficando nítida a rejeição às formas hierarquizadas de organização, razão pela qual não houve unificação de pautas e nem a constituição de lideranças para representar as ruas. Os manifestantes adquiriram notoriedade com suas performances, confundiram a polícia com suas andanças irrequietas e fundiram a cuca de muitos intelectuais de plantão que tentaram interpretá-los no registro do convencional. 

No ápice das manifestações, os grupos mais à esquerda, responsáveis por levar o descontentamento às ruas, perderam o controle sobre elas. No meio da multidão sobressaiu a performance black bloc, mas também se juntara a ela jovens cujos pais ou avós haviam participado da Marcha da Família, em 1964. Em certa medida, todos estavam ansiosos por sair do Facebook – o pessoal que é contra as ações afirmativas, a expansão do ensino público e o Programa Bolsa Família estava um pouco mais, tenho a impressão. Foi uma manifestação intensa enquanto durou, e repleta de paradoxos. Uma parte desses jovens se define como ativistas e tentam reinventar utopias na perspectiva de construir uma sociedade mais justa e inclusiva. Outros querem ser protagonistas, fazer a diferença, enfim, deixar uma marca e se dar bem. Ambos defendem a horizontalidade, mas os protagonistas não o fazem por influência anarquista – não leem Proudhon ou Bakunin; nem admiram Julian Assange. Esse pessoal é descolado, porque isso é bacana; são contra o chefe, praticam coworking e cultuam Steven Jobs e outros ícones do capitalismo contemporâneo. Sob certo aspecto, são o extremo oposto dos que fazem black bloc, mas nas Jornadas de Junho eles marcharam juntos (ou misturados), fazendo crer aos incautos que ativismo e protagonismo fossem sinônimos.   

O êxtase de tais jornadas pareceu algo efetivamente ritual, que cessou em pouco mais de uma semana. A performance black bloc, que em julho de 2013 deu o tempero apimentado às manifestações, também foi responsável por afugentar muitos manifestantes das ruas. Independente dos resultados práticos das Jornadas de Junho, ficou a indicação de que existem novos movimentos, atores e estratégias compondo a cena política. E o que poucos perceberam, há um país em franco processo de transformação, com velhas e novas contradições sendo afloradas.  

A impressão que vem das ruas, às vésperas do início da Copa no Brasil, é que os brasileiros gostariam de estar se preparando para a Copa da Rússia, que ocorre em 2018. Quase todos estão mais ou menos fartos de notícias sobre obras em atraso, gastos públicos injustificados, trânsito caótico em função de obras ou de protestos – alguns deles reunindo não mais do que duas dezenas de ativistas. Ninguém mais tem paciência para ouvir falar em legado, tampouco em legado intangível, embora o governo federal tenha retomado esta cantilena que a própria FIFA e o COI inventaram, mas que está fadada à obsolescência e terá de ser substituída por outra estratégia de marketing – fazer a Copa no Catar e na Rússia não deixa de ser uma alternativa, pois lá não haverá, ao que tudo indica, pessoas nas ruas com cartazes “FIFA go home”.

Sendo a Copa realizada no Brasil e envolvendo diversas instâncias governamentais, seu sucesso pode influenciar nas eleições. Não será como das outras vezes, em que o time da CBF – um símbolo laico da nação – dramatizava certos dilemas metafísicos da brasilidade, e assim que a Copa era dada por encerrada iniciava-se a discussão política, uma vez que em ano de Copa também temos eleições. Nesta ocasião os dois eventos estão emaranhados. Talvez a performance do time de Felipão não exerça grandes influências, mas a organização do evento pode render alguns pontos percentuais a favor ou contra o governo. A realização da Copa já faz parte da agenda política há pelo menos duas eleições – Lula anunciou o acordo verbal com Blatter às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial de 2006. Não há nenhum problema nisso; é antes um bom indício de que, apesar de tudo, vivemos numa democracia. Por conta disso, parece-me mais simpático o slogan “Copa para quem?”, que mobilizou os brasileiros para pensar no uso dos bens públicos, do que “Não vai ter Copa!”, escolhido para este ano, pois este último sugere um enfrentamento em momento delicado. A esta altura, os ativistas podem, indiretamente, semear, durante a Copa, a colheita dos protagonistas nas eleições de outubro.

       

 

 

 

Arlei Sander Damo

Doutor em Antropologia Social
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/UFRGS
Currículo Lattes

 

FIFA, ÓPIO DO POVO

 

Luiz Henrique de Toledo

Doutor em Antropologia Social
Programa de Pós-graduação em Antropologia Social - UFSCar

  

 

Grafite em muro da região central da cidade de São Paulo

 

A FIFA segue impondo, no formato dos megaeventos, o cálculo racional do consumo esportivo ampliado, cujo modelo de futebol alcança tantos as formas de jogar quanto as de torcer (Toledo 2002; 2012a, 2012b). No Brasil, a lei de no 12.663 de 5 de junho de 2012, mais conhecida como “Lei Geral da Copa”, que pesou sobre os ombros dos comitês locais, expressa o tamanho da ingerência que conduziu a organização do megaevento sediado no país.

No mais, não se pode perder de vista um movimento geral que incide sobre as transformações que seguem impondo ao futebol profissional transnacional a busca das maximizações instrumentais, constituindo a Copa boa oportunidade para se notar mais de perto algumas das ações da FIFA, sobretudo as que tensionaram a cultura esportiva e as conjunturas locais. Seria a Copa errada no lugar errado? Não foi a primeira vez que organizações internacionais foram capturadas e ressignificadas em discursos políticos diversos quando penetram o cotidiano das crises no país, cotidiano fomentado pelas mídias. A novidade é que agora foi um esporte que ganhou centralidade, ou se tornou uma espécie de idioma para alcançar críticas de toda ordem, políticas, econômicas e sociais.

