Associação Brasileira de Antropologia

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A POLÍTICA PÚBLICA QUILOMBOLA

questões analíticas e práticas na comunidade de Conceição do Imbé

 

 

 

Proscila Neves da Silva


Trecho da comunidade quilombola de Conceição do Imbé com as serras do Parque Estadual do Desengano ao fundo. Créditos: Priscila Neves da Silva.




Priscila Neves da Silva

Mestranda em Políticas Sociais
Universidade Estadual do Norte Fluminense
Bolsista FAPERJ/UENF



Introdução

Conceição do Imbé é uma comunidade rural da cidade de Campos dos Goytacazes/RJ, sendo sua formação fruto da desapropriação das terras consideradas massa falida da usina de cana-de-açúcar Novo Horizonte. A referida usina faliu em 1985 deixando os trabalhadores sem emprego e com salários atrasados, o que fez com que a população desempregada que morava nas terras da usina entrasse com processo na justiça, que culminou no Programa de Assentamento (PA) Novo Horizonte, criado pelo Decreto Nº 94.128/87 (NEVES, 2004). Dessa data em diante, a população de Conceição do Imbé passou a trabalhar em seus lotes e a viver como assentados rurais. Parte dela, pertencente à PA Novo Horizonte, iniciou em 2004 o processo junto à Fundação Cultural Palmares (FCP) demandando seu reconhecimento como remanescente das comunidades dos quilombos, tendo adquirido a referente certidão em setembro de 2005.

 

Contudo, assim como em inúmeras comunidades do país, a segunda fase da política de reconhecimento quilombola que cabe ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) permanece estagnado para Conceição do Imbé. A comunidade em questão parece ser bem peculiar nos motivos que levam a essa estagnação do processo de titulação, pois se em outras comunidades os entraves são decorrentes de conflitos com a Marinha – como é o caso da comunidade de Marambaia – ou de brigas com fazendeiros, em Conceição do Imbé os entraves são de outra ordem, notadamente pelo fato de a comunidade já possuir o título das terras.

Assim, a pesquisa tem como objetivos: analisar a aplicabilidade da política pública de reconhecimento e titulação de terras quilombolas; investigar os entraves que impedem o processo de ser finalizado; discutir de que forma os conflitos internos (de terra, de religião e de liderança) interferem no acesso e aplicação das políticas; e que políticas a comunidade teve acesso até o momento. Para a realização desta pesquisa, os dados estão sendo coletados por meio de observação participante e de entrevistas semiestruturadas.

As informações colhidas em campo estão sendo analisadas a partir do cotejamento com bibliografia pertinente. Para pautar a pesquisa em dados oficiais dos órgãos competentes, buscamos informações junto à FCP que é quem se encarrega da etapa da certificação das comunidades; ao INCRA que possui dados relativos à questão territorial, como o processo de titulação que será um dos pontos cruciais para o desenvolvimento da pesquisa; e buscamos também informações junto à Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), que fica responsável pela gestão dos grandes programas de combate ao racismo e a valorização das culturas afrobrasileiras, como o Programa Brasil Quilombola.

 

Os impasses conceituais na prática do reconhecimento

Na construção da dissertação os conceitos que utilizo são o de “quilombo”, “remanescentes das comunidades dos quilombos” e “comunidade” para compreender a emergência desse sujeito de direito através da Constituição Federal de 1988. Os autores que auxiliam na compreensão desse sujeito são Leite (2000), Arruti (2009), e O’Dwyer (2009). Na compreensão do que vem a ser comunidade utilizo Zygmunt Bauman e Tim May (2011) e Lifschitz (2011). Quando no título me refiro a questões analíticas e práticas do reconhecimento quilombola, pretendo levantar um questionamento sobre as implicações práticas que o conceito empregado pode trazer para a efetivação da própria política. Dito de outro modo, se tomamos a classificação de um grupo como comunidade, caberia nos perguntarmos em que medida a concepção desse conceito pode nos falar tanto quanto a prática dos sujeitos. Portanto, sugiro que um dos entraves para a efetivação da política de reconhecimento quilombola parte de questões conceituais e principalmente dos conceitos comunidade e quilombo.

