Associação Brasileira de Antropologia

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ÍNDIOS, QUILOMBOLAS,
ÁRABES E NORDESTINOS E O
SABOR AMARGO DO CACAU

 

Sistema agroflorestal municipio de Ubaitaba. Foto do autor

 

Eduardo Alfredo Morais Guimarães

Professor assistente da Universidade do Estado da Bahia
Doutorando em Estudos Étnicos e Africanos
Universidade Federal da Bahia
Bolsista FAPESB

 

 

As ideias aqui desenvolvidas são fruto das primeiras reflexões sobre a Comunidade Quilombola de Empata Viagem, localizada no Município de Marau, Região Sul da Bahia. Como outras comunidades localizadas na região[i], Empata Viagem alcançou notoriedade em decorrência da qualidade da farinha de mandioca produzida artesanalmente e, sobretudo, do domínio das técnicas de plantio do cacau sob a floresta raleada.

 

 

 

Ninho de pássaro sangue de boi - cabruca Ubaitaba. Foto do autor

 

 

O Cacau Cabruca e os pioneiros

 

Não obstante a Revolução Agrícola, alicerçada no modelo agrícola monocultural, desencadeada pela CEPLAC,[ii] entre o inicio dos anos 1960 e final dos anos 1980, que resultou na elevação da produção nacional de cacau em 310% e o aumento da produtividade de 220 kg/ha, em 1962, para 740 kg/ha[iii], cerca de 70% das roças cacau da Bahia ainda são sistemas agroflorestais – Cacau Cabruca[iv] – (Araujo et. al., 1998). O cenário de devastação instaurado pela Revolução Verde[v] (Setenta & Lobão, 2012) não conseguiu, portanto, obscurecer as potencialidades dos sistemas ancestrais de cultivo, fato que coloca em relevo as dificuldades da agricultura que se intitula moderna que parece não alcançar bem seus objetivos no ambiente de floresta tropical. Aplicam-se aqui reflexões de Boaventura Souza Santos: as cabrucas, fruto de “conhecimentos populares, leigos, plebeus, camponeses ou indígenas”, resistem em meio a uma disputa “entre as formas de verdade científicas e não-científicas” (2007: 72).

Não obstante a importância das “Cabruca para a sustentabilidade da agricultura, as origens do sistema estão enredadas em um “Mito Histórico” que obscurece desigualdades raciais e justifica uma concentração fundiária e de renda (Mahony, 2007: 738), a partir da exclusão de indígenas e escravizados e seus descendentes da “saga do cacau” (Adonias Filho, 1976: 173; Falcón, 1995: 26). Desafiando os alicerces do mito, a hipótese da qual se pretende partir é a de que o sistema está alicerçado em conhecimentos ancestrais de indígenas e africanos, condenados à inexistência diante de uma suposta superioridade posicional da ciência agronômica moderna.

O Cacau Cabruca é referência praticamente obrigatória nos estudos realizados no âmbito da ciência agronômica na região. Pesquisadores do IESB - Instituto de Estudos Socioambientais da Bahia,[vi] atribuem o seu surgimento aos “grapiúnas (...) que a revelia das recomendações técnicas (...) (plantaram) o cacau à sombra das espécies nativas” (Araújo et al., 1998: 36). Com efeito, a referência explícita aos “grapiúnas”, de certa forma, exclui indígenas e africanos escravizados e seus descendentes da “saga do cacau” e isso não é um mero detalhe que possa ser negligenciado, pois tal noção está no âmago do Mito Histórico: grapiúnas são as pessoas que migraram do Nordeste para o Sul da Bahia no inicio do século XX e colonizaram o interior da Zona Cacaueira (Mahony, 2007; Costa, 2012).

 

Cacau na cabruca. Foto do autor

 

 Os engenheiros agrônomos Wallace Setenta[vii] e Dan Erico Lobão[viii] expõem de forma ainda mais clara os elos que ligam o Cacau Cabruca ao “Mito” ao atribuir aos “pioneiros da cacauicultura” o plantio do cacau em cabrucas abertas na Mata Atlântica, “transformada em espaço vivido e habitável” pela Civilização do Cacau; um sistema de cultivo sui generis, predecessor dos sistemas agroflorestais (Setenta & Lobão, 2012: 39). Nos argumentos, os pesquisadores desconsideram a presença indígena no território ao situar o cacau no centro do “processo civilizatório”: responsável pela transformação da Floresta em espaço vivido e habitável. Para Setenta e Lobão quando da chegada dos colonizadores portugueses a Mata Atlântica seria uma espécie de terra nullius, um territórionominalmente inabitado (Balée, 2008) – com “florestas virgens”.