Há pelo menos duas décadas esse movimento crescente de deliberações que resguardam a universalidade da prática do futebol profissional pelo mundo (Federação, confederações) impõem transformações severas que atravessam desde a prática dentro dos campos até a fruição fora deles. Em relação à sociabilidade torcedora um marco decisivo foi a tragédia no estádio de Hillsborough, em Sheffield nas semifinais da Copa da Inglaterra, onde morreram 95 torcedores no jogo entre Liverpool e Nottinghan Forest, devido à superlotação. Por décadas, a culpa recaiu incrivelmente sobre torcedores e o consumo de cerveja e, após várias revisões no processo e levante dos parentes das vítimas, não sem resistências, chegaram à organização do evento e à polícia, responsável pela segurança à época.

De lá pra cá se coibiram os dribles “desnecessários”, arguiram a vida íntima “desregrada” dos jogadores, censuraram o comportamento “desajustado” e violento dos torcedores, se atemorizaram frente às cidades “incontroláveis” que teimam não disciplinar os espaços urbanos onde se localizam as arenas erguidas para os megaeventos das sucessivas Copas, que cada vez mais são oferecidas a países (África do Sul, Brasil, Rússia, Qatar) fora do núcleo mandatário do futebol que reside em parte do continente europeu. O “Padrão FIFA”, tal como é conhecido o conjunto de medidas disciplinares do fato esportivo, ao se espraiar e rotinizar o futebol transnacional, deve controlar as imagens veiculadas, a escolha e gerenciamento dos signos (mascotes, cartazes, objetos, souvenires de todos os tipos), a comensalidade permitida; daí toda a celeuma gerada desde 2012 em relação ao controle sobre a comida de santo, os acarajés servidos aos torcedores em jogos da Copa em Salvador, na Bahia, e outras como o feijão tropeiro mineiro na sede em Belo Horizonte.

 

 

Grafite em muro da região central da cidade de São Paulo

 

 

Parto das provocações de Latour (2008) sobre o conceito de iconoclash, propriedade retida em alguns fenômenos ambíguos que cumprem funções mediadoras e de deslocamento na guerra entre convicções religiosas, artísticas, ideológicas e científicas, para agregar ou reagrupar aí também o futebol, modalidade entre os esportes que dialoga intensamente com todos esses outros domínios, e que produz aqui e ali seus iconoclashes, estimulando controvérsias que firmam contrapontos ou desestabilizam o movimento iconoclasta de depuração fenomênica, promovido pelos que organizam o futebol profissional contemporâneo.

Ao propor um profissionalismo sem a mediação ou pouco diálogo com muitos “outros”, porque ciosa de seus interesses, a FIFA produz iconoclastia ao seu modo em nome de uma tecnocracia a gerir um espetáculo sem arestas. Há décadas, o futebol fora “queimado” pela crítica intelectualista que o definia como sendo instrumento de amortização da crítica, ópio do povo e propulsor da lógica perversa da sociabilidade alienante das massas. O centro de gravidade parece que se deslocou para a FIFA e nada parece escapar-lhe. Os acarajés soteropolitanos servem de exemplo iconoclash no momento em que foram colocados numa posição de disputa intensa e “guerra” pelos significados embutidos numa Copa realizada no Brasil, só fazendo aumentar a desconfiança retórica do “Copa para quem?”, que animou os movimentos que espocaram aqui e acolá e que se mantêm ativos às vésperas da abertura do megaevento, prometendo antagonizar com o certame durante seu transcorrer.

A blindagem ao megaevento e o resguardo dos interesses da FIFA conviveram até às portas do jogo de abertura com índices de rejeição sem precedentes em se tratando do apego dos brasileiros ao futebol. “Em abril de 2014 pesquisas indicavam 55% de rejeição popular e o sentimento era de que a Copa traria prejuízos ao país” (Folha de S. Paulo, 08/04/2014).

Sendo assim, “Iconoclasmo é quando sabemos o que está acontecendo no ato de quebrar [em princípio estátuas, ídolos, num gesto de intolerância e fundamentalismo] e quais são as motivações para o que se apresenta como um claro projeto de destruição; iconoclash, por outro lado, é quando não se sabe, quando se hesita, quando se é perturbado por uma ação para a qual não há maneira de saber, sem uma investigação maior, se é destrutiva ou construtiva” (Latour 2008:113). Dentro dessa atmosfera é que encontramos a FIFA rivalizando com o próprio futebol e seleções no espaço da “guerra” midiática que se instaura em relação à sua posição de detentora e maior beneficiária do megaevento. 

As movimentações contra a Copa em São Paulo, algumas capitaneadas por frações de partidos de esquerda, na esteira de outros coletivos ou ajuntamentos insurgentes que se atiraram contra os ícones do capitalismo sem risco (a quebradeira de bancos e as barricadas nas ruas são exemplos visuais paradigmáticos dessa “guerra”) tentaram posicionar ideologicamente o problema na ordem de uma iconoclastia esportiva pura, sendo a Copa o véu que acobertaria os ilícitos e imorais arranjos que assolam a condução da coisa pública no Brasil. Nesse sentido, estende-se a quebradeira simbólica à FIFA como a grande causadora dos males e ingerência no país. Assim como se escutou, décadas atrás, as ruas bradarem contra o FMI, houve-se agora o “fora FIFA” como bordão que alinhavaria a costura dos vários protestos em curso. 

O retorno triunfante do discurso do ópio do povo parece que novamente se insinuou. Mas agora não seria propriamente o futebol o fator difuso de alienação das massas, formulado há tempos, sobretudo pelos setores intelectualizados, mas a própria FIFA, artífice maior do espetáculo futebolístico profissional em conluio com Estados e outros poderes públicos. Mas o “fora FIFA”, ao contrário do futebol ópio do povo, horizontalizou os protestos, saiu das universidades e de parte das elites letradas e alcançou a sociedade civil, das manifestações mais individuais aos movimentos mais específicos que amarraram o “fora FIFA” ao estopim de outras demandas e reivindicações pontuais, exemplo pode ser visto nos atos de maio de 2014 do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) pela cidade de São Paulo. A FIFA torna-se um fator que, agregado às manifestações, as amplifica, senão em volume de participantes, ao menos em visibilidade nas mídias.

