Associação Brasileira de Antropologia

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QUANDO A FÉ, A PALAVRA E AS MÃOS SÃO AS ARMAS: projetos de “salvação” e estratégias religiosas entre jovens lutadores de MMA

Felipe Magalhães Lins
Mestre em Ciências Sociais
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

O texto aqui apresentado é fruto da pesquisa realizada durante minha dissertação de mestrado[1] sobre o processo de construção de um projeto sócio-religioso que se utiliza da prática esportiva do MMA[2] como ferramenta de conversão religiosa para adolescentes e jovens de bairros populares na cidade de Nova Iguaçu, município da região metropolitana do Rio de Janeiro. Ao seguir os passos do idealizador do projeto e o emaranhado de redes que este é responsável por administrar, busco compreender o projeto como uma “máquina” capaz de gerar novas moralidades no campo religioso brasileiro. Assim, religião, juventude, mídia, masculinidades, esporte e violência são alguns dos elementos que giram em torno do tema de pesquisa aqui apresentado.

Ao circular por tais territórios urbanos não é difícil deparar-se com a forte presença de igrejas ou grupos pentecostais que congregam intervenções cotidianamente no espaço público – seja a partir de festivais de louvores, caminhadas religiosas ou pregações ao ar livre (BIRMAN & MACHADO, 2012). Outro exemplo da forte capilaridade e presença dos pentecostais em espaços marcados pela pobreza está na expansão das chamadas comunidades terapêuticas. Tais instituições são enquadradas como obra social sem fm lucrativo e se propõem a “recuperar” e “ressocializar” via religião pessoas que tiveram suas vidas “perdidas” pelo consumo desenfreado de drogas e envolvimento no crime (TEIXEIRA, 2011). É nesse contexto que surge o projeto social Faixa Preta de Jesus, iniciativa que há sete anos se utiliza da prática esportiva do MMA como ferramenta de conversão religiosa para adolescentes e jovens na cidade de Nova Iguaçu. Ao unir religião, juventude e esporte o projeto inaugura, a meu ver, um modelo de vivência urbana do território a partir da religião como chave de compreensão do mundo.

O projeto social foi idealizado por Ricardo Cavalcante, 45 anos, casado e atualmente membro da Igreja Evangélica Apascentar de Nova Iguaçu. Ricardo, que sempre faz questão de apresentar-se como “ex-viciado em drogas, ex-morador de rua e ex-trafcante”, hoje é responsável por atender cerca de 400 adolescentes e jovens que treinam semanalmente na sede do projeto[3]. Ricardo conta que um dos motivos que o fzera criar o projeto (2008) foi o denso contexto de violência no qual a população da Baixada Fluminense encontrava-se imersa. Ele cita como um marco determinante um evento violento apelidado na mídia como “Chacina da Baixada”, episódio policial que chocou moradores da região e que ainda hoje exibe as cicatrizes ali deixadas[4].

A pesquisa em sua totalidade teve duração de um ano, sendo nove meses de trabalho de campo presencial (agosto de 2014 à abril de 2015) e três meses fnais de campo virtual (maio à agosto de 2015). Ao longo do processo de pesquisa, participei de sessões de treino na sede do projeto; frequentei eventos de MMA na companhia dos jovens; e os acompanhei em atividades realizadas em uma igreja evangélica de Nova Iguaçu.

A dissertação está estruturada em dois grandes eixos de análise. O primeiro tem como propósito apresentar, em linhas gerais, os elementos e aspectos fundamentais que atravessam o universo pesquisado. Utilizo as categorias “território”, “religião” e “mídia” para pensar e introduzir a parte da região metropolitana do estado do Rio de Janeiro denominada Baixada Fluminense. Tendo a chacina da Baixada como marco lógico importante e ponto de partida simbólico para se pensar o território, busco apresentar os signos, códigos e signifcados que orbitam em torno do tema da violência acometida principalmente sobre jovens moradores da região. Em um segundo momento desse eixo, me lanço a investigar as práticas e os efeitos dos ensinamentos transmitidos pelo projeto social aos jovens atendidos. Seus sonhos, suas histórias de vida e visões de mundo são aqui apresentadas na forma de narrativas urbanas sobre a viração destes diante do atual modelo de cidade que se apresenta (FERNANDES, 2013).

A segunda parte da pesquisa é construída a partir da trajetória de vida dos jovens e dos agenciamentos de redes feito por Ricardo Cavalcante, idealizador e coordenador do projeto Faixa Preta de Jesus. No decorrer da escrita outros personagens vão se juntando ao cenário, como o lutador do UFC[5] Rodrigo Minotauro que é padrinho do projeto. Outro aspecto explorado no capítulo é a experiência de conversão religiosa vivenciada por lutadores famosos de MMA. Apesar de algumas frentes evangélicas tradicionais não compactuarem com essa prática esportiva, chegando a classifcá-la como simplesmente uma “violência gratuita”, muitos atletas do MMA manifestaram sua fé durante seus combates. Esse é o caso de Vitor Belfort, campeão do UFC que há dez anos utiliza sua profssão e espaço na mídia para levar a mensagem de Jesus Cristo.

