Associação Brasileira de Antropologia

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RECUA, POLÍCIA, RECUA. É O PODER POPULAR QUE TÁ NA RUA

 

Ocupação do espaço público e esquemas emergentes de ação coletiva em Porto Alegre

 

 

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Patricia Kunrath Silva

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista do CNPq

 

 

Introdução

Movimentos sociais, ação coletiva, militância política e ocupação do espaço público têm sido temas privilegiados na produção das Ciências Sociais[1].  A cidade de Porto Alegre foi e tem sido palco, especialmente entre os anos de 2012 e 2013 – e nisso veja-se o contexto das eleições municipais em 2012 para prefeitura e dos preparativos para a Copa do Mundo em 2014 – de inúmeros atos de contestação e tentativas de (re)apropriação do espaço público mediados pelas redes sociais e extrapolando o universo de coletivos já consolidados na cidade, tais como os movimentos Utopia e Luta, Tribos nas Trilhas da Cidadania e o Levante Popular da Juventude[2].

No final do ano de 2012 e início do ano de 2013, entraram em cena o Cidade Baixa em Alta – com eventos ao ar livre para ocupação das ruas aparentemente em resposta à ação da prefeitura para fechamento de bares e restaurantes sem alvará no bairro considerado símbolo boêmio da cidade, a Cidade Baixa - o Defesa Pública da Alegria e o Bloco de Luta pelo Transporte Público, sendo estes dois últimos objetos deste estudo.

O DPA aparece tendo como uma de suas primeiras ações coletivas um movimento – no qual eu estava presente – de protesto no Paço Municipal de Porto Alegre, em resposta à concessão do Largo Glênio Peres à Coca-Cola/Vonpar para “revitalização” do espaço histórico, em frente ao Mercado Público da cidade, concessão essa que resultaria na proibição da atuação de artistas de rua e da realização da Feira da Economia Solidária no local, com a instalação de chafarizes decorativos, novo calçamento e rede de internet wi-fi. Paralelamente a esta ação – que acabou por ganhar um grande espaço nos veículos de comunicação locais e alcançou mesmo nível nacional pelo confronto violento entre a Brigada Militar e manifestantes, em função da derrubada da mascote inflável tatu-bola, símbolo da Copa do Mundo – o Defesa Pública da Alegria estruturou-se nas redes sociais e passou a reunir integrantes de distintos coletivos já existentes, trabalhando na busca de pontos convergentes de demandas para adensar a massa participante de suas ações públicas de ocupação do espaço público.

Concomitantemente, deu-se o confronto em redes sociais entre ativistas e simpatizantes do movimento e pessoas que questionavam o fato de os participantes serem integrantes de uma suposta classe média não militante, que não estaria legitimada a atuar nesse tipo de protesto. Em blogs[3] e conversas com estudantes e colegas, encontrei as mais diversas declarações: desde que o movimento seria composto por integrantes de classe média hippies, que não saberiam ocupar o espaço público, até de que não haveria mais diversão na cidade e por isso agora a programação dos jovens seria participar de um protesto para ter o que fazer. Em meio a essas falas, disputas e acusações, observei no mesmo dia do primeiro protesto a dissidência entre sujeitos que reivindicavam uma demonstração pacífica, outros que reivindicavam a derrubada do tatu da Coca-Cola e ainda aqueles que preferiam não se envolver ou debater muito.

A partir deste cenário, alguns estranhamentos e diversas inquietações acerca de manifestações recorrentes na cidade e da dinâmica dos próprios coletivos levaram-me a questionar quem seriam os atores que articulam movimentos recentes como o DPA e o BTP (que aparece em 2013 com protestos contra o aumento da passagem de ônibus). Como as pessoas tomam conhecimento e o que as motiva a agir em função das pautas destes movimentos? Que repertórios e/ou enquadramentos são adaptados, utilizados e/ou criados por estes na interação com outros atores (aliados, mídia, “adversários”)? Que quadros interpretativos – ou enquadramentos (Goffman, 1974) – operam nas mobilizações e como estes estão sendo produzidos pelos diversos atores envolvidos?

