Associação Brasileira de Antropologia

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THUG LIFE E ATIVISMO SOCIAL

 

construções de masculinidades de protesto nos bairros populares da Cidade da Praia (Cabo Verde)

 

 

 

Silvia Stefani

Doutouranda em Ciências Sociais
Università degli Studi di Genova

 

 

Introdução

O presente texto refere-se à pesquisa desenvolvida no âmbito do Mestrado em Antropologia Cultural e Etnologia pela Universitá degli Studi di Torino (Itália). Essa investigação analisa os modelos de masculinidades próprios da sociedade cabo-verdiana atual, visando a indagar os processos de construções da performatividade de gênero masculino, segundo a definição da Butler (1990), e suas atuais transformações. O estudo é baseado nos dados qualitativos recolhidos no ano 2014 ao longo de seis meses de trabalho de campo no contexto urbano da Cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Cabo Verde é um arquipélago constituído por dez ilhas ao largo do promontório homónimo no Senegal. O arquipélago se encontra em pleno Oceano Atlântico, posição que o torna isolado, mas, ao mesmo tempo, ponto de conexão estratégico entre Africa, América e Europa. Essa característica se reflete tanto no passado das ilhas, nodo focal do comercio de escravos, quanto no atual fenómeno das migrações cabo-verdianas que se distribuem nos três continentes limítrofes. A capital, Praia, situada na ponta meridional da ilha de Santiago, foi centro do movimento de libertação contro a colonização portuguesa terminada no 1975 e hoje é a sede do governo e dos serviços nacionais.

O centro do campo etnográfico, em particular, foi o bairro de Achada Grande Frente, onde morei, e os bairros limítrofes de Lem Ferreira e Paiol, na zona Oeste da cidade. Esses bairros, entre os mais pobres da cidade, têm a característica de se situar muito perto do caís e da única zona industrial da cidade, constituída sobretudo por armazéns destinados a distribuição das merces do trânsito marítimo. Em virtude dessa significativa posição geográfica, a maioria dos moradores dos bairros em questão encontram ocupações de trabalho nesses dois espaços, principalmente como pescadores, peixeiras ou descarregadores. Todos esses trabalhos, todavia, representam formas de empregos extremamente precários, cansativos e de baixa renda, fortemente estigmatizados a nível simbólico na cultura local. Ao longo do trabalho de campo, foram utilizadas as metodologias da observação participante e das entrevistas em profundidade, com vista a desenvolver uma etnografia densa, segundo o paradigma da antropologia interpretativa (Geertz, 1987).

 

 

Fig. 1: Bairro de Achada Grande Frente.

 

Masculinidade em crise e juventude parada

No curso da investigação, destaquei como o ideal da masculinidade hegemônica (Connell et al. 2005) cabo-verdiana está hoje atravessando um momento de profunda crise e mudança. Este modelo é enraizado no passado colonial do arquipélago e é baseado em noções de força, exercício do poder no relacionamento intergênero, negociação competitiva da virilidade com outros homens, expressão ativa da sexualidade e defesa da própria honra masculina. No entanto, hoje os homens cabo-verdianos não encontram mais as condições para performar o próprio género segundo este modelo, que se torna cada vez mais um ideal inatingível (Massart, 2013). Existe atualmente um fosso entre os discursos sobre a masculinidade que é produzido pelos membros da comunidade e as condições sociais concretas. De fato, por um lado, as mudadas condições econômicas enfraqueceram o domínio econômico masculino nos agregados familiares e na sociedade; por outro lado, as mulheres começaram a adotar novas performatividades de gênero, inspiradas pelo movimento global de emancipação das mulheres, em que se envolveu também o governo cabo-verdiano. As reflexões para a mudança do sistema de gênero cabo-verdiano, entretanto, raramente focam no gênero masculino. A falta de reflexões acerca da masculinidade nessa altura de mudança social sustenta o crescimento das tensões nos relacionamentos de gênero, fato que se traduz concretamente na preocupante difusão da violência contra as mulheres, registrada em um estudo desenvolvido pelo INE[1] em parceria com o ICIEG[2]. Os dados recolhidos destacam como os casos denunciados de maus tratos contra a mulher no concelho da Praia foram 214 no ano 2010, desceram a 191 no 2011, mas subiram novamente no ano seguinte até 732 casos[3]. Embora seja evidente que esse crescimento (que reflete a situação geral do arquipélago) tem que ser interpretado em parte como a emergência de um fenómeno antes submerso, graça aos progressos na difusão e implementação da lei contra a violência de género, todavia não pode ser excluído que expresse também um real aumento dos maus tratos contra as mulheres como consequência das fortes tensões no sistema de gênero local.

