Associação Brasileira de Antropologia

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MODOS DE CONECTAR CAMPO E TEXTO

sobre etnografia entre técnicas de estagiários do Projeto TAMAR




Ana Campos

Capa do documento “Projeto TAMAR, pesquisa e conservação: Lista de Publicações desde de 1980”. Crédito: site do projeto TAMAR

 


Ana Cecília Oliveira Campos

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Espirito Santo
Bolsista PIBIC


 

Introdução

Este artigo reflete sobre técnicas de agentes técnicos estagiários do Projeto TAMAR, ICMBio em Regência- vila de pescadores no Norte do Espirito Santo- conectam campo e texto. O que abordarei como “campo” do TAMAR são as atividades de monitoramento de praia. Enquanto a ideia de “texto” será usada para fazer referência à produção de pesquisa vinculada ao TAMAR. A intenção é tornar visível essa abordagem à partir de minha presença em campo, em especial, em reuniões e treinamentos- de caráter prático e teórico.

A justificativa para a escolha desse tema vincula-se a uma produção bastante em voga na antropologia- bem como, algumas lacunas, conforme aponta Latour “nossa indústria, nossa técnica, nossa administração, permanecem pouco estudadas” (Latour, 2008: 18).

Nesse sentido, abordagem pretende se inserir nos estudos da antropologia da técnica. Tema do qual me aproximei - em janeiro de 2013- no intuito de estudar a relação entre técnicos e tartarugas marinhas, no referido projeto. Com relação ao método, para além do etnográfico[1], utilizei entrevistas semiestruturadas com estagiários entre outros agentes do TAMAR, e analises de publicações científicas vinculadas ao Projeto (TAMAR- ICMBio, Lista de Publicações desde 1980) .

 Por vezes perguntas que abordavam o método utilizado em minha pesquisa me foram feitas por pessoas profissionalmente ligadas ao TAMAR. Perguntas como “Qual é seu ´N’?” ou “Você precisa fazer quantas entrevistas?”. O estranhamento à minha resposta “Não há um número pré-determinado” se inscreve no contexto da técnica do TAMAR em suas pesquisas que, conforme este escrito pretende destacar, conectam campo e texto.

Meu “N”, como diriam os interlocutores dessa pesquisa, chegou a dez entrevistas com estagiários de duas temporadas reprodutivas (2012/ 2013 e 2013/2014), realizadas em sete curtas viagens de campo à pequena Vila de Regência onde se localiza a Reserva Biológica de Comboios (Rebio Comboios) – sendo que em uma delas me hospedei no alojamento dos estagiários do TAMAR.

 

O Tamar das Tartarugas-marinhas

Definir o que é TAMAR é uma dificuldade que aparece inclusive na forma de me referenciar a ele: “TAMAR”? “Projeto TAMAR- ICMBio”? “Projeto TAMAR”? ou apenas “O Projeto”? Ao longo desse texto, usarei prioritariamente a expressão “TAMAR” entretanto as demais serão também usadas indiscriminadamente para me referir a uma única ideia de TAMAR, aquela mais voltada a sua atuação do que a uma definição.

Essa ideia de TAMAR e tartarugas marinhas que à seguir apresentarei são, na verdade, apontamentos sobre a fala do Coordenador Nacional do TAMAR e de um pesquisador vinculado à instituição, a partir de uma reunião de treinamento de estagiários - estudantes de biologia, oceanografia e áreas afins que permanecem no TAMAR por três meses - realizado em outubro de 2013 em Regência.

Participar do treinamento dos estagiários era um dos principais objetivos daquela viagem de campo. O interesse no treinamento era estava no ensino de técnicas executas pelos estagiários estarem entre os agentes do TAMAR cujas atividades permite maior proximidade corpórea com as tartarugas-marinhas, em especial em dois momentos do trabalho: no monitoramento de praia, também chamado, em Regência de carebada[2]; e na abertura de ninhos.  Por isso, minha expectativa era que o treinamento fosse especialmente voltado a questões que permeassem o contato direto com tartarugas.

