Associação Brasileira de Antropologia

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MUSEU, OBJETOS E OS DIFERENTES TEMPOS CONFLUENTES

 

 

Fachada do Museo Nacional de Antropologia de Madrid 
Fachada do Museo Nacional de Antropología de Madrid. Créditos de todas as imagens: Renata Montechiare



Renata Montechiare

Doutoranda em Sociologia e Antropologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bolsa Capes



Museu, objetos e os diferentes tempos confluentes trata-se de uma síntese para pesquisa de doutorado em andamento. Resume o que parecem ser pontos centrais para compreender o que faz o Museo Nacional de Antropología de Madrid (MNA) apresentar-se como guardião das referências de um suposto universalismo cultural determinado por um tipo particular de museu do homem, através dos objetos que exibe.

Esta hipótese partiu das observações de campo nas salas de exposição do MNA, que atualmente se organiza classificando suas coleções em seis mostras: "America", "Africa", "Filipinas", "Regiliones Orientales", "Antropología Física", e a exposição de abertura[1] no hall central. A princípio, o museu poderia conceitualmente parecer um "museu do outro" (L’Estoile, 2007), por apresentar apenas objetos de territórios extra-europeus, a maioria deles ex-colônias. Entretanto, apesar de não ter uma sala destinada à Europa conforme o recorte geográfico proposto, o continente está presente em dois momentos da exposição: no hall central e na coleção de antropologia física que deu origem ao museu.

 

Vista interna do museu. 1º andar: Sala de Filipinas. 2º andar: Sala de Africa. 3º andar: Sala de America

 

Portanto, este "museu do homem" (Conklin, 2013) aparentemente se propõe a apresentar a diversidade cultural humana em suas diferenças e semelhanças. No entanto, assim como outras instituições constituídas entre as disputas coloniais do século XIX, o MNA se vê envolvido na oposição "colonial" versus "universal", e trabalha cotidianamente para sustentar seus posicionamentos teórico-políticos diante do crescente movimento de revisão conceitual, repatriação de patrimônios e reformulação das exposições.

A chamada “crise dos museus” surge no contexto dos museus de antropologia e etnologia especialmente em países que de alguma forma experimentaram a condição de colonizadores. Do Canadá à Austrália, os museus têm sido alvo de críticas e acusações especialmente a partir da descolonização, e as instituições europeias têm sofrido de forma bastante intensa os efeitos do recente interesse dos antropólogos, historiadores e críticos sobre suas atividades (Clifford, 1999; Hooper-Greenhill, 1989; Duarte, 1998).

Os museus espanhóis integram este ambiente não apenas quanto às críticas acadêmicas e embates diplomáticos nos pedidos de repatriação de patrimônios, mas também na pressão exercida pela presença de imigrantes de ex-colônias. Ademais, a crise financeira que o país atravessa reposiciona a instituição na defesa do papel que o museu supostamente exerce na sociedade. Comenta-se sobre a escassez de recursos para as atividades e manutenção dos espaços, além do fechamento parcial de museus, reduzindo gastos e salários de funcionários. Se o debate sobre a função social dos museus etnográficos no mundo de hoje está repleta de conflitos e acusações, lidar com as dimensões mais pragmáticas de gestão imposta pela recessão torna o problema ainda mais desafiador.

Desde os vários aspectos da crise, que em cada país são percebidos de maneiras diferentes, os museus de antropologia em todo o mundo têm realizado grandes mudanças, desde a criação de novas instituições (Musée du Quai Branly), fechamento temporário para reformulação (Royal Museum for Central Africa), novas políticas de montagem de exposição (Weltkulturen Musuem), circulação de coleções (Pitt Rivers Museum), repatriação de patrimônios (Royal Ontario Museum), entre outras experiências.

 

Vitrine da sala de Religiones Orientales

 

No campo teórico, este recente movimento vem acompanhado de reflexões sobre a trajetória destas instituições ao longo do tempo. Os museus de antropologia atravessaram o século XX reformulando sua atuação uma vez que a própria disciplina sofreu severas transformações: da ênfase nos estudos sobre cultura material até gradualmente afastar-se do ambiente de exposição de resultados de pesquisa através dos objetos. Destaca-se a relevância da cultura material até os anos 1920 e 1930, décadas que consolidariam a observação participante como prática dos antropólogos. A partir daí, a antropologia passa por uma forte dissociação do interesse relativo às coleções como mediadoras entre as chamadas “culturas primitivas” e suas transformações (Gonçalves, 2007), ao valor intrínseco dos objetos e à própria prática museológica. Já no início dos anos 1980, sob o novo enfoque do museu como instituição social, há uma progressiva reaproximação dos antropólogos, tomando-o como objeto de pesquisas e ainda como cruzamento de relações epistemológicas, sociais e políticas (Ibidem, 2007).

