Associação Brasileira de Antropologia

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OFERENDA PARA A CABOCLA: os sentidos sociais do dinheiro em uma loja de artigos afro-religiosos

Beatriz Martins Moura
Mestranda em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Bolsista CNPq

009 - Imagem 001

Foto 01- Imagem da cabocla Mariana na loja
Santarém, 12/08/2012
Fonte: Beatriz Moura, 2012 (Acervo do Núcleo de Pesquisa e
Documentação das Expressões afro-religiosas do Oeste do Pará e Caribe).

Este trabalho aborda a discussão acerca dos sentidos sociais do dinheiro a partir de pesquisa desenvolvida durante a graduação. Os argumentos apresentados são decor- rentes de questões que surgiram ao longo da pesquisa na loja de artigos afro-religiosos[1] Oke Arô[2]  na cidade de Santarém, Pará. Trata-se da reflexão a partir das ações das pes- soas em relação à presença da imagem, em tamanho real, feita de gesso, de uma enti- dade muito conhecida na região, que atende pelo nome de Cabocla Mariana[3]. Há um pratinho com moedas sob seus pés, colocado pelos frequentadores da loja. Essas ações, praticadas pelos clientes e frequentadores do lugar, permitem pensar sobre os processos de transformação pelos quais passam a imagem da Cabocla Mariana e o dinheiro que lhe é ofertado.
Esta reflexão relaciona-se ao conceito de sentidos ordinários[4] (Neiburg, 2007), do dinheiro. A análise elucida questões sobre a transformação de mercadorias e objetos de uso monetário em objetos rituais, carregados de sentidos atribuídos nas relações sociais que se desenrolam e que ultrapassam a ordem econômica e entram na lógica religiosa[5].

Minha inserção nas lojas de artigos afro-religiosos da cidade de Santarém teve iní- cio no ano de 2012. Concomitante a um trabalho de Mapeamento de Casas e Terreiros de Religiões de Matriz Afro-brasileira, realizado juntamente com outros colegas, sentimos a necessidade de ampliar a dimensão desses “territórios” porque eles abrangiam espacia- lidades que não se restringiam ao interior dos muros dessas casas. Informados pelos da- dos etnográficos[6], partimos para a compreensão dos significados desse espaço ampliado que envolvia as lojas de artigos religiosos da cidade[7].

A proximidade estabelecida com o proprietário de um desses estabelecimentos abriu a possibilidade de prosseguir ali o trabalho de campo e as reflexões a respeito do modo como o dinheiro[8] circulava nesse contexto. O interesse era perceber como as pes- soas estabeleciam relações mediadas pelo dinheiro e também atribuíam a ele sentidos diversos, que não só aquele plasmado pela economia. Ao realizar as primeiras visitas à Oke Arô, percorri o olhar pelo ambiente e me saltou aos olhos uma imagem feita de ges- so, em tamanho real da cabocla Mariana. A “cabocla” estava posta em um canto da loja e sua disposição fazia com que parecesse parte daquele lugar. Aos seus pés havia um prato de metal cheio de moedas, o que aguçou meu interesse.

Como as idas à loja se tornaram frequentes fui aos poucos expandindo os diálogos. Indaguei do senhor Eli[9] sobre a imagem da cabocla Mariana, que chamara minha aten- ção. Ele contou que havia sido encomendada de Belém para ser vendida, como todas as outras. Entretanto, quando foi posta em exposição as pessoas que entravam na Oke Arô começaram a deixar dinheiro aos seus pés. “Às vezes nem compravam nada, entravam,

chegavam perto, conversavam com Dona Mariana, deixavam o dinheiro ali e saíam”. Essa prática tornou-se habitual e, vendo isso, o dono decidiu não mais vendê-la.
Esse fato chama atenção pela possibilidade de analisá-lo por meio da chave da ressignificação, a partir do que argumenta Gonçalves (2007). O autor fala sobre a im- portância de atentar para os processos de ressignificação ao observar os objetos. Esses cotidianamente circulam e circulando são reclassificados de acordo com o contexto em que estão presentes. “E esse dinheiro fica aí mesmo?” perguntei, “Fica, fica, não pode mexer não, só quando o pratinho já tá muito cheio é que eu tiro algumas e boto no caixa, pra desabarrotar o prato, mas aí a oferenda da pessoa já tá feita, o objetivo dela já foi alcançado, aí não tem mais problema de tirar não.”, respondeu o senhor Eli.

O elemento central desta análise sobre o caso descrito é a ideia de uma continuida- de no processo de ressignificação que atinge tanto a imagem da cabocla Mariana quanto o dinheiro que é depositado a seus pés. No momento em que os fiéis os quais pude pre- senciar, deixaram sua oferenda, estabeleceram relação com a entidade por meio daquela imagem. Essa relação promoveu uma mudança na significação do objeto dinheiro e da imagem também. O dinheiro já não era mais moeda no sentido mercantil, mas objeto de intermediação, de conexão entre ela e a entidade. A imagem, por sua vez não era mais apenas imagem[10], senão a materialização da própria entidade, não era mais mercadoria, tal qual chegou para ser vendida, mas sim objeto que permitia entrar em contato com a cabocla Mariana. O dinheiro tornou-se veículo das relações entre pessoas e espíritos.

São processos imbricados. A imagem recebe novo sentido a partir do ato de de- pósito das moedas aos seus pés, passa a ser parte da loja, materialização da entidade. As moedas, por sua vez, são depositadas na forma de oferenda para a cabocla Mariana deixam a esfera do sentido monetário apenas, para receber status de objeto ritual e mes- mo sagrado. São, portanto, dois movimentos que dependem um do outro e ambos, para ocorrer, dependem das ações dos sujeitos que acreditam na moeda e na imagem de modo interligado.