 

Carebada: fazer a praia

Durante o trabalho de campo, participei de algumas atividades de treinamento de estagiários no campo. Nessa atividade eram citadas pesquisas do TAMAR que respaldavam o que se estava ensinando. Um dos aspectos mais destacados por parte dos treinadores era a responsabilidade por dados exatos.

Recordo-me de ouvir determinações aos estagiários como “se não tem certeza do número, não anote”, “peça para seu parceiro repetir”, “repita em voz alta para confirmar”, afirmavam que seria melhor a falta de uma informação do que uma informação incorreta.

Certa vez, depois da explicação sobre a relação do tamanho do rastro deixado na areia e a espécie de tartaruga perguntei “Então pode-se inferir a espécie pelo tamanho do rastro”, a resposta do executor “Não podemos inferir nada”. Se por um lado admitia-se uma correlação entre fatores, por outro não ter visto a tartaruga não permitia fazer o registro da informação, apesar da correção de dados.

A anotação de dados foi uma das únicas atividades relacionadas ao manejo que me foi permitida executar. As atividades realizadas por estagiários do TAMAR na praia de Regência são registradas ainda durante a ocorrência da atividade. Esse registro no início da temporada reprodutiva de 2013/2014 era feito em um caderno que era levado a campo; no fim da temporada era realizado em uma placa de acrílico, por conta de danos. Os danos no caderno remetem à prática de registrar que é mais frequente que o próprio manejo. As atividades do manejo às quais me refiro são em especial a carebada e a abertura de ninhos.

A carebada é um uma técnica de monitoramento de praia realizada pelo TAMAR nas épocas de reprodução de tartarugas-marinhas. Dentre outros aspectos, atualmente, essa técnica inclui: marcação de tartarugas com anilhas - cada tartaruga encontrada na praia, no momento da postura dos ovos é marcada na nadadeira com anilha de metal que contém um número de identificação e o endereço do TAMAR; transferência de ninhos - os ninhos que são postados em áreas de risco sua destruição por mudança nos bermas ou predação, são transferidos para outros locais; identificação de ocorrência - cada ocorrência de tartaruga é identificada com estacas, duas estacas fazem referência a uma desova, enquanto apenas uma estaca faz referência a uma ocorrência em que não ocorreu desova; telar ninhos - os ninhos são cobertos por telas de metal e/ou plástico para evitar predação animal.

A abertura de ninhos é a técnica posterior à carebada, em que os ninhos que foram telados para evitar predação são monitorados e destelados para que na eclosão dos ovos os filhotes não fiquem presos nas telas. Esse monitoramento segue um padrão de aproximadamente 60 dias após a postura dos ovos.

Mas o que de fato se registra dessas atividades? Eu particularmente, tinha um interesse peculiar em registrar a técnicas, e anotava em pequenas agendas, folhas, guardanapos ou qualquer superfície riscável que tivesse à mão. Os estagiários, por sua vez, registravam– em uma compulsão quase antropológica por fazer registros - letras e número: número de identificação de ninhos; número de identificação de fêmeas; quantidade de ovos; quantidade de filhotes; localização no GPD; número do quilometro da ocorrência. O que eu via como relato de campo para era, para os estagiários apenas a rotina de suas atividades, de pouco interesse para registro. O que para mim eram apenas números e letras, os estagiários viam como dados.

Os técnicos responsáveis pela carebada ou abertura de ninhos eram também responsáveis por passar os registros para o Sistema Integrado de Informações (SII TAMAR) ­­que é uma plataforma de dados para pesquisa. Mas, efetivamente, os registros das letras e números das atividades de campo se tornam dados tão logo quanto surgem em estacas, anilhas colocadas, localizações geográficas identificadas.

Para o TAMAR o dado existe antes mesmo de ser registrado. Para além do bom desempenho no manejo com as tartarugas-marinhas o que se espera é que os estagiários sejam capazes de fazer registros acertados. Tartarugas vem e voltam ao mar, o que permanecia delas eram números e letras.