Segundo Bauman e May (2011), “pode ser chamado de comunidade um grupo de pessoas não claramente definidas, nem circunscritas, mas que concordem com algo que outras rejeitem e que, com base nessa crença, atestem alguma autoridade” (Bauman e May, 2011:75). Esse parece ser o princípio base para se ter uma comunidade, uma peculiaridade que as distingue das outras, porém, os autores destacam que a comunidade “não existe mais, e seu momento passou” (ibidem: 76). Nesse sentido, ao cunhar o conceito de neocomunidade, Lifschitz (2011) defende que “o conceito de neocomunidades tenta dar conta destes processos de reconstrução de comunidades tradicionais na contemporaneidade” (Lifschitz, 2011:87). Desse modo, o autor considera que há um retorno das comunidades, também a partir da experiência de campo com comunidades quilombolas do norte fluminense. Sendo assim, ele considera que:


“como uma bricolage entre memórias locais e dispositivos modernos, as neocomunidades são espaços de co-produção do patrimônio cultural comunitário e étnico, em que não está ausente a dimensão midiática.” (ibidem: 94)

O autor destaca também que existem repertórios culturais muito diversos nas neocomunidades que são “recriados”, mas que a característica comum entre eles é a utilização de “meios modernos a serviço da tradição” (LIFSCHITZ, 2011:95).

 

Considerações do campo em Conceição do Imbé

Os dados recolhidos durante o trabalho de campo na comunidade quilombola de Conceição do Imbé confirmam as constatações de autores como Lifschitz (2008), Ribeiro (2011) e Teixeira e Silva (2011), de que a população é em grande parte pertencente às religiões cristãs, principalmente da Igreja Católica e da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Esses moradores negam o envolvimento com manifestações culturais afrobrasileiras, alegando que essas práticas são pecaminosas e associadas à invocação do mal. De acordo com os pesquisadores da Superintendência de Igualdade Racial de Campos dos Goytacazes, foram feitas algumas iniciativas de “inclusão” da cultura afrobrasileira em Conceição do Imbé, por meio de apresentações de capoeira, mas a comunidade não se sentiu à vontade com a iniciativa. Por parte da superintendência municipal, os projetos continuaram por um tempo, só que sem a conotação afrodescendente, passando a organizar momentos recreativos para as crianças, além do Projeto Cine Zumbi, que levava a apresentação de filmes para Conceição do Imbé e demais comunidades quilombolas do município.

Alguns moradores se sentem reticentes em se declararem como quilombolas, pois possuem visão pejorativa quanto ao termo. De acordo com as entrevistas realizadas, muitas pessoas da comunidade consideram que “ser quilombola” é uma coisa ruim, pois a visão que tem sobre quilombola é aquela de escravos fugidos. Dessa maneira, acreditam que sendo considerados quilombolas e se autodeclarando quilombolas terão que passar pelos mesmos sofrimentos que os escravos passaram e que terão que morar em casa de pau-a-pique, cozinhar em fogão de lenha e passar por todo tipo de privação.

Do ponto de vista do acesso a políticas públicas, não houve muitos avanços. O que a comunidade possui hoje de infraestrutura foi conseguido como comunidade rural e um pouco sob a identidade de assentados rurais. Há na comunidade um trecho de asfalto, uma creche, uma escola, um posto de saúde, água encanada sem tratamento e não existe rede de esgoto. O que a comunidade conseguiu sob a identidade de remanescentes dos quilombos foi um ônibus escolar que leva os alunos para cursar o Ensino Fundamental II em uma escola fora da comunidade[1]. A comunidade também conta com um projeto de mitigação ambiental da Shell que sob a consultoria pedagógica da Kaniski oferece cursos técnicos para a população. A comunidade aguarda hoje a concretização do Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR) que deverá iniciar em 2015.