O curioso é que há tempos alertou-se para esse fato. Uma ruidosa cascata de denúncias sobre improbidades administrativas, falta de clareza na condução dos contratos e quase ausência dos chamados legados aqui e acolá (obras de recuperação urbana, transporte e mobilidade, etc.), permitiram estabelecer a crítica generalizada à Copa, da esquerda à direita, portanto, vinda de muitos lados e alimentadas por inúmeras demandas específicas. Das ruas e nas manifestações pelas redes sociais muito se ouviu que as manifestações não eram contra o futebol, esporte ubíquo por excelência e sedimentado à cultura nacional, mas sim contra a Copa da FIFA e os políticos que permitiram sua viabilidade.

De todo modo, o futebol e suas projeções apareceram como estopins ou vetores de novos e criativos reajuntamentos pelas cidades, dialogando com várias demandas, religando esferas de produção de imagens e permitindo novas experimentações táticas na apropriação política dos espaços públicos.

E iconoclashes à sua maneira, movimentações em torno da Copa ou motivadas por ela fizeram uma multiplicidade de agentes coabitarem espaços urbanos contíguos, ambiguizando os sentidos mais corriqueiros entendidos como demandas políticas (convicções ideológicas, de classe, valores como cidadania, justiça, trabalho, lazer, direito sociais, direito à cidade, etc.). Daqueles francamente contrários ao megaevento esportivo, passando pelos torcedores, quase torcedores, não torcedores, o que se tem observado é a profusão e produção dessas intensas presenças no espaço urbano a despeito das articulações pelas redes, que produzem e conferem uma velocidade sem precedentes aos ajuntamentos. E valores culturais como nacionalismo, identidade brasileira, aderência inconteste ao futebol foram tiradas do sossego antropológico e da inércia representacional para serem recolocados, ou melhor, reagrupados, mais uma vez, no fluxo ininterrupto das sacralizações e dessacralizações que propagaram, mundo afora, alguns dos indícios e, sobretudo, as imagens de que algo se reconfigurou no Brasil.

           

Referências Bibliográficas

FOLHA DE SÃO PAULO. Editorial. 08.04.2014.

LATOUR, Bruno. 2008. “O que é iconoclash? ou, há um mundo além das guerras de imagem?” Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 14, n. 29, p. 111-150, jan./jun.

TOLEDO, Luiz Henrique. 2002. Lógicas no Futebol, São Paulo: Hucitec & Fapesp.

___________________. 2012a. “Políticas da corporalidade: socialidade torcedora entre 1990-2010”. In: Toledo, L.H.; Malaia, J.; Buarque de Holanda, B.; Andrade de Melo, V. (orgs.). A Torcida Brasileira. Rio de Janeiro: Sete letras.

____________________. 2012b. “Ritual sem dono, evento sem nome. Os segredos da transformação da Copa do Mundo em um megaevento”. Coletiva. Recife: no 8, abr/mai/jun.

 

 

 

Luiz Henrique de Toledo

Doutor em Antropologia Social

Programa de Pós-graduação em Antropologia Social - UFSCar
Currículo Lattes

 

A COPA E O BRASIL

política, negócios e a impossível imunidade

 

 

Alexandre Fernandez Vaz

Doutor em Ciências Humanas e Sociais
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

 

 

Estamos todos intoxicados pela presença da Copa do Mundo de Futebol no Brasil. Não há como ficar imune à tamanha exposição, às intermináveis discussões, ao detalhamento de cada passo das seleções que virão ao Brasil para a disputa, às famílias dos jogadores, à festa “espontânea” de torcedores que se exaltam na frente das câmaras de televisão. Para além do que uma vez Umberto Eco chamou de “falação esportiva” – inesgotável, aprumada por jornalistas à cata de todo tipo de informação para preencher e rapidamente substituir páginas de internet e intermináveis horas de vídeo – a conversa parece encontrar novos rumos que não deixam de ser surpreendentes. Discute-se menos a seleção brasileira, convocada por Luís Felipe Scolari sem grandes polêmicas; debate-se, sim,  freneticamente, os gastos, atrasos e improvisos na organização do evento. O Ministro dos Esportes, como guardião do governo e do projeto da Copa, fã do futebol e torcedor ardoroso da Sociedade Esportiva Palmeiras, esmera-se em explicar e justificar; recorre a Nelson Rodrigues, evoca nossa tradição de resolver as coisas na última hora, tenaz na defesa dos investimentos do governo federal e refratário a qualquer tipo de crítica.

Esse deslocamento do debate foi se compondo aos poucos. Em 2007, o Brasil alcançou, com relativa facilidade, o direito a organizar o evento. Festa, júbilo e excitação, tão característicos nossos, junto com a expectativa de que faríamos a melhor de todas as Copas, levaram a um êxtase tremendo que, no entanto, foi sendo minado pelas seguidas críticas que boa parte da imprensa e dos movimentos sociais vem fazendo aos gigantescos gastos e ao atraso nas obras prometidas. Supõe-se que, na antessala do início da competição, menos da metade das obras de infraestrutura prometidas estarão concluídas. O propalado legado da Copa é alvo de desconfiança e constrangimento pela precariedade dos aeroportos, pelos grandes estádios sediados em estados com escassa tradição no futebol – a suposição é de que serão pouco utilizados depois do Mundial – e pelas advertências que vários países têm feito a seus cidadãos a respeito dos perigos que podem enfrentar ao viajarem pelo Brasil durante o evento.

Se o esporte já é um espetáculo desde o século dezenove, o futebol, desde sempre experimentou a curiosidade e o interesse do público e foi se tornando um negócio dos mais rentáveis há mais ou menos quatro décadas. No México, em 1970, Pelé amarrava suas chuteiras retardando em alguns segundos o início da partida e mostrando, pela primeira vez via satélite, a marca que elas estampavam. Quatro anos depois, compareceu à Alemanha não mais como jogador – que voltaria a ser no ano seguinte, no New York Cosmos – mas como garoto propaganda de uma marca de refrigerantes.

Em 1978, o Mundial foi um grande negócio para os ditadores argentinos, tanto porque a vitória na Copa, a primeira do país, ajudou decisivamente a criar um clima de otimismo e alegria em meio à selvageria perpetrada por militares e seus aliados civis, quanto porque a construção de estádios, que incluiu a importação de aparatos de segurança bastante sofisticados, foi extremamente rendosa para alguns. Em consonância, a FIFA inaugurara uma nova ordem comercial com a gestão do brasileiro João Havelange, multiplicando os ganhos e gerindo produtos e lucros de forma muito eficiente, sustentada por sua expansão política, notadamente em direção à África e suas novas nações de então.