Entretanto, quando os estagiários fazem referência a tal atividade não usam a expressão “coletar dados”; antes, o termo usado é “carebar” ou ainda - de forma menos frequente - “fazer a praia”. Carebar está relacionado a coletar informações geograficamente localizadas, que ao serem registradas se tornam dados sobre o local. Produzir esses dados da praia é ainda produzir a própria praia. É, no mínimo, curioso que essa praia na qual se realiza a carebada seja feita de dados sobre tartarugas, e tartarugas especificas, aquelas descritas pelo TAMAR. Assim, falar de TAMAR em praia em que é feita carebada, é também tratar de uma forma bastante especifica de compreender o que são tartarugas-marinhas.

 

Considerações finais

Continuei algum tempo bastante interessada na questão das tartarugas que fugiam ao padrão estabelecido pelo TAMAR, e na forma como isso era em parte obscurecido pelo Projeto em parte quantificado em novos padrões derivados da purificação de pesquisas.

Após o fim dos estágios mantive certo contato com alguns dos ex- estagiários do TAMAR, a um deles - que continuou trabalhando com tartarugas-marinhas - contei de minha vontade de escrever sobre as tais tartarugas que eram pontos fora das curvas dos gráficos do Projeto. Imaginei que o meu comentário provocaria algum interesse, mas ao invés disso o interlocutor afirmou que sua curiosidade residia na vida dos machos e no que eles faziam quando não estavam acasalando.

Eu havia, até então, obscurecido que a tartaruga-marinha com as quais as atividades dos estagiários do TAMAR em Regência têm contato, não é somente peculiar em um modo próprio do TAMAR de se compreender e compreender o que é “ser tartaruga-marinha”; mas é também especifico de tartarugas-marinhas fêmeas em desova (na carebada) e filhotes (na abertura de ninhos).

Essa situação me fez atentar para o interesse do TAMAR em de descobrir as conexões entre informações, que se tornam dados tão logo quanto registradas – estes últimos, por sua vez, se tornam padrões em textos, gráficos e tabelas. A intenção não pensar se as tartarugas marinhas “são mesmo tal qual” o TAMAR as descreve, mas observar que talvez tal qual eles a descrevam elas só possam ser pela forma com que são descritas: pela relação entre registros nas carebadas e aberturas de ninhos e o SII -TAMAR; pelo método de manejo; ou ainda pela forma de lidar com o campo como espaço de padrões registrados, mas também pela forma de lidar com seus próprios textos como delimitadores para metodologias em campo.

 

Referências Bibliográficas:

LATOUR, Bruno. 2012. Reagregando o Social. Bauru, SP: EDUSC/ Salvador, BA: EDUFBA.

Projeto TAMAR. Lista de Publicações desde 1980. Disponível em: tamar.com.br. Acesso em: 20.11.2013

RODRIGUES, J. 2004. Tartarugas Marinhas e sua Proteçaão: Encontros e Desencontros entre a População de Regência e o Projeto Tamar.  Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Políticas Socias, Universidade Estadual do Norte Fluminense.

WAGNER, Roy. 2010. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify.



Ana Cecília Oliveira Campos

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Espirito Santo
Bolsista PIBIC
Currículo Lattes
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[1] A questão dos meus método será pouco abordada – em função da economia desse escrito - entretanto, cabe ressaltar que Wagner (Wagner, 2010) muito proveitoso em suas observações com relação ao trabalho etnográfico, bem como o trabalho do TAMAR, enquanto invenção e inventor de um modo de criatividade.

[2] O termo e a técnica derivam da prática de caçar tartarugas no momento da postura, a questão é melhor explorada por Rodrigues (Rodrigues, 2004). O que aqui mais interessa, é que careba é um modo de chamar as tartarugas-marinhas, a carebada – aquela feita pelo TAMAR- estar vinculada a capturar de um modo especifico as tartarugas, o técnico-científico.

