“NESSE FEMINISMO [BRANCO] NÃO NOS RECONHECEMOS”

A resposta das Mulheres Indígenas do Arco Íris - Bolívia



Ana Gretel Echazú Böschemeier
Universidade Federal do Rio Grande do Norte


O presente texto surge de uma reflexão pessoal a partir de um processo histórico que está ganhando corpo progressivamente: a quebra do silêncio sobre a diversidade étnico-racial e geográfica das mulheres latino-americanas dentro dos feminismos assim como do campo acadêmico. Deste processo, quero destacar um caso específico que merece toda nossa atenção: a resposta de uma coletiva boliviana, as Mulheres Indígenas do Arco Íris, às declarações públicas de uma reconhecida intelectual e ativista feminista argentino-brasileira, a antropóloga Rita Laura Segato, sobre o golpe de Estado perpetrado na Bolívia em Novembro do ano passado, 2019.

A partir de agora, cada vez que eu referenciar uma pessoa como “branca”, estarei me referindo a uma pessoa que é “lida como branca” pela sociedade, levando em consideração que as categorias raciais dependem, em grande medida, dos contextos locais, regionais e transnacionais onde elas estão inseridas. Assim, estou salientando o fato de que não existe branquitude em si mesma, mas sim há a manifestação social do que é entendido como “ser branco” e que se expressa nas dimensões étnico-raciais –  não se restringindo ao aspecto fenotípico –, marcando o lugar ao qual pertencem os privilégios do ser, do dizer, do ocupar, do existir em um mundo que é estruturalmente racista e colonial[1].

Creio não exagerar quando falo que as leituras e a formação oferecidas por Rita Segato — portenha, professora da Universidade de Brasília e hoje habitante de Tilcara, uma pequena, tradicional e turística localidade do norte argentino — marcou uma geração de antropólogas feministas ligadas à academia e à construção de políticas públicas com um engajamento que desvendou que o caráter “neutro” preconizado pelo fazer da ciência era simplesmente a sustentação hegemonizante de um ponto de vista local, universalizado por sistemas de gênero estruturalmente desiguais[2]. Rita Segato foi e é uma mulher, intelectual e ativista que escreveu produtivamente sobre corporalidades femininas, violência de Estado, vitimização das mulheres e se engajou nas lutas contra a opressão às mulheres cruzada com variáveis de raça, classe, religiosidade e nação.

As palavras de Segato inspiraram também marchas, movimentações, performances nas ruas de toda a América Latina. A luta a favor da despenalização do aborto na Argentina e da visibilização dos feminicídios no México tem a impronta do trabalho militante desta autora. A performance da coletiva chilena Lastesis, El violador eres tú foi inspirada em textos acadêmicos dentre os quais se encontra a marca autoral de Segato. Os conceitos desses textos, as suas teses tomaram as ruas, e, no caso desta performance— ativada no finalzinho de 2019 — , transcenderam a especificidade das estudantes jovens, urbanas e brancas chilenas para serem performadas, com modificações próprias da especificidade de cada forma de opressão local, por mulheres urbanas mexicanas, brasileiras, peruanas, argentinas, palestinas e quenianas. Também por mulheres indígenas que adaptaram e cantaram os versos originais em quechua e mapuche, por mulheres trabalhadoras dos serviços domésticos de Madri e finalmente por mulheres parlamentares que performaram no âmbito protegido pelos seus foros como autoridade política no parlamento turco. Os corpos das mulheres ocupando as ruas em uma movimentação global potente, avassaladora. Histórica.

Todavia, há um sabor amargo que me impede sair para a rua e performar, concentrada e combativamente, os precisos, cortantes e poéticos versos de El violador eres tú. O presente texto tenta dar palavras a essa sensação. Identifico uma procedência concreta desta resposta libidinal: ela está relacionada com uma situação que aconteceu de maneira imediatamente anterior à explosão da performance do estuprador nos cenários globais. E é sobre acontecimento que me deterei agora.

