Associação Brasileira de Antropologia

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ENTREMEANDO POSSIBILIDADES INFINITAS

os processos museológico, histórico e estético de objetos feitos de miçanga em povos indígenas da Amazônia





Tanga de Miçangas - Tiriyó. Acervo Museu Goeldi.

 


Carlos Eduardo Chaves

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas

Bolsista CAPES



A presente comunicação tem como intuito à divulgação da pesquisa realizada entre os anos de 2012 a 2014 no Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém[1]. A atividade de pesquisa teve início após um período inicial de trabalho na Reserva Técnica Curt Nimuendajú (local de salvaguarda das coleções etnográficas) no qual tive contato com a cultura material de diversos grupos indígenas da Amazônia, objetos que datam do século XIX. Atualmente, no âmbito das doações para museus etnográficos, a renovação do acervo deste museu consiste na entrada cada vez mais frequente de objetos feitos de miçanga. Tendo isso em vista o objetivo da pesquisa foi analisar a miçanga como representação de contato com os “brancos” e outros povos indígenas, assim como as suas possibilidades estéticas no passado e no presente, juntamente com a circulação de mercadorias industrializadas nas aldeias. O intuito foi a realização de um estudo com caráter etnohistórico, estético e museológico referentes a objetos confeccionados de miçangas na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi e em trabalho de campo. O estudo forneceu critérios comparativos entre os Mebêngôkre-Kayapó, Wayana-Aparai e Tiriyó, possibilitando assim obter dados relativos à entrada de contas de vidros em sociedades de contato antigo e atual.

 

Os Wayana e Aparai e Tiriyó são povos de língua carib que habitam a região de fronteira entre o Brasil, o Suriname e a Guiana Francesa. Na parte brasileira, os primeiros estão concentrados nos rios Paru de Leste e com população em torno de 700 pessoas, habitando vinte e três aldeias localizadas em duas terras indígenas: Parque Tumucumaque e Rio Paru d´Este (VAN VELTHEM, 2010). No Brasil, os Wayana e Aparai mantêm há pelo menos cem anos de relações estreitas de convivência, coabitando as mesmas aldeias e casando-se entre si, estreitando dessa maneira suas relações de parentesco. Os Tiriyó que vivem na parte brasileira juntamente com alguns grupos vizinhos (principalmente Katxuyana, Txikuyana, Wayana e Aparai) também habitam a Terra Indígena Parque de Tumucumaque. Trata-se de uma área localizada ao norte do Pará e noroeste do Amapá, nos municípios de Oriximiná, Almeirim, Óbidos e Alenquer e sua população gira em torno de 1400 pessoas (Grupioni, 2005).

Deve-se ainda considerar que as informações disponíveis sobre a participação dos Aparai e Wayana nestas redes de relações, assim como toda a historiografia destas redes, se confunde com a introdução crescente de mercadorias europeias nestes sistemas de relações durante o período colonial. As transações comerciais se efetuaram entre os europeus e os índios da costa, na região da Guiana Francesa e Suriname, sobretudo nos séculos XVII e XVIII. Os Aparai e Wayana já se encontravam familiarizados e dependentes há muito tempo dessas mercadorias europeias e dos bens industrializados (Barbosa, 2005; Velthem, 2011).

Essa relação comercial com os “brancos” não é uma característica apenas dos Wayana e Aparai. Desde o século XVII foi documentado pelos viajantes que percorreram a região das Guianas[2] um extenso circuito de trocas entre as etnias indígenas que habitavam o lugar, o qual repousava na captura recíproca, entre inimigos, mulheres e troca de bens (Dreyfus, 1993).  Muitas mercadorias foram introduzidas aos Wayana e Aparai através dessa rede de relações desde o período colonial, por meio das transações comerciais na qual também participavam os europeus e os escravos fugitivos da Guiana Francesa e Suriname. Em vista disso, essas comunidades indígenas já se encontram familiarizadas e dependentes de mercadorias europeias e bens industrializados há muito tempo (Barbosa, 2005).

A miçanga, para os Wayana-Aparai, é uma mercadoria de longa data, introduzida antes mesmo do contato com os “brancos”. Com o circuito de rede de trocas das Guianas, os Wayana e Aparai se beneficiavam do recebimento de mercadorias europeias provenientes de outros grupos indígenas ou de escravos fugitivos, sobretudo os Saramaká. O uso das miçangas se intensificou com o contato com brancos que a partir do século XVIII massificaram a entrada de mercadorias industrializadas.