O DPA criou a sua página no facebook em 28 de setembro de 2012 e desde então eu vinha acompanhando suas postagens e participando de manifestações pontuais. Por meio desta monografia, busquei adentrar o espaço destas mobilizações e tentar entender as questões acima problematizadas. Para tanto, realizei observação participante em encontros e protestos promovidos pelo DPA e pelo BLTP, realizei conversas informais com pessoas diretamente ligadas aos movimentos, pessoas que apenas participam de eventos pontuais e pessoas que romperam com o movimento, bem como analisei os discursos produzidos via internet, na rede social facebook e matérias de veículos da mídia local referentes aos protestos.

 

 

 

Tendo como focos principais deste estudo identificar e analisar repertórios de ação coletiva e gramáticas morais de atos de protesto, optei por articular os dados levantados por meio do trabalho de campo nos eventos do DPA e BLTP com um segmento da cobertura midiática – atentando para enquadramentos produzidos por veículos considerados hegemônicos[4] – contexto histórico-político imediato e aspectos culturais de engajamento e construção de pautas. É notável o esquema de mobilização via redes sociais. “Não quero entrar aqui na discussão se a globalização é em si uma coisa recente ou não”, como aponta Hannerz (1997), mas a velocidade e quantificação da informação por meio da internet – e, nesse caso, especificamente via redes sociais – indica ser fator crucial de articulação e mobilização de sujeitos para sua entrada nos eventos analisados.

Tendo iniciado este trabalho com objetos e campos de pesquisa que pareciam bastante delineados e bem limitados, observei como um cenário político-econômico específico ensejou desdobramentos e expansões[5]. Um bom exemplo dessa perspectiva é a obra de Tilly “Getting it together in Burgundy, 1675-1975” e sua busca por “padrões de ação de coletiva”, que, segundo Alonso (2012: 23) abarca “a correlação entre mudança de repertório e mudança social, econômica e política, e o uso dos repertórios conforme as oportunidades políticas” (1976: 22). Nesse quadro, o próprio uso da internet e redes sociais devem ser pensados agora como novos elementos para os repertórios de ação coletiva.

Com o ensejo da crise da economia europeia (agudizada a partir de 2008), manifestações expressivas na Turquia[6], remoção de comunidades no Brasil em função dos preparativos da Copa do Mundo, os próprios gastos em torno do megaevento, a Copa das Confederações, etc.; somando-se a tudo isso um quadro de intensa desigualdade social e disputas políticas – lembrando o cenário eleitoral eminente da corrida presidencial no ano de 2014 - espalharam-se pelo Brasil atos de contestação nas mais diversas formas.

 

3

 

No momento de redação inicial deste texto – após cerca de um ano de pesquisa de campo - em agosto de 2013, discutiam-se novas formas emergentes de mobilização, tais como os Black Blocks[7] e a ocupação das Câmaras Municipais – como protagonizado em julho pelo integrantes do BLTP na cidade de Porto Alegre. Sugiro encontrarmo-nos diante de um cenário de alteração dos repertórios até então considerados mais “tradicionais” de mobilização: protestos, marchas e discursos; e com ela podemos observar a estruturação de novos repertórios que estão surgindo e sendo pensados não só pelos grupos estudados, mas em escala praticamente global.

A estruturação dos próprios coletivos formados a partir da aglutinação de grupos com ideologias dissidentes, mas pautas em comum, pode ser pensada também como parte de um novo repertório e, dessa forma, sugiro que estes – que proponho chamar de esquemas emergentes de ação coletiva – são também novos repertórios de mobilização social. Quanto às categorias encontradas, destaco a virada do discurso da mídia, em que atos até então classificados simplesmente como “violentos” e “arruaceiros” passam a ser retratados – e friso que me atenho à breve análise da cobertura vinculada às organizações Globo, por considerá-la representativa do discurso da mídia hegemônica no Brasil - como marcos fundamentais da história do país. Categorias como “vândalos” e “baderneiros” não desaparecem, mas passam a ser aplicadas e vinculadas a grupos isolados. Por outro lado, nas assembleias do BLTP das quais participei – apesar da heterogeneidade do grupo e dissidências internas quanto às formas de manifestar – pode-se perceber que atos enquadrados como “violentos” pela mídia eram pensados por muitos como estratégias legítimas de combate a um sistema político e econômico hegemônico interpretado por eles como “a violência de fato”.