No dia dez de novembro deste ano, o ex-presidente boliviano Evo Morales foi deposto por um golpe cívico-militar e com apoio da OEA na cidade de La Paz. Logo após Morales ser destituído violentamente de seu cargo, Rita Segato deu uma entrevista no rádio feminista Deseo[3], localizado na cidade capital de La Paz, onde focou em Evo Morales como uma figura machista e autoritária. O comparou com o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, salientando seus “vazios e excessos” como governante, afirmando que ele tinha “caído pelo próprio peso”. Analisou a situação na chave de uma pretensa “crise política” boliviana, onde a deposição do governo envolvia a possibilidade de repensar relações de gênero mais igualitárias.

Acrescentou que o fato dele ser indígena não devia ser motivo para perdoar seus erros, colocando o ser indígena em uma perspectiva que é, no mínimo, utilitarista. A isto, somou que as atitudes de Morales pareciam mais com as de “um sindicalista, e não um aymara” — como se a uma coisa não pudesse conviver com a outra. Arrematando a sua declaração, Segato criticou um suposto binarismo que oporia o “golpe de Estado” ao “não-golpe” (leia-se, democracia), relativizando a gravidade da situação política boliviana, cujo impacto objetivo se manifestou nas mais de trinta mortes geradas pela repressão policial após a deposição de Morales da presidência.

Dez dias depois destas polêmicas declarações de Segato, em 20 de novembro, um grupo de mulheres indígenas bolivianas, as “Mujeres Indígenas del Arco Iris”, respondeu a Rita publicamente e deixou a sua resposta circular por whatsapp, registrando inclusive seus contatos pessoais nesta carta-manifesto que se configurou como uma resposta rápida e, sem dúvidas, radical aos ditos da antropóloga. Vale a pena reproduzir o texto na íntegra, traduzido para o português por mim a partir do espanhol no qual foi originalmente redigido:

MULHERES INDÍGENAS RESPONDEM A RITA SEGATO: ANTES DO QUE FEMINISTAS, MULHERES PODEROSAS DO ARCO-ÍRIS


As warmis[4], zomo, mulheres do Sul, mulheres dos territórios ancestrais entregamos nossa palavra florida em apoio ao Presidente Evo Morales Ayma, quem pelo voto popular continua a ser o presidente do Estado Plurinacional da Bolívia.


Entendemos que Rita Segato tem eco no feminismo (branco?) no qual não nos reconocemos, pelo que manifestamos nosso profundo desacordo com a posição que a senhora tomou a respeito da restauração neoliberal golpista na Bolívia.


Quando você diz “deveríamos começar a gerar uma retórica de valor a outra forma de valor que se distingue muito da questão dos caciques”, soa muito bonito.


Perguntamos: lhe aconteceu já no corpo essa gestão dos caciques? Nós temos visto, temos sentido o sabor amargo dessa sequela da conquista. Nossos homens tomaram o pior do machismo colonial. Temos construído não somente retóricas, mas resistências, re-existências à dominação machista nas nações pré-existentes e em cada um dos espaços onde o despojo nos colocou. Mas localizar a Evo como o símbolo do patriarcado é raso [chabacan] demais.


Não celebramos os ditos de Evo a respeito da menina de quinze anos, porque temos sentido em nossos corpos tudo aquilo que significa que nossos corpos sejam tratados como coisas. O corpo ancestral, o corpo mental, o corpo físico e o corpo emocional. Ainda assim, afirmamos que o que aconteceu na Bolívia foi um golpe de Estado.


É muito mais simples analisar à Bolívia do que a senhora pensa. Seu gabamento intelectual a anuviou. Quem perpetrou, e com qual finalidade, o Golpe? São duas perguntas que ordenam o nosso sentipensar. Você poderá ver que o golpe não prosperou pelos índios da Chiquitanía, nem as feministas da Bolívia, nem mesmo os “setores mais amplos da população” que você menciona como descrente do governo de Evo.