Essa pesquisa é focada, em particular, na população masculina juvenil de alguns dos bairros mais pobres da cidade da Praia, anteriormente mencionados. Por esta camada social, de fato, a tensão atual a respeito do sistema de gênero se junta a uma difícil condição juvenil. A transição do arquipélago para uma economia liberal tem produzido um incremento da riqueza nacional, que, entretanto, tem sido acompanhada por um significativo crescimento da desigualdade social. A situação atual de desigualdade econômica e falta de oportunidades de trabalho são fonte de frustração para os jovens moradores da Praia, também porque o aumento do nível de instrução e a difusão de objetivos desejáveis espalhados pelos meios de comunicação social alimentam neles aspirações de promoção social, que são continuamente negadas pela desigual distribuição dos recursos materiais e simbólicos. Além disso, esta situação, embora interesse aos jovens de ambos os gêneros, parece ter ulteriores repercussões no que diz respeito à camada masculina, porque prejudica os jovens dos bairros populares em sua possibilidade de alcançar determinados recursos que simbolizam a passagem para o status de homem adulto, como a autonomia residencial, a ocupação no trabalho e a capacidade de sustentar o próprio núcleo familiar. Em consequência, eles ficam presos na condição juvenil, num tempo de vida frustrante que pode ser definido como waithood (Singerman, 2011). As jovens mulheres, por outro lado, são afetadas em menor medida por essas implicações, porque o status de mulher adulta continua a ser veiculado principalmente pela capacidade generativa biológica. O sistema social dominante, então, oferece aos jovens machos da capital condições de integração na sociedade unicamente em posições subordinadas, que não proporcionam recursos materiais nem simbólicos úteis para a construção de uma imagem de si positiva.

 

Organizações de rua nos bairros populares como resposta à situação de marginalização

Face a inicial resistência dos meus interlocutores no utilizo da recolha das estórias de vida, ao longo da investigação foi utilizada com essa camada social a técnica da foto-elicitação, elaborada no âmbito da antropologia visual. Os jovens que tomaram parte do estudo tiraram fotografias que expressassem a própria representação das diferencias de gênero na sociedade, criando eles mesmo o material fotográfico sobre o qual foram construídas as entrevistas. O mérito dessa escolha metodológica consiste no promover entrevistas mais livre e igualitária: a fotografia produzida pelo jovem constitui a tradução visual do seu imaginário e ponto de vista e, desse jeito, é o entrevistado mesmo que escolhe quais são as temáticas centrais. Isso permitiu que, a partir das fotografias, a investigação fosse levada a se focar em direções inéditas, não prevista pela pesquisadora.

Com grande frequência, de fato, as fotografias eram narrações visuais de duas tipologias de organizações de rua (Brotherton, 2011), ligadas à construção da masculinidade desses jovens: as gangues urbanas, chamadas thugs, e os movimentos de ativistas sociais. De fato, em reação à situação de múltipla marginalização, os jovens machos dos bairros populares da Praia preferem entrar nessas organizações que constituem fóruns alternativos para a construção de identidades não subordinadas e que atuam em um processo de desfiliação em relação à cultura dominante (Lima, 2012). Ambas as organizações, pois, fornecem instrumentos para a construção da identidade e a afirmação de si baseados em diferentes aspetos, entre os quais a performance estética.

 

 

«Nos anos 2000, chega com os deportados, aquele estilo de vestir, o estilo thug. A gente veste roupão, assim que se chama, e escolta a música de Tupac, Big Notorius, esses caras aí! Nos vemos uma coisa no clipe, que os rapazes da América tinham, e nos queremos também. Porque ser thug é bazofu, é bonito.» (Entrevista com Jony, membro de um grupo thug)

 

 

Fig. 2: Cultura hip-hop no bairro de Achada Grande Frente: rap, roupão e graffiti.

 

Enquanto os grupos thug se referem à cultura transnacional hip-hop e adotam como modelo o rapper afro-americano Tupac, os ativistas desenvolvem uma proposta afro centrada, que visa a valorizar os caracteres de africanidade da cultura cabo-verdiana. Os ativistas recuperam a figura de Amílcar Cabral, herói nacional de liberação, e elementos da religião rastafári, criticando as posições filo-ocidentais da elite cabo-verdiana. Para além, ambas as organizações são portadoras de instâncias de resistência e crítica social, embora expressas de maneira diferente. As gangues, de fato, atuam numa crítica ao sistema dominante através da arma do estilo e expressões artísticas de sensibilização, como o gangsta rap. Todavia, esta crítica se acompanha a outras dimensões que a enfraquecem, como a guerrilha urbana entre grupos rivais, que produzem uma alta taxa de violência e se tornam um ulterior elemento de marginalização das camadas sociais mais pobres. Ao contrário, os ativistas fazem da denúncia social o foco das próprias organizações e desenvolvem ações de políticas urbanas concretas.