3 - acervo museu goeldi - tanga de miangas - wayana-aparai
Acervo Museu Goeldi - Tanga de Miçangas - Wayana-Aparai

 

Com a consolidação das miçangas dentro do circuito de trocas de objetos, foi então possível aos Wayana e Aparai seguirem outros patamares e incorporarem a miçanga na cosmologia e nos seus mitos. Os mesmos elaboraram um complexo esquema estético corporal onde as contas de vidro passaram então a ser compreendidas como uma espécie de vestuário ou uma segunda pele que reforça a condição humana de um indivíduo, pois estar enfeitado nos momentos adequados, seja em festas ou rituais, com a “roupa de miçangas” é estar na condição ideal de um ser humano, o que por sua vez fomenta a distinção e a singularidade dos Wayana-Aparai dentro do mundo natural, afastando-os da animalidade. Dentro desse esquema, o artesão é quase um “ser sobrenatural”, pois é o responsável pelo poder de metamorfose gerado pela pele de miçangas (Van Velthem, 2011).

 Podemos perceber a importância das miçangas entre os Wayana-Aparai e Tiriyó ao analisarmos a coleção etnográfica do Museu Paraense Emílio Goeldi. Dentro da Instituição há quinze coleções perfazendo um total 1711 peças correspondentes ao período de 1915 a 1990. Em todas as coleções é possível encontrar peças confeccionados de miçangas, basicamente tangas, colares e pulseiras e outros adornos corporais, objetos caracterizados por serem de uso cotidiano ou ritual. Podemos encontrar nas tramas de miçangas grafismos do repertório endógeno, também aplicado às pinturas corporais, ou desenhos introduzidos, de objetos de mercadorias industrializada, assim como cenas da vida cotidiana.

Nosso interesse também se volta para os Mebêngôkre que vivem no sul do estado do Pará e no norte do Estado do Mato Grosso, no curso dos rios Xingu e Araguaia e seus afluentes, em aldeias localizadas em 9 terras indígenas: Baú, Kapotnhinore, Badjônkôre, Capoto/Jarina, Kararaô, Kayapó, Trincheira/Bacajá, Xikrin do Cateté e Las Casas.As Terras Indígenas são cobertas principalmente de florestas de terra firme e cerrados, enquanto o resto da região sofre com fortes processos de desmatamento (Zimmerman, 2005). A população Mebêngôkre atual é estimada em mais 8000 pessoas, sendo que cada aldeia tem em média 200 a 500 indivíduos e poucas ultrapassam os 1000, como é o caso de Gorotire (Verswijver, 2002). Na Terra Indígena Kayapó (TIK), as aldeias relativamente próximas às cidades não ultrapassam um dia de viagem de voadeira, fazendo com que as comunidades tenham relativa facilidade de acesso a serviços de comércio e saúde. A língua Mebêngôkre pertence à família Jê do tronco linguístico Macro Jê e sua transmissão é considerada alta e bem estabelecida já que muitos são monolíngues (Rodrigues, 2011), e geralmente os bilíngues Mebêngôkre/Português são jovens de 20 a 40 anos, que já passaram pela escola e pela cidade.


2 - acervo musu goeldi - pulseira de miangas desenho representa a pele da cobra - kang-ok mebngkre-kayap

Pulseira de Miçangas (desenho representa a pele da cobra - Kangà-ok) Mebêngôkre-Kayapó. Acervo Musu Goeldi.

 

O contato com a população branca entre os Mebêngôkre ocorreu “tardiamente”, no início do século XIX, sobretudo devido ao isolamento ocasionado pela interrupção do tráfego fluvial dos rios Araguaia e Tocantins devido à exploração aurífera no século XVII (Chaves, 2012). Também devido a esse processo, podemos afirmar que houve um relativo atraso na entrada de bens manufaturados dentro dessa população indígena.  Os Mebêngôkre, na literatura antropológica, são conhecidos por incorporarem objetos e matérias-primas para dentro de sua cultura material com a finalidade de agregarem valores estéticos e criarem distintividade para o indivíduo que o incorpora, tornando-o dono desse objeto, o que chamamos de nekrets[3]. A miçanga é um utensílio exógeno e está dentro dos critérios de incorporações Mebêngôkre, e nesse sentido pode ter sido introduzida através das trocas com a população “branca” ou como se habituou a chamar nos trabalhos acadêmicos entre os Mebêngôkre – as expedições guerreiras, que tinham como objetivo a obtenção de objetos, cantos, cerimônias. etc. através da guerra com o intuito de renovação das mesmas – nekrets (Turner, 1968, 1992, 1993).