A gestão Trump e seu artefato hegemônico pretende recuperar a América Latina com o braço evangélico messiânico, com os poderes midiáticos que constroem relatos mentirosos e claramente com as forças repressivas policiais e militares que foram debilitadas na força da injeção de dinheiros mal havidos nas turvas almas da indigenidade. Estão saindo à luz, a cada dia, as provas que surgem a respeito da planificação extrema que teve este golpe.


E a sua voz não é qualquer voz. Ela coloca a vanguarda na discussão dos círculos intelectuais e feministas na Argentina. É por isso que nesse caso Rita, dissentimos amargamente e devemos fazer isso publicamente.


Temos construído um sentipensar na ética política de nossos povos que não vamos calar, nem abdicar aos lócus de privilégios das mulheres brancas. Geolocalizadas nos sules, nas subalternidades, nas alteridades que nos supõem inferiores, dizemos à senhora que a sua voz nos dói. Sentiremos um grande vácuo ao não a referenciarmos mais nos nossos sentipensares.


Não poderíamos romantizar o papel das mulheres no Golpe de Estado na Bolívia. Não se tratou de uma rebelião cidadã, nem feminista, nem originária, nem sequer democrática.


O que é perigoso dos discursos “não binários”, como a senhora coloca, é que acabam assimilando duas posições contrárias como se elas fossem equivalentes. Para uma mulher indígena que vive o machismo e a violência na sua vida cotidiana, não é a mesma coisa se encontrar com um serviço de saúde laico e respeitoso da saúde ancestral, do que se encontrar com médicos anti-direitos que as oprimem. Isso foi a Bolívia Plurinacional. Não teríamos porquê explicar que a redistribuição da riqueza gera outro cenário para a luta e a libertação de gênero. Isso não foi conseguido por nenhum movimento indígena despolitizado nem neutro na América Latina. Isso foi conseguido pelo neo-constitucionalismo gestou Evo refundando o Estado Colonial para o tornar um Estado Plurinacional.


Nos preocupa que os argumentos que a senhora expõe para colocar “novas retóricas”, trazem uma bela camuflagem, um eufemismo para o discurso racista que persiste nos setores que a escutam. De repente, muitas pessoas que não conhecem “com o corpo” a realidade de uma mulher originária, negam o golpe de Estado, o colocam como uma fatalidade anunciada e definem a Evo como o patriarca. Não será que é muito isso tudo? A assimetria entre os raciocínios “objetivos” e “não objetivos” é própria da Colônia. Por isso não trazemos ela aqui. Nós senti-pensamos com os corpos no território. Não somos nem queremos sermos objetivas.


É o coração que ordena ao pensamento no nosso sul. Sempre foi assim e assim continuará sendo. Rejeitamos a sua afirmação de que “Evo caiu pelo próprio peso” porque é uma falácia. Contar com mais de 45% dos votos é não ter peso, mesmo? Romper as regras do constitucionalismo tem mais peso do que manter um regime democrático? A senhora sopesou as balas que estão massacrando aos nossos irmãos?


Nós sentimos sim o peso das mortes da nossa gente.


Falamos desde nossas próprias línguas e agora escrevemos com a língua do conquistador para a senhora possa nos ler. Se você quiser, podemos dizer a mesma coisa em mapuzungun, em chané, em chorote, em wichí, em pilagá, em guaraní, em quéchua, em aymara, em qom, em mocoy e também o diremos nos nossos sonhos.


Antes do que feministas, somos mulheres poderosas do arco-íris, complementares de nossos homens feministos que dão um bom combate.


#EvoEmVocêVenceremos


#EvoNãoEstáSozinho


JALLALA- MARICHIWEW


PROCESOS DE PLURINACIONALIZACION EN LATINOAMERICA!


