Associação Brasileira de Antropologia

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LXS MAYAS EN BRASIL

desmistificando xs maias em língua portuguesa

           

 

 

"La zona maya no es un museo etnográfico, es un pueblo en marcha."
Crédito: Twitter da Revista Digital Universitaria - UNAM

 

 

Thiago José Bezerra Cavalcanti

Graduado em Antropologia
Universidade Federal Fluminense

 

 

Os estudos sobre xs maias são escassos no Brasil, mas também pouco se sabe sobre indígenas “brasileirxs” na região maia da atual América Central (incluindo México). Contudo, são agravantes no caso maia a deturpação de seus calendários e a suposta profecia do “fim do mundo” em 2012.

Como antropólogo maianista, vejo a escassez de pesquisas lusófonas em um mercado editorial aquecido pelo “fim do mundo”. Meu principal objetivo por anos foi o de “desmistificar xs maias”, tamanha é a desinformação a seu respeito, inclusive em círculos acadêmicos.

Até 2006, os resultados da pesquisa por “calendário maia” na internet eram de um calendário “nova era” chamado Calendário da Paz (CdP), hoje Sincronário da Paz (SdP), sobre o qual tratei antes (Cavalcanti, 2012a, 2012b). Foi um domínio prejudicial a qualquer pessoa que desejasse encontrar algum embasamento arqueológico ou antropológico, a começar pela contagem dos dias.

O SdP disseminou uma série de desinformações a respeito dxs maias, articuladas em redes e oriundas de literatura e mitologia próprias. A influência deste calendário é maior quando não há um campo de estudos mesoamericanista ou maianista desenvolvido, caso do Brasil. O país é valorizado por diversos movimentos de “nova era”, facilitando a circulação de várias versões esotéricas e gnósticas sobre maias.

Desta maneira, proponho elencar algumas questões que devem ser consideradas em estudos maianistas. Não observá-las acarreta no risco de se reproduzir desinformações, imprecisões e generalizações.

 

Quem são xs maias?

Falando dxs maias, falamos de “indígenas”, “ameríndixs”, “mesoamericanxs”. Um dos equívocos mais frequentes é o de isolar xs maias como “gregxs da América”, uma “alta cultura” inigualável ou algo similar. Em nome de uma idealização evolucionista dxs maias, diversas mentiras podem ser contadas para mostrá-lxs como “muito mais civilizadxs” em relação a outros “índixs”.

Considere-se que xs maias se situavam na região batizada por Paul Kirchhoff (1943) como Mesoamérica, partilhando e herdando diversos aspectos de culturas vizinhas. Incluindo seus principais calendários, que estrutural e materialmente  existiram antes da ascenção maia.

Além de situá-lxs na Mesoamérica, é importante saber de que maias falamos com a maior especificidade possível, para diferenciá-lxs em relação a outros povos mesoamericanos. Os problemas começam a partir da compreensão de que a identidade maia hoje trata-se de uma severa generalização, e portanto um esforço trabalhoso é necessário para distinguir xs maias entre si.

Uma “história da identidade maia”, a origem para o sentido se dá a ela hoje, como “identidade pan-maia”, é bem clara. Se a história da invasão europeia ou do desenvolvimento acadêmico tivessem sido diferentes, chamaríamos xs maias por outro nome. Isso se deve ao fato de que a etnia que até hoje habita a região que serviu como entrada espanhola ao atual continente americano fala a língua autoidentificada Maya.

É principalmente a linguística que serve para embasar a identidade maia entre xs indígenas que vivem, por exemplo, na Guatemala. O empoderamento político-identitário pan-maia se deu como arma de coesão e luta contra a ditadura etnocida daquele país, mas tem plena justificativa científica de continuidade cultural – para desespero de muita gente kaxlan (“não-maia”).

A identidade pan-maia abrange muitas línguas distintas; de acordo com o tronco linguístico da figura 1, são 31 línguas maias, oriundas da “proto-maia”; destacadas num triângulo estão a que usaram hieróglifos. Uma delas é chamada de “maia iucateca”; a língua originalmente maia que foi acompanhada pelo gentílico da península do Yucatán, diferenciando-a das outras línguas, já que todas vieram a ser consideradas línguas maias.

Dessa maneira, entendemos que falar em “maias” num sentido genérico implica em englobar uma larga diversidade cultural e linguística; é preciso lembrar que, dependendo das línguas envolvidas, uma pessoa maia não consegue se comunicar com outrx maia. Isto demonstra como pode ser dificultosa qualquer tentativa de generalizar xs maias.

 

Figura 1. Tronco linguístico maia. Fonte: Grube, 2001.

 

Um dos maiores erros, portanto, é o de entender que xs maias constituem uma forte unidade cultural ou linguística (e também não existiu “império” ou unidade política maia). Infelizmente, esse tipo de erro surge num senso comum e entre antropólogxs renomadxs. Eduardo Viveiros de Castro, por exemplo, equivoca-se em seu mais recente livro ao ignorar a diversidade maia; o texto se refere a maias como falantes de língua singular, ao afirmar que “sua língua floresce” (Danowski & Castro, 2014: 141), sem maiores esclarecimentos. Isto ilustra como a “antropologia brasileira” tem, até hoje, mesmo num livro que propõe tratar de “fim do mundo”, pouca familiaridade com xs maias.

 

Xs maias foram extintxs?

É comum a ideia de que xs maias foram extintxs, em diferentes termos. Há aquelxs que dizem que isto ocorreu mesmo antes da invasão europeia, fazendo referência ao declínio de um sistema político que representou o “auge” da aristocracia maia (período clássico, ~250-900 da Era Comum), das grandes pirâmides e estelas com registros escritos em hieróglifos. Também existe a versão de que foram extintxs na época daquela mesma invasão.