No caso específico do MNA, a última reforma museográfica (entre os anos 2004 e 2007) reorganizou as peças a partir de características culturais que proporcionassem ao visitante a comparação entre objetos, suas semelhanças, mudanças e diferenças (Blanco, 2009), embora tenham sido mantidas as divisões por continentes e critérios geográficos. Conforme apontado por Gonçalves (2007: 54), o “eterno presente” das culturas classificadas geograficamente dá às exposições um aspecto imutável, como se o que o visitante observa através da vitrine pudesse ser continuamente verificado no campo.

 

Vitrine Sala de Africa

Vitrine da Sala de Africa

 

Apesar da reformulação, não há grandes indicações de que as mudanças ocorridas no MNA embasaram-se em debates e intercâmbios com os grupos de origem dos objetos, movimentos sociais e outros grupos, como vem ocorrendo em museus com temáticas semelhantes. Manteve-se o uso de abordagens antropológicas pouco usuais atualmente, como no caso das explicações sobre a presença de agrupamentos humanos nas regiões do planeta, escalonadas por estágios evolutivos de desenvolvimento. Sobre a revisão das concepções imperialistas do período colonial, ao contrário, o museu não apenas tenta se eximir de supostas responsabilidades atribuídas a partir de relatos históricos[2], como também eximir a nação, representada nos textos pela Coroa Espanhola e pela Igreja Católica.

Movimentos como estes parecem bastante estranhos ao que vem sendo realizado por outros museus de antropologia, mas apresentam certa coerência se comparados com as narrativas presentes no seu correlato em Madrid, o Museo de America. Entre os exemplos das interpretações que este museu propõe sobre a relação da Espanha com a “America” estariam as questões sobre a escravidão durante o período colonial, chamada de "emigración africana" pela exposição permanente do Museo de America (González, 2007: 287). As semelhantes abordagens apresentadas, de forma mais ou menos sutis, suscitaram desde logo interesse de pesquisa.

Na contra mão de seus pares, o MNA investe no mito de origem do museu como memória de sua importância enquanto instituição social. O momento de sua fundação em 1875 por um médico evolucionista representante da vanguarda científica da época, em contraposição ao catolicismo do país (Tejada, 1992), é enfatizado em seus documentos e apresentado na exposição através da Sala de Antropologia Física. Aparentemente, o museu se reinscreve no tempo mítico acionando a presença de seu fundador através dos objetos de sua coleção inicial, como mecanismo de legitimação de sua permanência nos dias atuais.

Parece imprescindível tratar das questões coloniais, pois ainda que o museu oficialmente não discuta o tema, uma vez que desde sua fundação grande parte das regiões colonizadas pela Espanha já eram independentes, este assunto aparece como um problema. Comentava-se sobre a demanda de inclusão na exposição de objetos originários dos países da America do Norte e outras regiões onde não houve presença espanhola como colonizadores, visando ampliar o sentido “universal” da mostra. Algo como se o museu precisasse enfatizar para o visitante que não se caracteriza como um museu “colonial”. É possível que o MNA enfrente esse tipo de acusação em função de outros museus europeus contemporâneos a ele que tiveram suas coleções iniciadas em expedições e pesquisas em territórios colonizados nos séculos XIX e XX, o que os leva a enfrentar os recentes processos de repatriação de objetos (Borges, 2013). Por outro lado, os visitantes em Madrid manifestam seu incômodo com os aspectos “coloniais” do MNA também em função das coleções expostas serem majoritariamente originárias de territórios de ex-colônias espanholas.

 

Vitrine da Sala de America

Vitrine da Sala de América

 

Assim, objetos e coleções articulam dois temas principais. O primeiro deles se refere ao mito de origem do MNA no século XIX com a figura central de seu fundador, que celebra um período bastante relevante da história do museu. Parece haver o intuito de recuperar esta memória e inseri-la nos dias atuais para dar sentido a sua permanência enquanto instituição pertinente à sociedade. O segundo tema remete às formas como o MNA se aproxima e se distancia das questões coloniais, que irremediavelmente ressurgem.