Contatos: Lourdes Albornoz +54 9 381 5136737 Vero Azpiroz Cleñan +54 9 11 3700 0038 Aymara Choque +54 9 11 3597 6160

A nota finaliza-se com o registro dos contatos de whatsapp de três de estas mulheres autoras. É preciso fazer uma observação sobre os ditos de Evo Morales citados na nota. Quando as autoras se referem à “menina de quinze anos” elas estão voltando sobre o comentário de Evo Morales do dia 15 de junho de 2008, quem declarou “vou finalizar meus anos de gestão com meu cato [superfície de terra cultivada] de coca, a minha jovem de quinze anos e meu charango [instrumento de corda andino]”[5].

A própria declaração destas mujeres excede em força o que eu venho a dizer. Contudo, quero registrar aqui minha opinião. Vejo nesse texto a potência de um documento histórico — cuja posição antigolpista e apoio à democracia boliviana tem sido ecoado por manifestações de outras comunidades bolivianas e internacionais, como a LGBTQI[6]. O texto se levanta ao vento como uma voz emergindo de um lugar desconhecido para muitas acadêmicas urbanas, brancas, ainda quando elas sejam — também — latino-americanas. E quando falo no pertencimento à América Latina estou pensando no Brasil também, entendendo que, apesar das divergências a respeito dos outros países no que faz às línguas dos colonizadores — espanhol e português — esse país pertence, nas suas dimensões política, cultural, étnica, racial e colonial ao espaço social e geográfico que designamos como América Latina.

O texto da coletiva das Mulheres Indígenas do Arco Íris é emblemático e não somente fala, mas precisa falar, em muitos aspectos, por si só. Desejo destacar três breves pontos para a nossa discussão: a) a importância de se conhecer “com o corpo”, referida ao lugar de fala que a filósofa negra paulista Djamila Ribeiro (2017) tanto contribuiu para visibilizar; b) o “amargo dissenso” que as autoras destacam a respeito da Rita Segato — sim, elas não são “inimigas” ideológicas nem “robôs” dirigidos por um pretenso autoritarismo próprio da máquina de setores ligados a Morales no campo boliviano —; e c) a qualificação de “feminismo — branco?”, com um signo de pergunta que aparece primeiro como uma provocação, para se referir ao lugar desde onde Segato enuncia a sua perspectiva sobre o mundo social. A denúncia de uma branquitude não explicitada pela antropóloga se continua posteriormente no texto com a potente e sentida afirmação “não vamos calar, nem abdicar aos lócus de privilégios das mulheres brancas. Geolocalizadas nos sules, nas subalternidades, nas alteridades que nos supõem inferiores, dizemos à senhora que a sua voz nos dói”.

Na frase que fecha esse mesmo parágrafo, “sentiremos um grande vácuo ao não a referenciarmos mais nos nossos sentipensares” se manifesta um quebre, uma rachadura que tenho pensado é uma espécie de cisma nos feminismos latino – americanos — se vocês me permitem a metáfora vinda do campo das religiões monoteístas, mas livremente resignificada aqui para enfatizar a força desta quebra nos silêncios. As consequências desta e ações parecidas, me parece, estão por vir. Precisamos estar atentas a manifestações similares vindas dos mulherismos, dos feminismos negros, das comunidades quilombolas, indígenas, ciganas, ribeirinhas, muçulmanas, comunitárias, populares, migrantes e diaspóricas que introduzam tensões nesse campo aparentemente homogêneo que é o “ser mulher” para o feminismo hegemônico — isto é, o feminismo branco.