Com a incorporação de novos materiais e a substituição do que era considerado tradicional, a miçanga sintetiza o sucesso na adequação de novas matérias-primas e a confecção de novos objetos. A entrada de novos materiais na cultura Mebêngôkre “popularizou” a produção de diversos utensílios, que muitas vezes pelo caráter restritivo do uso das matérias-primas, limitava a confecção de objetos em virtude dos nekrets legitimarem a exclusividade na fabricação de objetos e a posse de um indivíduo sobre determinado material. Com a entrada de novas matérias-primas, não proibitivas, consideradas de uso comum ou “vulgarizadas” de uso geral, seria então possível para novos artesões manifestarem seu potencial criativo e a miçanga, nesse sentido dá essa possibilidade de criação e transformação (GORDON, 2003).

Entre os Mebêngôkre encontramos uma variedade extensa de objetos feitos de miçanga: colares, pulseiras, braçadeiras, tipoias, entre outros.  Em monografias mais antigas sobre cultura material, no entanto, sentimos falta das contas de vidro, Dreyfus e Frikel são bons exemplos para aprofundarmos essa afirmação. Esses trabalhos realizados na década de 1960 expuseram pela primeira vez uma gama diversa de objetos cotidianos e rituais assim como aplicação de seus usos e funções, porém é raro encontrar miçangas em suas descrições.

Protásio Frikel, em 1968, fez um extenso trabalho sobre os objetos da cultura material Mebêngôkre, sendo seu objetivo catalogar todos os utensílios usados por a comunidade indígena aonde fez trabalho de campo – Xikrin do Cateté. Também percebemos a ausência de objetos constituídos de miçangas entre suas descrições, porém há um adorno em particular sobre o qual o etnógrafo faz referência do uso das contas de vidro, a bandoleira de contas pretas. Frikel analisa detalhadamente sua estrutura, que se trata de várias voltas de sementes arredondadas pretas enfiadas ao um fio comprido e “as vezes, inclui-se espaçadas de 10 a 15 cm, contas mais grossas de vidro de cor azul, amarela, rósea...” (67: 1968).

O fruto final do trabalho de Frikel entre os Mebêngôkre foi a entrega dos objetos que recolheu na aldeia para a formação de sua coleção etnográfica no Museu Paraense Emílio Goeldi. Ao adentrarmos nas coleções etnográficas Mebêngôkre da Instituição, além do etnógrafo alemão encontramos mais treze coleções que datam do ano de 1902 a 1987, totalizando aproximadamente 2500 peças (Chaves, 2011). Um fato interessante é que, apesar de quase um século de objetos reunidos, encontramos apenas algumas miçangas espaçadas em algumas bandoleiras na coleção de Frikel e dois colares e um brinco de miçangas na coleção de Darrel Posey de 1987, o que nos mostra como foi o início da entrada das contas de vidros entre os Mebêngôkre.

Temos, como estudo de caso, sociedades que tiveram como experiência de contato um objeto catalisador e destinado à atração desses grupos indígenas mesmo em momentos históricos distintos, um no século XVII e o outro no século XIX. As contas de vidros entraram no sistema estético e cosmológico dessas sociedades em momentos diferentes, mas um fator eles têm em comum: estimulam a criatividade do artesão em suas tramas de infinitas possibilidades. Se de um lado a miçanga entre os Mebêngôkre possibilitou uma maior abertura no processo de confecção de objetos, criando estímulos para a formação de novos artesãos, uma vez que homens (motivados pelo aspecto comercial) e mulheres podem fabricar, temos em outra esfera os Wayana e Aparai com o uso mais restrito das miçangas, sendo considerada perigosa devido a sua carga simbólica, reservada a momentos específicos. Portanto, é pertinente o estudo comparativo sobre as miçangas nessas duas sociedades, assim como dos artefatos de miçangas no contexto social indígena e no contexto das coleções etnográficas como elo de ligação que norteou uma redefinição e transformação na história do contato e na estética desses dois povos.

Referências bibliográficas

BARBOSA, Gabriel Coutinho. 2005. Das trocas de bens. In : GALLOIS, Dominique Tilkin (Org.). Redes de Relações nas Guianas (Série: Redes Ameríndias NHII / USP). São Paulo: Associação Editorial Humanitas / FAPESP. pp. 113-150.

CHAVES, Carlos Eduardo. 2011. « La force vient des serpents: la massue Kayapó ». In: Índios no Brasil. Bruxelas: Europalia.

_____. 2012, Nas trilhas Irã Ãmrãnh: sobre história e cultura material Mebêngôkre. Dissertação de Mestrado. Belém: Universidade Federal do Pará..

COUDREAU, H. 1983. Chez nos indiens: quatre années dans la Guyane Française (1887-1881). Paris: Hachete..

CREVAUX, J. 1883. Voyages dans l´Amerique du Sud, 1878-1881. Paris: Hachete.

DREYFUS, Simone. 1972. Los Kayapó del norte de Brasil. México: Instituto Indigenista Interamericano.

