Associação Brasileira de Antropologia

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Fabricio Barreto 
Fuchs

Pesquisador do Núcleo de Antropologia Visual
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
 

 

 


 

 

 

 

Estas fotografias foram realizadas em 2008 durante as celebrações da Semana Farroupilha, no Parque Harmonia, localizado no centro da capital gaúcha. Neste evento são lembrados os “feitos” dos gaúchos na Guerra dos Farrapos (1835-1845), em que os sujeitos atualizam e “encenam” uma tradicionalidade construída pela fruição de uma estética associada ao imaginário do que seja o “gaúcho”. A poética da tradição é narrada pelos elementos plásticos que compõem a série, como as cores da bandeira do Rio Grande do Sul, o retrato dos animais característicos da lida no campo, a textura da fumaça no preparo do churrasco, o destaque para roupas e acessórios trajados e o acordeon em ação. São imagens que revelam a “narrativa visual”, característica do texto fotográfico, capaz de transmitir aquilo que em palavras perde toda a sua intensidade e dramaticidade. 

Pelo registro fotográfico podemos observar a “rusticidade” e a “hospitalidade” campeira em uma performance que nos remete a vida no campo. Desde a construção de casas e ruas em uma área delimitada dentro da cidade, como preparo do churrasco que promove a proximidade entre as pessoas, são atividades que precedem uma ambiência “acolhedora” vivenciada na rotina de acampados e visitantes. A performance dos participantes está mesclada a um cenário de construções rústicas, cavalos, adereços e vestimentas. Este momento nos conduz a entender a fusão entre os participantes e o papel que irão desempenhar durante o evento. O cotidiano diferente que se estabelece neste espaço tem características liminares de duração aproximada de 30 dias, envolvendo a população, comércio, governo, serviços públicos, intituições financeiras, imprensa e indústria. É momento de culto as tradições quando a liminaridade reforça valores tradicionalistas gaúchos. A considerar que a performance não tem vida independente, ou seja, ela está ligada à audiência que a ouve e aos espectadores que a assistem, todos são convidados a participar desta performance que atualiza laços sociais característicos do povo gaúcho. Neste período acontecem palestras, espetáculos, lançamentos de livros, churrascadas, bailes, cavalgadas, rodeios, entre outras atividades, com seu ponto alto no dia 20 de setembro, data de Proclamação da República Riograndense durante a Guerra do Farrapos. 

As imagens não foram captadas com propósitos de pesquisa, mas aproximá-las de conceitos como liminaridade[1] e performance[2] permitiu a coleção características antropológicas de análise, proporcionando ao espectador atento um conjunto que informações que lhe permite conhecer o Acampamento Farroupilha sob outro olhar.

 

 

Fabricio Barreto Fuchs

Pesquisador do Núcleo de Antropologia Visual
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Currículo Lattes


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comentário


A BELEZA DO SIMPLES E DO RÚSTICO

 


Arlei Sander Damo
 

Professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

  

 

Fabrício Barreto nos propõe um ponto de vista estético e antropologicamente orientado sobre a celebração anual que ocorre em Porto Alegre por ocasião do aniversário da "Revolução Farroupilha". Em que pese as controvérsias acerca desse evento belicoso, que mobilizou a Província contra o Império, seu espaço é incontestável na construção da identidade gaúcha. O Acampamento Farroupilha, montado entre os dias 7 e 20 de setembro, entre a data alusiva à Independência do Brasil e o fim da revolta Farroupilha, é um espaço-tempo que relembra, celebra e atualiza os vínculos entre o Rio Grande do Sul e o Brasil, como se pode notar pela profusão das respectivas bandeiras.   

Como em toda a performance, o Acampamento Farroupilha não se limita à representação de uma realidade, neste caso um tempo pretérito, associado às lidas campeiras de um Rio Grande do Sul dos séculos XVIII e XIX. Ao celebrar as tradições e reviver os costumes -  como o assado em fogo de chão, a montaria à cavalo, o mate aquecido em chaleira de ferro, entre outros - o cenário performa um passado que é, em boa medida, imaginado. 

O local do Acampamento é um parque localizado na região central da cidade e ladeado por imponentes edifícios públicos de arquitetura moderna. No entanto, quase todos os elementos que o constituem remetem a um mundo rural em vias de extinção - como é o caso do galo carijó, da carreta de boi e até do cavalo, cada vez menos usado na lida campeira. Em certa medida, o Acampamento subverte e desafia a cidade, fazendo o mesmo em relação às visões políticas de família e gênero ditas contemporâneas, ao reafirmar uma heteronormatividade convencional.  

Parafraseando Geertz, estamos diante de uma performance sobre outra performance, destacando-se, no ponto de vista de Fabrício Barreto, a expressiva presença de populares, como fica evidente ao longo de todo o ensaio. Simplicidade e rusticidade são marcas do Acampamento cuidadosamente articuladas, como no caso do pernil de cordeiro assado em fogo de chão - porque houve um tempo em que a carne era abundante e os peões não tinham tempo nem traquejo para as lidas da cozinha - ou nos semblantes de homens e mulheres que trazem as marcas de uma vida calejada. O ensaio capta esta dimensão da festa identitária, destacando os elementos essenciais de uma performance que os gaúchos fazem sobre e para eles mesmos.