O ponto-chave está, portanto, em conhecer a dinâmica com a qual o MNA opera. O museu parece responder à um interlocutor muito particular, diferente do que museus com perfis semelhantes dialogam. Entende-se que o diálogo nestas instituições, especialmente européias, de antropologia, construídas na segunda metade do século XIX, vem sendo travado em linhas mais críticas, democráticas e flexíveis especialmente no que se refere às narrativas que apresentam, ainda que com inúmeras resistências e disputas diplomáticas quanto às coleções.

Neste contexto europeu, observa-se também um especial tratamento dos objetos, que vêm sendo reclassificados a partir de status diferenciados. Em alguns casos de objetos exóticos a obras de arte; em outros, tomando-os como símbolos culturais importantes de terem respeitadas suas especificidades dadas por outros especialistas que não somente os antropólogos, mas também as autoridades locais (Clifford, 2013). Assim, coleções, vitrines e objetos vêm passando por experiências de montagem junto com representantes da cultura de origem da peça, valorizando não apenas o objeto mas o processo de construção de interpretações.

Entendendo que é essencialmente através dos objetos que um museu dá as pistas sobre sua visão de mundo e o papel que espera desempenhar na sociedade, o objetivo concentra-se em reconhecer nos discursos de funcionários, textos e materiais produzidos pelo museu, quais coleções exercem maior influência nas escolhas conceituais.

Outro caminho metodológico importante trata dos referenciais teóricos com os quais o museu opera, em especial a constituição da antropologia na Espanha. A história da disciplina no país atravessa ambientes conflituosos durante boa parte do século XX, momento em que a disciplina promoveu grandes transformações. Precisam ser considerados os embates no ambiente político da Guerra Civil (1936-1939) e do governo do Gal. Francisco Franco (1939-1975) na formação de intelectuais e pesquisadores, alguns deles exilados do país durante certo período e com trajetórias bastante diversas. A pesquisa através destes materiais poderá revelar como o museu vem se alimentando conceitualmente para apresentar suas coleções ao público.

Ao que tudo indica, a pesquisa tem caminhado para compreender e localizar o Museo Nacional de Antropología de Madrid no contexto das discussões sobre museus de antropologia hoje, em suas relações com os povos representados. Seja pela presença de visitantes de diferentes origens nos museus, seja pelas reivindicações do pós-colonialismo, as leituras sobre o campo dos museus etnográficos e suas recentes reformulações contribui para compreender a atual dinâmica do mundo dos museus.

Referências bibliográficas:

BLANCO, Javier Rodrigo del. 2009. “America en el Museo Nacional de Antropología de Madrid”. Artigrama, 24: 119-133. ISSN 0213-1498

BORGES, Luiz Carlos. 2013. “Relações político-culturais entre Brasil e Europa: o manto tupinambá e a questão da repatriação”. Revista das Americas, 5: (1-14).

CAPEL, Horacio. 2009. “La antropología española y el magisterio de Claudio Estevas Fabregat – estrategias institucionales y desarrollo intelectual en las disciplinas científicas”. Scripta Nova – Revista Eletrónica de Geografía y Ciencias Sociales XIII(287): 1 - 57. ISSN: 1138-9788. 

CLIFFORD, James. 1999. Itinerários Transculturales. Barcelona: Gedisa Editora.

_____. 2013. “Looking Several Ways”. In: Returns – becoming indigenous in the Twenty-First Century. London, Cambridge: Harvard University Press. pp. 213 – 260.

CONKLIN, Alice. 2013. In the museum of man: race, anthropology and empire in France, 1850 – 1950. New York: Cornell University Press.

DUARTE, Alice. 1998. “O museu como lugar de representação do outro”. Antropológicas, 2: 121 – 140.

DIAS, Nélia Susana. 1998. “The visibility of difference – nineteenth-century French anthropological collections”. In: Sharon Macdonald. Politics of Display – museums, science, cultureLondon: Routledge. pp. 31 – 45.

GONÇALVES, José Reginaldo Santos. 2007. “Coleções, museus e teorias antropológicas: reflexões sobre conhecimento etnográfico e visualidade”. In: Antropologia dos objetos: coleções, museus e patrimônios. Rio de Janeiro: IPHAN - Coleção Museu, Memória e Cidadania. pp. 43 – 64.