A comunidade quilombola de Conceição do Imbé por ter perpassado uma trajetória histórica de assentamento rural faz com que sua dinâmica territorial seja pautada em títulos individuais de terras. Esse fato parece dificultar a compreensão da dinâmica a partir do título coletivo por parte da comunidade. Esse elemento demonstra ser um impeditivo para a finalização do processo da política de reconhecimento quilombola com a emissão do título da terra de caráter coletivo, pois a comunidade teme que vire, em termos próprios, uma “bagunça”. Esse parece ser um impasse que permeia um conflito interno da comunidade atrelado também a conflitos como a desunião entre os moradores, diferença de credo religioso e pelo conflito de lideranças locais.



Proscila Neves da Silva 2


Trecho da comunidade que demonstra a divisão das terras com cercas e muros. Créditos: Priscila Neves da Silva.



Uma vez que é possível observar conflitos internos na comunidade retomo a ideia de que muitos dos entraves que são impeditivos para a finalização do processo de reconhecimento quilombola são provenientes dos impasses de cunho conceitual encontrados nos textos legais que regem o reconhecimento quilombola.  Nesse sentido, os órgãos competentes para reconhecer e titular as comunidades quilombolas, pautados em uma “fórmula” do venha a ser remanescente das comunidades dos quilombos, necessitariam repensar e considerar que dentro dessa identidade há uma infinidade de outras identidades, como a de assentados e a de evangélicos. Dentro desse aspecto este texto tratou de expor o esboço de uma dissertação que busca problematizar a questão da estagnação do processo de reconhecimento quilombola partindo de impasses conceituais nos aparatos legais, de conflitos internos e da não adequação das comunidades a alguns critérios do processo de certificação e titulação. Buscou-se levantar questões que necessitam ser discutidas para que a disparidade entre o número de comunidades certificadas pela FCP e comunidades com terras tituladas pelo INCRA não seja tão acentuada e assim possamos dar um passo importante para que as comunidades quilombolas tenham acesso a uma política pública efetiva e eficaz.

 

Referências bibliográficas:

ARRUTI, José Maurício Paiva Andion.  2009. “Quilombos”. Revista Jangwa Pana, 8: 102-121.

GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo.2008. “Cor e raça: raça, cor e outros conceitos analíticos” In: Livio Sansone, Osmundo Araújo Pinho (Orgs.). Raça: novas perspectivas antropológicas. Salvador: ABA: EDUFBA.

LEITE, Ilka Boaventura. 2000. “Os quilombos no Brasil: questões conceituais e normativas”. Etnográfica, 4(2): 333-354.

LIFSCHITZ, Javier Alejandro. 2008. “Percursos de uma neocomunidade quilombola: entre a “modernidade” afro e a “tradição” pentecostal”. Afro-Ásia, 37: 153-173.

NEVES, Delma Pessanha. 2004. Do Imbé: Novos Horizontes: Processo de construção de um assentamento rural. Niterói: Intertexto.

O’ Dwyer. 2009. “Quilombos: os caminhos do reconhecimento em uma perspectiva contrastiva entre o direito e a antropologia”. Fronteiras, Dourados, MS, 11(19): 165-178, jan./jun.

RIBEIRO, Yolanda Gaffrée. 2001. Os limites da reforma agrária e as fronteiras religiosas: os dilemas dos remanescentes de quilombos do Imbé. Dissertação de mestrado, Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política – UENF.

TEIXEIRA, Lauriana Jovenço; SILVA, Priscila Neves. 2011. Conceição do Imbé: da Cultura Quilombola à Extinção das Memórias. Monografia de graduação, Licenciatura em Geografia – IFF/Campos dos Goytacazes.

 



Priscila Neves da Silva

Mestranda em Políticas Sociais
Universidade Estadual do Norte Fluminense
Bolsista FAPERJ/UENF
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Currículo Lattes



[1] Os alunos do Ensino Médio vão por conta própria no ônibus de linha comum para o centro da cidade.