Não foi minha intenção, através dessa pesquisa que apresento, proporcionar uma (re)leitura dos elementos presentes nos esporte de combate e luta marcial. Tais apontamentos já foram realizados, de forma brilhante, por pesquisadores renomados do campo da antropologia e sociologia do esporte (DUNNING, 2014). Nem proponho, de fato, uma crítica ao MMA enquanto modalidade desportiva emergente no mundo moderno ou instrumento de entretenimento para veículos midiáticos. Minha expectativa com este trabalho é a de que o mesmo traga contribuições antropológicas para os estudos sobre mídia, religião e cidade. Os sentidos aqui apresentados são apenas signos observados por mim em campo e construídos por aqueles que buscam (na religião) os signifcados para tal sobrevivência no mundo ao seu redor, frente aos perigos que este oferece.

Ainda hoje, os municípios que compõe a região da Baixada Fluminense ocupam o topo do ranking de cidades brasileiras onde mais morrem adolescentes e jovens, sendo em grande maioria homicídios causados por armas de fogo. Isso é o que aponta o Índice de homicídios na adolescência: IHA 2012 produzido pela ONG Observatório de Favelas (BORGES & CANO, 2014). O estudo constrói uma projeção estatística do número estimado de adolescentes e jovens que podem vir a morrem caso tal processo não seja freado em tempo, e os municípios da baixada fluminense lideram o rank. No site do projeto Faixa Preta de Jesus[6], Ricardo defne a Baixada Fluminense como sendo “uma realidade dura onde vivem milhares de jovens que, enfrentando a pobreza e a violência, estão submetidos às mais variadas mazelas”, e que o Faixa Preta de Jesus uniu o “esporte e a religiosidade como chave para mudar as vidas de jovens cuja perspectiva caminha para o abismo da omissão do poder público”.

Assim, ao utilizar o projeto social Faixa Preta de Jesus como estudo de caso, pretendi elencar os principais aspectos destacados por tal estratégia, seus efeitos e resultados sob a vida dos jovens. Fez-se necessário também investigar a rede de personagens e instituições que Ricardo é responsável por construir e acionar, dentro e fora da Baixada Fluminense.

Em outro ponto da análise que não pude desenvolver aqui, busco compreender como tal projeto social se utiliza de um esporte secular enquanto tática de aproximação entre jovens evangélicos e lutadores de MMA. Por último, investigo outros projetos sociais direcionados à juventude e gerenciados por agentes do Estado. Estes também vêm se utilizando do MMA como estratégia de “salvação” para populações moradoras de favelas da cidade, ao oferecer um esporte “violento” como solução para a “paz”.

Referências bibliográfcas

BIRMAN, Patrícia; MACHADO, Carly. 2012. “A violência dos justos: evangélicos, mídia e periferias da metrópole”. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 27(80): 55-69.
DUNNING, Eric. 2014.
Sociologia do esporte e os processos civilizatorios. 1ªed. São Paulo: Annablume.
BORGES, Doriam & CANO, Ignácio. 2014.
Índice de homicídios na adolescência: IHA 2012. Rio de Janeiro: Observatório de Favelas.
FERNANDES, Adriana. 2013.
Escuta ocupação: arte do contornamento, viração e precariedade no Rio de Janeiro. Tese de doutorado em Ciências Sociais, PPCIS/UERJ - Rio de Janeiro.
TEIXEIRA, César. 2011. A construção social do “ex-bandido”: um estudo sobre sujeição criminal e pentecostalismo. Rio de Janeiro: Editora 7Letras.

Felipe Magalhães Lins
Mestre em Ciências Sociais
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
Currículo Lattes
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[1] “Do nocautear o inimigo à vitória dos justos: projetos de “salvação” e estratégias religiosas para jovens lutadores de MMA no Rio de Janeiro”, defendida em agosto de 2015 no PPGCS/UFRRJ, sob orientação da
professora Carly Machado.
[2] MMA é a sigla para mixed martial arts, ou em português, “artes marciais mistas”. MMA são artes marciais que incluem golpes de luta em pé e técnicas de luta no chão, como boxe, muay thai, taekwon do, Jiu-jítsu
brasileiro, judô, e kickboxing.
[3] Ricardo afrma que, em sete anos de existência, já passaram pelo projeto cerca de 4800 alunos. Não tive com validar essa informação.
[4] Em 31 de março de 2005, 29 pessoas foram assassinadas por policiais militares nos municípios de Queimados e Nova Iguaçu. As vítimas foram escolhidas de forma aleatória, tinham entre 13 e 64 anos e todas eram moradoras de bairros no entorno da região.
[5] O Ultimate Fighting Championship é uma organização que produz torneiros de MMA ao redor de todo o mundo. Com base atualmente nos Estados Unidos, o UFC é a maior empresa do mercado de luta e entretenimento, e seu principal produto é a venda de ingressos para os espetáculos com transmissão ao vivo para todo o mundo.
[6] Ver http://www.faixapretadejesus.com.br/