   Esta é uma análise que não se esgota por aqui. Conforme apontado, os grupos e eventos são dinâmicos, heterogêneos, atuais e estão em curso. Não cabe a este texto fazer previsões, muito menos sugerir caminhos. O que encerra essa análise é a leitura interpretativa antropológica que, a partir dos marcos teóricos trazidos, faz sugerir a reestruturação de repertórios, a emergência de esquemas de ação coletiva na cidade de Porto Alegre e um jogo complexo de disputa diárias de significados, a partir de tipos e categorias construídos nas interações conflitivas entre mídia corporativa, mídia independente[8] e os diversos sujeitos políticos atuantes.

Referências

ALONSO, Ângela. 2012. “Repertório, segundo Charles Tilly: História de um conceito”. Sociologia & Antropologia, 2-3:21 – 41.

ARANTES, Antônio Augusto. 2000. O espaço da diferença. São Paulo: Editora Papirus.

BENEVOLO, Leonardo. 1999. A história da cidade. São Paulo: Editora Perspectiva.

BENFORD, Robert D. 2000. “Framing Processes and Social Movements: an overview and assessment”. Annual Reviews Sociology, 26:611-39.

BUCKEL, Sonja; FISCHER-LESCANO, Andreas. 2009 “Reconsiderando Gramsci: hegemonia no direito global”. Revista Direito GV, São Paulo, 5(2): 471-490.

CABRAL, M.V., SILVA, F.C., SARAIVA, T. (Org.). 2009. Cidade & Cidadania: Governança urbana e participação cidadã. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais.

FASSIN, Didier. 2012. “Vers une théorie des économies morales”. In: FASSIN, Didier e EIDELIMAN, Jean-Sébastien (orgs.). Économies Morales contemporaines. Paris: La Découverte, pp. 19-52.

GOFFMAN, Erving. 1974. Frame analysis: An essay on the organization of experience. London: Harper and Row.

GOLDSTONE, Jack A. 2004. More social movements or fewer? Beyond political opportunity structures to relational fields. George Mason University, U.S.A.

GOODWIN, Jeff; JASPER, James M.; POLLETTA, Francesca. 2001. Passionate Politics: Emotions and Social Movements. Chicago: The University of Chicago Press.

HANNERZ, Ulf. 1997 “Fluxos, Fronteiras, Híbridos: palavras-chave da antropologia transnacional”. Mana, 3(1): 7-39.

HARVEY, David. 1998. A condição pós-moderna. São Paulo: Editora Loyola.

JACOBS, Jane. 2003. Morte e vida das grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes.

LE CORBUSIER. 2000. Planejamento urbano. São Paulo: Editora Perspectiva.

RUSKOWSKI, Bianca. 2012. Do incômodo à ação beneficente e da indignação à ação contestatória: estudo sobre condições e mecanismos de engajamento nas Tribos nas Trilhas da cidadania e no Levante Popular da Juventude. Porto Alegre, dissertação de mestrado, UFRGS/PPG Sociologia.

SILVA, Marcelo Kunrath. 2013. “Entrevista”. Jornal da Universidade, XVI(161): 5.

TILLY, Charles. 1976 Getting it together in Burgundy, 1675-1975. CRSO Working Paper U128, Center for Research on Social Organization, Universidade de Michigan.

TILLY, Charles. 2006 Regimes and Repertoires. Chicago: The University of Chicago Press.

 

 

Patricia Kunrath Silva

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista do CNPq

Currículo Lattes

 


[1] Contribuições teóricas e pesquisas empíricas acerca destas temáticas podem ser encontradas em autores como Tilly, 2006; Arantes, 2000; Cabral, Silva e Saraiva, 2009; Benévolo, 1999; Harvey, 1998; Jacobs, 2003, Le Corbusier, 2000; entre outros.

[2] Para mais informações sobre estes dois últimos ver a dissertação defendida em 2012 no Programa de Pós Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul de Bianca Ruskowski (2012).