Após tomar conhecimento da mensagem das mulheres indígenas do Arco Íris, Rita Segato replicou, nas suas redes sociais, que não tinha sido bem compreendida. Que as coisas “eram mais complexas” do que a maneira em que estavam sendo colocadas na declaração das mulheres indígenas. Não questionou o seu lugar em momento nenhum. A branquitude emergiu, com força, ao manifestar como ela constrói um “não lugar” desde onde é possível ter opinião autorizada sobre praticamente tudo. Em um tom que eu observei como unidirecional e bastante autoritário, Segato continuou tratando sobre o tema como uma especialista que sabe “mais” do as outras pessoas, postando no seu muro declarações de mulheres indígenas que tinham posições críticas ou se colocavam contra o governo de Evo Morales. Vale dizer que o lugar de enunciação destas mulheres era diferente, e não podia se fundir ao da acadêmica branca em uma única alegação. Podiam se construir pontes críticas, tensionado sempre o campo político.

Mas, por serem diferentes da opinião especializada, as vozes de quem atravessava desde seus corpos-territórios uma existência coletiva como mulheres indígenas inseridas nas realidades da política e do cotidiano boliviano foram diretamente ignoradas. Outra coisa teria sido abrir um diálogo aberto e franco com essas mulheres que publicamente mostraram sua desconformidade e que, porém, mantiveram seu respeito e reconhecimento à figura desta intelectual. No dia 21 de Novembro, Segato olhou para os centros urbanos e de poder na busca de legitimidade, oferecendo uma entrevista que serviria para “esclarecer” (escolhi essa palavra cuidadosamente) as coisas a Ernesto Temembaum, um periodista e psicanalista bonaerense. Temembaum, o interlocutor com o qual Segato escolheu dar a sua resposta é um homem branco, cis, conhecido ainda em Argentina por alguns polêmicos ditos francamente polêmicos e misóginos — como ter realizado apologia da pornografia infantil, por exemplo[7].

Devo ressaltar que após a resposta das Mulheres Indígenas do Arco Íris, outros acontecimentos trouxeram Rita Segato para a cena pública. A avassaladora onda de performances que as estudantes chilenas Lastesis abriram veio para renovar, de forma corporalizada, as denúncias da antropóloga, que foram reinterpretadas em línguas diversas, por corpos vários, por crianças, jovens e mulheres adultas em inúmeros pontos do mapa global[8]. No dia onze de dezembro, Segato deu uma entrevista para a BBC, se projetando para o âmbito global e se colocando como a “avó” fundadora da performance de Lastesis[9].

Assim, apesar de eu celebrar a performance, o sabor amargo do que está sendo silenciado continua. Foi assim que identifiquei que preciso escrever sobre a branquitude, sobre o que as ações de mulheres feministas brancas criam, desde a minha perspectiva, que é a de uma mulher branca mestiça de origem rural, nortenho, andino, de nacionalidade argentina e professora universitária no Nordeste brasileiro, que também é feminista, mãe solo e antiproibicionista — me inspiro aqui na classificação proposta por minha colega, artista negra potiguar, doutoranda em antropologia Stéphanie Campos Moreira.

A branquitude está ali, é lida no meu fenótipo e na minha maneira de usar o corpo, me permitindo falar com mais legitimidade, me alimentando de cortesias, gentilezas e amabilidades que não existem para todo mundo. Me permitindo circular em diversos âmbitos não importando tanto as roupas que eu vista, sem ser questionada — ou sendo infinitamente menos questionada — na maior parte dos territórios sociais que marcam esta sociedade desta América Latina racista e colonial. Devo dizer que ser uma mulher latino-americana nesse mundo não é pertencer a um lugar fácil — e é na luta por essa dignidade que eu me reconheço.

Porém, o lugar de fala de uma feminista branca latino-americana se encontra socialmente legitimado — provavelmente, autoras e militantes como Segato tenham contribuído para tornar mais representativa essa especificidade. Porém, mulheres negras, indígenas, quilombolas, migrantes racializadas como não brancas e todas aquelas pertencentes ao território da não branquitude nas nossas próprias sociedades possuem um espaço de escuta e entendimento infinitamente menor.