Novas Pesquisas - Blog

 

SENTIDOS DE JUSTIÇA, REPRESENTAÇÕES DE PODER E FIANÇAS NA POLÍCIA CIVIL DO RIO DE JANEIRO


Marcus Cardinelli

Museu da PCERJ. Créditos: Cyro A. Silva



Marcus José da Silva Cardinelli

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal Fluminense
Bolsista CAPES




Proponho uma reflexão sobre as representações de poder que são construídas nas delegacias da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ), especialmente pelos seus delegados. Ao longo do estudo que venho realizando, percebi que, geralmente, eles exercitam esse poder através da interpretação/classificação de determinado fato dentro de certas categorias jurídicas. Como pondera Bourdieu, o direito legal costuma ser chamado a contribuir para racionalizar ex post decisões em que não teve qualquer participação (Bourdieu 1989: 224). Ao mesmo tempo, o direito é uma forma de ver o mundo acompanhada de um conjunto de práticas que essa própria forma de ver o mundo impõe (Geertz 2012: 186).

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PROBLEMAS ENTRE REGRAS E AFETOS


versões sobre casar certo e casar errado e os muitos jeitos de ser ticuna [1]

 



Patrícia Carvalho Rosa

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista CNPQ



- Para saber como se casa e porque falamos tanto disso é bom escutar a história contada nas palavras dos antigos (ore) para conhecer como as regras dos clãs nos ensinaram a casar bem (...) para tentar acabar com os males do mundo feitos pelos womachi (incesto). Com essas histórias você saberá como apareceu o povo Ticuna de hoje (...) escutará porque moramos num mundo (na’ane) de perigo (nakügü), agora longe de nossos ancestrais que o criaram. Já foi tempo, a gente conhecia só as regras dos antigos. Tempo vai passando, mundo vai crescendo, ganhando gente e lugares (...) fica mais do’one (instável). Agora as palavras dos antigos estão todas misturas com outras palavras e histórias. Isso faz novos saberes sobre o mundo. (...) Já não vivemos num território só dos parentes. Hoje tem muitos tipos de gentes, muitos jeitos de ser indígena. Por isso esse problema nas negociações de casamento. Cada pessoa vê isso de um jeito. Casa-se como antigamente, mas também casa-se agora com outras regras, pois têm os sentimentos, os jeitos das pessoas, outras preocupações dos que se casam. (...) Alguns dão o golpe na cultura, não casando ou trazendo para a comunidade outros jeitos de casar. (...) Não é ruim, não. Mas tem que cuidar. E tem que saber também das histórias desse tempo presente, para saber de onde vem esses outros saberes (...) como se misturou tudo. São essas misturas de saberes, de pensamentos que agora nos fazem pensar o que é casar certo e casar errado. Esses jeitos de casar e de ser ticuna vêm das misturas das regras dos clãs e também dos sentimentos das pessoas em casar com quem elas querem, do jeito que elas querem, dependendo dos interesses e do jeito que a pessoa foi criada, que tá no mundo. Ai casar certo e casar errado pode ser várias coisas, depende de quem te contar. 

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INTERCÂMBIOS ESTUDANTIS

dinâmicas migratórias contemporâneas e o (re)pensar antropológico

 

 

Leonardo Francisco de Azevedo

Mestrando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora
Bolsista CAPES

  

Pensar em dinâmicas migratórias contemporâneas requer, das ciências sociais, um alargamento de diferentes categorias que tradicionalmente nos serviram para explicar as diferentes formas de deslocamento existentes.  Sobretudo em contexto de globalização crescente, outros desafios nos são apresentados para serem melhor compreendidos e explicados.  A presente pesquisa se dispõe a investigar um tipo específico de migração, cada vez mais comum mundo afora: estudantes universitários em intercâmbio. Para tal, tenho como interlocutores intercambistas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que viajaram entre os anos de 2013 e 2014. A UFJF lança, anualmente, o edital de intercâmbio da própria universidade, referente aoPrograma de Intercâmbio Internacional de Graduação (PII-GRAD), a partir de convênios da própria instituição com universidades estrangeiras. Este programa contempla apenas alunos de graduação da UFJF, sendo que o estudante parte para o intercâmbio no segundo semestre do ano letivo brasileiro, ficando no mínimo um semestre na universidade estrangeira, mas podendo estender este período por até um ano. Com vistas a acompanhar todo o processo de seleção, preparação, o intercâmbio em si e o retorno, optei por acompanhar alunos que concorreram ao edital PII-GRAD no ano de 2013. Estes estudantes realizaram suas viagens concomitante à minha pesquisa de mestrado, o que me permitiu acompanhar todo o processo.

