Associação Brasileira de Antropologia

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O DOMÍNIO DA FOICE: aproximações entre Saramago e a questão agrária no Brasil

Remisson Weslley Nobre Cordeiro
Graduando em Antropologia
Universidade Federal de Roraima
Bolsista PIBIC UFRR

No ano de 2015, comemorou-se os 35 anos da primeira publicação de “Levantado do Chão”, livro de José Saramago que conduz uma narrativa dos conflitos rurais e desigualdade social no início do século XX no Alentejo, região sul de Portugal. O foco do romance é direcionado à vida de uma família de lavradores que vivem numa região marcada pela presença do latifúndio. O autor acompanha diversas gerações da família Mau-Tempo, desde o início do século XX, no momento em que foi implantada a República Portuguesa, ao turbulento período pós-ditadura salazarista, a partir da Revolução dos Cravos, em 25 de  abril de 1974. Esta pesquisa em andamento tem como objetivo a compreensão dos conflitos que são postos em destaque pelo autor, buscando aproximações a problemas similares encontrados no meio rural no Brasil. Para tanto, leva-se em consideração os diferentes períodos históricos – isto é, aqueles ligados ao ambiente da narrativa do romance português e ao ambiente brasileiro, sobretudo, a partir de meados da década de 1960, visto que foi um período de grandes confrontos políticos por demandas por terra. Deste modo, guardadas as devidas proporções, são apresentadas neste trabalho essas ocorrências na conjuntura brasileira, bem como aquelas relatadas no romance português. O objetivo é proceder a uma breve análise dos termos utilizados na obra e no contexto brasileiro, quais sejam “camponeses”, “trabalhadores rurais” e “trabalhadores da terra”, de forma a demonstrar os seus usos sociais e políticos na obra de Saramago e em textos da antropologia rural brasileira, notadamente Martins (1981), Palmeira (1989; 1985), Novaes (1997) e Palmeira e Leite (1998).

Saramago possui uma escrita única e uma seleção peculiar de temática para seus livros, o que não seria diferente em “Levantado do Chão”. Isso é decorrente em virtude de suas disposições políticas. Assumidamente comunista, em outros romances como, por exemplo, em “A Caverna”, a defesa pela autonomia laboral é constante. Seu modo de designar e apresentar os personagens em “Levantado do Chão” mostra que eles devem ser recebidos pelo leitor com atenção, chamando-os de “trabalhadores da terra”, sendo Domingos Mau-Tempo, o protagonista, trabalhador em um grande latifúndio. A culminância da obra de Saramago termina com a ocupação das terras pós-revolução dos Cravos. Houve em Portugal, nesse período, a deposição de Marcelo Caetano da presidência pelos militares, o que possibilitou que os partidos políticos, inclusive o comunista, fossem legalizados. De outra maneira, no Brasil, os direitos trabalhistas no campo passam a ser estendidos especialmente durante da Ditadura Militar, ainda que não signifcasse uma mudança na concentração fundiária do país. Isso porque uma das principais justifcativas para o Golpe Militar de 1964 era a implementação de uma política de reforma agrária do Governo Jango.

Em Alentejo até o ano de 1974, de acordo com Vale Estrela (1978), o movimento dos trabalhadores rurais pode ser entendido como lutas de classe, devido às mobilizações grevistas inspiradas por agitações políticas e sociais vindas de fora, sincronizadas com as movimentações dos centros urbanos. Assim, temos como contexto de comparação a região do Alentejo, tal como retratado por Saramago na obra supracitada e o nordeste brasileiro, entre as décadas de 1950 e 1970, com base nos textos trabalhados. As similaridades entre as regiões são baseadas no domínio do latifúndio e a submissão de distintas organizações de luta por parte dos trabalhadores rurais.

Novaes (1997) indica que a concepção dominante de camponês, no contexto brasileiro, nos anos 1950, era cumprir um papel histórico de destruir o latifúndio improdutivo. Considero que o termo “trabalhadores da terra” é usado por Saramago de forma similar ao emprego do termo camponês e campesinato destacado por Martins (1981), o qual defende que ambas as palavras possuem origem política, bem como foram introduzidas no plano brasileiro pelas frentes de esquerda, as quais buscavam um signifcado das lutas daqueles que trabalhava no campo.

De acordo com Martins (1981), o grupo de trabalhadores rurais será visto, como excluídos, como aqueles que chegam de forma retardatária ao processo político. Podemos observar na narrativa de Saramago uma diretriz equivalente de pensamento, isto é, a obra gira em torno de um trabalhador fora do ciclo político de tomada de decisões. O termo camponês volta a ganhar força, no contexto brasileiro, entre meados da década de 1950 e da década de 1960 com a emergência das Ligas Camponesas. Novaes (1997) afrma que acontece o reforço da identidade do camponês como um coletivo que compartilha símbolos e representações. Nesse mesmo momento, outros atores entram em cena, marcadamente a Igreja Católica e o Partido Comunista.