Esta dimensão mercadológica não esteve tão presente na Copa de 1950, a primeira depois de Segunda Guerra Mundial, sediada no Brasil e para a qual o Estádio do Maracanã, grandiloquente projeto de Oscar Niemeyer, marca do desenvolvimentismo brasileiro, foi construído. Em 2014, quando depois de 64 anos,  o Brasil volta a sediar um Mundial de Futebol, para a qual foram erigidas ou reformadas doze “arenas”, como hoje são chamados os estádios, o evento não é também um negócio, mas o é antes de qualquer outra coisa.

Não deixa de ser curioso que houvesse outra oportunidade para que o Brasil sediasse uma Copa. Foi em 1986, em substituição à então claudicante Colômbia, finalmente substituída pelo México depois que a ditadura representada pelo último general-presidente, João Figueiredo, recusou-se a receber o evento. Em editorial da Revista Placar, de 10 de março de 1983, o jornalista Juca Kfouri, opositor do regime, lamentava a decisão do governo brasileiro de não respaldar a iniciativa da CBF, então comandada por Giulite Coutinho, de organizar a Copa três anos depois. Um dos argumentos do diretor de redação da então influente revista era que na década anterior havia sido construídas “dezenas de estádios faraônicos” que finalmente poderiam ter o devido uso.

O que será de nossas caríssimas “arenas” depois do Mundial? Há os que defendam a sua construção como patrimônio do qual cada região poderá usufruir nos próximos anos, junto com as prometidas melhorias da mobilidade urbana e a correspondente movimentação econômica. Outros consideram que as “arenas” serão verdadeiros “elefantes brancos”, expressão popular que designa grandes construções, geralmente estatais, cuja serventia acaba sendo nula ou muito pequena, absolutamente desproporcional aos recursos investidos.

O problema das “arenas” talvez precise ser colocado no contexto do processo de constituição cada vez mais radical do futebol em produto de consumo, em detrimento de sua antes ampla base popular e mesmo da possibilidade de ser apreciado como artefato estético, como obra esportiva. Não se trata de advogar por um passado idílico quando se jogava “o verdadeiro” futebol brasileiro, prática que já foi, como se sabe, bastante distintiva e aristocrática para só depois se popularizar, democratizando-se, entre outros marcadores históricos, pela profissionalização. A questão é outra, é observar o futebol como patrimônio universal e, em sua radicação, nacional.

Os estádios brasileiros vêm tendo suas estruturas alteradas nos últimos anos, acompanhando o que se observa em grande parte do mundo. São menos lugares para espectadores e maior conforto para eles, com preços igualmente mais elevados para os ingressos e mercadorias associadas aos espetáculos, sejam alimentação e bebidas, sejam produtos licenciados pelos clubes, como as camisetas oficiais dos times, cujo preço é praticamente o mesmo em qualquer parte do mundo. A diminuição da lotação máxima dos estádios, um dos motivos do encarecimento dos ingressos, tem uma de suas justificativas na melhoria da segurança, o que de fato acontece, uma vez que o controle de cada espectador (aumentado ainda pelos programas de sócio torcedor e por outros dispositivos) passa a ser mais preciso, detalhado, disciplinar. O menor número de lugares acabou com as áreas mais populares dos estádios, como a “Geral” do Maracanã e a “Coloninha” e a “Costeirinha”, respectivamente dos Estádios Orlando Scarpelli e Aderbal Ramos da Silva, em Florianópolis. Estádios mais limpos e asseados, certamente, mas expressões do segregacionismo que expulsa os mais pobres – vistos frequentemente no imaginário brasileiro como gente perigosa e doente – de lugares que lhes eram, ainda que não adequados, próprios.

Esse é parte do universo que acolhe uma Copa do Mundo no Brasil. Se o futebol no país já há tempos é um grande negócio globalizado, nada mais esperado que a FIFA se estabeleça com suas regras e demandas capazes até mesmo de alterar as leis ou privatizar palavras, em nome da realização de um sonho que parece já não ser, se é que foi um dia, de grande parte dos brasileiros. Nem sempre as pessoas querem grandes eventos nas suas cidades, entendendo que as melhorias prometidas (e que frequentemente permanecem como promessas) deveriam ser materializadas independentemente deles, e que os recursos investidos nas grandes obras de engenharia esportiva poderiam ter melhor destino. As manifestações populares de 2013 e que seguem pipocando reivindicavam “Padrão FIFA” também para a saúde, transporte e educação. Têm razão.

Uma vez definido o país em que se realizaria a Copa de 2014, várias cidades se candidataram como sedes para receber as partidas. Algumas eram dadas como evidentes, como Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Outras disputavam, com diferentes recursos, um lugar entre as doze previstas. Coloquei-me, naquela ocasião, em oposição à candidatura de Florianópolis, cidade em que vivo e vou aos estádios das duas equipes profissionais, frequentadoras sazonais das séries A e B do Campeonato Brasileiro de Futebol. Nenhum dos dois, para pouco menos de vinte mil espectadores, costuma ficar lotado. O que faríamos com uma “arena” para mais do que o dobro de espectadores? Por que as obras viárias deveriam orientar-se do pequeno aeroporto até o estádio, cortando a Ilha de Santa Catarina quase em eixo transversal e chegando ao continente, deixando à míngua todo o restante do território? Combinação de belezas naturais pouco comparáveis e péssima infraestrutura, o que inclui uma mobilidade urbana em colapso, Florianópolis precisava e precisa de um plano para a cidade e seus habitantes, como também para seus visitantes, mas não para um evento pontual.

Ninguém fica imune, tampouco impune, ao futebol no Brasil. Mesmo que já haja jovens torcedores sem identificação com equipes nacionais, mas fãs de time da Inglaterra, Espanha, Alemanha ou Itália, conhecidos pelas transmissões televisivas das diversas ligas europeias, e que a seleção brasileira pouco atue no país, a nação se mobiliza e se imobiliza para a Copa. Aulas suspensas, trabalho adiado, carnaval fora de época: o Brasil em campo, os narradores ufanistas, a ciclotímica confiança e desconfiança sobre as possibilidades da seleção brasileira que durarão enquanto ela estiver na competição. Este é o nosso ritmo. Até a final que, para que seja épica, deve ser contra o selecionado argentino. E se a seleção canarinho perder, em um novo Maracanazo? A maioria de nós ficará um pouco triste, mas nada mais do que isso. O futebol não é questão de vida e morte, mas um jogo. E um excelente negócio para os donos de sua realização.