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MUSEU, OBJETOS E OS DIFERENTES TEMPOS CONFLUENTES

 

 

Fachada do Museo Nacional de Antropologia de Madrid 
Fachada do Museo Nacional de Antropología de Madrid. Créditos de todas as imagens: Renata Montechiare



Renata Montechiare

Doutoranda em Sociologia e Antropologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bolsa Capes



Museu, objetos e os diferentes tempos confluentes trata-se de uma síntese para pesquisa de doutorado em andamento. Resume o que parecem ser pontos centrais para compreender o que faz o Museo Nacional de Antropología de Madrid (MNA) apresentar-se como guardião das referências de um suposto universalismo cultural determinado por um tipo particular de museu do homem, através dos objetos que exibe.

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A RELIGIÃO NO CALENDÁRIO OFICIAL

notas acerca da regulação de feriados no Brasil
 

 

Izabella Pessanha Daltro Bosisio

Mestra em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 

A proposta deste texto é apresentar alguns apontamentos decorrentes da pesquisa realizada para a minha dissertação de mestrado[1], a qual procurou mapear o lugar da religião no calendário oficial brasileiro, tomando como ponto de partida a regulamentação da instituição de feriados no país. Este foi o lugar estratégico escolhido para explorar as questões que envolvem os entrelaçamentos entre Estado e religiões no Brasil.

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ENUNCIAÇÕES, INTERVENÇÕES E TENSÕES

a experiência de engajamento em coletivos vinculados à população em situação de rua em Porto Alegre/RS

 

 

bruno fernandes - 1. o incio da noite no viaduto otvio rocha

O início da noite no viaduto Otávio Rocha, Porto Alegre-RS, 2014. Foto do autor.

 

 

Bruno Guilhermano Fernandes

Graduando em Ciências Sociais
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista de Extensão e Pesquisa do Departamento de Antropologia da UFRGS


Patrice Schuch

Professora de Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Neste texto, à luz do trabalho etnográfico, pretendo expor reflexões em torno da experiência, em andamento, de análise e de engajamento nos projetos e coletivos vinculados aos circuitos sociais heterogêneos de atenção à chamada população em situação de rua, em Porto Alegre/RS. Situado na interface entre a Antropologia do direito e da política, este estudo tem como foco a análise de discursos, interlocuções e tensões envolvidos nos processos de engajamento, crítica e de contestação vinculados à mobilização política, reivindicações de direitos e à relação com as tecnologias de governo em torno da vida, por parte desse segmento populacional. 

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ENTREMEANDO POSSIBILIDADES INFINITAS

os processos museológico, histórico e estético de objetos feitos de miçanga em povos indígenas da Amazônia





Tanga de Miçangas - Tiriyó. Acervo Museu Goeldi.

 


Carlos Eduardo Chaves

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas

Bolsista CAPES



A presente comunicação tem como intuito à divulgação da pesquisa realizada entre os anos de 2012 a 2014 no Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém[1]. A atividade de pesquisa teve início após um período inicial de trabalho na Reserva Técnica Curt Nimuendajú (local de salvaguarda das coleções etnográficas) no qual tive contato com a cultura material de diversos grupos indígenas da Amazônia, objetos que datam do século XIX. Atualmente, no âmbito das doações para museus etnográficos, a renovação do acervo deste museu consiste na entrada cada vez mais frequente de objetos feitos de miçanga. Tendo isso em vista o objetivo da pesquisa foi analisar a miçanga como representação de contato com os “brancos” e outros povos indígenas, assim como as suas possibilidades estéticas no passado e no presente, juntamente com a circulação de mercadorias industrializadas nas aldeias. O intuito foi a realização de um estudo com caráter etnohistórico, estético e museológico referentes a objetos confeccionados de miçangas na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi e em trabalho de campo. O estudo forneceu critérios comparativos entre os Mebêngôkre-Kayapó, Wayana-Aparai e Tiriyó, possibilitando assim obter dados relativos à entrada de contas de vidros em sociedades de contato antigo e atual.

