Associação Brasileira de Antropologia

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IMAGEM E RITUAL

a fotografia e o sutra lótus primordial




Alexsânder Nakaóka Elias

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista Capes

           

Um tema: Antropologia, fotografia e ritual

A escolha de uma corrente específica do Budismo para desenvolver esta pesquisa – a Honmon Butsuryu-shu – se faz necessária tendo em vista a grande quantidade de monastérios e correntes budistas existentes no Brasil e no mundo. Como seria inviável realizar uma pesquisa de campo satisfatória em todos os monastérios existentes no país, a Catedral Nikkyoji foi escolhida em razão da sua localização (próximo de Campinas) e por pertencer à tradição Mahayana[1].

Neste sentido, torna-se fundamental situar o contexto histórico/mitológico do Budismo em geral e o da HBS, especificamente. Para tanto, é necessário entender que todas as correntes budistas tem como ponto em comum a crença no Buda Histórico (que nasceu em Lumbini, no Nepal, com o nome de Siddharta Gautama), fundador do Budismo. Após a morte do Buda, que peregrinou e pregou por cerca de 50 anos pelo sub-continente indiano, o Budismo se expandiu, passando pela Índia e pela China, até chegar ao Japão. Após este período, houve um cisma que culminou nas duas grandes vertentes budistas, Mahayana e Theravada. Enquanto a tradição Theravada[2]defende que “o Budismo é uma tarefa de tempo integral”, onde a libertação está destinada apenas aos monges, a corrente Mahayana nos diz que a libertação pode ser alcançada “tanto por leigos quanto por monges e monjas” (Smith e Novak, 2003: 69).

Esta concepção distinta entre as duas tradições faz com que o Budismo Mahayana em geral, e o da HBS, especificamente, mostre-se mais aberto à visitação do público, permitindo que ele participe dos seus rituais (no caso, todas as cerimônias que envolvem a emanação da oração sagrada, Namumyouhourenguekyou), além de oferecer, no Brasil, palestras e cultos na língua portuguesa, o que facilita o acesso à esta tradição budista, tornando possível e viável minha pesquisa de campo.

De fato, ao acompanhar durante dois anos a comunidade HBS, notei que as diversas cerimônias realizadas, sejam elas cultos vespertinos e noturnos, cultos póstumos, orações fervorosas, visitas assistenciais e até mesmo momentos, a priori, profanos, tiveram como preceito básico a recitação do mantra e ritual sagrado Namumyouhourenguekyou.

Existem, portanto, três questões fundamentais a serem tratadas pela pesquisa. A primeira, ultrapassando a mera descrição do ritual em questão, busca compreender a estrutura geral e os diversos elementos simbólicos que envolvem tal manifestação religiosa, repleta de gestos, posturas, cânticos, orações, instrumentos musicais (taiko, mokin, sinos, clavas) e objetos religiosos importantes, como o Odyuzu[3].

Neste sentido, Victor Turner servirá como referencial teórico para a presente pesquisa, ao dizer que “(...) uma coisa é observar as pessoas executando gestos estilizados e cantando canções enigmáticas que fazem parte da prática dos rituais, e outra é tentar alcançar a adequada compreensão do que os movimentos e as palavras significam para elas” (1974: 20).

Debruçar-se sobre o ritual de emanação permite também, como sugere Turner, entender como:

Os rituais revelam os valores no seu nívelmais profundo e os homens expressam no ritual aquilo que os toca mais intensamente e, sendo a forma de expressão convencional e obrigatória, os valores do grupo é que são revelados. Vejo no estudo dos ritos a chave para compreender-se a constituição essencial das sociedades humanas (ibidem: 19).

O segundo problema consiste em analisar, através de uma comparação imagética, as cerimônias realizadas pela HBS no Brasil e no Japão. A intenção aqui é descobrir como uma expressão religiosa oriental realiza um processo de adaptação e aceitação sociocultural no contexto brasileiro. Daremos relevância à existência de um vocabulário ocidentalizado (termos como ascese, arcebispo, sumo-pontífice, catedral, Papa e Deus são utilizados pelos religiosos e fiéis da HBS do Brasil), criado para representar os personagens religiosos do ritual no Brasil. Este vocabulário surpreende, pois utiliza termos de uma tradição muito assimilada pelo cristianismo, apropriada por uma religião oriental. Isso significa uma série de adaptações, traduções, incorporação de um vocabulário e, até mesmo, da arquitetura.

Assim, podemos estender as definições de Ana Cristina Lopes Nina (2006) que, embora trabalhe especificamente com o Budismo Tibetano e o seu contexto de diáspora pelo mundo, pode servir, aqui, como alicerce teórico para compreender as adaptações e reformulações encontradas na HBS do Brasil para se encaixar no contexto sociocultural brasileiro (tão distinto do japonês) e conquistar novos adeptos. Segundo a autora:


... fora de seu contexto original, qualquer cultura se transforma, antes de mais nada, em instrumento que possibilita a comunicação, e por isso é preciso levar em conta o que se tornará significativo no(s) novo(s) contexto(s) em que se verá inserida. Para que uma cultura desempenhe com sucesso tal tarefa, é necessário selecionar, no seu interior, esses elementos significativos que tornam possível a comunicação (2006: 31-32).