Novas Pesquisas - Blog

 

SENTIDOS DE JUSTIÇA, REPRESENTAÇÕES DE PODER E FIANÇAS NA POLÍCIA CIVIL DO RIO DE JANEIRO


Marcus Cardinelli

Museu da PCERJ. Créditos: Cyro A. Silva



Marcus José da Silva Cardinelli

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal Fluminense
Bolsista CAPES




Proponho uma reflexão sobre as representações de poder que são construídas nas delegacias da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ), especialmente pelos seus delegados. Ao longo do estudo que venho realizando, percebi que, geralmente, eles exercitam esse poder através da interpretação/classificação de determinado fato dentro de certas categorias jurídicas. Como pondera Bourdieu, o direito legal costuma ser chamado a contribuir para racionalizar ex post decisões em que não teve qualquer participação (Bourdieu 1989: 224). Ao mesmo tempo, o direito é uma forma de ver o mundo acompanhada de um conjunto de práticas que essa própria forma de ver o mundo impõe (Geertz 2012: 186).

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PROBLEMAS ENTRE REGRAS E AFETOS


versões sobre casar certo e casar errado e os muitos jeitos de ser ticuna [1]

 



Patrícia Carvalho Rosa

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista CNPQ



- Para saber como se casa e porque falamos tanto disso é bom escutar a história contada nas palavras dos antigos (ore) para conhecer como as regras dos clãs nos ensinaram a casar bem (...) para tentar acabar com os males do mundo feitos pelos womachi (incesto). Com essas histórias você saberá como apareceu o povo Ticuna de hoje (...) escutará porque moramos num mundo (na’ane) de perigo (nakügü), agora longe de nossos ancestrais que o criaram. Já foi tempo, a gente conhecia só as regras dos antigos. Tempo vai passando, mundo vai crescendo, ganhando gente e lugares (...) fica mais do’one (instável). Agora as palavras dos antigos estão todas misturas com outras palavras e histórias. Isso faz novos saberes sobre o mundo. (...) Já não vivemos num território só dos parentes. Hoje tem muitos tipos de gentes, muitos jeitos de ser indígena. Por isso esse problema nas negociações de casamento. Cada pessoa vê isso de um jeito. Casa-se como antigamente, mas também casa-se agora com outras regras, pois têm os sentimentos, os jeitos das pessoas, outras preocupações dos que se casam. (...) Alguns dão o golpe na cultura, não casando ou trazendo para a comunidade outros jeitos de casar. (...) Não é ruim, não. Mas tem que cuidar. E tem que saber também das histórias desse tempo presente, para saber de onde vem esses outros saberes (...) como se misturou tudo. São essas misturas de saberes, de pensamentos que agora nos fazem pensar o que é casar certo e casar errado. Esses jeitos de casar e de ser ticuna vêm das misturas das regras dos clãs e também dos sentimentos das pessoas em casar com quem elas querem, do jeito que elas querem, dependendo dos interesses e do jeito que a pessoa foi criada, que tá no mundo. Ai casar certo e casar errado pode ser várias coisas, depende de quem te contar. 

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INTERCÂMBIOS ESTUDANTIS

dinâmicas migratórias contemporâneas e o (re)pensar antropológico

 

 

Leonardo Francisco de Azevedo

Mestrando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora
Bolsista CAPES

  

Pensar em dinâmicas migratórias contemporâneas requer, das ciências sociais, um alargamento de diferentes categorias que tradicionalmente nos serviram para explicar as diferentes formas de deslocamento existentes.  Sobretudo em contexto de globalização crescente, outros desafios nos são apresentados para serem melhor compreendidos e explicados.  A presente pesquisa se dispõe a investigar um tipo específico de migração, cada vez mais comum mundo afora: estudantes universitários em intercâmbio. Para tal, tenho como interlocutores intercambistas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que viajaram entre os anos de 2013 e 2014. A UFJF lança, anualmente, o edital de intercâmbio da própria universidade, referente aoPrograma de Intercâmbio Internacional de Graduação (PII-GRAD), a partir de convênios da própria instituição com universidades estrangeiras. Este programa contempla apenas alunos de graduação da UFJF, sendo que o estudante parte para o intercâmbio no segundo semestre do ano letivo brasileiro, ficando no mínimo um semestre na universidade estrangeira, mas podendo estender este período por até um ano. Com vistas a acompanhar todo o processo de seleção, preparação, o intercâmbio em si e o retorno, optei por acompanhar alunos que concorreram ao edital PII-GRAD no ano de 2013. Estes estudantes realizaram suas viagens concomitante à minha pesquisa de mestrado, o que me permitiu acompanhar todo o processo.