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RESSIGNIFICAÇÃO TERRITORIAL E MINERAÇÃO EM GRANDE ESCALA EM UMA COMUNIDADE AFROCOLOMBIANA




Germán Moriones

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas


Problemática

Este projeto tem o objetivo de estudar a disputa territorial entre a comunidade afrocolombiana de La Toma, que vive da mineração tradicional do ouro, e o Estado colombiano, que concedeu a uma empresa transnacional o direito de exploração industrial de larga escala do território ancestral da comunidade (Rojas et al., 2013). La Toma, localizada no sudoeste colombiano, tem sua origem em um processo de ocupação mineira iniciada em 1634, mas a concessão estatal à empresa transnacional, realizada no ano 2007, não respeitou os direitos étnicos e territoriais reconhecidos às comunidades negras a partir da Constituição Política da Colômbia de 1991, especialmente o direito à consulta previa. Tendo em vista os estudos antropológicos sobre comunidades negras desenvolvidos desde a década de 1950 na Colômbia, assim como a perspectiva teórica da ‘ecologia política’, pretendemos analisar a dinâmica territorial da comunidade de La Toma, desde suas práticas de gestão tradicionais até as suas estratégias de resistência diante do conflito recentemente instaurado, por meio do qual o território vai se carregando de novos significados e novas valorações.

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“QUERO UM AMOR SEM OBRIGAÇÕES” [1]

notas antropológicas sobre um estudo entre poliamantes



Matheus França

Mestrando em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Bolsista CNPq


Em O Banquete, de Platão (1991: 57), Aristófanes, dramaturgo grego, discursa sobre a origem do amor. Conta ele sobre criaturas que outrora habitaram a Terra e que possuíam quatro braços, quatro pernas, duas cabeças. Por punição de Zeus, essas criaturas foram divididas ao meio, dando origem aos humanos como nos conhecemos. Nesse sentido, a concretização do amor só se daria no momento em que o sujeito encontra a sua metade, a outra pessoa que a completa. Por conseguinte, pode-se inferir que, no sentido dado na obra a partir do mito narrado, é somente por meio de duas pessoas que o amor eros – nos termos platônicos – teria forma real. Longe de qualquer tentativa de interpretação presentista (Stocking Jr, 1968: 211) do mito, trago esta imagem para ilustrar uma das principais questões da pesquisa que dá origem a este trabalho: a crítica que adeptos/as do “poliamor” realizam com relação à monogamia como orientadora das relações afetivo-amorosas ocidentais. A ideia central entre minhas e meus interlocutoras/es é de que “é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo” e inclusive estabelecer uma relação amorosa entre três pessoas ou mais. Nesse sentido, meu objetivo neste artigo é apresentar o trabalho que venho desenvolvendo no mestrado. Trata-se de uma pesquisa sobre o poliamor, que em linhas gerais é descrito por suas/seus adeptas/os como uma perspectiva de relação que não se pauta na monogamia e que tem como centralidade a rejeição ao sentimento do ciúme como válido para a vivência de relações amorosas. Muito embora tal definição não seja estanque, ainda que para enunciá-la eu esteja pautado em falas que frequentemente escuto em campo. Voltarei a essa discussão mais à frente.

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A POLÍTICA PÚBLICA QUILOMBOLA

questões analíticas e práticas na comunidade de Conceição do Imbé

 

 

 

Proscila Neves da Silva


Trecho da comunidade quilombola de Conceição do Imbé com as serras do Parque Estadual do Desengano ao fundo. Créditos: Priscila Neves da Silva.