 

 

Alexandre Fernandez Vaz

 

Doutor em Ciências Humanas e Sociais
Programas de Pós-graduação em Educação e Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Pesquisador CNPq
Currículo Lattes

 

 

COPA DO MUNDO 2014

políticas públicas, ciências sociais e pesquisa científica

 

 

José Renato de Campos Araújo

Doutor em Ciências Sociais
Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH)
Universidade de São Paulo (USP)

 

 

Depois de completar sete anos de espera em 2014[i], finalmente acontece a Copa do Mundo da FIFA no Brasil. Afinal, o “país do futebol” tem sua grande oportunidade para apresentar ao mundo algumas credenciais para além do campo de jogo. Ser sede deste torneio, no início de século XXI, apresenta-se como algo bem diferente da outra vez em que o Brasil sediou a competição, em 1950. Naquela oportunidade, a FIFA se esforçava para reorganizar seu torneio que fora deixado de lado por força da II Guerra Mundial, durante mais de uma década, uma vez que a terceira edição do torneio tinha ocorrido no longínquo ano de 1938, na França. Este fato tornava a edição de 1950, portanto, algo muito incipiente se compararmos com as dimensões assumidas pelas últimas edições Copa do Mundo da FIFA neste início de século XXI.

Uma das diferenças mais visíveis já aparece no tratamento dado ao evento esportivo pela mídia em geral, e pelo debate público mais amplo, já que vemos até uma expressão começar a ser utilizada – Megaeventos – para, justamente, refletir um pouco das hiperdimensões assumidas nos últimos anos pelo torneio. Leva-se em consideração que, no caso brasileiro, em 2009, o Comitê Olímpico Internacional (COI) escolheu a cidade do Rio de Janeiro como sede para as Olimpíadas de 2016, a qual já havia apresentado mais de uma candidatura ao órgão, sendo que em 2009 superou as candidaturas de outras cidades, como Chicago, Madrid e Tóquio. Fato este, sem dúvida, que coloca o Brasil como centro do debate em torno da organização destes grandes eventos esportivos nos últimos anos – e o termo megaeventos, portanto, passa a ser utilizado como um conceito que, de certa forma, abarca eventos distintos e com complexidades diferentes[ii].

A organização destes megaeventos, bem como todas as suas implicações, despertam interesse não somente nos meios de comunicação de massa, dada a sua importância e centralidade no debate público brasileiro nos últimos anos. A academia brasileira também volta parte de suas pesquisas para a análise destes fenômenos. Impactos urbanos, gastos públicos, organização desportiva, possíveis legados econômicos entre outros temas, que começam a fazer parte da pauta de uma parte já considerável de pesquisadores das Ciências Sociais, transformando tais eventos esportivos (Copa do Mundo e Olimpíadas) em objeto de pesquisa nas mais diversas áreas das Ciências Humanas e das Ciências Sociais Aplicadas.

Soma-se a este cenário as já denominadas Jornadas de Junho, ocorridas em junho de 2013, nas quais a temática megaeventos integrou fortemente tais manifestações, aparecendo em cartazes e nos “discursos” dos manifestantes, que os apontavam como “mais um fenômeno de desperdício de dinheiro público”, ou como um sinal inequívoco de “descolamento das realidades das ruas e dos caminhos das instituições políticas brasileiras”. Além do fato de que aquelas manifestações desembocaram, agora em 2014, em novos protestos de menor dimensão e repercussão, os quais sem dúvida chamaram a atenção da mídia e do debate público brasileiro justamente por apontarem para uma oposição radical à realização do torneio da FIFA, que ocorre entre junho e julho de 2014 em 12 cidades brasileiras, a saber: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Porto Alegre, Curitiba, Cuiabá, Salvador, Recife, Natal, Fortaleza, Manaus e Brasília.

Essas manifestações, ao se avizinhar o torneio mundial de futebol, passam a utilizar o slogan “Não Vai Ter Copa”, fato que vem provocando alguns desconfortos em autoridades brasileiras e certa apreensão na opinião pública. Com isso, vemos pulular nos grandes meios de comunicação de massa artigos, entrevistas e matérias que, de certa forma, legitimam tais movimentos que ganham algumas ruas das cidades-sede brasileiras. Assistimos também algumas reações contrárias, que entendem serem descabidas tais manifestações, ao colocarem em risco a imagem do Brasil no exterior. Isso sem falar que tal cenário se desenrola em ano de “Eleições Gerais” no Brasil, que acontecerão ainda em 2014, no segundo semestre.

Este cenário passa a ser um “prato cheio” para a produção científica das Ciências Sociais brasileiras, tanto que, ainda em 2013, o CNPq[iii] lançou um edital para financiar atividades de pesquisa em torno dos megaeventos, além de alguns centros de pesquisa em universidades brasileiras, entre as quais aquelas com índices de produção acadêmica com algum destaque no cenário nacional e, até mesmo, mundial – como, por exemplo, a UFRJ e a USP, entre outras universidades e centros de pesquisa.

 

Dessa forma, gostaríamos de destacar uma série de pesquisas que estão sendo desenvolvidas no Ludens-USP (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Sobre Futebol e Modalidades Lúdicas da Universidade de São Paulo), realizadas dentro de um projeto maior intitulado “Ação Governamental, Gasto Público e os Megaeventos Esportivos”, que, em linhas mais gerais, pretende monitorar as ações governamentais do Estado brasileiro (nos seus três níveis federativos) em relação aos megaeventos esportivos dos quais o Brasil será sede – Copa do Mundo FIFA 2014 e Olimpíadas 2016, Rio 2016.