 

«Hoje thug é um nome… para marginaliza a gente! Eu gosto de Tupac, porque ele canta bom rap, dá uma boa fala, contra o sistema, o governo. Mas agora thug é um nome que o sistema mesmo dá nos, para marginalizar-nos. Porque thug é bandido, nos somos todos manchados!» (Entrevista com Silvio, membro de um grupo thug)

 

Atualmente, em alguns dos bairros populares da Praia, está em curso uma transição entre a difusão destas duas organizações de rua. A partir dos anos 2000 até hoje, de fato, a pertença a um grupo thug tem representado para os jovens machos da camada popular uma opção de vida eficaz em relação à sobrevivência econômica, assim como ao alcance do prestígio social. Como ressalta o extrato da entrevista, todavia, nos últimos anos, a identidade thug está em parte perdendo a sua eficácia, por causa da política repressiva atuada pelo governo, assim como pelas graves consequências sobre a população dos bairros pobres, em termo de violência urbana, perigos, marginalização, mortes precoces e violentas e segregação territorial dos jovens thugs. Em alguns dos bairros em que surgiram os grupos thugs, então, estão hoje surgindo movimentos de ativistas sociais que recolhem muitas vezes os mesmos jovens que pertenciam às gangues.

 

 

«Eu queria formar um movimento social, que apanhava todas as liderança thugs, mas de outro jeito, para junta-los contra os verdadeiros problemas que temos. Os thugs têm os olhos fechados… Queríamos um movimento com referência em Amílcar Cabral e nos seus princípios: igualdade, paz, luta. Acho que uma das formas de libertar a consciência dos jovens é mostrar a imagem de Cabral! Queremos despertar os jovens de como estão a agir, a vestir. Nos usamos muito a camuflada, por exemplo, para dizer que estamos na luta, sempre. Porque somos soldiers. E ouvimos música reggae e rap, porque são músicas de revindicação!» (Entrevista com Uv, leader da Korrenti de Ativistas, Achada Grande Frente)

 

 

Fig. 3: “Marcha Cabral” organizada pela Korrenti di Ativiztas.

 

Conclusão

O elemento central que foi analisado em relação a estes dois grupos foi, todavia, a dimensão de gênero. De fato, a filiação, seja às gangues, seja aos movimentos de ativistas, parece ser um fenômeno quase exclusivamente masculino. Nos grupos thug as mulheres desenvolvem papéis instrumentais, sendo frequentemente sexualizadas, enquanto entre os ativistas a falta de participação feminina sofre um processo de invisibilização. A hipótese desenvolvida no curso da pesquisa considera este fato come consequência do caráter de masculinidade de protesto (Conell, 1995) de ambas as tipologias de organizações de rua. Esta definição se refere aos grupos sociais que reclamam a posição de poder garantida pela pertença ao gênero masculino, reforçando as características do modelo de virilidade hegemônico, como reação a um contexto social de múltipla subordinação e marginalização. De fato, os modelos de identidade difundidos seja entre os thugs, seja entre os ativistas se baseiam em características enfatizadas do modelo hegemônico de masculinidade, em um processo de continuidade cultural com o sistema social dominante (Bordonaro, 2012). Ao mesmo tempo, estes modelos proporcionam percursos e instrumentos que permitem aos jovens se adequar ao modelo de masculinidade hegemônico, fato que de outra forma seria hoje impossível para eles. Os thugs e os ativistas, com certeza, se diferenciam por inúmeras características, como a diferente relação com o gênero feminino, questão que lamentavelmente não pode ser analisada nessa sede. Em conclusão, é possível afirmar que estes grupos sociais não sejam portadores de performatividades masculinas inovadoras, mas, ao contrário, reforçem o modelo de masculinidade que legitima a hierarquia sobre mulheres e formas de masculinidades não hegemónica, refletindo as tensões existentes hoje no arquipélago a nível de relações intergêneros.