Priscila Neves da Silva

Mestranda em Políticas Sociais
Universidade Estadual do Norte Fluminense
Bolsista FAPERJ/UENF



Introdução

Conceição do Imbé é uma comunidade rural da cidade de Campos dos Goytacazes/RJ, sendo sua formação fruto da desapropriação das terras consideradas massa falida da usina de cana-de-açúcar Novo Horizonte. A referida usina faliu em 1985 deixando os trabalhadores sem emprego e com salários atrasados, o que fez com que a população desempregada que morava nas terras da usina entrasse com processo na justiça, que culminou no Programa de Assentamento (PA) Novo Horizonte, criado pelo Decreto Nº 94.128/87 (NEVES, 2004). Dessa data em diante, a população de Conceição do Imbé passou a trabalhar em seus lotes e a viver como assentados rurais. Parte dela, pertencente à PA Novo Horizonte, iniciou em 2004 o processo junto à Fundação Cultural Palmares (FCP) demandando seu reconhecimento como remanescente das comunidades dos quilombos, tendo adquirido a referente certidão em setembro de 2005.

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A GUERRA DOS MUNDOS

reflexões epistemológicas por uma etnografia da situação colonial





Fillipe Guimaraes
Artesanatos Mayas de Cooperativa de Mulheres Quiché, feitos de caule de bananeira e palha de milho, Lago Izabal, Guatemala. Fotografia do Autor, 2010.




Filippe Da Silva Guimarães

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal de Pelotas
Bolsista Capes



Neste texto, proponho reconstruir em termos de uma trajetória epistemológica minha problematização de um objeto antropológico até a qualificação de minha dissertação de mestrado em Antropologia pelo PPGAnt-UFPEL. Ao propor um projeto inicialmente intitulado O Milho Como Agência Nas Histórias Sociais De Nossamérica não tinha claro qual era meu objeto de pesquisa, meus objetivos e qual a metodologia deveria seguir para fazer uma etnografia histórica e textual. Como interesse específico, fui atrás de etnografias, mitologias, folclores e literaturas que traziam narrativas e rituais onde o milho dotado de humanidade seria em certos contextos um eu-humano dotado de ação e intencionalidades para o mundo ameríndio.

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MODOS DE CONECTAR CAMPO E TEXTO

sobre etnografia entre técnicas de estagiários do Projeto TAMAR




Ana Campos

Capa do documento “Projeto TAMAR, pesquisa e conservação: Lista de Publicações desde de 1980”. Crédito: site do projeto TAMAR

 


Ana Cecília Oliveira Campos

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Espirito Santo
Bolsista PIBIC


 

Introdução

Este artigo reflete sobre técnicas de agentes técnicos estagiários do Projeto TAMAR, ICMBio em Regência- vila de pescadores no Norte do Espirito Santo- conectam campo e texto. O que abordarei como “campo” do TAMAR são as atividades de monitoramento de praia. Enquanto a ideia de “texto” será usada para fazer referência à produção de pesquisa vinculada ao TAMAR. A intenção é tornar visível essa abordagem à partir de minha presença em campo, em especial, em reuniões e treinamentos- de caráter prático e teórico.

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AUROVILLE

aire de recherche, ère de la quête du sens





1

La photographie illustre Auroville aujourd'hui. On observe l'éolienne du puits de Fertile camouflée par la végétation. Source : http://www.auroville.org/gallery/Giorgio_Molinari/1421.jpg



Marie Horassius

Doctorante en Anthropologie
École des Hautes Études en Sciences Sociales

 

Nouveaux débats...

L'anthropologie est une science récente et éminemment contemporaine. À son origine, elle étudiait des cultures et des peuples délimités et inscrits dans un espace spécifique. Les chercheurs, à l'heure actuelle, sont confrontés à de nouveaux sujets et de nouvelles pratiques qui doivent aussi être analysés par le regard anthropologique. Ainsi ai-je choisi le sujet d'Auroville : « communauté internationale » située en Inde du Sud (Tamil Nadu). Ce terrain me semblait être représentatif des enjeux contemporains face auxquels l'anthropologie et la recherche font front aujourd'hui. Ce champ de recherche est une science inscrite dans le monde et selon nous, engagée dans les grandes réflexions sociales. À quoi peut servir l'anthropologie si elle refuse aujourd'hui d'étudier le monde qui l'entoure et d'entrer dans les nouveaux débats ?

