Associação Brasileira de Antropologia

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Opinião

 

Em Opinião, publicamos textos críticos sobre temas em voga no debate antropológico e público atual. Recebemos textos sobre tópicos como a questão indígena e quilombola, direitos sexuais, manifestações políticas, formação em antropologia e expansão do sistema universitário, além de reflexões teóricas pertinentes à atualização do debate antropológico.

Opinião

 

O QUE FAZ UM ANIMAL DE ESTIMAÇÃO 
NA ANTROPOLOGIA?

 

 

 

 

Jean Segata

Professor  de Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Norte

 

 

 

Talvez essa pergunta – a do que faz um animal de estimação na antropologia – valha menos por suas possíveis respostas do que por algum exame dela em si. O faz da questão vem com dois sentidos aqui. Um deles é o do tom de “lugar ocupado”, e responde por uma demanda crescente de trabalhos sobre as relações entre homens e animais. O que se tem chamado, por alto, de uma Virada Animalista na Antropologia, e que tem motivado diversos debates, especialmente na França e, recentemente, no Brasil. É claro que o tema conta com longa data na disciplina. O gado dos Nuer de Evans-Pritchard ou os animais e as plantas domesticadas de Georges Haudricourt são apenas alguns dos exemplos mais evidentes. Mas a questão emergente no debate antropológico diz respeito ao lugar que esses animais passaram a ocupar na maneira como temos descrito aquilo que entendemos como composição do social. Trata-se de algo que pode muito bem ser resumido na provocação que Latour (2008: 26) elabora, ao contestar que as coisas, os fenômenos, os animais e toda a sorte de entes que cabem na fórmula de não humano, “deben ser actores y no simplesmente los infelices portadores de una proyección simbólica”. Mas que se considere nisso a ideia de que não há atores em si, aqui ou acolá, à espera de serem marcados na etnografia. O desafio lançado nessa perspectiva não é o de identificar quem ou o que é um ator, mas quando é. O foco está nas associações, nos efeitos, nas contingências ou naquilo que faz fazer na relação. Nesse caso, por alto, o animal provoca, aqui, uma redefinição da própria ideia de agência e, por conseguinte, de social.

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