 

Referências bibliográficas

BORDONARO, Lorenzo. 2012. “Masculinidade, violência e espaço público: notas etnográficas sobre o bairro Brasil da Praia (Cabo Verde)”. Tomo, 21: 101-136.

BROTHERTON, David. 2010. “Oltre la riproduzione sociale. Reintrodurre la resistenza nella teoria sulle bande”. In: L. Queirolo Palmas (org.), Atlantico Latino: gangs giovanili e culture transnazionali. Roma: Carocci. pp. 29-45.

BUTLER, Judith. 1990. Gender Trouble. London & New York: Routledge.

CONNELL, W. Raewyn e MESSERCHMIDT, W. James. 2005. “Hegemonic Masculinities: Rethinking the concept”. Gender & Society, 19(6): 829-859.

CONNELL, W. Raewyn. 1995. Masculinities. Cambridge: Polity Press.

GEERTZ, Clifford. 1987. The Interpretation of Cultures. New York: Basic Books.

MASSART, Guy. 2013. “The Aspirations and Constrains of Masculinity in the Family Trajectories of Cape Verdean Men from Praia (1989-2009)”. Etnográfica, 17(2): pp: 293-316.

LIMA, Redy Wilson. 2012. “Delinquência juvenil coletiva na cidade da Praia: uma abordagem diacrônica”. In: K. Cardoso, J. M. Pureza, S. Roque (orgs.), Jovens e trajectórias de violências. Os casos de Bissau e da Praia. Coimbra: edições Almedina. pp. 57-82.

SINGERMAN, Diane. 2011. “The Negotiation of Waithood. The Political Economy of Delayed Marriage in Egypt”. In: S. Khalef, S. R. Khalef, Arab Youth. Social Mobilization in Time of Risk. London: Saqi Books, pp. 46-75.

 

 

Silvia Stefani

Doutouranda em Ciências Sociais
Università degli Studi di Genova

Currículo Lattes
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[1]Instituto Nacional de Estatistíca

[2] Instituto Caboverdiano para a Igualdade e Equidade de Gênero.

[3] INE e ICIEG, 2012. Mulheres e homens em Cabo Verde. Fatos e Números 2012, em http://www.ine.cv/index.aspx.  

Novas Pesquisas - Blog

 

SENTIDOS DE JUSTIÇA, REPRESENTAÇÕES DE PODER E FIANÇAS NA POLÍCIA CIVIL DO RIO DE JANEIRO


Marcus Cardinelli

Museu da PCERJ. Créditos: Cyro A. Silva



Marcus José da Silva Cardinelli

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal Fluminense
Bolsista CAPES




Proponho uma reflexão sobre as representações de poder que são construídas nas delegacias da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ), especialmente pelos seus delegados. Ao longo do estudo que venho realizando, percebi que, geralmente, eles exercitam esse poder através da interpretação/classificação de determinado fato dentro de certas categorias jurídicas. Como pondera Bourdieu, o direito legal costuma ser chamado a contribuir para racionalizar ex post decisões em que não teve qualquer participação (Bourdieu 1989: 224). Ao mesmo tempo, o direito é uma forma de ver o mundo acompanhada de um conjunto de práticas que essa própria forma de ver o mundo impõe (Geertz 2012: 186).

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PROBLEMAS ENTRE REGRAS E AFETOS


versões sobre casar certo e casar errado e os muitos jeitos de ser ticuna [1]

 



Patrícia Carvalho Rosa

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista CNPQ



- Para saber como se casa e porque falamos tanto disso é bom escutar a história contada nas palavras dos antigos (ore) para conhecer como as regras dos clãs nos ensinaram a casar bem (...) para tentar acabar com os males do mundo feitos pelos womachi (incesto). Com essas histórias você saberá como apareceu o povo Ticuna de hoje (...) escutará porque moramos num mundo (na’ane) de perigo (nakügü), agora longe de nossos ancestrais que o criaram. Já foi tempo, a gente conhecia só as regras dos antigos. Tempo vai passando, mundo vai crescendo, ganhando gente e lugares (...) fica mais do’one (instável). Agora as palavras dos antigos estão todas misturas com outras palavras e histórias. Isso faz novos saberes sobre o mundo. (...) Já não vivemos num território só dos parentes. Hoje tem muitos tipos de gentes, muitos jeitos de ser indígena. Por isso esse problema nas negociações de casamento. Cada pessoa vê isso de um jeito. Casa-se como antigamente, mas também casa-se agora com outras regras, pois têm os sentimentos, os jeitos das pessoas, outras preocupações dos que se casam. (...) Alguns dão o golpe na cultura, não casando ou trazendo para a comunidade outros jeitos de casar. (...) Não é ruim, não. Mas tem que cuidar. E tem que saber também das histórias desse tempo presente, para saber de onde vem esses outros saberes (...) como se misturou tudo. São essas misturas de saberes, de pensamentos que agora nos fazem pensar o que é casar certo e casar errado. Esses jeitos de casar e de ser ticuna vêm das misturas das regras dos clãs e também dos sentimentos das pessoas em casar com quem elas querem, do jeito que elas querem, dependendo dos interesses e do jeito que a pessoa foi criada, que tá no mundo. Ai casar certo e casar errado pode ser várias coisas, depende de quem te contar. 