GONZÁLEZ, Marisa; MONGE, F. 2007. “El Museo de America, modelo para armar”. Historia y Política, 18: 273 – 293. Disponível em: http://www.cepc.gob.es/en/publications/journals/electronicjournals?IDR=9&IDN=647&IDA=26846[Acessado em 15 de julho de 2013]. ISSN 1575-0361

HOOPER-GREENHILL, E., 1989. “The Museum in the Disciplinary Society”. In: S. M. Pearce (ed.), Museum Studies in Material Culture. Londres: Leicester University Press. pp. 61 – 72.

L’ESTOILE, B. 2007. “À qui appartiennent les objets des Autres? Un patrimoine disputé”. In: Le Goût des autres: de l’exposition colonial aux arts premiers. Paris, Flammarion. pp. 323 – 367.

TEJADA, Pilar Romero. 1992. Um templo a la ciência – Historia Del Museo Nacional de Etnologia. Madrid: Ministério de Cultura – Dirección General de Bellas Artes y Archivos.


Renata Montechiare

Doutoranda em Sociologia e Antropologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bolsa Capes
Currículo Lattes
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[1] Trata-se de uma exposição de fotografias que pretende representar todos os continentes e a diversidade humana.

[2] Os textos e materiais informativos da Sala de America, por exemplo, trazem inscrições que posicionam o museu na defesa contra possíveis acusações relativas ao papel desempenhado pela Espanha em relação à America Latina durante o período colonial. 

Novas Pesquisas - Blog

 

SENTIDOS DE JUSTIÇA, REPRESENTAÇÕES DE PODER E FIANÇAS NA POLÍCIA CIVIL DO RIO DE JANEIRO


Marcus Cardinelli

Museu da PCERJ. Créditos: Cyro A. Silva



Marcus José da Silva Cardinelli

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal Fluminense
Bolsista CAPES




Proponho uma reflexão sobre as representações de poder que são construídas nas delegacias da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ), especialmente pelos seus delegados. Ao longo do estudo que venho realizando, percebi que, geralmente, eles exercitam esse poder através da interpretação/classificação de determinado fato dentro de certas categorias jurídicas. Como pondera Bourdieu, o direito legal costuma ser chamado a contribuir para racionalizar ex post decisões em que não teve qualquer participação (Bourdieu 1989: 224). Ao mesmo tempo, o direito é uma forma de ver o mundo acompanhada de um conjunto de práticas que essa própria forma de ver o mundo impõe (Geertz 2012: 186).

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PROBLEMAS ENTRE REGRAS E AFETOS


versões sobre casar certo e casar errado e os muitos jeitos de ser ticuna [1]

 



Patrícia Carvalho Rosa

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista CNPQ



- Para saber como se casa e porque falamos tanto disso é bom escutar a história contada nas palavras dos antigos (ore) para conhecer como as regras dos clãs nos ensinaram a casar bem (...) para tentar acabar com os males do mundo feitos pelos womachi (incesto). Com essas histórias você saberá como apareceu o povo Ticuna de hoje (...) escutará porque moramos num mundo (na’ane) de perigo (nakügü), agora longe de nossos ancestrais que o criaram. Já foi tempo, a gente conhecia só as regras dos antigos. Tempo vai passando, mundo vai crescendo, ganhando gente e lugares (...) fica mais do’one (instável). Agora as palavras dos antigos estão todas misturas com outras palavras e histórias. Isso faz novos saberes sobre o mundo. (...) Já não vivemos num território só dos parentes. Hoje tem muitos tipos de gentes, muitos jeitos de ser indígena. Por isso esse problema nas negociações de casamento. Cada pessoa vê isso de um jeito. Casa-se como antigamente, mas também casa-se agora com outras regras, pois têm os sentimentos, os jeitos das pessoas, outras preocupações dos que se casam. (...) Alguns dão o golpe na cultura, não casando ou trazendo para a comunidade outros jeitos de casar. (...) Não é ruim, não. Mas tem que cuidar. E tem que saber também das histórias desse tempo presente, para saber de onde vem esses outros saberes (...) como se misturou tudo. São essas misturas de saberes, de pensamentos que agora nos fazem pensar o que é casar certo e casar errado. Esses jeitos de casar e de ser ticuna vêm das misturas das regras dos clãs e também dos sentimentos das pessoas em casar com quem elas querem, do jeito que elas querem, dependendo dos interesses e do jeito que a pessoa foi criada, que tá no mundo. Ai casar certo e casar errado pode ser várias coisas, depende de quem te contar. 