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MUSEU, OBJETOS E OS DIFERENTES TEMPOS CONFLUENTES

 

 

Fachada do Museo Nacional de Antropologia de Madrid 
Fachada do Museo Nacional de Antropología de Madrid. Créditos de todas as imagens: Renata Montechiare



Renata Montechiare

Doutoranda em Sociologia e Antropologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bolsa Capes



Museu, objetos e os diferentes tempos confluentes trata-se de uma síntese para pesquisa de doutorado em andamento. Resume o que parecem ser pontos centrais para compreender o que faz o Museo Nacional de Antropología de Madrid (MNA) apresentar-se como guardião das referências de um suposto universalismo cultural determinado por um tipo particular de museu do homem, através dos objetos que exibe.

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A RELIGIÃO NO CALENDÁRIO OFICIAL

notas acerca da regulação de feriados no Brasil
 

 

Izabella Pessanha Daltro Bosisio

Mestra em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 

A proposta deste texto é apresentar alguns apontamentos decorrentes da pesquisa realizada para a minha dissertação de mestrado[1], a qual procurou mapear o lugar da religião no calendário oficial brasileiro, tomando como ponto de partida a regulamentação da instituição de feriados no país. Este foi o lugar estratégico escolhido para explorar as questões que envolvem os entrelaçamentos entre Estado e religiões no Brasil.

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ENUNCIAÇÕES, INTERVENÇÕES E TENSÕES

a experiência de engajamento em coletivos vinculados à população em situação de rua em Porto Alegre/RS

 

 

bruno fernandes - 1. o incio da noite no viaduto otvio rocha

O início da noite no viaduto Otávio Rocha, Porto Alegre-RS, 2014. Foto do autor.

 

 

Bruno Guilhermano Fernandes

Graduando em Ciências Sociais
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista de Extensão e Pesquisa do Departamento de Antropologia da UFRGS


Patrice Schuch

Professora de Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Neste texto, à luz do trabalho etnográfico, pretendo expor reflexões em torno da experiência, em andamento, de análise e de engajamento nos projetos e coletivos vinculados aos circuitos sociais heterogêneos de atenção à chamada população em situação de rua, em Porto Alegre/RS. Situado na interface entre a Antropologia do direito e da política, este estudo tem como foco a análise de discursos, interlocuções e tensões envolvidos nos processos de engajamento, crítica e de contestação vinculados à mobilização política, reivindicações de direitos e à relação com as tecnologias de governo em torno da vida, por parte desse segmento populacional. 

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ENTREMEANDO POSSIBILIDADES INFINITAS

os processos museológico, histórico e estético de objetos feitos de miçanga em povos indígenas da Amazônia





Tanga de Miçangas - Tiriyó. Acervo Museu Goeldi.

 


Carlos Eduardo Chaves

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas

Bolsista CAPES



A presente comunicação tem como intuito à divulgação da pesquisa realizada entre os anos de 2012 a 2014 no Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém[1]. A atividade de pesquisa teve início após um período inicial de trabalho na Reserva Técnica Curt Nimuendajú (local de salvaguarda das coleções etnográficas) no qual tive contato com a cultura material de diversos grupos indígenas da Amazônia, objetos que datam do século XIX. Atualmente, no âmbito das doações para museus etnográficos, a renovação do acervo deste museu consiste na entrada cada vez mais frequente de objetos feitos de miçanga. Tendo isso em vista o objetivo da pesquisa foi analisar a miçanga como representação de contato com os “brancos” e outros povos indígenas, assim como as suas possibilidades estéticas no passado e no presente, juntamente com a circulação de mercadorias industrializadas nas aldeias. O intuito foi a realização de um estudo com caráter etnohistórico, estético e museológico referentes a objetos confeccionados de miçangas na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi e em trabalho de campo. O estudo forneceu critérios comparativos entre os Mebêngôkre-Kayapó, Wayana-Aparai e Tiriyó, possibilitando assim obter dados relativos à entrada de contas de vidros em sociedades de contato antigo e atual.