Como já vem sendo colocado, xs maias não foram extintxs em nenhuma das ocasiões, e vivem até hoje, especialmente na Guatemala. Praticamente todas as línguas maias continuam a ser faladas atualmente, e também escritas com uso do alfabeto latino, além de um incipiente resgate da antiga escrita maia; mesmo alguns de seus calendários seguem em uso. Apenas na Guatemala, existem 22 comunidades linguísticas maias distintas, e o direito à educação nestas línguas tem sido incorporado pelo Estado.

 

Figura 2. Maias contemporânexs em Zaculeu Guatemala. Fonte- Consejo Maya Mam de Quetzaltenango

Figura 2. Maias contemporânexs em Zaculeu, Guatemala. Fonte: Consejo Maya Mam de Quetzaltenango.

 

Eram xs maias ETs?

Esta dúvida é recorrente entre pessoas que se definem como interessadas por culturas e civilizações antigas. A maior influência para o estabelecimento de teorias vinculando as mais “avançadas” civilizações a uma origem extraterrestre parece ser a de Erich von Däniken (1968), que sugere que “deuses” do passado eram astronautas.

No que se refere a maias, há sua viralizada interpretação acerca da tampa da tumba de K'inich Janaab' Pakal, mostrada na figura 3. O governante de Palenque no século VII é visto como astronauta. Não é surpresa dizer que tal conclusão não tem respaldo científico; nas interpretações acadêmicas, a imagem representa o seu renascimento (Miller & Martin, 2004: 207). Aponto que essas especulações se desvinculam demasiadamente da cultura material, cuja análise se exige num estudo apropriado dxs maias.

 

Figura 3. Tampa da tumba de Pakal. Fonte- Schele  Mathews 1998

Figura 3. Tampa da tumba de Pakal. Fonte: Schele & Mathews, 1998.

 

Existiram sacrifícios humanos entre maias?

A dificuldade em lidar com o tema se contitui num dos limites do relativismo. É precisamente aqui que “endeusadorxs” dxs “maias clássicxs” tendem a distorcer a realidade, pois na medida em que há intolerância “ocidental” a essas práticas, não é conveniente dizer que uma civilização tão “evoluída” recorreu a práticas tão “primitivas”.

No SdP, fala-se em “maias clássicxs galácticxs” para se afirmar que (1) xs maias clássicxs – especialmente suas elites – eram “galácticxs”, de origem extraterrestre, e (2) portanto “superiores”, e não praticavam sacrifícios humanos – que teriam sido introduzidos pelxs toltecas após o período clássico. A própria figura de Pakal, cá mencionada, torna-se fundamental na construção da mitologia deste calendário “nova era”.

Porém, temos registros de sacrifícios entre xs maias clássicxs, inclusive representados no estilo artístico de Palenque, como se pode ver na figura 4. Negar esta prática é um contorcionismo etnocêntrico de quem insiste em idealizar maias que se enquadrem nos parâmetros louvados pela civilização moderna.

 

Figura 4. Cena de sacrifício em vaso cerâmico do período clássico. Fonte- Maya Vase Database

Figura 4. Cena de sacrifício em vaso cerâmico do período clássico. Fonte: Maya Vase Database.

 

O que se pode afirmar acerca do “ciclo de 2012”?

Este ciclo é oriundo de um calendário de conta longa que não foi mantido pelxs maias contemporânexs. Assim, a reconstrução deste ciclo (de 13 Pik, em termos nativos) foi feita por acadêmicxs, mas existem dezenas de teorias distintas para defender diferentes maneiras de correlacionar este calendário com os calendários juliano e gregoriano. Resumindo: não há consenso, e o ciclo pode ter terminado antes de 2012, ou ainda vir a terminar em outras oportunidades.

Não existe documento maia com as alardeadas “profecias maias de 2012”. Registros nativos vão além dele, e o sistema de conta longa era, literalmente, infinito. Ciclos tão longos faziam parte da retórica do poder da elite clássica maia, e é absurda qualquer especulação de que 13 Pik signifique “fim do calendário maia” ou o “fim do mundo”. O “fenômeno 2012” passou, não sairá da memória, e continuamos longe de aprofundar os estudos maianistas lusófonos.

 

Referências bibliográficas

CAVALCANTI, Thiago José Bezerra. 2012a. “Sincronário da Paz e sua ideologia: a cultura do 'Tempo é Arte'”. Revista de Humanidades Populares, 3: 22-27.

CAVALCANTI, Thiago José Bezerra. 2012b. Calendário maia, 2012 e nova era. Niterói: Edição do autor.

DANOWSKI, Déborah & CASTRO, Eduardo Viveiros de. 2014. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro: Cultura e Barbárie & Instituto Socioambiental.

GRUBE, Nikolai. 2001. Maya: Divine Kings of the Rain Forest. Cologne: Könemann.

KIRCHHOFF, Paul. 1943. “Mesoamérica. Sus Límites Geográficos, Composición Étnica y Caracteres Culturales”. Acta Americana, 1 (1): 92-107.

MILLER, Mary & Martin, Simon. 2004. Courtly Art of the Ancient Maya. London: Thames and Hudson.

SCHELE, Linda & MATHEWS, Peter. 1998. The Code of Kings: The Language of Seven Sacred Maya Temples and Tombs. New York: Scribner.

VON DÄNIKEN, Erich. 1968. Chariots of the Gods? Unsolved Mysteries of the Past. New York: Putnam PastPastPast. NewYork: Putnam.

 

Thiago José Bezerra Cavalcanti

Graduado em Antropologia
Universidade Federal Fluminense
Currículo Lattes