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INTERCÂMBIOS ESTUDANTIS

dinâmicas migratórias contemporâneas e o (re)pensar antropológico

 

 

Leonardo Francisco de Azevedo

Mestrando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora
Bolsista CAPES

  

Pensar em dinâmicas migratórias contemporâneas requer, das ciências sociais, um alargamento de diferentes categorias que tradicionalmente nos serviram para explicar as diferentes formas de deslocamento existentes.  Sobretudo em contexto de globalização crescente, outros desafios nos são apresentados para serem melhor compreendidos e explicados.  A presente pesquisa se dispõe a investigar um tipo específico de migração, cada vez mais comum mundo afora: estudantes universitários em intercâmbio. Para tal, tenho como interlocutores intercambistas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que viajaram entre os anos de 2013 e 2014. A UFJF lança, anualmente, o edital de intercâmbio da própria universidade, referente aoPrograma de Intercâmbio Internacional de Graduação (PII-GRAD), a partir de convênios da própria instituição com universidades estrangeiras. Este programa contempla apenas alunos de graduação da UFJF, sendo que o estudante parte para o intercâmbio no segundo semestre do ano letivo brasileiro, ficando no mínimo um semestre na universidade estrangeira, mas podendo estender este período por até um ano. Com vistas a acompanhar todo o processo de seleção, preparação, o intercâmbio em si e o retorno, optei por acompanhar alunos que concorreram ao edital PII-GRAD no ano de 2013. Estes estudantes realizaram suas viagens concomitante à minha pesquisa de mestrado, o que me permitiu acompanhar todo o processo.

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MUSEU, OBJETOS E OS DIFERENTES TEMPOS CONFLUENTES

 

 

Fachada do Museo Nacional de Antropologia de Madrid 
Fachada do Museo Nacional de Antropología de Madrid. Créditos de todas as imagens: Renata Montechiare



Renata Montechiare

Doutoranda em Sociologia e Antropologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bolsa Capes



Museu, objetos e os diferentes tempos confluentes trata-se de uma síntese para pesquisa de doutorado em andamento. Resume o que parecem ser pontos centrais para compreender o que faz o Museo Nacional de Antropología de Madrid (MNA) apresentar-se como guardião das referências de um suposto universalismo cultural determinado por um tipo particular de museu do homem, através dos objetos que exibe.

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A RELIGIÃO NO CALENDÁRIO OFICIAL

notas acerca da regulação de feriados no Brasil
 

 

Izabella Pessanha Daltro Bosisio

Mestra em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 

A proposta deste texto é apresentar alguns apontamentos decorrentes da pesquisa realizada para a minha dissertação de mestrado[1], a qual procurou mapear o lugar da religião no calendário oficial brasileiro, tomando como ponto de partida a regulamentação da instituição de feriados no país. Este foi o lugar estratégico escolhido para explorar as questões que envolvem os entrelaçamentos entre Estado e religiões no Brasil.

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ENUNCIAÇÕES, INTERVENÇÕES E TENSÕES

a experiência de engajamento em coletivos vinculados à população em situação de rua em Porto Alegre/RS

 

 

bruno fernandes - 1. o incio da noite no viaduto otvio rocha

O início da noite no viaduto Otávio Rocha, Porto Alegre-RS, 2014. Foto do autor.

 

 

Bruno Guilhermano Fernandes

Graduando em Ciências Sociais
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista de Extensão e Pesquisa do Departamento de Antropologia da UFRGS


Patrice Schuch

Professora de Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Neste texto, à luz do trabalho etnográfico, pretendo expor reflexões em torno da experiência, em andamento, de análise e de engajamento nos projetos e coletivos vinculados aos circuitos sociais heterogêneos de atenção à chamada população em situação de rua, em Porto Alegre/RS. Situado na interface entre a Antropologia do direito e da política, este estudo tem como foco a análise de discursos, interlocuções e tensões envolvidos nos processos de engajamento, crítica e de contestação vinculados à mobilização política, reivindicações de direitos e à relação com as tecnologias de governo em torno da vida, por parte desse segmento populacional. 

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ENTREMEANDO POSSIBILIDADES INFINITAS

os processos museológico, histórico e estético de objetos feitos de miçanga em povos indígenas da Amazônia





Tanga de Miçangas - Tiriyó. Acervo Museu Goeldi.