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RESSIGNIFICAÇÃO TERRITORIAL E MINERAÇÃO EM GRANDE ESCALA EM UMA COMUNIDADE AFROCOLOMBIANA




Germán Moriones

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas


Problemática

Este projeto tem o objetivo de estudar a disputa territorial entre a comunidade afrocolombiana de La Toma, que vive da mineração tradicional do ouro, e o Estado colombiano, que concedeu a uma empresa transnacional o direito de exploração industrial de larga escala do território ancestral da comunidade (Rojas et al., 2013). La Toma, localizada no sudoeste colombiano, tem sua origem em um processo de ocupação mineira iniciada em 1634, mas a concessão estatal à empresa transnacional, realizada no ano 2007, não respeitou os direitos étnicos e territoriais reconhecidos às comunidades negras a partir da Constituição Política da Colômbia de 1991, especialmente o direito à consulta previa. Tendo em vista os estudos antropológicos sobre comunidades negras desenvolvidos desde a década de 1950 na Colômbia, assim como a perspectiva teórica da ‘ecologia política’, pretendemos analisar a dinâmica territorial da comunidade de La Toma, desde suas práticas de gestão tradicionais até as suas estratégias de resistência diante do conflito recentemente instaurado, por meio do qual o território vai se carregando de novos significados e novas valorações.

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“QUERO UM AMOR SEM OBRIGAÇÕES” [1]

notas antropológicas sobre um estudo entre poliamantes



Matheus França

Mestrando em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Bolsista CNPq


Em O Banquete, de Platão (1991: 57), Aristófanes, dramaturgo grego, discursa sobre a origem do amor. Conta ele sobre criaturas que outrora habitaram a Terra e que possuíam quatro braços, quatro pernas, duas cabeças. Por punição de Zeus, essas criaturas foram divididas ao meio, dando origem aos humanos como nos conhecemos. Nesse sentido, a concretização do amor só se daria no momento em que o sujeito encontra a sua metade, a outra pessoa que a completa. Por conseguinte, pode-se inferir que, no sentido dado na obra a partir do mito narrado, é somente por meio de duas pessoas que o amor eros – nos termos platônicos – teria forma real. Longe de qualquer tentativa de interpretação presentista (Stocking Jr, 1968: 211) do mito, trago esta imagem para ilustrar uma das principais questões da pesquisa que dá origem a este trabalho: a crítica que adeptos/as do “poliamor” realizam com relação à monogamia como orientadora das relações afetivo-amorosas ocidentais. A ideia central entre minhas e meus interlocutoras/es é de que “é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo” e inclusive estabelecer uma relação amorosa entre três pessoas ou mais. Nesse sentido, meu objetivo neste artigo é apresentar o trabalho que venho desenvolvendo no mestrado. Trata-se de uma pesquisa sobre o poliamor, que em linhas gerais é descrito por suas/seus adeptas/os como uma perspectiva de relação que não se pauta na monogamia e que tem como centralidade a rejeição ao sentimento do ciúme como válido para a vivência de relações amorosas. Muito embora tal definição não seja estanque, ainda que para enunciá-la eu esteja pautado em falas que frequentemente escuto em campo. Voltarei a essa discussão mais à frente.

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A POLÍTICA PÚBLICA QUILOMBOLA

questões analíticas e práticas na comunidade de Conceição do Imbé

 

 

 

Proscila Neves da Silva


Trecho da comunidade quilombola de Conceição do Imbé com as serras do Parque Estadual do Desengano ao fundo. Créditos: Priscila Neves da Silva.