_____. 1993.  “Os emprendimientos coloniais e os espaços políticos indígenas no interior da Guiana occidental (entre Orenoco e Corentino) de 1613 a 1796. In: Eduardo Viveiros de Castro & Manuela Carneiro da Cunha (orgs.), Amazônia: etnologia e história indígena. pp. 43-66. São Paulo: NHII-USP/FAPESP.

FISHER, William. 2000. Rainforest exchanges: industry and community on an amazonian frontier. Washington: Smithsonian Intitution Press.

FRIKEL, Protásio. 1968. Os Xikrin: equipamentos e técnicas de subsistência. Belém: MPEG.

GORDON, Cesar. 2003. Economia Selvagem. Rio de Janeiro: Instituto Socioambiental.

GRUPIONI, Denise Farjado. 2005. Tiriyó. Povos Indígenas no Brasil: Kayapó. ISA. Disponível em: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/tiriyó. Data de acesso 18/07/2012.

RODRIGUES, ARYON D. 2005. “Sobre as línguas indígenas e sua pesquisa no Brasil”. Ciência e Cultura, 57 (2): 35-38. Disponível em: http://etnolinguistica.wdfiles.com/local--files/artigo%3Arodrigues-2005/rodrigues_2005.pdf. Data de acesso: 11.10.2011.

TURNER, Terence. 1965. Social structure and political organisation among the Northern Cayapó.  Cambridje.

_____. 1992. "Os Mebengokre Kayapó: história e mudança social, de comunidades autônomas para a coexistência interétnica". In: História dos Índios do Brasil. São Paulo: EDUSP.

_____. 1993. Da cosmologia à história: resistência, adaptação e consciência social entre os Kayapó. In E. Viveiros de Castro & M. Carneiro da Cunha (orgs.), Amazônia: etnologia e história indígena. pp. 43-66. São Paulo: NHII-USP/FAPESP.

VELTHEM, Lucia van. 2003. O Belo é a fera: a estética da produção e da predação entre os Wayana. Lisboa: Assírio e Alvim, 2003.

_____. 2010. Livro da arte gráfica Wayana e Aparai. Rio de Janeiro: Museu do Índio/Iepé.

_____. 2011. Objetos importados: a incorporação entre os Wayana. In: Indiana, vol 12, Berlim.

VERSWIJVER, Gustaaf. 1992. The club-fighters of the Amazon: warfare among the Kaiapó indians of Central Brazil. Gent: Rijksuniversiteit.

_____. 2002. Povos Indígenas no Brasil: Kayapó. ISA. Disponível em: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kayapo. Data de acesso 19/04/2012.

ZIMMERMAN, Barbara. 2005. “Alianças de conservação com povos indígenas da Amazônia”. Megadiversidade, 1(1): 163-175.

 

 

Carlos Eduardo Chaves

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas

Bolsista CAPES
Currículo Lattes

 


[1]                      Pesquisa realizada com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento e Tecnológico (CNPq)

[2]                      Ver Crevaux 1883 e Coudreau 1887.

[3]                      Prerrogativas herdáveis. Ver Verswijver 1992, Fisher 2000, Gordon 2003.

Novas Pesquisas - Blog

 

SENTIDOS DE JUSTIÇA, REPRESENTAÇÕES DE PODER E FIANÇAS NA POLÍCIA CIVIL DO RIO DE JANEIRO


Marcus Cardinelli

Museu da PCERJ. Créditos: Cyro A. Silva



Marcus José da Silva Cardinelli

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal Fluminense
Bolsista CAPES




Proponho uma reflexão sobre as representações de poder que são construídas nas delegacias da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ), especialmente pelos seus delegados. Ao longo do estudo que venho realizando, percebi que, geralmente, eles exercitam esse poder através da interpretação/classificação de determinado fato dentro de certas categorias jurídicas. Como pondera Bourdieu, o direito legal costuma ser chamado a contribuir para racionalizar ex post decisões em que não teve qualquer participação (Bourdieu 1989: 224). Ao mesmo tempo, o direito é uma forma de ver o mundo acompanhada de um conjunto de práticas que essa própria forma de ver o mundo impõe (Geertz 2012: 186).