 

 

Lurdes Rocha, em sua Tese de Doutorado, redimensiona a narrativa acrescentando os agenciamentos de sergipanos que cultivaram o cacau com “persistência, denodo, trabalho árduo, muito suor derramado irrigando o chão” (2006). De acordo com Rocha a grande seca da década de 1890 e a Guerra de Canudos (1896-1897) foram os dois fatores que influenciaram a migração em massa dos sergipanos para a região cacaueira. É importante lembrar que no final do século XIX o cacau já se constituía no principal produto da pauta de exportações da Bahia e que segundo Rosário et. al. (1978: 20), “as plantações feitas naquela época correspondem a grande parte das existentes hoje no Sul da Bahia”.

Com efeito, não há como negligenciar os agenciamentos de indígenas, escravizados e seus descendentes na criação e desenvolvimento das cabrucas e deixar de perceber que, mesmo atualmente, com os avanços tecnológicos possibilitados pela ciência agronômica moderna, não é fácil prescindir de conhecimentos ancestrais indígenas e africanos no manejo das roças de cacau. É importante ter em mente que as populações indígenas são portadoras de um histórico de coexistência com a floresta tropical (Munari, 2009: 9), que pequenos agricultores africanos no período pré-colonial manejavam sistemas agroflorestais em África “que para ‘não entendidos’ pouco se distinguem das florestas originais” (Temudo, 2009: 246) e que de acordo com dados etnoecológicos, é possível afirmar que em África a própria formação de florestas está relacionada à atividade humana - cultivo, plantação e transplante deliberado de árvores, pelas populações locais - que culminou, inclusive, com a formação de florestas onde antes não havia florestas (Balée, 2008: 15).

 

           

Bibliografia

ADONIAS FILHO. 1976. Sul da Bahia: chão de cacau. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

BALÉE, W. 2008. “Sobre a Indigeneidade das Paisagens”. Revista de Arqueologia, 21(2): 09-23. Disponível em: http://www.ies.ufpb.br/ojs/index.php/ra/article/viewFile/3003/2524.

FALCON, Gustavo. 1995. Os coronéis do cacau. Salvador: Iananá/ UFBA. 

LOBÃO, D. E.; SETENTA, W. C.; VALLE, R. R. 2004. “Sistema agrossilvicultural cacaueiro: modelo de agricultura sustentável”. Revista da Sociedade de Agrosilvicultura, 1(2): 163-173. 

LOBÃO, Dan Érico. 2007.Agroecossistema Cacaueiro Da Bahia: Cacau Cabruca e Fragmentos Florestais na Conservação de Espécies Arbóreas. Tese de Doutorado, Universidade Estadual Paulista. 

MAHONY, Mary Ann. 2007. “Um passado para justificar o presente: memória coletiva, representação histórica e dominação política na região cacaueira da Bahia”.Cadernos de Ciências Humanas – Especiaria, 10(18): 737-793. 

MUNARI, Lucia Chamlian. 2010. Memória Social e Ecologia Histórica: a Agricultura de Coivara das populações quilombolas do Vale do Ribeira e sua relação com a formação da Mata Atlântica. Dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo. 

ROCHA, Lurdes Bertol. 2006. A região cacaueira da Bahia: uma abordagem fenomenológica. Tese de Doutorado. Universidade Federal de Sergipe. 

ROSÁRIO et. al. 1978. Cacau História e Evolução no Brasil e no Mundo. Ilhéus: CEPLAC. 

SANTOS, Marcio Ceo dos. 2010. A Crise da Região Cacaueira e os Desafios Para o Desenvolvimento Local. Dissertação de mestrado. Universidade Municipal de São Caetano do Sul. 

SETENTA, Wallace & LOBÃO, Dan Érico. 2012. Conservação Produtiva: cacau por mais 250 anos. Itabuna. 