Este projeto tem seu horizonte temporal a ser desenvolvido até 2017 (um ano após o término das Olimpíadas de 2016); após o momento inicial de revisão bibliográfica passou a se estruturar em duas frentes de trabalho, que se caracterizam como subprojetos do projeto maior. A primeira frente de trabalho vem levantando dados junto aos Tribunais de Contas Estaduais, responsáveis institucionais pelo controle do gasto público das unidades da federação brasileira, enquanto que a segunda frente vem levantando dados e informações detalhadas sobre a participação da Prefeitura da Cidade de São Paulo na construção da Arena Corinthians, equipamento esportivo que sediará a abertura da Copa do Mundo FIFA 2014 e uma das semifinais deste torneio, sendo sede de seis jogos durante a realização deste evento esportivo.

Há ainda a intenção de formar, ao menos, mais duas frentes de trabalho centrando suas atividades na ação do Tribunal de Contas da União, no controle dos gastos do governo federal brasileiro na infraestrutura necessária para a realização destes eventos esportivos. Além de focalizar o caso de uma Parceria Público-Privada (PPP), entre o governo do Estado de Pernambuco e a construtora Odebrecht, para a viabilização e construção da Arena Pernambuco, equipamento inaugurado em 2013, para a realização da Copa das Confederações, em São Lourenço da Mata, cidade da região metropolitana de Recife.

Até o momento, algumas importantes ações de pesquisa foram realizadas, entre as quais destacamos:

a) contato institucional com todos os Tribunais de Contas Estaduais das unidades da federação que sediarão jogos da Copa do Mundo, bem como os Jogos Olímpicos – SP, RJ, MG, RS, PR, MT, BA, PE, RN, CE, AM e DF. Esse contrato gerou, nestas instituições de controle do Estado Brasileiro, 10 entrevistas, em profundidade, realizadas com a presidência destes Tribunais ou com Conselheiros e/ou Quadros Técnicos (funcionários de carreira) responsáveis diretamente pelo controle dos gastos públicos com a realização  da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

b) construção de um banco de dados com todas as notícias veiculadas pelo jornal Folha de S. Paulo desde outubro de 2009 sobre a construção da Arena Corinthians, no bairro de Itaquera, na cidade de São Paulo. A questão norteadora para a seleção das notícias é o relacionamento estabelecido entre a Prefeitura da Cidade de São Paulo e o Sport Club Corinthians Paulista, no sentido de viabilizar financeiramente tal empreitada, visto ser de conhecimento público que o financiamento desta arena desportiva passou, necessariamente, por ações de renúncia fiscal por parte da prefeitura da cidade.

Como podemos ver, tal projeto pretende empreender ações que acompanhem de perto algumas ações do Estado brasileiro como organizador dos megaeventos que se iniciam agora em 2014. É importante destacar que estas pesquisas tentam se aprofundar numa discussão que parece relegada a um segundo plano, e com certeza já começam a entrar na ordem do dia, no contexto da organização das Olimpíadas Rio 2016. Esta organização já apontava que no Brasil, tais eventos não aconteceriam com centralidade de financiamento público, mas sim através de investimentos privados. E, como era de se esperar, para aqueles que conhecem com alguma profundidade eventos similares organizados em outros países do mundo, vemos hoje que quase todo os investimentos que foram realizadas para a Copa do Mundo 2014 são originários de recursos públicos. Esse fato, sem dúvida, leva a ação dos Tribunais de Contas ao centro do debate sobre a prestação de contas, a eficiência e a eficácia das ações do Estado brasileiro frente à organização dos megaeventos esportivos. Além de ser uma discussão central para os investimentos que ainda serão realizados para a organização da edição brasileira dos Jogos Olímpicos, que acontecerão em 2016, o que portanto faz com que tais questões não devam sair da agenda do debate público brasileiro, ao menos durante os próximos dois anos.

 

 

José Renato de Campos Araújo

Doutor em Ciências Sociais
Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH)
Universidade de São Paulo (USP)
Currículo Lattes

 


[i]               A escolha do Brasil como sede ocorreu no dia 30 de outubro de 2007, em evento ocorrido na cidade de Zurique na Suiça, sede da FIFA, com o Brasil enviando uma delegação de peso para a última apresentação de sua candidatura (que era única), a país sede da Copa do Mundo da FIFA 2014. Entre seus membros estava o Presidente da República, o Ministro dos Esportes além de outras personalidades esportivas. Para maiores detalhes, ver notícia publicada no mesmo dia, pelo portal Folha Online intitulada “Fifa oficializa Brasil como sede da Copa do Mundo-2014”, disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/esporte/2007/10/341044-fifa-oficializa-brasil-como-sede-da-copa-do-mundo-2014.shtml.

[ii]              Outro exemplo de megaeventos é a Expo Universal, ou somente Expo, um evento internacional no qual  cidades organizam enormes exposições, apresentando avanços tecnológicos, manifestações culturais e mostras arquitetônicas que ocorrem a cada quinquênio. A última edição aconteceu em Xangai em 2010, sendo a próxima programada para Milão em 2015. A cidade de São Paulo apresentou candidatura para sediar a Expo 2020, num processo de escolha ocorrido no início de 2014, mas tal candidatura não obteve êxito sendo superada pela cidade de Dubai.

[iii]              Para maiores informações ver Chamada ME/CNPq Nº 091/2013 - Seleção pública de projetos de pesquisa científica, tecnológica e de inovação, voltados para o desenvolvimento do Esporte em suas diferentes dimensões. Nesse edital há uma linha exclusivamente voltada para os Megaeventos esportivos.

 

 

 

ENTRE O ÓBVIO E O ESCAMOTEADO

o futebol (masculino) em tempos de Copa

 

 

Wagner Xavier Camargo

Pós-doutorando em Antropologia
Universidade Federal de São Carlos
Bolsista FAPESP

 

 

Estamos em plena realização da Copa do Mundo de Futebol – da categoria masculina, frise-se bem! – e ainda há quem preconize o seu não acontecimento. Entre discussões acaloradas, debates públicos ou opiniões críticas (afinal, além de milhares de “técnicos/as de futebol”, temos agora “críticos/as da Copa”), comenta-se sobre gastos com estádios, legados posteriores, esquemas de segurança, aumento de preços de hotéis e de mercadorias de consumo, ingressos inexistentes e sobre a (famigerada) política de autobeneficiamento da toda poderosa FIFA. Em que pese tudo isso ser importante e estar em pauta, este texto trata de questões outras, que se encontram escamoteadas, escondidas ou são invisíveis no futebol e na Copa.