[4] Optei por utilizar em contraste e comparação aos dados produzidos em campo notícias acerca dos eventos tratados por um veículo considerado representativo do que se denomina “mídia hegemônica”, qual seja, a Zero Hora, um dos jornais líderes de circulação do estado, pertencente ao grupo RBS, integrante das organizações Globo, o maior conglomerado do setor de mídia do Brasil (VIEIRA JUNIOR, 2007). Disponível em: http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_docman&task=doc_details&gid=342&Itemid=99999999 Acessado em 14 de agosto de 2013.  Para pensar a “mídia hegemônica” recorro à teoria da hegemonia de Gramsci. De acordo com Buckel e Fischer-Lescano (2009:475): “A hegemonia é, portanto, uma forma particular de vida e pensamento, uma weltanschauung, em que se baseiam as preferências, o gosto, a moralidade, a ética e os princípios filosóficos da maioria na sociedade (...). Dessa forma, o conceito exprime mais do que a legitimidade weberiana (...), ou seja, o controle por meio de um consenso assimétrico disseminado por toda a estrutura da vida social e que, portanto, se "naturaliza" na forma de costume, hábito e prática espontânea (...). Isso é uma espécie sutil de poder que se tornou o senso comum de toda uma ordem social (...). Mas tal conceito não deve ser compreendido como "colonização do mundo interior" (...), pois a hegemonia não é um tema metafísico, mas uma prática permanente, uma visão de mundo disputada em lutas por reconhecimento, por meio da qual a liderança moral, política e intelectual é estabelecida”. Disputando sentidos e reconhecimento, a mídia considerada “hegemônica” no Brasil está associada aos grupos controlados pelas famílias Marinho, Civita, Saad e Frias (LADEIRA, 2012). Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed716_a_grande_midia_brasileira_e_hugo_chavez Acessado em 14 de agosto de 2013.

[5] Sobre economias morais de protestos e a relevância contextual ver Fassin, 2012.

Novas Pesquisas - Blog

 

SENTIDOS DE JUSTIÇA, REPRESENTAÇÕES DE PODER E FIANÇAS NA POLÍCIA CIVIL DO RIO DE JANEIRO


Marcus Cardinelli

Museu da PCERJ. Créditos: Cyro A. Silva



Marcus José da Silva Cardinelli

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal Fluminense
Bolsista CAPES




Proponho uma reflexão sobre as representações de poder que são construídas nas delegacias da Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ), especialmente pelos seus delegados. Ao longo do estudo que venho realizando, percebi que, geralmente, eles exercitam esse poder através da interpretação/classificação de determinado fato dentro de certas categorias jurídicas. Como pondera Bourdieu, o direito legal costuma ser chamado a contribuir para racionalizar ex post decisões em que não teve qualquer participação (Bourdieu 1989: 224). Ao mesmo tempo, o direito é uma forma de ver o mundo acompanhada de um conjunto de práticas que essa própria forma de ver o mundo impõe (Geertz 2012: 186).

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PROBLEMAS ENTRE REGRAS E AFETOS


versões sobre casar certo e casar errado e os muitos jeitos de ser ticuna [1]

 



Patrícia Carvalho Rosa

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista CNPQ



- Para saber como se casa e porque falamos tanto disso é bom escutar a história contada nas palavras dos antigos (ore) para conhecer como as regras dos clãs nos ensinaram a casar bem (...) para tentar acabar com os males do mundo feitos pelos womachi (incesto). Com essas histórias você saberá como apareceu o povo Ticuna de hoje (...) escutará porque moramos num mundo (na’ane) de perigo (nakügü), agora longe de nossos ancestrais que o criaram. Já foi tempo, a gente conhecia só as regras dos antigos. Tempo vai passando, mundo vai crescendo, ganhando gente e lugares (...) fica mais do’one (instável). Agora as palavras dos antigos estão todas misturas com outras palavras e histórias. Isso faz novos saberes sobre o mundo. (...) Já não vivemos num território só dos parentes. Hoje tem muitos tipos de gentes, muitos jeitos de ser indígena. Por isso esse problema nas negociações de casamento. Cada pessoa vê isso de um jeito. Casa-se como antigamente, mas também casa-se agora com outras regras, pois têm os sentimentos, os jeitos das pessoas, outras preocupações dos que se casam. (...) Alguns dão o golpe na cultura, não casando ou trazendo para a comunidade outros jeitos de casar. (...) Não é ruim, não. Mas tem que cuidar. E tem que saber também das histórias desse tempo presente, para saber de onde vem esses outros saberes (...) como se misturou tudo. São essas misturas de saberes, de pensamentos que agora nos fazem pensar o que é casar certo e casar errado. Esses jeitos de casar e de ser ticuna vêm das misturas das regras dos clãs e também dos sentimentos das pessoas em casar com quem elas querem, do jeito que elas querem, dependendo dos interesses e do jeito que a pessoa foi criada, que tá no mundo. Ai casar certo e casar errado pode ser várias coisas, depende de quem te contar. 