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INTERCÂMBIOS ESTUDANTIS

dinâmicas migratórias contemporâneas e o (re)pensar antropológico

 

 

Leonardo Francisco de Azevedo

Mestrando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora
Bolsista CAPES

  

Pensar em dinâmicas migratórias contemporâneas requer, das ciências sociais, um alargamento de diferentes categorias que tradicionalmente nos serviram para explicar as diferentes formas de deslocamento existentes.  Sobretudo em contexto de globalização crescente, outros desafios nos são apresentados para serem melhor compreendidos e explicados.  A presente pesquisa se dispõe a investigar um tipo específico de migração, cada vez mais comum mundo afora: estudantes universitários em intercâmbio. Para tal, tenho como interlocutores intercambistas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que viajaram entre os anos de 2013 e 2014. A UFJF lança, anualmente, o edital de intercâmbio da própria universidade, referente aoPrograma de Intercâmbio Internacional de Graduação (PII-GRAD), a partir de convênios da própria instituição com universidades estrangeiras. Este programa contempla apenas alunos de graduação da UFJF, sendo que o estudante parte para o intercâmbio no segundo semestre do ano letivo brasileiro, ficando no mínimo um semestre na universidade estrangeira, mas podendo estender este período por até um ano. Com vistas a acompanhar todo o processo de seleção, preparação, o intercâmbio em si e o retorno, optei por acompanhar alunos que concorreram ao edital PII-GRAD no ano de 2013. Estes estudantes realizaram suas viagens concomitante à minha pesquisa de mestrado, o que me permitiu acompanhar todo o processo.

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MUSEU, OBJETOS E OS DIFERENTES TEMPOS CONFLUENTES

 

 

Fachada do Museo Nacional de Antropologia de Madrid 
Fachada do Museo Nacional de Antropología de Madrid. Créditos de todas as imagens: Renata Montechiare



Renata Montechiare

Doutoranda em Sociologia e Antropologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bolsa Capes



Museu, objetos e os diferentes tempos confluentes trata-se de uma síntese para pesquisa de doutorado em andamento. Resume o que parecem ser pontos centrais para compreender o que faz o Museo Nacional de Antropología de Madrid (MNA) apresentar-se como guardião das referências de um suposto universalismo cultural determinado por um tipo particular de museu do homem, através dos objetos que exibe.

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A RELIGIÃO NO CALENDÁRIO OFICIAL

notas acerca da regulação de feriados no Brasil
 

 

Izabella Pessanha Daltro Bosisio

Mestra em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 

A proposta deste texto é apresentar alguns apontamentos decorrentes da pesquisa realizada para a minha dissertação de mestrado[1], a qual procurou mapear o lugar da religião no calendário oficial brasileiro, tomando como ponto de partida a regulamentação da instituição de feriados no país. Este foi o lugar estratégico escolhido para explorar as questões que envolvem os entrelaçamentos entre Estado e religiões no Brasil.

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ENUNCIAÇÕES, INTERVENÇÕES E TENSÕES

a experiência de engajamento em coletivos vinculados à população em situação de rua em Porto Alegre/RS

 

 

bruno fernandes - 1. o incio da noite no viaduto otvio rocha

O início da noite no viaduto Otávio Rocha, Porto Alegre-RS, 2014. Foto do autor.

 

 

Bruno Guilhermano Fernandes

Graduando em Ciências Sociais
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista de Extensão e Pesquisa do Departamento de Antropologia da UFRGS


Patrice Schuch

Professora de Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Neste texto, à luz do trabalho etnográfico, pretendo expor reflexões em torno da experiência, em andamento, de análise e de engajamento nos projetos e coletivos vinculados aos circuitos sociais heterogêneos de atenção à chamada população em situação de rua, em Porto Alegre/RS. Situado na interface entre a Antropologia do direito e da política, este estudo tem como foco a análise de discursos, interlocuções e tensões envolvidos nos processos de engajamento, crítica e de contestação vinculados à mobilização política, reivindicações de direitos e à relação com as tecnologias de governo em torno da vida, por parte desse segmento populacional. 