Reproduzindo o senso comum acadêmico e a proposta de alguns artigos científicos, eu costumava atribuir a Rita Segato o início do movimento a favor das cotas raciais no Brasil (Segato 2006). Depois, aprendi que era preciso beber de outras fontes que me mostrem que esse movimento vem, de fato, do “movimento negro educador”, como postula a pedagoga mineira Nilma Lino Gomes[10].

Rita Segato contribuiu para a legitimação do movimento, desde um lugar que poderíamos denominar como de aliada ou agente dentro de uma coalizão, de acordo com a proposta da socióloga e ativista Patricia Hill Collins. Mas esses aprendizados exigem uma escuta atenta em um lugar que não é confortável. Que não é o da “lucidez imbatível”, um lugar que é questionável — e que deve ser questionado. E, se há questionamentos, o caminho é a escuta e a continuação do processo de diálogo. É desta maneira que questionamos nossos próprios privilégios, combatendo o ego frágil que o ser acadêmico estruturalmente eurocentrado e racista protege e estimula.

O que observei na resposta das Mulheres Indígenas do Arco Íris da Bolívia é uma quebra, uma rachadura, um posicionamento político diferenciado daquele estabelecido pelos feminismos urbanos, académicos e brancos dos últimos anos na América Latina. Eu espero que ações de empoderamento dentro dos corpos- territórios como a das Mulheres Indígenas do Arco Íris produzam uma multiplicidade de cismas nos feminismos latino-americanos, e que esse movimento de libertação permita identificar aos feminismos brancos querendo se tornar ventríloquos dos outros feminismos. Será uma perda de privilégios e de lugar de fala para umas, mas será o ganho de um mundo de possibilidades de autorrepresentação para outras.

Serão as sementes dos mulherismos, feminismos comunitários, feminismos afrocentrados, feminismos matricêntricos, feminismos racializados, feminismos populares emergindo com dignidade em um mundo que silencia violentamente às mulheres, mas, muito especialmente, às mulheres negras, indígenas e não-brancas.

Eu não saberia dizer se Segato já se colocou, em seus escritos ou suas manifestações públicas, como uma feminista branca. Mas considero que ela deve fazê-lo de forma urgente e explícita. Acontece que a branquitude disfarça seu lugar de fala se colocando, discursivamente, desde uma postura universal. A partir dela, é possível retratar praticamente qualquer situação desde um lugar objetivizante — sem correr riscos de que ela seja compreendida como uma situação ou análise parcial. Porém, como já mostraram perspectivas tão diversas quanto os feminismos situados, a teoria do ponto de vista [Standpoint Theory] e a educação popular, não há produção do conhecimento que não esteja embebida da prática de quem o produz[11].

A falta de uma abertura para o diálogo de Rita Segato em relação a esse grupo específico de mulheres indígenas que a contestou se configura, na minha opinião, como um evento cujo ruído silencioso continua a corroer diferenças não ditas dentro dos feminismos latino-americanos. Por outra parte, a escuta é um processo que não se reduz a simplesmente ouvir uma fala e tentar “dar o troco” de uma resposta contundente. É deter a imposição da própria voz interior, é sentar para apreender o que nos é comunicado — e não é necessário, como bem nos lembra a antropóloga catarinense Anahí Guedes de Mello, fisicamente ouvir para perceber e exercitar o ato da escuta receptiva dentro de um evento comunicativo.

Nós, como antropólogues, temos o potencial de revisar tantas metodologias que nos treinam para prestar atenção àquilo que tem dificuldade de se colocar como um discurso cristalizado, e usá-las a favor da emergência — bem-vinda e necessária — destas narrativas múltiplas, enraizadas, plurais e historicamente silenciadas.