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PROBLEMAS ENTRE REGRAS E AFETOS


versões sobre casar certo e casar errado e os muitos jeitos de ser ticuna [1]

 



Patrícia Carvalho Rosa

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista CNPQ



- Para saber como se casa e porque falamos tanto disso é bom escutar a história contada nas palavras dos antigos (ore) para conhecer como as regras dos clãs nos ensinaram a casar bem (...) para tentar acabar com os males do mundo feitos pelos womachi (incesto). Com essas histórias você saberá como apareceu o povo Ticuna de hoje (...) escutará porque moramos num mundo (na’ane) de perigo (nakügü), agora longe de nossos ancestrais que o criaram. Já foi tempo, a gente conhecia só as regras dos antigos. Tempo vai passando, mundo vai crescendo, ganhando gente e lugares (...) fica mais do’one (instável). Agora as palavras dos antigos estão todas misturas com outras palavras e histórias. Isso faz novos saberes sobre o mundo. (...) Já não vivemos num território só dos parentes. Hoje tem muitos tipos de gentes, muitos jeitos de ser indígena. Por isso esse problema nas negociações de casamento. Cada pessoa vê isso de um jeito. Casa-se como antigamente, mas também casa-se agora com outras regras, pois têm os sentimentos, os jeitos das pessoas, outras preocupações dos que se casam. (...) Alguns dão o golpe na cultura, não casando ou trazendo para a comunidade outros jeitos de casar. (...) Não é ruim, não. Mas tem que cuidar. E tem que saber também das histórias desse tempo presente, para saber de onde vem esses outros saberes (...) como se misturou tudo. São essas misturas de saberes, de pensamentos que agora nos fazem pensar o que é casar certo e casar errado. Esses jeitos de casar e de ser ticuna vêm das misturas das regras dos clãs e também dos sentimentos das pessoas em casar com quem elas querem, do jeito que elas querem, dependendo dos interesses e do jeito que a pessoa foi criada, que tá no mundo. Ai casar certo e casar errado pode ser várias coisas, depende de quem te contar. 

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INTERCÂMBIOS ESTUDANTIS

dinâmicas migratórias contemporâneas e o (re)pensar antropológico

 

 

Leonardo Francisco de Azevedo

Mestrando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora
Bolsista CAPES

  

Pensar em dinâmicas migratórias contemporâneas requer, das ciências sociais, um alargamento de diferentes categorias que tradicionalmente nos serviram para explicar as diferentes formas de deslocamento existentes.  Sobretudo em contexto de globalização crescente, outros desafios nos são apresentados para serem melhor compreendidos e explicados.  A presente pesquisa se dispõe a investigar um tipo específico de migração, cada vez mais comum mundo afora: estudantes universitários em intercâmbio. Para tal, tenho como interlocutores intercambistas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que viajaram entre os anos de 2013 e 2014. A UFJF lança, anualmente, o edital de intercâmbio da própria universidade, referente aoPrograma de Intercâmbio Internacional de Graduação (PII-GRAD), a partir de convênios da própria instituição com universidades estrangeiras. Este programa contempla apenas alunos de graduação da UFJF, sendo que o estudante parte para o intercâmbio no segundo semestre do ano letivo brasileiro, ficando no mínimo um semestre na universidade estrangeira, mas podendo estender este período por até um ano. Com vistas a acompanhar todo o processo de seleção, preparação, o intercâmbio em si e o retorno, optei por acompanhar alunos que concorreram ao edital PII-GRAD no ano de 2013. Estes estudantes realizaram suas viagens concomitante à minha pesquisa de mestrado, o que me permitiu acompanhar todo o processo.

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MUSEU, OBJETOS E OS DIFERENTES TEMPOS CONFLUENTES

 

 

Fachada do Museo Nacional de Antropologia de Madrid 
Fachada do Museo Nacional de Antropología de Madrid. Créditos de todas as imagens: Renata Montechiare



Renata Montechiare

Doutoranda em Sociologia e Antropologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bolsa Capes



Museu, objetos e os diferentes tempos confluentes trata-se de uma síntese para pesquisa de doutorado em andamento. Resume o que parecem ser pontos centrais para compreender o que faz o Museo Nacional de Antropología de Madrid (MNA) apresentar-se como guardião das referências de um suposto universalismo cultural determinado por um tipo particular de museu do homem, através dos objetos que exibe.

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A RELIGIÃO NO CALENDÁRIO OFICIAL

notas acerca da regulação de feriados no Brasil
 

 

Izabella Pessanha Daltro Bosisio

Mestra em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 

A proposta deste texto é apresentar alguns apontamentos decorrentes da pesquisa realizada para a minha dissertação de mestrado[1], a qual procurou mapear o lugar da religião no calendário oficial brasileiro, tomando como ponto de partida a regulamentação da instituição de feriados no país. Este foi o lugar estratégico escolhido para explorar as questões que envolvem os entrelaçamentos entre Estado e religiões no Brasil.

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ENUNCIAÇÕES, INTERVENÇÕES E TENSÕES

a experiência de engajamento em coletivos vinculados à população em situação de rua em Porto Alegre/RS

 

 

bruno fernandes - 1. o incio da noite no viaduto otvio rocha

O início da noite no viaduto Otávio Rocha, Porto Alegre-RS, 2014. Foto do autor.

