Associação Brasileira de Antropologia

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Nian Pissolati

Mestre em Antropologia
Universidade Federal de Minas Gerais

 

Patrick Arley

Doutorando em Antropologia
Universidade Federal de Minas Gerais
Bolsista FAPEMIG

 

 

 

 

 

Em um texto inspirado(r), em que se debruça sobre a construção ritual da pessoa no candomblé, Goldman (1985) chama atenção para uma das características que fazem da possessão um tema radicalmente contrastante ao dito pensamento ocidental: a fragmentalidade da pessoa. “O possuído é, evidentemente, um ser unitário, e no entanto, de modo paradoxal, ele é mais do que um” (Goldman 1985: 23). Em uma análise que articula a teoria do ritual e a da construção da pessoa, o autor ressalta que o ser humano é aí a imagem de uma síntese complexa de componentes materiais e imateriais, que começa no corpo do iniciado e chega aos orixás. E nessa perspectiva, a possessão assume um papel central: se a pessoa é concebida como “’folheada’ e múltipla, composta por ‘almas e duplos’”, cabe ao ritual (e ao transe) recompô-la (Goldman 1985: 37-8).

Este ensaio fotográfico é parte de um registro documental e fotográfico mais amplo, desenvolvido ao longo de 2012 pelo Núcleo de Estudos sobre Populações Quilombolas e Tradicionais (Nuq/UFMG) em parceria com expoentes de várias expressões culturais afro-brasileiras presentes em Belo Horizonte, tais como Reinado, Samba, Soul, Comunidades Tradicionais de Terreiros, Dança-afro, Hip Hop, Capoeira e Quilombos.

A diversidade de gêneros culturais e estilos artísticos aqui representada diz respeito não apenas a uma história dos afrodescendentes, mas também – a despeito do que gostariam alguns – a uma parte significativa da história da própria cidade: de resistência e de reinvenção; de fé e de ritmo; de cidadania e de segregação, de muita luta e também de muita ginga. Sua construção e constante transformação se faz nas rodas, festas, rituais e espetáculos, onde quer que estas crianças, jovens e adultos deem sentido a suas formas de ocupar e viver Belo Horizonte.

Dentre o universo de imagens registradas, esta seleção centra-se no corpo como instrumento cosmopolítico. Tomar emprestadas, pois, as formulações de Goldman é uma provocação e uma constatação: o corpo criador e produtor, imagem de uma(s) pessoa(s) (e seus múltiplos) construída(s) à revelia de uns tantos imperativos da cidade, faz da própria manifestação de sua existência a materialidade de uma tradição. O ritual, entendido aqui em sentido amplo - e como contraponto do pensamento (e do mito), como já ensinou Lévi-Strauss - é assim, campo privilegiado de produção deste corpo e atualização de seus embates possíveis.

 

Bibliografia

GOLDMAN, Marcio. 1985. “A construção ritual da pessoa: a possessão no Candomblé”. Religião e Sociedade 12 (1): 22-54.


Nian Pissolati

Mestre em Antropologia
Universidade Federal de Minas Gerais
Currículo Lattes
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Patrick Arley

Doutorando em Antropologia
Universidade Federal de Minas Gerais
Bolsista FAPEMIG
Currículo Lattes
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comentário

 

 

Deborah de Magalhães Lima

Professora de Antropologia
Universidade Federal de Minas Gerais

 

  

Neste ensaio fotográfico, Nian e Patrick apresentam 10 imagens selecionadas de um volume enorme de fotografias – mais de 5.000 – que fizeram para um projeto sobre expressões culturais afrobrasileiras da cidade de Belo Horizonte, coordenado por mim. O Catálogo das Expressões Culturais Afrobrasileiras de Belo Horizonte, ainda não publicado, reúne 210 expoentes de um largo espectro de manifestações afrobrasileiras da cidade: capoeira, dança afro, hip hop, reinado, comunidades de terreiros, samba, quilombos e soul. Além dereunir depoimentos pessoais de mestres de cada manifestação, o Catálogo inclui um conjunto maior de imagens, também selecionadas do acervoque produziram para o projeto. Temos aqui, portanto, uma pequena mostra do impacto visual do registro feito por eles. Em novembro de 2012 outra seleção foi montada para uma exposição na UFMG, com reproduções afixadas em painéis de dois metros de altura, muito elogiada.

Como dizem em seu texto de apresentação, a seleção para este ensaio enfoca o corpo – imagem e pessoa múltipla –, como instrumento cosmopolítico. Com essa referência, Nian e Patrick apontam para a expressão de uma multiplicidade de potências, ideias, enunciados, energias e forças de matriz afro e brasileira em sua relação com Belo Horizonte. Cidade que é também deles.

Duas fotos (a 1a e a 4a) são de um grupo de dança afro; duas (a 2a e a 5a) são apresentações de hip hop feitas embaixo do viaduto do bairro Floresta; a 3a é de um desfile de escola de samba, em queo passista está fantasiado de orixá; duas (a 8ae a 10a) são de um terreiro em Mangueiras, um dos quilombos da cidade; a 6a foto é de uma roda de capoeira que acontece toda semana no centro da cidade, onde também está o famoso quarteirão do soul (7a foto); e a 9afoto é de uma procissão de uma guarda de reinado.

Os corpos fotografados estão todos em movimento: de dança, jogo, possessão, celebração. Em comum, reitero, a matriz afro e a relação com a cidade. Seus bairros, terreiros, palcos armados, ruas. É principalmente na rua que essas tradições se formaram e se apresentam. Há as mais antigas, como o reinado; as notadamente afrobrasileiras, que com essa marca conquistaram fama internacional, como o samba, a capoeira e os terreiros; e as internacionais abrasileiradas, em suas versões belorizontinas, como o soul e o hip hop. A forte relação desses grupos com a cidade se dá não só no espaço-território que delineiam ou por onde transitam, mas principalmente em termos daquela porção da cidade-público que lhes assiste, lhes aplaude e lhes acolhe, e que junto com eles também se apresenta, na condição de seus fiéis, seus seguidores.

O modo como Nian e Patrick nos mostram e direcionam nosso olharenfatiza aquilo que asexpressões,geralmentecunhadas de populares, têm de mais forte: a liberdade de expressão.Por serem mesmo para e do povo, do seu público e da sua cidade, estão em constantemovimentação. As expressões possuem trajetórias próprias, sem dúvida. Mas a sua reunião na cidade, no Catálogo e neste ensaio se dá tanto pela marca inconfundivelmente afroda ginga, dos ritmos, das batidas e da alegria, mas também em suas justaposições. Os participantes, expoentes e público, reconhecem a sua forte ligação, uns com os outros e todos com a cidade. Aqui os vemos, em 10 imagens que registram a presença afrobelorizontina forte. Feliz quem os conhece.