 


Carlos Eduardo Chaves

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas

Bolsista CAPES



A presente comunicação tem como intuito à divulgação da pesquisa realizada entre os anos de 2012 a 2014 no Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém[1]. A atividade de pesquisa teve início após um período inicial de trabalho na Reserva Técnica Curt Nimuendajú (local de salvaguarda das coleções etnográficas) no qual tive contato com a cultura material de diversos grupos indígenas da Amazônia, objetos que datam do século XIX. Atualmente, no âmbito das doações para museus etnográficos, a renovação do acervo deste museu consiste na entrada cada vez mais frequente de objetos feitos de miçanga. Tendo isso em vista o objetivo da pesquisa foi analisar a miçanga como representação de contato com os “brancos” e outros povos indígenas, assim como as suas possibilidades estéticas no passado e no presente, juntamente com a circulação de mercadorias industrializadas nas aldeias. O intuito foi a realização de um estudo com caráter etnohistórico, estético e museológico referentes a objetos confeccionados de miçangas na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi e em trabalho de campo. O estudo forneceu critérios comparativos entre os Mebêngôkre-Kayapó, Wayana-Aparai e Tiriyó, possibilitando assim obter dados relativos à entrada de contas de vidros em sociedades de contato antigo e atual.

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RESSIGNIFICAÇÃO TERRITORIAL E MINERAÇÃO EM GRANDE ESCALA EM UMA COMUNIDADE AFROCOLOMBIANA




Germán Moriones

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas


Problemática

Este projeto tem o objetivo de estudar a disputa territorial entre a comunidade afrocolombiana de La Toma, que vive da mineração tradicional do ouro, e o Estado colombiano, que concedeu a uma empresa transnacional o direito de exploração industrial de larga escala do território ancestral da comunidade (Rojas et al., 2013). La Toma, localizada no sudoeste colombiano, tem sua origem em um processo de ocupação mineira iniciada em 1634, mas a concessão estatal à empresa transnacional, realizada no ano 2007, não respeitou os direitos étnicos e territoriais reconhecidos às comunidades negras a partir da Constituição Política da Colômbia de 1991, especialmente o direito à consulta previa. Tendo em vista os estudos antropológicos sobre comunidades negras desenvolvidos desde a década de 1950 na Colômbia, assim como a perspectiva teórica da ‘ecologia política’, pretendemos analisar a dinâmica territorial da comunidade de La Toma, desde suas práticas de gestão tradicionais até as suas estratégias de resistência diante do conflito recentemente instaurado, por meio do qual o território vai se carregando de novos significados e novas valorações.

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“QUERO UM AMOR SEM OBRIGAÇÕES” [1]

notas antropológicas sobre um estudo entre poliamantes



Matheus França

Mestrando em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Bolsista CNPq


Em O Banquete, de Platão (1991: 57), Aristófanes, dramaturgo grego, discursa sobre a origem do amor. Conta ele sobre criaturas que outrora habitaram a Terra e que possuíam quatro braços, quatro pernas, duas cabeças. Por punição de Zeus, essas criaturas foram divididas ao meio, dando origem aos humanos como nos conhecemos. Nesse sentido, a concretização do amor só se daria no momento em que o sujeito encontra a sua metade, a outra pessoa que a completa. Por conseguinte, pode-se inferir que, no sentido dado na obra a partir do mito narrado, é somente por meio de duas pessoas que o amor eros – nos termos platônicos – teria forma real. Longe de qualquer tentativa de interpretação presentista (Stocking Jr, 1968: 211) do mito, trago esta imagem para ilustrar uma das principais questões da pesquisa que dá origem a este trabalho: a crítica que adeptos/as do “poliamor” realizam com relação à monogamia como orientadora das relações afetivo-amorosas ocidentais. A ideia central entre minhas e meus interlocutoras/es é de que “é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo” e inclusive estabelecer uma relação amorosa entre três pessoas ou mais. Nesse sentido, meu objetivo neste artigo é apresentar o trabalho que venho desenvolvendo no mestrado. Trata-se de uma pesquisa sobre o poliamor, que em linhas gerais é descrito por suas/seus adeptas/os como uma perspectiva de relação que não se pauta na monogamia e que tem como centralidade a rejeição ao sentimento do ciúme como válido para a vivência de relações amorosas. Muito embora tal definição não seja estanque, ainda que para enunciá-la eu esteja pautado em falas que frequentemente escuto em campo. Voltarei a essa discussão mais à frente.