SOUZA SANTOS, Boaventura de. 2007.Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. São Paulo. Novos Estud. – CEBRAP. 79. 

TEMUDO, Marina Padrão. 2009. “A narrativa da degradação ambiental no Sul da Guiné-Bissau: uma desconstrução etnográfica”.Etnográfica,  Lisboa, 13(2): 237-364.

 

 

 

Eduardo Alfredo Morais Guimarães

Professor assistente da Universidade do Estado da Bahia
Doutorando em Estudos Étnicos e Africanos
Universidade Federal da Bahia
Bolsista FAPESB
Currículo Lattes

 

 


[i] Existem em Maraú mais 5 Comunidades Quilombolas reconhecidas pela Fundação Palmares.

[ii] Comissão Executiva de Planejamento da Lavoura Cacaueira. Órgão federal de pesquisa e assistência técnica vinculado ao Ministério da Agricultura, criado em 1957.

[iii] Dados disponíveis no Site da CEPLAC .http://www.CEPLAC.gov.br/restrito/lerNoticia.asp?id=1719. Acesso em 02.02.2014;

[iv] Cacau plantado sob a sombra da floresta raleada

[v] Modelo agrícola direcionado ao aumento da produção agrícola alicerçado em melhorias genéticas em sementes, uso intensivo de insumos industriais, mecanização e monocultivos.

[vi] Organização não-governamental criada em 1994, com sede no município de Ilhéus.

[vii] Presidente do CNPC – Conselho Nacional dos Produtores de Cacau e Presidente do Sindicato Rural de Itabuna.

[viii] Pesquisador da CEPLAC e professo da UESC.

 

Novas Pesquisas - Blog

ÍNDIOS, QUILOMBOLAS, ÁRABES E NORDESTINOS E O SABOR AMARGO DO CACAU

 

ÍNDIOS, QUILOMBOLAS,
ÁRABES E NORDESTINOS E O
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Eduardo Alfredo Morais Guimarães

Professor assistente da Universidade do Estado da Bahia
Doutorando em Estudos Étnicos e Africanos
Universidade Federal da Bahia
Bolsista FAPESB

 

 

As ideias aqui desenvolvidas são fruto das primeiras reflexões sobre a Comunidade Quilombola de Empata Viagem, localizada no Município de Marau, Região Sul da Bahia. Como outras comunidades localizadas na região[i], Empata Viagem alcançou notoriedade em decorrência da qualidade da farinha de mandioca produzida artesanalmente e, sobretudo, do domínio das técnicas de plantio do cacau sob a floresta raleada.

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FEIRA KRAHÔ DE SEMENTES TRADICIONAIS: cosmologia, história e ritual no contexto de um projeto de segurança alimentar

 

FEIRA KRAHÔ DE SEMENTES TRADICIONAIS

cosmologia, história e ritual no contexto de um projeto de segurança alimentar

 

 

 

Júlio César Borges

Doutor em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

 

 

Pra não acabar a história e a festa, tem que estar sempre fazendo, porque vai passando para os outros mais novos aprender a realizar. Para não acabar a festa. Porque essa história, desde não sei quantos mil anos atrás, faz parte dos Krahô. Através dessa festa é que mostramos que somos Me)hĩ – temos outras cantigas, outra forma de nos organizar. Isso tudo é que chama Me)hĩ, Krahô. A festa movimenta as músicas, as danças, as crenças. Por isso é que Me)hĩ tem isso. Porque se não tiver isso, não é Me)hĩ. Isso que mostra nossa identidade. É tudo isso. É a festa que faz fortalecer, tanto nas músicas [cantos] quanto no esporte [corrida de toras].

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A homossexualidade na manutencao dos vínculos familiares

 

A HOMOSSEXUALIDADE NA MANUTENÇÃO DOS VÍNCULOS FAMILIARES

 

Créditos: Luciano Lobão

 

 

Alessandra Caroline Ghiorzi

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Mato Grosso

 

Flávio Luiz Tarnovski

Professor do Departamento de Antropologia
Universidade Federal do Mato Grosso

 

 

Expressar o desejo por uma pessoa do mesmo sexo, vivendo em uma sociedade heteronormativa (Butler, 2003), é um desafio que confronta parte das pessoas nos dias atuais. Entre outras dificuldades, muitos sujeitos enfrentam o processo de se “revelar” perante a família de origem, o que pode se apresentar de forma dramática, devido aos significados negativos associados à homossexualidade.