Fecho esse tempo-espaço dedicado a meu sentipensar político com um apelo para o autorreconhecimento consciente e reflexivo dos nossos lugares de fala, e para a construção de situações concretas que permitam que as mudanças necessárias aconteçam: inclusão consciente de um maior número de autoras negras, indígenas e não brancas nas nossas bibliografias — sendo elas acadêmicas, como a antropóloga negra norte-americana Zora Neale Hurston[12]ou não, como a catadora de lixo mineiro-paulista Carolina Maria de Jesus — , mais professoras negras, indígenas e não brancas nas nossas universidades — sejam elas acadêmicas ou parte de projetos como o Encontro de Saberes, cota para negres nas pós-graduações, cotas para professoras, cotas epistêmicas nas universidades. Cabe às brancas assumir a sua branquitude, me parece, como um ato de responsabilidade social, contribuindo para explicitar o jogo de privilégios silenciado por essa sociedade estruturalmente colonial e racista.

Finalmente, penso que é tarefa urgente tanto na academia quanto nas políticas públicas a abertura epistemológica para leituras do mundo desde realidades violentadas a partir de perspectivas não somente negras, indígenas e não brancas, mas também identidades interseccionalmente ligadas como aquelas de pessoas lésbicas, trans, deficientes e migrantes. Trabalhar na sensibilidade, receptividade e disposição para a escuta de identidades sexuais dissidentes racializadas enquanto que não-brancas. Operar na disposição para o diálogo sem dispensar o incômodo e os conflitos, que sem dúvidas aparecerão no processo. O respeito das feministas brancas frente aos espaços de fala emergentes, o reconhecimento de formas de organização e aquilombamento[13]onde à branquitude não lhe cabe pertencer. Ao feminismo branco latino-americano cabe a autorreflexão crítica, que deve ser permanente. Finalmente, frente aos poderes machistas, fascistas e misóginos que querem fechar o campo das esquerdas, nos cabe a luta incansável por uma democracia plural que nos permita, a todes sem exceção, exercermos o direito de existirmos.

Referências bibliográficas

BÖSCHEMEIER, Ana Gretel Echazú et al. 2020. “La traducción de Zora Neale Hurston al canon antropológico: prácticas de extensión universitaria desde una perspectiva feminista e interseccional’. Revista Latinoamericana de Tradução 13(2): 223-54. 

 CARDOSO, Lourenço. 2010. “Branquitude Acrítica e Crítica: A supremacia racial e o branco anti-racista”. Rev. Lat. Cs. Sociales 8(1): 607–630.

CHAKRABARTY, Dipesh. 2000. Provincializing Europe. Postcolonial Thought and Historical Difference. Princeton: Princeton University Press.

FRANKENBERG, Ruth. 1993. White Women, Race Matters: The Social Construction of Whiteness. Minnesota: Routledge.

FREIRE, Paulo. 2009. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra.

HARAWAY, Donna. 2009. “Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial”. Cadernos Pagu 5: 7–41.

hooks, bell. 2013. Ensinando a transgredir — a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes.

NASCIMENTO, Beatriz. 2018 [1977]. “Historiografia do Quilombo”. In: Beatriz Nascimento. Quilombola e Intelectual: Possibilidades nos dias da destruição. Diáspora Africana: Editora filhos da África.

RIBEIRO, Djamila. 2017. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento.

SEGATO, Rita. 2006. “Cotas: por que reagimos?”. Revista USP 68: 76-87.

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[1] Para o aprofundamento de uma discussão no contexto brasileiro sobre a branquitude desde uma perspectiva negra e ativista, pode ser consultado o trabalho do historiador, sociólogo e professor da UNILAB-Ceará Lourenço Cardoso (2010). Para uma reflexão que parte da experiência corporal da branquitude e que atravessa a questão de mulheres, classe e nação, pode ser consultado o trabalho da antropóloga norte-americana Ruth Frankenberg (1993).

[2] Sobre a importância do olhar localizado no processo de universalização de Ocidente pode ser consultada a obra de Dipesh Chakrabarty (2000). Sobre o caráter epistemologicamente situado da ciência ocidental, pode ser consultado o trabalho da Donna Haraway (2009).