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A POLÍTICA PÚBLICA QUILOMBOLA

questões analíticas e práticas na comunidade de Conceição do Imbé

 

 

 

Proscila Neves da Silva


Trecho da comunidade quilombola de Conceição do Imbé com as serras do Parque Estadual do Desengano ao fundo. Créditos: Priscila Neves da Silva.




Priscila Neves da Silva

Mestranda em Políticas Sociais
Universidade Estadual do Norte Fluminense
Bolsista FAPERJ/UENF



Introdução

Conceição do Imbé é uma comunidade rural da cidade de Campos dos Goytacazes/RJ, sendo sua formação fruto da desapropriação das terras consideradas massa falida da usina de cana-de-açúcar Novo Horizonte. A referida usina faliu em 1985 deixando os trabalhadores sem emprego e com salários atrasados, o que fez com que a população desempregada que morava nas terras da usina entrasse com processo na justiça, que culminou no Programa de Assentamento (PA) Novo Horizonte, criado pelo Decreto Nº 94.128/87 (NEVES, 2004). Dessa data em diante, a população de Conceição do Imbé passou a trabalhar em seus lotes e a viver como assentados rurais. Parte dela, pertencente à PA Novo Horizonte, iniciou em 2004 o processo junto à Fundação Cultural Palmares (FCP) demandando seu reconhecimento como remanescente das comunidades dos quilombos, tendo adquirido a referente certidão em setembro de 2005.

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A GUERRA DOS MUNDOS

reflexões epistemológicas por uma etnografia da situação colonial





Fillipe Guimaraes
Artesanatos Mayas de Cooperativa de Mulheres Quiché, feitos de caule de bananeira e palha de milho, Lago Izabal, Guatemala. Fotografia do Autor, 2010.




Filippe Da Silva Guimarães

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal de Pelotas
Bolsista Capes



Neste texto, proponho reconstruir em termos de uma trajetória epistemológica minha problematização de um objeto antropológico até a qualificação de minha dissertação de mestrado em Antropologia pelo PPGAnt-UFPEL. Ao propor um projeto inicialmente intitulado O Milho Como Agência Nas Histórias Sociais De Nossamérica não tinha claro qual era meu objeto de pesquisa, meus objetivos e qual a metodologia deveria seguir para fazer uma etnografia histórica e textual. Como interesse específico, fui atrás de etnografias, mitologias, folclores e literaturas que traziam narrativas e rituais onde o milho dotado de humanidade seria em certos contextos um eu-humano dotado de ação e intencionalidades para o mundo ameríndio.

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MODOS DE CONECTAR CAMPO E TEXTO

sobre etnografia entre técnicas de estagiários do Projeto TAMAR




Ana Campos

Capa do documento “Projeto TAMAR, pesquisa e conservação: Lista de Publicações desde de 1980”. Crédito: site do projeto TAMAR

 


Ana Cecília Oliveira Campos

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Espirito Santo
Bolsista PIBIC


 

Introdução

Este artigo reflete sobre técnicas de agentes técnicos estagiários do Projeto TAMAR, ICMBio em Regência- vila de pescadores no Norte do Espirito Santo- conectam campo e texto. O que abordarei como “campo” do TAMAR são as atividades de monitoramento de praia. Enquanto a ideia de “texto” será usada para fazer referência à produção de pesquisa vinculada ao TAMAR. A intenção é tornar visível essa abordagem à partir de minha presença em campo, em especial, em reuniões e treinamentos- de caráter prático e teórico.

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AUROVILLE

aire de recherche, ère de la quête du sens





1

La photographie illustre Auroville aujourd'hui. On observe l'éolienne du puits de Fertile camouflée par la végétation. Source : http://www.auroville.org/gallery/Giorgio_Molinari/1421.jpg



Marie Horassius

Doctorante en Anthropologie
École des Hautes Études en Sciences Sociales

 

Nouveaux débats...