O futebol, como esporte nobre/burguês em suas origens e logo tornado popular, encampou valores sociais e morais, disseminados por inúmeras instituições sociais, que se fossilizaram: e estes eram brancos, masculinos e cristãos. Se as práticas esportivas eram realizadas apenas por homens, “naturalizou-se”, assim, que o futebol deveria ser masculino e, sobretudo, viril. Os efeitos (catastróficos) desta pressuposição lá do passado se fazem presentes ainda hoje, quando são identificados discursos e práticas corporais distintas das atreladas apenas ao restritivamente “masculino”. Daí sempre se depreendeu que corpos futebolísticos, que corriam, suavam e se sujavam nos gramados deveriam ser masculinos, grosseiros, rudes e tais adjetivações se projetavam de volta nas expectativas sociais sobre indivíduos praticantes, de futebol e também de esportes.

Obviamente, o campeonato que agora acontece no Brasil é da categoria masculina (em que pese isso nunca ser frisado em propagandas televisivas). A edificação da Copa enquanto um “espaço reservado masculino” – lembrando da designação de Eric Dunning (1992) em respeito ao esporte – serve à hegemonia da “masculinidade” como modelo a ser seguido, à reprodução do machismo (ideologia que prega a hierarquia entre homens e mulheres) e da heteronormatividade (que toma a heterossexualidade como norma), e ao endosso do patriarcado, enquanto modelo monolítico, um sistema político “quase místico, invisível, trans-histórico e trans-cultural, cujo propósito seria oprimir as mulheres.” (Piscitelli 2002: 7). Tudo isso em detrimento de feminilidades e outras masculinidades, ou ainda sob fria desconsideração de outras expressões ligadas às sexualidades performatizadas no social: mais ou menos femininas, mais ou menos masculinas, mais ou menos trans, mais e menos ao mesmo tempo.

Portanto, é sintomático perceber que na “cultura global do futebol” (as aspas pretendem pôr em suspensão a ideia de homogeneidade do fenômeno em termos “globais”) muitos destes valores hegemônicos ligados a corpos futebolísticos masculinos são reproduzidos e reforçados – mesmo por corpos outros que não são ou se pretendem masculinos. E, dentre tais valores, o machismo incorporado (se tomarmos as prerrogativas bourdieanas como pressuposto) é institucionalizado: haja vista que o futsal e o futebol “feminino”, apenas a título de exemplos, são expressões menores, não valorizadas ou desdenhadas por muitos que tomam o futebol masculino de campo como “a referência” per se. Isso no nível de comparação entre “futebóis”, sem levar em conta outros esportes.

Como pano de fundo escamoteado está a heteronormatividade e a crítica a ela é relativamente recente, vinda na esteira de uma série de denúncias contra tais espaços masculinos, seja nos esportes em geral ou no universo do futebol em específico. As críticas feministas a partir dos movimentos de liberação sexual dos anos 1960-70 foram as responsáveis pelo redimensionamento do olhar e de práticas sociais que se colocavam cristalizadas, particularmente em sociedades ocidentais. Os ventos de mudança, que reconsideravam corpos, vozes, desejos e espaços femininos (mas também masculinos), igualmente atingiram o mundo dos esportes. Pressupunha-se àquela época (e talvez, de certo modo, até hoje se pressupõe) que “machos” que praticassem esporte tinham que ser heterossexuais, além de masculinos, fortes, viris – além de desempenharem o que Adrienne Rich (1999) chamou de “heterossexualidade compulsória”. Isto é, corpos que deveriam ter desejos orientados para o sexo oposto (no caso, para mulheres). A denúncia contra essa (hetero) norma instituída atualmente está cada vez mais pujante. Por todas essas problematizações, o futebol não tem (ainda) como ser diferente na contemporaneidade. Tanto em terras brasileiras, como no resto do mundo, valoriza-se demasiadamente o “futebol masculino” de campo como padrão, protegendo-o como espaço do macho, que, obviamente, deve ser heterossexual.

 

 

 Voluntário-atleta nos VIII Gay Games, Colônia-2010

 

 

Por trás desses valores afirmativos que se pretendem hegemônicos parece haver, em certos âmbitos locais, “resistências”. Mesmo no Brasil há reações distintas no tocante às sexualidades de jogadores de futebol. Por exemplo, o goleiro do Palmeira Futebol Clube da Una de Goianinha (RN) declarou-se homossexual e tornou-se ídolo da torcida da pequena cidade que o clube representa (Kneipp, 2010). Entretanto, sabemos que a temática homossexualidade ainda é tabu no futebol e isso tudo ainda é muito pouco no masculinizante universo futebolístico ou esportivo.

Certa vez, em meio a um debate num fórum sobre esportes, alguém indagou sobre ações que poderiam ser realizadas no tocante a todas estas problemáticas, a fim de tornar o futebol um espaço mais acessível e inclusivo.  A despeito de ter minhas reservas acerca da “inclusão” e das “receitas que dão certo”, resolvi tecer comentários críticos, os quais partilharei neste espaço. Registraria, apenas, que quaisquer que forem as ações a serem desenvolvidas, elas não precisam ser excludentes ou encadeadas por etapas ou em ordem hierárquica. Podem ocorrer paralela ou simultaneamente.

Algo essencial é desconstruir as noções binárias de gênero no âmbito educacional, tanto em aulas convencionais como no espaço da própria Educação Física Escolar. Desde cedo é importante não frisar que há tarefas, brincadeiras ou jogos de meninos e de meninas (aliás, essas são categorias rígidas demais em se tratando da formação do indivíduo). O mundo das orientações sexuais é muito mais diverso do que prescrevem esses dois polos. No futuro , tais rótulos se tornarão perigosos e se condensarão em posturas/condutas estereotipadas e preconceituosas em relação a corpos "desviantes" da norma instituída.