A Igreja Católica, tanto em Portugal, quanto no Brasil se fez presente de maneira relevante no meio rural. De acordo com Palmeira (1989), a mesma contribuiu signifcativamente junto aos movimentos rurais no Brasil, apoiando sindicatos pelas lutas por direitos. Após algum tempo de implantação do regime militar de 1964, foi criada uma tensão entre a Igreja e o Estado, por seu posicionamento ser a favor ao suporte do povo rural. No entanto, se pensarmos na atuação do Estado, Palmeira (1989) afrma que este interveio com a criação de leis trabalhistas no âmbito rural. O surgimento de leis como o Estatuto do Trabalhador Rural em 1963 e o Estatuto da Terra em 1964, apoiaram os movimentos rurais na construção de um novo posicionamento do trabalhador rural. Nesse sentido, tal como Palmeira (1985, p. 49-50) verifca: “a mobilização política do campesinato, num certo sentido cria o campesinato. Ao tirá-los do isolamento político, tira-os do anonimato político”. Isto é, como pontua Novaes (1997), a identidade camponesa foi construída por meio de um processo, principalmente fundada na alteridade em relação ao latifundiário. Diferente do que aconteceu no Brasil, o romance de Saramago mostra que as identidades políticas – camponês e latifundiário – já eram mais claramente defnidas.

Os conflitos entre os trabalhadores da terra e os donos de latifúndio são recorrentes no romance do autor português. A força policial e o uso das armas, tanto no romance quanto nos conflitos brasileiros, estão presentes como força repressora das organizações de luta desses trabalhadores, atuando de forma rigorosa e, de certa maneira, corrupta. Por outro lado, a prisão de João Mau-Tempo, flho de Domingos Mau-Tempo, por ter coagido os trabalhadores a buscarem seus direitos ao lutarem contra essa repressão exercida pela polícia, revela a tomada de consciência por melhorias de trabalho, isto é, o enfrentamento das forças opressoras. Esses embates são representados na narrativa por via dos nomes dos personagens, como na fgura dos irmãos Antônio e Manuel Espada, batalhadores entusiasmados pela causa, e tal como os Mau-Tempo, nome carregado de mau prenúncio.

Saramago narra as lutas por direitos salariais e a disposição de espaço para trabalho. No decorrer dos acontecimentos, desde a morte de Germano Santos Vidigal pela polícia e as viagens feitas por Antônio e Manuel Espada a Lisboa para libertação dos trabalhadores presos por participarem de movimentos grevistas, percebe-se um ganho de voz e de consciência do que é “ser humano” pelos trabalhadores da terra, um levante que surge a partir da imagem de que se pode atingir as melhorias por meio do apoio de um grupo em relação aos seus dominadores. Esse despertar, no caso português, corresponde a passagem de um processo de dominação eminentemente simbólica (Bourdieu, 2007) para o emprego efetivo da força. Esta última serve de base para a construção de uma unidade dos trabalhadores da terra. Palmeira e Leite (1998) afrmam que junto ao processo de vinculação sindical no Brasil, na década de 1960, estava em jogo a elaboração de uma identidade camponesa que fosse capaz de unir esse grupo em torno das categorias terra e trabalho. Portanto, passa a ser usada a denominação “trabalhadores rurais”, designando aqueles que estavam engajados na luta política.

Levantado do Chão é, portanto, um romance que acompanha um processo de transformação social e discute historicamente os posicionamentos políticos de uma classe que busca por direitos e autonomia no trabalho do campo. Na mesma direção, lutas travadas no espaço rural brasileiro desde o início da década de 1960 mostram a conformação de uma denominação social – os trabalhadores rurais – evidenciando a tomada de seu uso político. Mas, diferente do caso brasileiro, o romance não apresenta a criação de um ator coletivo que culmine na criação de um sindicato que represente e lute em favor de sua classe. Se no caso português, esse momento representou o acesso à terra, a atuação dos trabalhadores rurais no Brasil, durante a Ditadura Militar, serviu de base para a possibilidade de mobilização oriunda de movimentos sociais de luta pela terra, após o processo de redemocratização.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOURDIEU, Pierre. 2007. O Poder simbolico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
ESTRELA, A de Vale. 1978. “A Reforma Agrária Portuguesa e os Movimentos Camponeses. Uma Revisão Crítica”.
Análise Social, XIV(54): 219-263.
MARTINS, José de Souza. 1981. Os Camponeses e a Política no Brasil. Petrópolis: Vozes.
NOVAES, Regina Reyes. 1997.
De corpo e alma: catolicismo, classes sociais e conflitos no campo. Rio de Janeiro: Graphia.
PALMEIRA, Moacir. 1985. “A diversidade da luta no campo: luta camponesa e diferenciação do campesinato”. In: V. Paiva (org.). Igreja e Questão Agrária. São Paulo: Loyola.
_____. 1989. “Modernização, Estado e Questão Agrária”. Estudos Avançados, 3(7): 87-108.
PALMEIRA, Moacir e LEITE, Sérgio. 1998. “Debates Econômicos, Processos Sociais e Lutas Políticas: Reflexões Sobre a Questão Agrária”. In: L. F. C. Costa; R. Santos (orgs.). Política e Reforma Agrária. Rio de Janeiro: Editora Mauad.
SARAMAGO, José. 2013.
Levantado do Chão. São Paulo: Companhia das Letras.