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ENTREMEANDO POSSIBILIDADES INFINITAS

os processos museológico, histórico e estético de objetos feitos de miçanga em povos indígenas da Amazônia





Tanga de Miçangas - Tiriyó. Acervo Museu Goeldi.

 


Carlos Eduardo Chaves

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas

Bolsista CAPES



A presente comunicação tem como intuito à divulgação da pesquisa realizada entre os anos de 2012 a 2014 no Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém[1]. A atividade de pesquisa teve início após um período inicial de trabalho na Reserva Técnica Curt Nimuendajú (local de salvaguarda das coleções etnográficas) no qual tive contato com a cultura material de diversos grupos indígenas da Amazônia, objetos que datam do século XIX. Atualmente, no âmbito das doações para museus etnográficos, a renovação do acervo deste museu consiste na entrada cada vez mais frequente de objetos feitos de miçanga. Tendo isso em vista o objetivo da pesquisa foi analisar a miçanga como representação de contato com os “brancos” e outros povos indígenas, assim como as suas possibilidades estéticas no passado e no presente, juntamente com a circulação de mercadorias industrializadas nas aldeias. O intuito foi a realização de um estudo com caráter etnohistórico, estético e museológico referentes a objetos confeccionados de miçangas na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi e em trabalho de campo. O estudo forneceu critérios comparativos entre os Mebêngôkre-Kayapó, Wayana-Aparai e Tiriyó, possibilitando assim obter dados relativos à entrada de contas de vidros em sociedades de contato antigo e atual.

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RESSIGNIFICAÇÃO TERRITORIAL E MINERAÇÃO EM GRANDE ESCALA EM UMA COMUNIDADE AFROCOLOMBIANA




Germán Moriones

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas


Problemática

Este projeto tem o objetivo de estudar a disputa territorial entre a comunidade afrocolombiana de La Toma, que vive da mineração tradicional do ouro, e o Estado colombiano, que concedeu a uma empresa transnacional o direito de exploração industrial de larga escala do território ancestral da comunidade (Rojas et al., 2013). La Toma, localizada no sudoeste colombiano, tem sua origem em um processo de ocupação mineira iniciada em 1634, mas a concessão estatal à empresa transnacional, realizada no ano 2007, não respeitou os direitos étnicos e territoriais reconhecidos às comunidades negras a partir da Constituição Política da Colômbia de 1991, especialmente o direito à consulta previa. Tendo em vista os estudos antropológicos sobre comunidades negras desenvolvidos desde a década de 1950 na Colômbia, assim como a perspectiva teórica da ‘ecologia política’, pretendemos analisar a dinâmica territorial da comunidade de La Toma, desde suas práticas de gestão tradicionais até as suas estratégias de resistência diante do conflito recentemente instaurado, por meio do qual o território vai se carregando de novos significados e novas valorações.

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“QUERO UM AMOR SEM OBRIGAÇÕES” [1]

notas antropológicas sobre um estudo entre poliamantes



Matheus França

Mestrando em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Bolsista CNPq


Em O Banquete, de Platão (1991: 57), Aristófanes, dramaturgo grego, discursa sobre a origem do amor. Conta ele sobre criaturas que outrora habitaram a Terra e que possuíam quatro braços, quatro pernas, duas cabeças. Por punição de Zeus, essas criaturas foram divididas ao meio, dando origem aos humanos como nos conhecemos. Nesse sentido, a concretização do amor só se daria no momento em que o sujeito encontra a sua metade, a outra pessoa que a completa. Por conseguinte, pode-se inferir que, no sentido dado na obra a partir do mito narrado, é somente por meio de duas pessoas que o amor eros – nos termos platônicos – teria forma real. Longe de qualquer tentativa de interpretação presentista (Stocking Jr, 1968: 211) do mito, trago esta imagem para ilustrar uma das principais questões da pesquisa que dá origem a este trabalho: a crítica que adeptos/as do “poliamor” realizam com relação à monogamia como orientadora das relações afetivo-amorosas ocidentais. A ideia central entre minhas e meus interlocutoras/es é de que “é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo” e inclusive estabelecer uma relação amorosa entre três pessoas ou mais. Nesse sentido, meu objetivo neste artigo é apresentar o trabalho que venho desenvolvendo no mestrado. Trata-se de uma pesquisa sobre o poliamor, que em linhas gerais é descrito por suas/seus adeptas/os como uma perspectiva de relação que não se pauta na monogamia e que tem como centralidade a rejeição ao sentimento do ciúme como válido para a vivência de relações amorosas. Muito embora tal definição não seja estanque, ainda que para enunciá-la eu esteja pautado em falas que frequentemente escuto em campo. Voltarei a essa discussão mais à frente.