L'anthropologie est une science récente et éminemment contemporaine. À son origine, elle étudiait des cultures et des peuples délimités et inscrits dans un espace spécifique. Les chercheurs, à l'heure actuelle, sont confrontés à de nouveaux sujets et de nouvelles pratiques qui doivent aussi être analysés par le regard anthropologique. Ainsi ai-je choisi le sujet d'Auroville : « communauté internationale » située en Inde du Sud (Tamil Nadu). Ce terrain me semblait être représentatif des enjeux contemporains face auxquels l'anthropologie et la recherche font front aujourd'hui. Ce champ de recherche est une science inscrite dans le monde et selon nous, engagée dans les grandes réflexions sociales. À quoi peut servir l'anthropologie si elle refuse aujourd'hui d'étudier le monde qui l'entoure et d'entrer dans les nouveaux débats ?

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IMAGEM E RITUAL

a fotografia e o sutra lótus primordial




Alexsânder Nakaóka Elias

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista Capes

           

Um tema: Antropologia, fotografia e ritual

A escolha de uma corrente específica do Budismo para desenvolver esta pesquisa – a Honmon Butsuryu-shu – se faz necessária tendo em vista a grande quantidade de monastérios e correntes budistas existentes no Brasil e no mundo. Como seria inviável realizar uma pesquisa de campo satisfatória em todos os monastérios existentes no país, a Catedral Nikkyoji foi escolhida em razão da sua localização (próximo de Campinas) e por pertencer à tradição Mahayana[1].

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THUG LIFE E ATIVISMO SOCIAL

 

construções de masculinidades de protesto nos bairros populares da Cidade da Praia (Cabo Verde)

 

 

 

Silvia Stefani

Doutouranda em Ciências Sociais
Università degli Studi di Genova

 

 

Introdução

O presente texto refere-se à pesquisa desenvolvida no âmbito do Mestrado em Antropologia Cultural e Etnologia pela Universitá degli Studi di Torino (Itália). Essa investigação analisa os modelos de masculinidades próprios da sociedade cabo-verdiana atual, visando a indagar os processos de construções da performatividade de gênero masculino, segundo a definição da Butler (1990), e suas atuais transformações. O estudo é baseado nos dados qualitativos recolhidos no ano 2014 ao longo de seis meses de trabalho de campo no contexto urbano da Cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Cabo Verde é um arquipélago constituído por dez ilhas ao largo do promontório homónimo no Senegal. O arquipélago se encontra em pleno Oceano Atlântico, posição que o torna isolado, mas, ao mesmo tempo, ponto de conexão estratégico entre Africa, América e Europa. Essa característica se reflete tanto no passado das ilhas, nodo focal do comercio de escravos, quanto no atual fenómeno das migrações cabo-verdianas que se distribuem nos três continentes limítrofes. A capital, Praia, situada na ponta meridional da ilha de Santiago, foi centro do movimento de libertação contro a colonização portuguesa terminada no 1975 e hoje é a sede do governo e dos serviços nacionais.

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RECUA, POLÍCIA, RECUA. É O PODER POPULAR QUE TÁ NA RUA

 

Ocupação do espaço público e esquemas emergentes de ação coletiva em Porto Alegre

 

 

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Patricia Kunrath Silva

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista do CNPq

 

 

Introdução

Movimentos sociais, ação coletiva, militância política e ocupação do espaço público têm sido temas privilegiados na produção das Ciências Sociais[1].  A cidade de Porto Alegre foi e tem sido palco, especialmente entre os anos de 2012 e 2013 – e nisso veja-se o contexto das eleições municipais em 2012 para prefeitura e dos preparativos para a Copa do Mundo em 2014 – de inúmeros atos de contestação e tentativas de (re)apropriação do espaço público mediados pelas redes sociais e extrapolando o universo de coletivos já consolidados na cidade, tais como os movimentos Utopia e Luta, Tribos nas Trilhas da Cidadania e o Levante Popular da Juventude[2].

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STUDY OF MYTH AND ANTHROPOLOGY OF THE BODY

 

 

Thierry Veyrié

PhD student
American Indian Studies Research Institute
Indiana University

 

 

Myth and body may seem rather independent concepts but they are, in fact, deeply interrelated. In my master’s degree thesis at the École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), I tried to identify in Northern Paiute subsistence and rituals some emic gestures that appeared regularly in the historical literature such as scratching, exemplified by the digging-stick and the scratching stick, and associated to femininity; and piercing, the male technique for hunting. The current step of my research is to continue discerning emic techniques and gestures in the Northern Paiute myths previously recorded, but also to conduct fieldwork and collect more stories. My focus on gestures implies an analysis of the concept of body I will try to sketch out in this paper.

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