Priscila Neves da Silva

Mestranda em Políticas Sociais
Universidade Estadual do Norte Fluminense
Bolsista FAPERJ/UENF



Introdução

Conceição do Imbé é uma comunidade rural da cidade de Campos dos Goytacazes/RJ, sendo sua formação fruto da desapropriação das terras consideradas massa falida da usina de cana-de-açúcar Novo Horizonte. A referida usina faliu em 1985 deixando os trabalhadores sem emprego e com salários atrasados, o que fez com que a população desempregada que morava nas terras da usina entrasse com processo na justiça, que culminou no Programa de Assentamento (PA) Novo Horizonte, criado pelo Decreto Nº 94.128/87 (NEVES, 2004). Dessa data em diante, a população de Conceição do Imbé passou a trabalhar em seus lotes e a viver como assentados rurais. Parte dela, pertencente à PA Novo Horizonte, iniciou em 2004 o processo junto à Fundação Cultural Palmares (FCP) demandando seu reconhecimento como remanescente das comunidades dos quilombos, tendo adquirido a referente certidão em setembro de 2005.

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A GUERRA DOS MUNDOS

reflexões epistemológicas por uma etnografia da situação colonial





Fillipe Guimaraes
Artesanatos Mayas de Cooperativa de Mulheres Quiché, feitos de caule de bananeira e palha de milho, Lago Izabal, Guatemala. Fotografia do Autor, 2010.




Filippe Da Silva Guimarães

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal de Pelotas
Bolsista Capes



Neste texto, proponho reconstruir em termos de uma trajetória epistemológica minha problematização de um objeto antropológico até a qualificação de minha dissertação de mestrado em Antropologia pelo PPGAnt-UFPEL. Ao propor um projeto inicialmente intitulado O Milho Como Agência Nas Histórias Sociais De Nossamérica não tinha claro qual era meu objeto de pesquisa, meus objetivos e qual a metodologia deveria seguir para fazer uma etnografia histórica e textual. Como interesse específico, fui atrás de etnografias, mitologias, folclores e literaturas que traziam narrativas e rituais onde o milho dotado de humanidade seria em certos contextos um eu-humano dotado de ação e intencionalidades para o mundo ameríndio.

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MODOS DE CONECTAR CAMPO E TEXTO

sobre etnografia entre técnicas de estagiários do Projeto TAMAR




Ana Campos

Capa do documento “Projeto TAMAR, pesquisa e conservação: Lista de Publicações desde de 1980”. Crédito: site do projeto TAMAR

 


Ana Cecília Oliveira Campos

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Espirito Santo
Bolsista PIBIC


 

Introdução

Este artigo reflete sobre técnicas de agentes técnicos estagiários do Projeto TAMAR, ICMBio em Regência- vila de pescadores no Norte do Espirito Santo- conectam campo e texto. O que abordarei como “campo” do TAMAR são as atividades de monitoramento de praia. Enquanto a ideia de “texto” será usada para fazer referência à produção de pesquisa vinculada ao TAMAR. A intenção é tornar visível essa abordagem à partir de minha presença em campo, em especial, em reuniões e treinamentos- de caráter prático e teórico.

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AUROVILLE

aire de recherche, ère de la quête du sens





1

La photographie illustre Auroville aujourd'hui. On observe l'éolienne du puits de Fertile camouflée par la végétation. Source : http://www.auroville.org/gallery/Giorgio_Molinari/1421.jpg



Marie Horassius

Doctorante en Anthropologie
École des Hautes Études en Sciences Sociales

 

Nouveaux débats...

L'anthropologie est une science récente et éminemment contemporaine. À son origine, elle étudiait des cultures et des peuples délimités et inscrits dans un espace spécifique. Les chercheurs, à l'heure actuelle, sont confrontés à de nouveaux sujets et de nouvelles pratiques qui doivent aussi être analysés par le regard anthropologique. Ainsi ai-je choisi le sujet d'Auroville : « communauté internationale » située en Inde du Sud (Tamil Nadu). Ce terrain me semblait être représentatif des enjeux contemporains face auxquels l'anthropologie et la recherche font front aujourd'hui. Ce champ de recherche est une science inscrite dans le monde et selon nous, engagée dans les grandes réflexions sociales. À quoi peut servir l'anthropologie si elle refuse aujourd'hui d'étudier le monde qui l'entoure et d'entrer dans les nouveaux débats ?