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INTERCÂMBIOS ESTUDANTIS

dinâmicas migratórias contemporâneas e o (re)pensar antropológico

 

 

Leonardo Francisco de Azevedo

Mestrando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora
Bolsista CAPES

  

Pensar em dinâmicas migratórias contemporâneas requer, das ciências sociais, um alargamento de diferentes categorias que tradicionalmente nos serviram para explicar as diferentes formas de deslocamento existentes.  Sobretudo em contexto de globalização crescente, outros desafios nos são apresentados para serem melhor compreendidos e explicados.  A presente pesquisa se dispõe a investigar um tipo específico de migração, cada vez mais comum mundo afora: estudantes universitários em intercâmbio. Para tal, tenho como interlocutores intercambistas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que viajaram entre os anos de 2013 e 2014. A UFJF lança, anualmente, o edital de intercâmbio da própria universidade, referente aoPrograma de Intercâmbio Internacional de Graduação (PII-GRAD), a partir de convênios da própria instituição com universidades estrangeiras. Este programa contempla apenas alunos de graduação da UFJF, sendo que o estudante parte para o intercâmbio no segundo semestre do ano letivo brasileiro, ficando no mínimo um semestre na universidade estrangeira, mas podendo estender este período por até um ano. Com vistas a acompanhar todo o processo de seleção, preparação, o intercâmbio em si e o retorno, optei por acompanhar alunos que concorreram ao edital PII-GRAD no ano de 2013. Estes estudantes realizaram suas viagens concomitante à minha pesquisa de mestrado, o que me permitiu acompanhar todo o processo.

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MUSEU, OBJETOS E OS DIFERENTES TEMPOS CONFLUENTES

 

 

Fachada do Museo Nacional de Antropologia de Madrid 
Fachada do Museo Nacional de Antropología de Madrid. Créditos de todas as imagens: Renata Montechiare



Renata Montechiare

Doutoranda em Sociologia e Antropologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bolsa Capes



Museu, objetos e os diferentes tempos confluentes trata-se de uma síntese para pesquisa de doutorado em andamento. Resume o que parecem ser pontos centrais para compreender o que faz o Museo Nacional de Antropología de Madrid (MNA) apresentar-se como guardião das referências de um suposto universalismo cultural determinado por um tipo particular de museu do homem, através dos objetos que exibe.

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A RELIGIÃO NO CALENDÁRIO OFICIAL

notas acerca da regulação de feriados no Brasil
 

 

Izabella Pessanha Daltro Bosisio

Mestra em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 

A proposta deste texto é apresentar alguns apontamentos decorrentes da pesquisa realizada para a minha dissertação de mestrado[1], a qual procurou mapear o lugar da religião no calendário oficial brasileiro, tomando como ponto de partida a regulamentação da instituição de feriados no país. Este foi o lugar estratégico escolhido para explorar as questões que envolvem os entrelaçamentos entre Estado e religiões no Brasil.

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ENUNCIAÇÕES, INTERVENÇÕES E TENSÕES

a experiência de engajamento em coletivos vinculados à população em situação de rua em Porto Alegre/RS

 

 

bruno fernandes - 1. o incio da noite no viaduto otvio rocha

O início da noite no viaduto Otávio Rocha, Porto Alegre-RS, 2014. Foto do autor.

 

 

Bruno Guilhermano Fernandes

Graduando em Ciências Sociais
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista de Extensão e Pesquisa do Departamento de Antropologia da UFRGS


Patrice Schuch

Professora de Antropologia
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 

Neste texto, à luz do trabalho etnográfico, pretendo expor reflexões em torno da experiência, em andamento, de análise e de engajamento nos projetos e coletivos vinculados aos circuitos sociais heterogêneos de atenção à chamada população em situação de rua, em Porto Alegre/RS. Situado na interface entre a Antropologia do direito e da política, este estudo tem como foco a análise de discursos, interlocuções e tensões envolvidos nos processos de engajamento, crítica e de contestação vinculados à mobilização política, reivindicações de direitos e à relação com as tecnologias de governo em torno da vida, por parte desse segmento populacional. 

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ENTREMEANDO POSSIBILIDADES INFINITAS

os processos museológico, histórico e estético de objetos feitos de miçanga em povos indígenas da Amazônia





Tanga de Miçangas - Tiriyó. Acervo Museu Goeldi.