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SOBRE A POSSIBILIDADE DE SE TORNAR UMA “BOA FAMÍLIA” afirmações e representações no pleito à adoção movido por gays e lésbicas

 

SOBRE A POSSIBILIDADE DE SE
TORNAR UMA “BOA FAMÍLIA”

afirmações e representações no pleito à adoção movido por gays e lésbicas

 

 

Ricardo Andrade Coitinho Filho

Mestre em Ciências Sociais
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

 

 

Introdução

O presente trabalho aponta como gays e lésbicas, ao pleitearem a adoção, procuram evidenciar, para a equipe técnica da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso, que podem fazer um bom exercício da parentalidade. Em seu pleito, estes são identificados como "homoafetivos[i]". O objeto de análise foram processos e habilitações em adoção movidos no Rio de Janeiro. A questão central era compreender a forma com que gays e lésbicas têm sido tratados quando optam por compor uma família através do projeto filiativo da adoção[ii].

 

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HOMOSSEXUALIDADE INDÍGENA NO BRASIL

 

HOMOSSEXUALIDADE INDÍGENA NO BRASIL

desafios de uma pesquisa

 

 

Ilustração de Theodor de Bry (1528-1598). 

 

 

Estevão Rafael Fernandes

Professor da Universidade Federal de Rondônia

Doutorando em Estudos Comparados sobre as Américas

Universidade de Brasília

 

 

 

Este texto busca levantar alguns dos questionamentos que tenho elaborado desde que escolhi como tema de pesquisa o ativismo homossexual indígena no Brasil a partir de uma perspectiva comparada com os Estados Unidos. Na verdade, tratam estas reflexões justamente do que eu não tenho encontrado na literatura e como, a partir disso, minhas preocupações analíticas vêm tomando corpo.  

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AS SITUAÇÕES-LIMITE E SEUS DESDOBRAMENTOS SOBRE AS VIDAS DAS MULHERES QUE LUTARAM CONTRA A DITADURA NO BRASIL

 

AS SITUAÇÕES-LIMITE E SEUS DESDOBRAMENTOS SOBRE AS VIDAS
DAS MULHERES QUE LUTARAM CONTRA A DITADURA NO BRASIL

 

 

Lívia de Barros Salgado

Mestranda em Ciências Sociais
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
Bolsista CAPES

 

O período entre 1964 e 1985 foi marcado pela violência estatal e cerceamento da liberdade da população brasileira. O cenário era de opressão e perseguição aos opositores, resultando em centros de torturas clandestinos e da prática de “desaparecimentos forçados”. O Ato Institucional nº 5, em 1968, intensificou ainda mais o caráter ditatorial do regime, e o governo passou a ter plenos poderes para cassar mandatos, suspender direitos políticos e o habeas corpus em crimes contra a segurança nacional, além de outras medidas. Nesse contexto foi generalizado o uso da tortura e outros desmandos, tudo em nome da “segurança nacional”. 

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VMDL: Breves considerações sobre rolezinho, narrativas de classe, redes e a cidade

 

VMDL[i]

breves considerações sobre rolezinho,
narrativas de classe, redes e a cidade

 

 

 

 

 

Louise Scoz Pasteur de Faria

Doutoranda em Antropologia Social – Bolsa CNPq
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Moisés Kopper

Doutorando em Antropologia Social – Bolsa CNPq
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Domingo, 23 de março de 2014. Um evento criado no site de rede social Facebook anunciava, para essa data, o Rolezinho no Shopping Praia de Belas[ii]. Localizado entre a região central e sul da cidade de Porto Alegre, é ponto de convergência do constante fluxo de veículos que partem de ambas zonas urbanas e transeuntes que circulam na pista da Usina do Gasômetro, desenhada ao longo de parte do Rio Guaíba, e no Parque Marinha do Brasil que compreende uma área de pouco mais de 70 hectares ao lado do empreendimento. A expectativa era grande. A página indicava cerca de 1,2 mil presenças confirmadas desde o dia 16 de março, quando a proposta havia sido lançada, que se concentrariam nas dependências do shopping a partir da uma hora da tarde sem hora para acabar. 

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