 

 

Bruno Guilhermano Fernandes

Graduando em Ciências Sociais
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista de Extensão e Pesquisa do Departamento de Antropologia da UFRGS


Patrice Schuch

Professora de Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Neste texto, à luz do trabalho etnográfico, pretendo expor reflexões em torno da experiência, em andamento, de análise e de engajamento nos projetos e coletivos vinculados aos circuitos sociais heterogêneos de atenção à chamada população em situação de rua, em Porto Alegre/RS. Situado na interface entre a Antropologia do direito e da política, este estudo tem como foco a análise de discursos, interlocuções e tensões envolvidos nos processos de engajamento, crítica e de contestação vinculados à mobilização política, reivindicações de direitos e à relação com as tecnologias de governo em torno da vida, por parte desse segmento populacional. 

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ENTREMEANDO POSSIBILIDADES INFINITAS

os processos museológico, histórico e estético de objetos feitos de miçanga em povos indígenas da Amazônia





Tanga de Miçangas - Tiriyó. Acervo Museu Goeldi.

 


Carlos Eduardo Chaves

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas

Bolsista CAPES



A presente comunicação tem como intuito à divulgação da pesquisa realizada entre os anos de 2012 a 2014 no Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém[1]. A atividade de pesquisa teve início após um período inicial de trabalho na Reserva Técnica Curt Nimuendajú (local de salvaguarda das coleções etnográficas) no qual tive contato com a cultura material de diversos grupos indígenas da Amazônia, objetos que datam do século XIX. Atualmente, no âmbito das doações para museus etnográficos, a renovação do acervo deste museu consiste na entrada cada vez mais frequente de objetos feitos de miçanga. Tendo isso em vista o objetivo da pesquisa foi analisar a miçanga como representação de contato com os “brancos” e outros povos indígenas, assim como as suas possibilidades estéticas no passado e no presente, juntamente com a circulação de mercadorias industrializadas nas aldeias. O intuito foi a realização de um estudo com caráter etnohistórico, estético e museológico referentes a objetos confeccionados de miçangas na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi e em trabalho de campo. O estudo forneceu critérios comparativos entre os Mebêngôkre-Kayapó, Wayana-Aparai e Tiriyó, possibilitando assim obter dados relativos à entrada de contas de vidros em sociedades de contato antigo e atual.

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RESSIGNIFICAÇÃO TERRITORIAL E MINERAÇÃO EM GRANDE ESCALA EM UMA COMUNIDADE AFROCOLOMBIANA




Germán Moriones

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas


Problemática

Este projeto tem o objetivo de estudar a disputa territorial entre a comunidade afrocolombiana de La Toma, que vive da mineração tradicional do ouro, e o Estado colombiano, que concedeu a uma empresa transnacional o direito de exploração industrial de larga escala do território ancestral da comunidade (Rojas et al., 2013). La Toma, localizada no sudoeste colombiano, tem sua origem em um processo de ocupação mineira iniciada em 1634, mas a concessão estatal à empresa transnacional, realizada no ano 2007, não respeitou os direitos étnicos e territoriais reconhecidos às comunidades negras a partir da Constituição Política da Colômbia de 1991, especialmente o direito à consulta previa. Tendo em vista os estudos antropológicos sobre comunidades negras desenvolvidos desde a década de 1950 na Colômbia, assim como a perspectiva teórica da ‘ecologia política’, pretendemos analisar a dinâmica territorial da comunidade de La Toma, desde suas práticas de gestão tradicionais até as suas estratégias de resistência diante do conflito recentemente instaurado, por meio do qual o território vai se carregando de novos significados e novas valorações.

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“QUERO UM AMOR SEM OBRIGAÇÕES” [1]

notas antropológicas sobre um estudo entre poliamantes



Matheus França

Mestrando em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Bolsista CNPq


Em O Banquete, de Platão (1991: 57), Aristófanes, dramaturgo grego, discursa sobre a origem do amor. Conta ele sobre criaturas que outrora habitaram a Terra e que possuíam quatro braços, quatro pernas, duas cabeças. Por punição de Zeus, essas criaturas foram divididas ao meio, dando origem aos humanos como nos conhecemos. Nesse sentido, a concretização do amor só se daria no momento em que o sujeito encontra a sua metade, a outra pessoa que a completa. Por conseguinte, pode-se inferir que, no sentido dado na obra a partir do mito narrado, é somente por meio de duas pessoas que o amor eros – nos termos platônicos – teria forma real. Longe de qualquer tentativa de interpretação presentista (Stocking Jr, 1968: 211) do mito, trago esta imagem para ilustrar uma das principais questões da pesquisa que dá origem a este trabalho: a crítica que adeptos/as do “poliamor” realizam com relação à monogamia como orientadora das relações afetivo-amorosas ocidentais. A ideia central entre minhas e meus interlocutoras/es é de que “é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo” e inclusive estabelecer uma relação amorosa entre três pessoas ou mais. Nesse sentido, meu objetivo neste artigo é apresentar o trabalho que venho desenvolvendo no mestrado. Trata-se de uma pesquisa sobre o poliamor, que em linhas gerais é descrito por suas/seus adeptas/os como uma perspectiva de relação que não se pauta na monogamia e que tem como centralidade a rejeição ao sentimento do ciúme como válido para a vivência de relações amorosas. Muito embora tal definição não seja estanque, ainda que para enunciá-la eu esteja pautado em falas que frequentemente escuto em campo. Voltarei a essa discussão mais à frente.

