Associação Brasileira de Antropologia

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Jenniffer Simpson
dos Santos

Doutoranda em Sociologia
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Bolsista CAPES

 

 

 

 

 

Este ensaio, realizado durante seis meses de investigação etnográfica em 2013, retrata a confecção de artesanato produzida pelas artesãs da Associação das Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (AMARN) e pelas artesãs da Associação das Mulheres Indígenas Sateré Mawé (AMISM). Durante esse período de pesquisa etnográfica, trabalhei como motorista voluntária nestas duas associações. A confecção e a comercialização de artesanato apresentaram-se de imediato como uma importante prática social e a principal fonte de renda comum à AMARN e à AMISM. Por meio dessa constatação, direcionei meu olhar para a observação das dinâmicas de sobrevivência e de opressão consubstanciadas na prática de artesanato. Como motorista voluntária, minha agenda não era organizada por mim, mas pelas associações. Participava da aquisição da matéria-prima de artesanato, transportava o artesanato das associações para pontos de venda e vice-versa e participava da compra de comida para as festas. Também participei, juntamente com as associadas, das manifestações de junho de 2013, cujas reinvindicações foram, e continuam sendo, por moradia e pela saúde indígena. A prática de artesanato constitui um dos principais elementos do modo de vida de mulheres indígenas residentes em Manaus. A partir da confecção de artesanato, as mulheres indígenas articulam modos de saber-fazer inspiradas nas suas referências culturais tradicionais que são continuamente retrabalhadas em função de suas atuais necessidades e, simultaneamente, questionam o modo de produção econômico vigente e a propriedade intelectual dominante.

 

Jenniffer Simpson dos Santos

Doutoranda em Sociologia
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Bolsista CAPES
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Currículo Lattes


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comentário

TECENDO ARTE NO AMAZONAS!



Renato Athias 

Professor de Antropologia
Universidade Federal de Pernambuco

  

 

Na praça Tenreiro Aranha, próximo ao Porto de Manaus,se concentram os principaisquiosques de produtos artesanais dos povos indígenas do Amazonas. Essas mulheres sempre alegres oferecendo os produtos que vem de suas aldeias. Gosto de visitar esse lugar todas as vezes que passo por Manaus. Vejo as novidades nas produções e falo com as mulheres que se encarregam de trazer esses objetos que se relacionam a algum aspecto da vida social desses povos, eque venho acompanhando a mais de quarenta anos. 

O ensaio fotográfico de Jennifer Simpson dos Santos nos apresenta as mãos da AMARN e AMISM fazendo arte e “cuidando” da vida. São fotografias expressivas em preto e branco mostrando os detalhes dos corpos e dos objetos tecidos, que vão estar, em algum lugar desse planeta. Ao observar as fotografias desse ensaio, eu me lembrei de uma frase do livro Fotografia e Históriade Boris Kossoy (2001:16): “...as imagens são documentos para a história e também para a história da fotografia. É um intrigante documento visual cujo conteúdo é a um  tempo revelador de informações e detonador de emoções”.

E, talvez, essa seja, de fato, a principal característica de um ensaio de fotografias, aquela de colocar em um mesmo plano as emoções e as informações associadas a um conceito de realidadeSem dúvida, as emoções estão presentes nesse ensaioe se pode perceber pelo cuidado na edição das imagens e nos detalhes enfatizados em cada uma das fotografias de Jennifer. Em cada uma delas se pode perceber também as coisas que estão sendo produzidas e a fotografia da manifestação nos coloca dentro de uma realidade. A noção de fragmentoestá sempre presente entre os teóricos da fotografiafragmentos de uma realidade, fragmentos do mundo... etc. Nesse ensaio, observa-se muito bem como a autora usou essa noção ao marcar os detalhes nos corpos fragmentados criando pistas para que a informação apareça mais clara. A foto da manifestação fugindo dos outros enquadramentos situa a realidade dessas pessoas, essas mulheres, que estão em plano invisível, mas presentes, no ensaio como todo. Essa é a fotografia da realidade das vidas dessas mulheres revelando informações e detonando emoções.

 

Renato Athias

Olinda, 19 de janeiro de 2015