 

 

 Folder da Campanha Alemã contra a Homofobia no Futebol ("Futebol não é só preto e branco")

 

 

 

Outra ação efetiva seria uma campanha massiva nos meios de comunicação contra a homofobia, a misoginia (aversão a mulheres) e racismo (desagravo a todos os não brancos). Algo iniciante já se materializou, largamente na Europa, através das campanhas antirracistas (ainda efêmeras no resto do mundo), particularmente no universo dos campeonatos europeus de futebol. Mas não vemos, em geral, ações de amplo espectro sobre maior aceitação das mulheres nos esportes ou de acolhimento do diferente (lembre-se que o corpo da pessoa com deficiências nos esportes é, em geral, aceito com certa resignação e muita pena). É importante que se desenvolvam intervenções sobre outros gêneros, outras corporalidades e outras sexualidades.

Os dirigentes esportivos, por sua vez, deveriam estimular uma atmosfera de confiança, respeito à diversidade e reciprocidade nas equipes e clubes. Assim, atletas intersexuais, transgêneros e transgêneras, bissexuais, gays e lésbicas teriam espaço para se desenvolverem também afetiva e socialmente, sem medos ou receios para com técnicos/as, equipe e outros/as atletas. Eles poderiam desenvolver ações pontuais em seus clubes, visando, sobretudo, construir um local de acolhimento e respeito mútuos.

 

 

Integrante delegação tailandesa nos VIII Gay Games, Colônia-2010

 

 

No tocante às empresas, essas poderiam romper com tabus instituídos comercialmente sobre corpos e sexualidades divergentes das normativas e deveriam propor peças publicitárias, anúncios de televisão ou venda de materiais esportivos a partir de corpos andrógenos, feminilizados, masculinizados, mutilados, obesos, tatuados, protetizados, siliconados e “coloridos” (ou multiétnicos). Já houve várias iniciativas interessantes nesse sentido, ainda marginais e pouco abrangentes. Elas precisam apenas aumentar em número.

 

 

 North American OutGames, Vancouver-2011

 

 

Uma importante ação prática é trabalhar contra o machismo num dos espaços de maior reprodução (e de desejo de consumo dele): as torcidas de futebol. Principalmente nas chamadas "torcidas organizadas" há um prevalente espaço reservado à expressão máxima do masculino, do macho torcedor, que se caracteriza como um espaço radical, de intolerância e não aceitação em relação ao diferente. Parte-se de um pressuposto que os torcedores partilham valores (somente intrínsecos a eles) e estão ali, homogeneamente aglomerados, para torcer. E isso é um equívoco.

 

 

 Foto da torcida Coligay, do Grêmio, anos 1970-80. Créditos : Ricardo Chaves.

 

 

No que diz respeito à situação das mulheres no futebol, há ainda um longo percurso até o reconhecimento e a valorização de suas práticas futebolísticas. Primeiro, precisam deixar de ser invisíveis (para o público, para a televisão, para as empresas e para elas mesmas). Esse último aspecto implica na segunda consideração: elas necessitam buscar outros modelos de performance atlética, pois atualmente o futebol “feminino” (coloco entre aspas porque não aprecio tal designação) deve buscar se desenvolver como prática autônoma, não como clone do futebol masculino. Isso o possibilitaria sair das sombras desse último e galgar uma real e distinta prática para a constituição de um “futebol praticado por mulheres”.

Os sujeitos LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros/as), por sua vez, têm tarefas mais árduas para resolver e, na comparação com “mulheres” e “deficientes” (perdoem-me a generalização aqui necessária), ficam no último posto das agendas sociais. Há preconceitos históricos instituídos que não vão desaparecer tão rapidamente, principalmente sobre corpos que não encampam a sexualidade heteronormativa ou performatizam a masculinidade hegemônica. Algo que realmente poderia alavancar a presença LGBT nos esportes – ou, mais especificamente, no futebol – seria a visibilização (independente de rótulos) de um/uma grande atleta (ou atletas, por que não?) sobre sua(s) orientação(ões) sexual(is). Acerca deste aspecto, pensei dias atrás, por conta da onda de reportagens sobre a comemoração dos 20 anos da morte de Ayrton Senna: imagine-se se uma figura como ele se declara não heterossexual e, mesmo assim, continua em plena atividade, mantendo patrocínios e contratos. Também considerei, especulativamente, claro, se uma das propostas do Bom Senso Futebol Clube houvesse sido o apoio à “saída do armário” de alguns/mas jogadores/as e o incentivo à presença de cotas para LGBT no futebol nacional.

Mediante tais problemáticas e reconsiderações, talvez o que seja óbvio e naturalizado hoje, passe a ser questionado e reelaborado no futuro. E o que é escamoteado e considerado “errado”, “pernicioso”, “proibido”, “vergonhoso” passe a ganhar status efetivo de possibilidade. Isso transformaria o futebol; isso transmutaria o esporte; isso nos daria outra Copa, em outras dimensões não tão excludentes ou tão exclusivas. Afinal, o futebol é (e deve ser) só uma prática esportiva e cultural como outra qualquer.

 

Referências Bibliográficas

DUNNING, Eric. 1992. “El Deporte como coto masculino”. In: ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. Deporte y Ocio en el Proceso de la Civilización. México: Fondo de Cultura Económica. p. 323-342.

KNEIPP, Marina. 2010. “Goleiro assume homossexualidade e enfrenta preconceito no interior do RN”. Disponível em: <http://globoesporte.globo.com/futebol/noticia/2010/10/goleiro-assume-homossexualidade-e-enfrenta-preconceito-no-interior-do-rn.html >. Acesso em: 10 out.2010.

PISCITELLI, Adriana. 2002. “Re-criando a (categoria) mulher?”. In: Algranti, Leila Mezan. (Org.). A prática feminista e o conceito de gênero. Campinas: IFCH/UNICAMP. v. 48, p. 7-42.

RICH, Adrienne. 1999. “La heterosexualidad obligatoria y la existencia lesbiana”. In: M. Navarro; C. R. Stimpson (Eds.). Sexualidad, género y roles sexuales. México: Fondo de Cultura Económica. p. 159-211.

 

 

 

Wagner Xavier Camargo

Pós-doutorando em Antropologia
Universidade Federal de São Carlos
Bolsista FAPESP
Currículo Lattes