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IMAGEM E RITUAL

a fotografia e o sutra lótus primordial




Alexsânder Nakaóka Elias

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista Capes

           

Um tema: Antropologia, fotografia e ritual

A escolha de uma corrente específica do Budismo para desenvolver esta pesquisa – a Honmon Butsuryu-shu – se faz necessária tendo em vista a grande quantidade de monastérios e correntes budistas existentes no Brasil e no mundo. Como seria inviável realizar uma pesquisa de campo satisfatória em todos os monastérios existentes no país, a Catedral Nikkyoji foi escolhida em razão da sua localização (próximo de Campinas) e por pertencer à tradição Mahayana[1].

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THUG LIFE E ATIVISMO SOCIAL

 

construções de masculinidades de protesto nos bairros populares da Cidade da Praia (Cabo Verde)

 

 

 

Silvia Stefani

Doutouranda em Ciências Sociais
Università degli Studi di Genova

 

 

Introdução

O presente texto refere-se à pesquisa desenvolvida no âmbito do Mestrado em Antropologia Cultural e Etnologia pela Universitá degli Studi di Torino (Itália). Essa investigação analisa os modelos de masculinidades próprios da sociedade cabo-verdiana atual, visando a indagar os processos de construções da performatividade de gênero masculino, segundo a definição da Butler (1990), e suas atuais transformações. O estudo é baseado nos dados qualitativos recolhidos no ano 2014 ao longo de seis meses de trabalho de campo no contexto urbano da Cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Cabo Verde é um arquipélago constituído por dez ilhas ao largo do promontório homónimo no Senegal. O arquipélago se encontra em pleno Oceano Atlântico, posição que o torna isolado, mas, ao mesmo tempo, ponto de conexão estratégico entre Africa, América e Europa. Essa característica se reflete tanto no passado das ilhas, nodo focal do comercio de escravos, quanto no atual fenómeno das migrações cabo-verdianas que se distribuem nos três continentes limítrofes. A capital, Praia, situada na ponta meridional da ilha de Santiago, foi centro do movimento de libertação contro a colonização portuguesa terminada no 1975 e hoje é a sede do governo e dos serviços nacionais.

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RECUA, POLÍCIA, RECUA. É O PODER POPULAR QUE TÁ NA RUA

 

Ocupação do espaço público e esquemas emergentes de ação coletiva em Porto Alegre

 

 

1 

 

 

 

Patricia Kunrath Silva

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista do CNPq

 

 

Introdução

Movimentos sociais, ação coletiva, militância política e ocupação do espaço público têm sido temas privilegiados na produção das Ciências Sociais[1].  A cidade de Porto Alegre foi e tem sido palco, especialmente entre os anos de 2012 e 2013 – e nisso veja-se o contexto das eleições municipais em 2012 para prefeitura e dos preparativos para a Copa do Mundo em 2014 – de inúmeros atos de contestação e tentativas de (re)apropriação do espaço público mediados pelas redes sociais e extrapolando o universo de coletivos já consolidados na cidade, tais como os movimentos Utopia e Luta, Tribos nas Trilhas da Cidadania e o Levante Popular da Juventude[2].

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STUDY OF MYTH AND ANTHROPOLOGY OF THE BODY

 

 

Thierry Veyrié

PhD student
American Indian Studies Research Institute
Indiana University

 

 

Myth and body may seem rather independent concepts but they are, in fact, deeply interrelated. In my master’s degree thesis at the École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), I tried to identify in Northern Paiute subsistence and rituals some emic gestures that appeared regularly in the historical literature such as scratching, exemplified by the digging-stick and the scratching stick, and associated to femininity; and piercing, the male technique for hunting. The current step of my research is to continue discerning emic techniques and gestures in the Northern Paiute myths previously recorded, but also to conduct fieldwork and collect more stories. My focus on gestures implies an analysis of the concept of body I will try to sketch out in this paper.

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