 


Carlos Eduardo Chaves

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas

Bolsista CAPES



A presente comunicação tem como intuito à divulgação da pesquisa realizada entre os anos de 2012 a 2014 no Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém[1]. A atividade de pesquisa teve início após um período inicial de trabalho na Reserva Técnica Curt Nimuendajú (local de salvaguarda das coleções etnográficas) no qual tive contato com a cultura material de diversos grupos indígenas da Amazônia, objetos que datam do século XIX. Atualmente, no âmbito das doações para museus etnográficos, a renovação do acervo deste museu consiste na entrada cada vez mais frequente de objetos feitos de miçanga. Tendo isso em vista o objetivo da pesquisa foi analisar a miçanga como representação de contato com os “brancos” e outros povos indígenas, assim como as suas possibilidades estéticas no passado e no presente, juntamente com a circulação de mercadorias industrializadas nas aldeias. O intuito foi a realização de um estudo com caráter etnohistórico, estético e museológico referentes a objetos confeccionados de miçangas na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi e em trabalho de campo. O estudo forneceu critérios comparativos entre os Mebêngôkre-Kayapó, Wayana-Aparai e Tiriyó, possibilitando assim obter dados relativos à entrada de contas de vidros em sociedades de contato antigo e atual.

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RESSIGNIFICAÇÃO TERRITORIAL E MINERAÇÃO EM GRANDE ESCALA EM UMA COMUNIDADE AFROCOLOMBIANA




Germán Moriones

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas


Problemática

Este projeto tem o objetivo de estudar a disputa territorial entre a comunidade afrocolombiana de La Toma, que vive da mineração tradicional do ouro, e o Estado colombiano, que concedeu a uma empresa transnacional o direito de exploração industrial de larga escala do território ancestral da comunidade (Rojas et al., 2013). La Toma, localizada no sudoeste colombiano, tem sua origem em um processo de ocupação mineira iniciada em 1634, mas a concessão estatal à empresa transnacional, realizada no ano 2007, não respeitou os direitos étnicos e territoriais reconhecidos às comunidades negras a partir da Constituição Política da Colômbia de 1991, especialmente o direito à consulta previa. Tendo em vista os estudos antropológicos sobre comunidades negras desenvolvidos desde a década de 1950 na Colômbia, assim como a perspectiva teórica da ‘ecologia política’, pretendemos analisar a dinâmica territorial da comunidade de La Toma, desde suas práticas de gestão tradicionais até as suas estratégias de resistência diante do conflito recentemente instaurado, por meio do qual o território vai se carregando de novos significados e novas valorações.

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“QUERO UM AMOR SEM OBRIGAÇÕES” [1]

notas antropológicas sobre um estudo entre poliamantes



Matheus França

Mestrando em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Bolsista CNPq


Em O Banquete, de Platão (1991: 57), Aristófanes, dramaturgo grego, discursa sobre a origem do amor. Conta ele sobre criaturas que outrora habitaram a Terra e que possuíam quatro braços, quatro pernas, duas cabeças. Por punição de Zeus, essas criaturas foram divididas ao meio, dando origem aos humanos como nos conhecemos. Nesse sentido, a concretização do amor só se daria no momento em que o sujeito encontra a sua metade, a outra pessoa que a completa. Por conseguinte, pode-se inferir que, no sentido dado na obra a partir do mito narrado, é somente por meio de duas pessoas que o amor eros – nos termos platônicos – teria forma real. Longe de qualquer tentativa de interpretação presentista (Stocking Jr, 1968: 211) do mito, trago esta imagem para ilustrar uma das principais questões da pesquisa que dá origem a este trabalho: a crítica que adeptos/as do “poliamor” realizam com relação à monogamia como orientadora das relações afetivo-amorosas ocidentais. A ideia central entre minhas e meus interlocutoras/es é de que “é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo” e inclusive estabelecer uma relação amorosa entre três pessoas ou mais. Nesse sentido, meu objetivo neste artigo é apresentar o trabalho que venho desenvolvendo no mestrado. Trata-se de uma pesquisa sobre o poliamor, que em linhas gerais é descrito por suas/seus adeptas/os como uma perspectiva de relação que não se pauta na monogamia e que tem como centralidade a rejeição ao sentimento do ciúme como válido para a vivência de relações amorosas. Muito embora tal definição não seja estanque, ainda que para enunciá-la eu esteja pautado em falas que frequentemente escuto em campo. Voltarei a essa discussão mais à frente.