Sinteticamente este artigo apresentou o processo de ressignificação da imagem da Cabocla Mariana e do dinheiro em uma loja de artigos afro-religiosos. Observou-se, que o dinheiro pode ser pensado como um objeto “sociologicamente produtivo” (Baptista,
2006). Nesse sentido, no contexto pesquisado, é possível propor uma reflexão sobre no- vos significados que se estabelecem no âmbito das fronteiras entre o sagrado e o profano, assim como dos lugares da crença e do interesse pessoal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAPTISTA, José Renato de Carvalho. 2006. Os deuses vendem quando dão: um estudo sobre os sentidos do dinheiro nas relações de troca do Candomblé. Tese de Doutorado, Museu Nacional - Rio de Janeiro.

BARROS, José Flávio Pessoa; MELLO, Marco Antônio da Silva; VOGEL, Arno. 1987. “A Moeda dos Orixás”. Religião & Sociedade, 14(2): 04-17.

GONÇALVES, José Reginaldo Santos. 2007. Teorias antropológicas e objetos materiais. Rio de Janeiro: Coleção Museu, Memória e Cidadania.

MOURÃO, Tadeu. 2012. Encruzilhadas da cultura: imagens de Exú e Pombajira. Rio de Janeiro: Aeroplanos.

NEIBURG, Federico. 2007. “As moedas doentes, os números públicos e a antropologia do dinheiro”. MANA, 13(1): 119-151.

PEIRANO, Mariza. 2002. O dito e o feito: ensaios de antropologia dos rituais. Rio de janeiro: UFRJ.

SIGAUD, Lygia. 2007. “‘Se eu soubesse’: os dons, as dádivas e suas equivalências”. RU-RIS, 1(2): 123-153.

Beatriz Martins Moura
Mestranda em Antropologia Social Universidade de Brasília Bolsista CNPq
Currículo Lattes

[1]Uso a designação “loja de artigos afro-religiosos” por ser o termo empregado pelos donos desses estabele- cimentos em entrevistas realizadas com eles durante a pesquisa e por estar presente nas fachadas e placas dessas lojas.

[2]Nome fictício para me referir ao estabelecimento onde desenvolvi pesquisa.

[3]Entidade muito querida na região, cabocla Mariana é conhecida como uma das três princesas turcas que se encantou na Amazônia, mais precisamente nos lençóis maranhenses e passou por um processo de “ajurema- ção”, ou seja, tornou-se índia. Entidade que tem a água como principal elemento, é também chamada aqui de Dona Mariana ou ainda, Mãe Mariana.

[4]O conceito de sentidos ordinários do dinheiro é formulado por Neiburg (2007) em oposição ao conceito de sentidos eruditos. Por sentidos eruditos o autor considera aqueles normatizados pela economia política, que compreende unicamente o valor monetário, mercantil do dinheiro. Os sentidos ordinários do dinheiro, por sua vez, são todos aqueles que os sujeitos atribuem a este objeto no manuseio e nas relações cotidianas em que o dinheiro se faz presente. Ao contrário das formulações da economia, os sentidos ordinários do dinheiro podem ser variados.

[5]O pressuposto de que existem esferas distintas da economia e da religião leva em consideração os argu- mentos de Sigaud (2007) e Baptista (2006) que afirmam que na concepção moderna, dinheiro e religião não devem se misturar sob o risco de que o interesse contamine um espaço por excelência da gratuidade e do dom. Tal pressuposto tem por base a lógica das religiões judaico-cristãs, que não necessariamente operam para as religiões de matriz afro-brasileira, mas reverbera sobre o senso comum.

[6]Ao longo de dois anos de trabalho no Projeto de Mapeamento das Casas e Terreiros de Religiões de Matriz Afro-brasileira, dezessete terreiros da cidade de Santarém e as oito lojas de artigos afro-religiosos foram vi- sitados. Essas visitas previam entrevistas semiestruturadas, com roteiros abertos, com as lideranças desses terreiros (os dezessete pais e mães de santo fundamentalmente) para conhecer suas trajetórias religiosas e com os proprietários e vendedoras das lojas. Parte deste trabalho consistia na frequência nos calendários de cerimônias ao longo do ano e nos toques e giras semanais de algumas dessas casas. O diálogo com os afro-religiosos e com os donos das lojas nas entrevistas e nas conversas permitiu perceber o modo como se estabelecia a relação mercado-terreiro.

[7]Abordo com mais profundidade acerca dessa compreensão da relação mercado-Terreiros, que foi funda- mental para esta pesquisa em outros trabalhos meus.

[8]A reflexão sobre a presença do dinheiro no universo afro-religioso leva em consideração outros autores que anteriormente já haviam tratado da temática, a saber, Baptista (2006), Barros, et al (2007), que discorrem acerca de como a presença do dinheiro é não só natural, como necessária nesse contexto, para alimentar as divindades, para manter um terreiro, para os rituais de feitura e as mais diversas cerimônias.

[9]Tratarei o dono da loja pelo nome fictício de Eli.

[10]De acordo com a discussão feita por Mourão (2010) em seu estudo sobre as imagens usadas nos terreiros e seu processo de fabricação, os santeiros têm plena consciência de que aquele produto que estão fabricando tem uma finalidade ritual. Entretanto, quando a compra é feita por uma loja de artigos religiosos a imagem é ainda mercadoria, devendo passar, de acordo com essa lógica, apenas uma breve estada nesse espaço de mercado, sendo logo vendida e seguindo sua “vida” até o terreiro ou demais espaços religiosos.