 

Por fim, existe a questão da fotografia como registro e também como um ritual moderno, que envolve diversos personagens como o fotógrafo, a comunidade fotografada (que realiza uma performance diante da câmera) e os espectadores das imagens. Neste caso, o intuito é compreender como se dá, em primeiro plano, a aceitação de um fotógrafo/antropólogo outsider em uma comunidade, até o ponto deste observador ser incorporado e aceito como fotógrafo oficial dos principais rituais da religião no Brasil, mesmo sem ter sido convertido. Podemos, ainda, considerar o ato (ritualizado) de olhar para um álbum de fotografias e rememorar os acontecimentos impressos, como se as fotografias tivessem o poder mágico de revitalizar o tempo, o espaço e os personagens envolvidos na trama fotográfica.

Tal material fotográfico/artístico potencialmente pode permitir questionar as diversas nuances – sejam elas políticas (relações de poder entre os sacerdotes ou entre os sacerdotes e a comunidade de fiéis) ou socioculturais (os elementos constitutivos, as semelhanças e as distinções entre o ritual realizado no Japão, país de origem desta tradição, e no Brasil) existentes na principal expressão ritual da corrente budista Honmon Butsuryu-shu, que consiste na recitação do mantra[4] e escritura sagrada Namumyouhourenguekyou[5].

 

Material e métodos

O intuito desta pesquisa é de refletir sobre como um conjunto de fotografias, aliadas aos relatos orais e registros verbais coletados (diário de campo), pode ser capaz de traçar, retratar e reconstruir o dia a dia (profano/sagrado e, sobretudo, ritual) das atividades (internas e externas) de uma sociedade religiosa budista. Sociedade esta – organizada e hierarquizada – que comumente reivindica para si a posição de uma das vertentes mais “puras” da religião.

No que tange ao campo prático, a presente pesquisa tem como ponto de partida uma estratégia comparativa. Através de trabalho prévio, realizado durante o mestrado, houve uma imersão na comunidade da Catedral Nikkyoji, via pesquisa de campo, observando e documentando (através de imagens fotográficas, registros verbais e diários de campo) as diversas práticas dos sacerdotes e fiéis da HBS. Desta forma, o novo trabalho em campo consiste em uma viagem aos templos da HBS no Japão, a convite do Arcebispo Kyouhaku Correia, principal autoridade da religião no Brasil.

Perpassando estas etapas de pesquisa de campo, a constatação a ser verificada é em que medida o material coletado (imagens, entrevistas e diário de campo) oferece, também, as condições de poder pensar este registro verbo-visual como um alicerce material e ritualizado (já que envolve uma interação entre observador, observados, espectadores das imagens, temporalidades e relações espaciais distintas), fundamental para a observação e identificação do campo e do contexto ritual e para a percepção e análise simbólica das práticas religiosas da comunidade HBS.

 

Referências bibliográficas

COLLIER, John. 1973. Antropologia Visual: A fotografia como método de pesquisa. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

GEERTZ, Clifford. 1973. The interpretation of cultures. Nova York: Editora Basic Books.

GENNEP, Arnold van. 1978. Os ritos de passagem. Petrópolis: Editora Vozes LTDA.

INGOLD, Tim. 2011. Being alive: Essays on movement, knowledge and description. Nova York: Editora Routledge.

INGOLD, Tim. 2011. Redrawing Anthropology: Materials, Movements, Lines. Londres: Tim Ingold (Ed.).

_____.2007. Lines: A Brief History. Nova York: Editora Routledge.

NINA, Ana Cristina Lopes. 2006. Ventos da Impermanência. São Paulo: EdUSP.

NOVAK, Philip; SMITH, Huston. 2003. Budismo: Uma introdução concisa. São Paulo: Cultrix.

PEIRANO, Mariza. 2000. A análise antropológica de rituais. Brasília: Universidade de Brasília.

TURNER, Victor. 1967. Floresta de símbolos: Aspectos do Ritual Ndembu. Londres: Cornell University Press.

TURNER, Victor. 1974. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Vozes LTDA.

USARSKI, Frank (org.). 2002. O budismo no Brasil. São Paulo: Editora Lorosae.



Alexsânder Nakaóka Elias

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista Capes
Currículo Lattes
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[1]Maha significa grande e yana significa balsa ou barco. A alusão à figura de um grande barco transmite a ideia central desta vertente budista: De que todos os seres vivos podem alcançar a salvação, atravessando o rio da morte no grande barco da corrente Mahayana.

[2]Significa “O Caminho dos Anciões”.

[3] O Odyuzu consiste em uma espécie de terço budista, composto por contas provenientes de diversos materiais (madeira, pérolas, vidro, entre outros).

[4] Os Mantras são orações contidas nos Sutras, que, por sua vez, representam o conjunto de ensinamentos orais transmitidos pelo Buda Histórico ou Siddharta Gautama.

[5] A distinta ordem oriental da fotografia – dos desenhos e da escrita, aliás – serão também exploradas. Levando em consideração, principalmente, as sugestões de Nelson Goodman em “Twisted tales: Or, Story, Study, and  Symphony”, (pp. 331-349, 1981), e, principalmente, os recentes trabalhos de Ingold sobre as possibilidade de uma “antropologia gráfica”. Ver, por exemplo, Lines: A Brief History (2007); Being Alive: Essays on Movement, Knowledge and Description (2011) e Redrawing Anthropology: Materials, Movements, Lines (2011).