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A POLÍTICA PÚBLICA QUILOMBOLA

questões analíticas e práticas na comunidade de Conceição do Imbé

 

 

 

Proscila Neves da Silva


Trecho da comunidade quilombola de Conceição do Imbé com as serras do Parque Estadual do Desengano ao fundo. Créditos: Priscila Neves da Silva.




Priscila Neves da Silva

Mestranda em Políticas Sociais
Universidade Estadual do Norte Fluminense
Bolsista FAPERJ/UENF



Introdução

Conceição do Imbé é uma comunidade rural da cidade de Campos dos Goytacazes/RJ, sendo sua formação fruto da desapropriação das terras consideradas massa falida da usina de cana-de-açúcar Novo Horizonte. A referida usina faliu em 1985 deixando os trabalhadores sem emprego e com salários atrasados, o que fez com que a população desempregada que morava nas terras da usina entrasse com processo na justiça, que culminou no Programa de Assentamento (PA) Novo Horizonte, criado pelo Decreto Nº 94.128/87 (NEVES, 2004). Dessa data em diante, a população de Conceição do Imbé passou a trabalhar em seus lotes e a viver como assentados rurais. Parte dela, pertencente à PA Novo Horizonte, iniciou em 2004 o processo junto à Fundação Cultural Palmares (FCP) demandando seu reconhecimento como remanescente das comunidades dos quilombos, tendo adquirido a referente certidão em setembro de 2005.

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A GUERRA DOS MUNDOS

reflexões epistemológicas por uma etnografia da situação colonial





Fillipe Guimaraes
Artesanatos Mayas de Cooperativa de Mulheres Quiché, feitos de caule de bananeira e palha de milho, Lago Izabal, Guatemala. Fotografia do Autor, 2010.




Filippe Da Silva Guimarães

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal de Pelotas
Bolsista Capes



Neste texto, proponho reconstruir em termos de uma trajetória epistemológica minha problematização de um objeto antropológico até a qualificação de minha dissertação de mestrado em Antropologia pelo PPGAnt-UFPEL. Ao propor um projeto inicialmente intitulado O Milho Como Agência Nas Histórias Sociais De Nossamérica não tinha claro qual era meu objeto de pesquisa, meus objetivos e qual a metodologia deveria seguir para fazer uma etnografia histórica e textual. Como interesse específico, fui atrás de etnografias, mitologias, folclores e literaturas que traziam narrativas e rituais onde o milho dotado de humanidade seria em certos contextos um eu-humano dotado de ação e intencionalidades para o mundo ameríndio.

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MODOS DE CONECTAR CAMPO E TEXTO

sobre etnografia entre técnicas de estagiários do Projeto TAMAR




Ana Campos

Capa do documento “Projeto TAMAR, pesquisa e conservação: Lista de Publicações desde de 1980”. Crédito: site do projeto TAMAR

 


Ana Cecília Oliveira Campos

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Espirito Santo
Bolsista PIBIC


 

Introdução

Este artigo reflete sobre técnicas de agentes técnicos estagiários do Projeto TAMAR, ICMBio em Regência- vila de pescadores no Norte do Espirito Santo- conectam campo e texto. O que abordarei como “campo” do TAMAR são as atividades de monitoramento de praia. Enquanto a ideia de “texto” será usada para fazer referência à produção de pesquisa vinculada ao TAMAR. A intenção é tornar visível essa abordagem à partir de minha presença em campo, em especial, em reuniões e treinamentos- de caráter prático e teórico.

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AUROVILLE

aire de recherche, ère de la quête du sens





1

La photographie illustre Auroville aujourd'hui. On observe l'éolienne du puits de Fertile camouflée par la végétation. Source : http://www.auroville.org/gallery/Giorgio_Molinari/1421.jpg



Marie Horassius

Doctorante en Anthropologie
École des Hautes Études en Sciences Sociales

 

Nouveaux débats...