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A POLÍTICA PÚBLICA QUILOMBOLA

questões analíticas e práticas na comunidade de Conceição do Imbé

 

 

 

Proscila Neves da Silva


Trecho da comunidade quilombola de Conceição do Imbé com as serras do Parque Estadual do Desengano ao fundo. Créditos: Priscila Neves da Silva.




Priscila Neves da Silva

Mestranda em Políticas Sociais
Universidade Estadual do Norte Fluminense
Bolsista FAPERJ/UENF



Introdução

Conceição do Imbé é uma comunidade rural da cidade de Campos dos Goytacazes/RJ, sendo sua formação fruto da desapropriação das terras consideradas massa falida da usina de cana-de-açúcar Novo Horizonte. A referida usina faliu em 1985 deixando os trabalhadores sem emprego e com salários atrasados, o que fez com que a população desempregada que morava nas terras da usina entrasse com processo na justiça, que culminou no Programa de Assentamento (PA) Novo Horizonte, criado pelo Decreto Nº 94.128/87 (NEVES, 2004). Dessa data em diante, a população de Conceição do Imbé passou a trabalhar em seus lotes e a viver como assentados rurais. Parte dela, pertencente à PA Novo Horizonte, iniciou em 2004 o processo junto à Fundação Cultural Palmares (FCP) demandando seu reconhecimento como remanescente das comunidades dos quilombos, tendo adquirido a referente certidão em setembro de 2005.

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A GUERRA DOS MUNDOS

reflexões epistemológicas por uma etnografia da situação colonial





Fillipe Guimaraes
Artesanatos Mayas de Cooperativa de Mulheres Quiché, feitos de caule de bananeira e palha de milho, Lago Izabal, Guatemala. Fotografia do Autor, 2010.




Filippe Da Silva Guimarães

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal de Pelotas
Bolsista Capes



Neste texto, proponho reconstruir em termos de uma trajetória epistemológica minha problematização de um objeto antropológico até a qualificação de minha dissertação de mestrado em Antropologia pelo PPGAnt-UFPEL. Ao propor um projeto inicialmente intitulado O Milho Como Agência Nas Histórias Sociais De Nossamérica não tinha claro qual era meu objeto de pesquisa, meus objetivos e qual a metodologia deveria seguir para fazer uma etnografia histórica e textual. Como interesse específico, fui atrás de etnografias, mitologias, folclores e literaturas que traziam narrativas e rituais onde o milho dotado de humanidade seria em certos contextos um eu-humano dotado de ação e intencionalidades para o mundo ameríndio.

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MODOS DE CONECTAR CAMPO E TEXTO

sobre etnografia entre técnicas de estagiários do Projeto TAMAR




Ana Campos

Capa do documento “Projeto TAMAR, pesquisa e conservação: Lista de Publicações desde de 1980”. Crédito: site do projeto TAMAR

 


Ana Cecília Oliveira Campos

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Espirito Santo
Bolsista PIBIC


 

Introdução

Este artigo reflete sobre técnicas de agentes técnicos estagiários do Projeto TAMAR, ICMBio em Regência- vila de pescadores no Norte do Espirito Santo- conectam campo e texto. O que abordarei como “campo” do TAMAR são as atividades de monitoramento de praia. Enquanto a ideia de “texto” será usada para fazer referência à produção de pesquisa vinculada ao TAMAR. A intenção é tornar visível essa abordagem à partir de minha presença em campo, em especial, em reuniões e treinamentos- de caráter prático e teórico.

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AUROVILLE

aire de recherche, ère de la quête du sens





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La photographie illustre Auroville aujourd'hui. On observe l'éolienne du puits de Fertile camouflée par la végétation. Source : http://www.auroville.org/gallery/Giorgio_Molinari/1421.jpg



Marie Horassius

Doctorante en Anthropologie
École des Hautes Études en Sciences Sociales

 

Nouveaux débats...