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A POLÍTICA PÚBLICA QUILOMBOLA

questões analíticas e práticas na comunidade de Conceição do Imbé

 

 

 

Proscila Neves da Silva


Trecho da comunidade quilombola de Conceição do Imbé com as serras do Parque Estadual do Desengano ao fundo. Créditos: Priscila Neves da Silva.




Priscila Neves da Silva

Mestranda em Políticas Sociais
Universidade Estadual do Norte Fluminense
Bolsista FAPERJ/UENF



Introdução

Conceição do Imbé é uma comunidade rural da cidade de Campos dos Goytacazes/RJ, sendo sua formação fruto da desapropriação das terras consideradas massa falida da usina de cana-de-açúcar Novo Horizonte. A referida usina faliu em 1985 deixando os trabalhadores sem emprego e com salários atrasados, o que fez com que a população desempregada que morava nas terras da usina entrasse com processo na justiça, que culminou no Programa de Assentamento (PA) Novo Horizonte, criado pelo Decreto Nº 94.128/87 (NEVES, 2004). Dessa data em diante, a população de Conceição do Imbé passou a trabalhar em seus lotes e a viver como assentados rurais. Parte dela, pertencente à PA Novo Horizonte, iniciou em 2004 o processo junto à Fundação Cultural Palmares (FCP) demandando seu reconhecimento como remanescente das comunidades dos quilombos, tendo adquirido a referente certidão em setembro de 2005.

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A GUERRA DOS MUNDOS

reflexões epistemológicas por uma etnografia da situação colonial





Fillipe Guimaraes
Artesanatos Mayas de Cooperativa de Mulheres Quiché, feitos de caule de bananeira e palha de milho, Lago Izabal, Guatemala. Fotografia do Autor, 2010.




Filippe Da Silva Guimarães

Mestrando em Antropologia Social
Universidade Federal de Pelotas
Bolsista Capes



Neste texto, proponho reconstruir em termos de uma trajetória epistemológica minha problematização de um objeto antropológico até a qualificação de minha dissertação de mestrado em Antropologia pelo PPGAnt-UFPEL. Ao propor um projeto inicialmente intitulado O Milho Como Agência Nas Histórias Sociais De Nossamérica não tinha claro qual era meu objeto de pesquisa, meus objetivos e qual a metodologia deveria seguir para fazer uma etnografia histórica e textual. Como interesse específico, fui atrás de etnografias, mitologias, folclores e literaturas que traziam narrativas e rituais onde o milho dotado de humanidade seria em certos contextos um eu-humano dotado de ação e intencionalidades para o mundo ameríndio.

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MODOS DE CONECTAR CAMPO E TEXTO

sobre etnografia entre técnicas de estagiários do Projeto TAMAR




Ana Campos

Capa do documento “Projeto TAMAR, pesquisa e conservação: Lista de Publicações desde de 1980”. Crédito: site do projeto TAMAR

 


Ana Cecília Oliveira Campos

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Espirito Santo
Bolsista PIBIC


 

Introdução

Este artigo reflete sobre técnicas de agentes técnicos estagiários do Projeto TAMAR, ICMBio em Regência- vila de pescadores no Norte do Espirito Santo- conectam campo e texto. O que abordarei como “campo” do TAMAR são as atividades de monitoramento de praia. Enquanto a ideia de “texto” será usada para fazer referência à produção de pesquisa vinculada ao TAMAR. A intenção é tornar visível essa abordagem à partir de minha presença em campo, em especial, em reuniões e treinamentos- de caráter prático e teórico.

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AUROVILLE

aire de recherche, ère de la quête du sens





1

La photographie illustre Auroville aujourd'hui. On observe l'éolienne du puits de Fertile camouflée par la végétation. Source : http://www.auroville.org/gallery/Giorgio_Molinari/1421.jpg



Marie Horassius

Doctorante en Anthropologie
École des Hautes Études en Sciences Sociales

 

Nouveaux débats...