L'anthropologie est une science récente et éminemment contemporaine. À son origine, elle étudiait des cultures et des peuples délimités et inscrits dans un espace spécifique. Les chercheurs, à l'heure actuelle, sont confrontés à de nouveaux sujets et de nouvelles pratiques qui doivent aussi être analysés par le regard anthropologique. Ainsi ai-je choisi le sujet d'Auroville : « communauté internationale » située en Inde du Sud (Tamil Nadu). Ce terrain me semblait être représentatif des enjeux contemporains face auxquels l'anthropologie et la recherche font front aujourd'hui. Ce champ de recherche est une science inscrite dans le monde et selon nous, engagée dans les grandes réflexions sociales. À quoi peut servir l'anthropologie si elle refuse aujourd'hui d'étudier le monde qui l'entoure et d'entrer dans les nouveaux débats ?

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IMAGEM E RITUAL

a fotografia e o sutra lótus primordial




Alexsânder Nakaóka Elias

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista Capes

           

Um tema: Antropologia, fotografia e ritual

A escolha de uma corrente específica do Budismo para desenvolver esta pesquisa – a Honmon Butsuryu-shu – se faz necessária tendo em vista a grande quantidade de monastérios e correntes budistas existentes no Brasil e no mundo. Como seria inviável realizar uma pesquisa de campo satisfatória em todos os monastérios existentes no país, a Catedral Nikkyoji foi escolhida em razão da sua localização (próximo de Campinas) e por pertencer à tradição Mahayana[1].

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THUG LIFE E ATIVISMO SOCIAL

 

construções de masculinidades de protesto nos bairros populares da Cidade da Praia (Cabo Verde)

 

 

 

Silvia Stefani

Doutouranda em Ciências Sociais
Università degli Studi di Genova

 

 

Introdução

O presente texto refere-se à pesquisa desenvolvida no âmbito do Mestrado em Antropologia Cultural e Etnologia pela Universitá degli Studi di Torino (Itália). Essa investigação analisa os modelos de masculinidades próprios da sociedade cabo-verdiana atual, visando a indagar os processos de construções da performatividade de gênero masculino, segundo a definição da Butler (1990), e suas atuais transformações. O estudo é baseado nos dados qualitativos recolhidos no ano 2014 ao longo de seis meses de trabalho de campo no contexto urbano da Cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Cabo Verde é um arquipélago constituído por dez ilhas ao largo do promontório homónimo no Senegal. O arquipélago se encontra em pleno Oceano Atlântico, posição que o torna isolado, mas, ao mesmo tempo, ponto de conexão estratégico entre Africa, América e Europa. Essa característica se reflete tanto no passado das ilhas, nodo focal do comercio de escravos, quanto no atual fenómeno das migrações cabo-verdianas que se distribuem nos três continentes limítrofes. A capital, Praia, situada na ponta meridional da ilha de Santiago, foi centro do movimento de libertação contro a colonização portuguesa terminada no 1975 e hoje é a sede do governo e dos serviços nacionais.

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RECUA, POLÍCIA, RECUA. É O PODER POPULAR QUE TÁ NA RUA

 

Ocupação do espaço público e esquemas emergentes de ação coletiva em Porto Alegre

 

 

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Patricia Kunrath Silva

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista do CNPq

 

 

Introdução

Movimentos sociais, ação coletiva, militância política e ocupação do espaço público têm sido temas privilegiados na produção das Ciências Sociais[1].  A cidade de Porto Alegre foi e tem sido palco, especialmente entre os anos de 2012 e 2013 – e nisso veja-se o contexto das eleições municipais em 2012 para prefeitura e dos preparativos para a Copa do Mundo em 2014 – de inúmeros atos de contestação e tentativas de (re)apropriação do espaço público mediados pelas redes sociais e extrapolando o universo de coletivos já consolidados na cidade, tais como os movimentos Utopia e Luta, Tribos nas Trilhas da Cidadania e o Levante Popular da Juventude[2].

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STUDY OF MYTH AND ANTHROPOLOGY OF THE BODY

 

 

Thierry Veyrié

PhD student
American Indian Studies Research Institute
Indiana University

 

 

Myth and body may seem rather independent concepts but they are, in fact, deeply interrelated. In my master’s degree thesis at the École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), I tried to identify in Northern Paiute subsistence and rituals some emic gestures that appeared regularly in the historical literature such as scratching, exemplified by the digging-stick and the scratching stick, and associated to femininity; and piercing, the male technique for hunting. The current step of my research is to continue discerning emic techniques and gestures in the Northern Paiute myths previously recorded, but also to conduct fieldwork and collect more stories. My focus on gestures implies an analysis of the concept of body I will try to sketch out in this paper.

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