L'anthropologie est une science récente et éminemment contemporaine. À son origine, elle étudiait des cultures et des peuples délimités et inscrits dans un espace spécifique. Les chercheurs, à l'heure actuelle, sont confrontés à de nouveaux sujets et de nouvelles pratiques qui doivent aussi être analysés par le regard anthropologique. Ainsi ai-je choisi le sujet d'Auroville : « communauté internationale » située en Inde du Sud (Tamil Nadu). Ce terrain me semblait être représentatif des enjeux contemporains face auxquels l'anthropologie et la recherche font front aujourd'hui. Ce champ de recherche est une science inscrite dans le monde et selon nous, engagée dans les grandes réflexions sociales. À quoi peut servir l'anthropologie si elle refuse aujourd'hui d'étudier le monde qui l'entoure et d'entrer dans les nouveaux débats ?

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IMAGEM E RITUAL

a fotografia e o sutra lótus primordial




Alexsânder Nakaóka Elias

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista Capes

           

Um tema: Antropologia, fotografia e ritual

A escolha de uma corrente específica do Budismo para desenvolver esta pesquisa – a Honmon Butsuryu-shu – se faz necessária tendo em vista a grande quantidade de monastérios e correntes budistas existentes no Brasil e no mundo. Como seria inviável realizar uma pesquisa de campo satisfatória em todos os monastérios existentes no país, a Catedral Nikkyoji foi escolhida em razão da sua localização (próximo de Campinas) e por pertencer à tradição Mahayana[1].

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THUG LIFE E ATIVISMO SOCIAL

 

construções de masculinidades de protesto nos bairros populares da Cidade da Praia (Cabo Verde)

 

 

 

Silvia Stefani

Doutouranda em Ciências Sociais
Università degli Studi di Genova

 

 

Introdução

O presente texto refere-se à pesquisa desenvolvida no âmbito do Mestrado em Antropologia Cultural e Etnologia pela Universitá degli Studi di Torino (Itália). Essa investigação analisa os modelos de masculinidades próprios da sociedade cabo-verdiana atual, visando a indagar os processos de construções da performatividade de gênero masculino, segundo a definição da Butler (1990), e suas atuais transformações. O estudo é baseado nos dados qualitativos recolhidos no ano 2014 ao longo de seis meses de trabalho de campo no contexto urbano da Cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Cabo Verde é um arquipélago constituído por dez ilhas ao largo do promontório homónimo no Senegal. O arquipélago se encontra em pleno Oceano Atlântico, posição que o torna isolado, mas, ao mesmo tempo, ponto de conexão estratégico entre Africa, América e Europa. Essa característica se reflete tanto no passado das ilhas, nodo focal do comercio de escravos, quanto no atual fenómeno das migrações cabo-verdianas que se distribuem nos três continentes limítrofes. A capital, Praia, situada na ponta meridional da ilha de Santiago, foi centro do movimento de libertação contro a colonização portuguesa terminada no 1975 e hoje é a sede do governo e dos serviços nacionais.

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RECUA, POLÍCIA, RECUA. É O PODER POPULAR QUE TÁ NA RUA

 

Ocupação do espaço público e esquemas emergentes de ação coletiva em Porto Alegre

 

 

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Patricia Kunrath Silva

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista do CNPq

 

 

Introdução

Movimentos sociais, ação coletiva, militância política e ocupação do espaço público têm sido temas privilegiados na produção das Ciências Sociais[1].  A cidade de Porto Alegre foi e tem sido palco, especialmente entre os anos de 2012 e 2013 – e nisso veja-se o contexto das eleições municipais em 2012 para prefeitura e dos preparativos para a Copa do Mundo em 2014 – de inúmeros atos de contestação e tentativas de (re)apropriação do espaço público mediados pelas redes sociais e extrapolando o universo de coletivos já consolidados na cidade, tais como os movimentos Utopia e Luta, Tribos nas Trilhas da Cidadania e o Levante Popular da Juventude[2].

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STUDY OF MYTH AND ANTHROPOLOGY OF THE BODY

 

 

Thierry Veyrié

PhD student
American Indian Studies Research Institute
Indiana University

 

 

Myth and body may seem rather independent concepts but they are, in fact, deeply interrelated. In my master’s degree thesis at the École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), I tried to identify in Northern Paiute subsistence and rituals some emic gestures that appeared regularly in the historical literature such as scratching, exemplified by the digging-stick and the scratching stick, and associated to femininity; and piercing, the male technique for hunting. The current step of my research is to continue discerning emic techniques and gestures in the Northern Paiute myths previously recorded, but also to conduct fieldwork and collect more stories. My focus on gestures implies an analysis of the concept of body I will try to sketch out in this paper.

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