L'anthropologie est une science récente et éminemment contemporaine. À son origine, elle étudiait des cultures et des peuples délimités et inscrits dans un espace spécifique. Les chercheurs, à l'heure actuelle, sont confrontés à de nouveaux sujets et de nouvelles pratiques qui doivent aussi être analysés par le regard anthropologique. Ainsi ai-je choisi le sujet d'Auroville : « communauté internationale » située en Inde du Sud (Tamil Nadu). Ce terrain me semblait être représentatif des enjeux contemporains face auxquels l'anthropologie et la recherche font front aujourd'hui. Ce champ de recherche est une science inscrite dans le monde et selon nous, engagée dans les grandes réflexions sociales. À quoi peut servir l'anthropologie si elle refuse aujourd'hui d'étudier le monde qui l'entoure et d'entrer dans les nouveaux débats ?

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IMAGEM E RITUAL

a fotografia e o sutra lótus primordial




Alexsânder Nakaóka Elias

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas
Bolsista Capes

           

Um tema: Antropologia, fotografia e ritual

A escolha de uma corrente específica do Budismo para desenvolver esta pesquisa – a Honmon Butsuryu-shu – se faz necessária tendo em vista a grande quantidade de monastérios e correntes budistas existentes no Brasil e no mundo. Como seria inviável realizar uma pesquisa de campo satisfatória em todos os monastérios existentes no país, a Catedral Nikkyoji foi escolhida em razão da sua localização (próximo de Campinas) e por pertencer à tradição Mahayana[1].

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THUG LIFE E ATIVISMO SOCIAL

 

construções de masculinidades de protesto nos bairros populares da Cidade da Praia (Cabo Verde)

 

 

 

Silvia Stefani

Doutouranda em Ciências Sociais
Università degli Studi di Genova

 

 

Introdução

O presente texto refere-se à pesquisa desenvolvida no âmbito do Mestrado em Antropologia Cultural e Etnologia pela Universitá degli Studi di Torino (Itália). Essa investigação analisa os modelos de masculinidades próprios da sociedade cabo-verdiana atual, visando a indagar os processos de construções da performatividade de gênero masculino, segundo a definição da Butler (1990), e suas atuais transformações. O estudo é baseado nos dados qualitativos recolhidos no ano 2014 ao longo de seis meses de trabalho de campo no contexto urbano da Cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Cabo Verde é um arquipélago constituído por dez ilhas ao largo do promontório homónimo no Senegal. O arquipélago se encontra em pleno Oceano Atlântico, posição que o torna isolado, mas, ao mesmo tempo, ponto de conexão estratégico entre Africa, América e Europa. Essa característica se reflete tanto no passado das ilhas, nodo focal do comercio de escravos, quanto no atual fenómeno das migrações cabo-verdianas que se distribuem nos três continentes limítrofes. A capital, Praia, situada na ponta meridional da ilha de Santiago, foi centro do movimento de libertação contro a colonização portuguesa terminada no 1975 e hoje é a sede do governo e dos serviços nacionais.

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RECUA, POLÍCIA, RECUA. É O PODER POPULAR QUE TÁ NA RUA

 

Ocupação do espaço público e esquemas emergentes de ação coletiva em Porto Alegre

 

 

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Patricia Kunrath Silva

Doutoranda em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Bolsista do CNPq

 

 

Introdução

Movimentos sociais, ação coletiva, militância política e ocupação do espaço público têm sido temas privilegiados na produção das Ciências Sociais[1].  A cidade de Porto Alegre foi e tem sido palco, especialmente entre os anos de 2012 e 2013 – e nisso veja-se o contexto das eleições municipais em 2012 para prefeitura e dos preparativos para a Copa do Mundo em 2014 – de inúmeros atos de contestação e tentativas de (re)apropriação do espaço público mediados pelas redes sociais e extrapolando o universo de coletivos já consolidados na cidade, tais como os movimentos Utopia e Luta, Tribos nas Trilhas da Cidadania e o Levante Popular da Juventude[2].

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STUDY OF MYTH AND ANTHROPOLOGY OF THE BODY

 

 

Thierry Veyrié

PhD student
American Indian Studies Research Institute
Indiana University

 

 

Myth and body may seem rather independent concepts but they are, in fact, deeply interrelated. In my master’s degree thesis at the École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), I tried to identify in Northern Paiute subsistence and rituals some emic gestures that appeared regularly in the historical literature such as scratching, exemplified by the digging-stick and the scratching stick, and associated to femininity; and piercing, the male technique for hunting. The current step of my research is to continue discerning emic techniques and gestures in the Northern Paiute myths previously recorded, but also to conduct fieldwork and collect more stories. My focus on gestures implies an analysis of the concept of body I will try to sketch out in this paper.

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