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IMAGEM E RITUAL

a fotografia e o sutra lótus primordial




Alexsânder Nakaóka Elias

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista Capes

           

Um tema: Antropologia, fotografia e ritual

A escolha de uma corrente específica do Budismo para desenvolver esta pesquisa – a Honmon Butsuryu-shu – se faz necessária tendo em vista a grande quantidade de monastérios e correntes budistas existentes no Brasil e no mundo. Como seria inviável realizar uma pesquisa de campo satisfatória em todos os monastérios existentes no país, a Catedral Nikkyoji foi escolhida em razão da sua localização (próximo de Campinas) e por pertencer à tradição Mahayana[1].

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THUG LIFE E ATIVISMO SOCIAL

 

construções de masculinidades de protesto nos bairros populares da Cidade da Praia (Cabo Verde)

 

 

 

Silvia Stefani

Doutouranda em Ciências Sociais
Università degli Studi di Genova

 

 

Introdução

O presente texto refere-se à pesquisa desenvolvida no âmbito do Mestrado em Antropologia Cultural e Etnologia pela Universitá degli Studi di Torino (Itália). Essa investigação analisa os modelos de masculinidades próprios da sociedade cabo-verdiana atual, visando a indagar os processos de construções da performatividade de gênero masculino, segundo a definição da Butler (1990), e suas atuais transformações. O estudo é baseado nos dados qualitativos recolhidos no ano 2014 ao longo de seis meses de trabalho de campo no contexto urbano da Cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Cabo Verde é um arquipélago constituído por dez ilhas ao largo do promontório homónimo no Senegal. O arquipélago se encontra em pleno Oceano Atlântico, posição que o torna isolado, mas, ao mesmo tempo, ponto de conexão estratégico entre Africa, América e Europa. Essa característica se reflete tanto no passado das ilhas, nodo focal do comercio de escravos, quanto no atual fenómeno das migrações cabo-verdianas que se distribuem nos três continentes limítrofes. A capital, Praia, situada na ponta meridional da ilha de Santiago, foi centro do movimento de libertação contro a colonização portuguesa terminada no 1975 e hoje é a sede do governo e dos serviços nacionais.

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RECUA, POLÍCIA, RECUA. É O PODER POPULAR QUE TÁ NA RUA

 

Ocupação do espaço público e esquemas emergentes de ação coletiva em Porto Alegre

 

 

1 

 

 

 

Patricia Kunrath Silva

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista do CNPq

 

 

Introdução

Movimentos sociais, ação coletiva, militância política e ocupação do espaço público têm sido temas privilegiados na produção das Ciências Sociais[1].  A cidade de Porto Alegre foi e tem sido palco, especialmente entre os anos de 2012 e 2013 – e nisso veja-se o contexto das eleições municipais em 2012 para prefeitura e dos preparativos para a Copa do Mundo em 2014 – de inúmeros atos de contestação e tentativas de (re)apropriação do espaço público mediados pelas redes sociais e extrapolando o universo de coletivos já consolidados na cidade, tais como os movimentos Utopia e Luta, Tribos nas Trilhas da Cidadania e o Levante Popular da Juventude[2].

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STUDY OF MYTH AND ANTHROPOLOGY OF THE BODY

 

 

Thierry Veyrié

PhD student
American Indian Studies Research Institute
Indiana University

 

 

Myth and body may seem rather independent concepts but they are, in fact, deeply interrelated. In my master’s degree thesis at the École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), I tried to identify in Northern Paiute subsistence and rituals some emic gestures that appeared regularly in the historical literature such as scratching, exemplified by the digging-stick and the scratching stick, and associated to femininity; and piercing, the male technique for hunting. The current step of my research is to continue discerning emic techniques and gestures in the Northern Paiute myths previously recorded, but also to conduct fieldwork and collect more stories. My focus on gestures implies an analysis of the concept of body I will try to sketch out in this paper.

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