[3] A entrevista na íntegra pode ser ouvida no site web do Rádio Deseo. Disponível em: http//:radiodeseo.com. Acesso em 22–02–2020. Alguns comentários podem ser encontrados na nota “Rita Segato, Durísima con Evo Morales”, colocada no ar no dia 20–11–2019. Disponível em: https://www.infobae.com/america/america-latina/2019/11/20/rita-segato-durisima-con-evo- morales-dijo-que-no-fue-victima-de-un-golpe-y-recordo-su-machismo-y-autoritarismo/. Acesso em 22–02–2020.

[4] Mulheres, em língua quéchua.

[5] Cito aqui outros comentários emitidos por Evo Morales na cena pública que discriminam de forma direta ou indireta às mulheres, e que foram compilados em artigo do Jornal El País de 18 de Novembro de 2015: “Perfuradoras ou perfuradas, me digam”, perguntou a duas jovens durante a visita a um poço petrolífero em 2012 (…) “Quando estive em Cochabamba, as companheiras me diziam: ‘Mulheres ardentes, Evo presidente’, ‘Mulheres quentes, Evo valente’, ‘Mulheres aguentam, Evo não cansa”, comentou em outra ocasião. E também: “Quando eu vou às comunidades, todas as mulheres ficam grávidas e nas suas barrigas diz ‘Evo cumpre” (…) Antes das eleições de 2014, o MAS, partido de Morales, explicou que ele “é um feminista que faz piadas machistas”, pois a participação de género nos cargos públicos é a mais alta da história do país. Disponível em: https://elpais.com/internacional/2015/11/17/actualidad/1447788400_619916.html. Acesso em 22–02–2020.

[6] A representação boliviana da Asociación Internacional de Lesbianas, Gays, Bisexuales, Trans e Intersex de América Latina y el Caribe (Ilgalac),integrada por mais de 300 organizações LGBTQI da maioria dos países da região, se posicionou contra o golpe de Estado na Bolívia. Nota de 12–11–2019. Disponível em: https://www.tremendanota.com/crisis-de-bolivia-y-comunidad-lgbti-fue-un-golpe-de-estado-dice-ilgalac/. Acesso em 22–02–2020.

[7] No artigo jornalístico “Rita Segato en diálogo con Ernesto Temembaum, continúa el debate” Nota do dia 21–11–2019. Disponível em: https://radiocut.fm/audiocut/rita-segato-en-dialogo-con-ernesto-tenembaum-continua- debate/?fbclid=IwAR0cHD1LRWcpMutCcfIjA_7d0MnbXc8BqiPz8uq2kE6686-duDqAIrwzKr0. Acesso em 20–02–2020.

[8] É possível ver um mapa das performances no cenário global no site do Jornal El Universal, colocado no ar no dia 16–12–2019. Disponível em: https://www.eluniversal.com.mx/mundo/mapa-muestra-el-impacto-de-un-violador-en-tu-camino-en-el-mundo. Acesso em 20–02–2020.

[9] Da nota “Rita Segato, la feminista cuyas tesis inspiraron Un violador en tu camino: ‘La violación no es un acto sexual, es un acto de poder, de dominación, es un acto político’”, colocada no ar no dia 11–12–2019. Disponível em: https://www.bbc.com/mundo/noticias-50735010. Acesso em 20–02–2020.

[10] Da nota “Cotas têm o potencial de mudar o perfil da sociedade brasileira, afirma Nilma Lino Gomes”, colocada no ar no dia 12–01–2015. Disponível em https://www.geledes.org.br/cotas-tem-o-potencial-de-mudar-o-perfil-da- sociedade-brasileira-afirma-nilma-lino-gomes/. Acesso em 23–02–2020.

[11] A esse respeito, muito devemos à educadora negra norte-americana bell hooks (2013); assim como, de forma igualmente importante, ao educador recifense Paulo Freire (2009).

[12] A esse respeito, pode ser consultado o trabalho de discussão da obra de Zora Neale Hurston no projeto de extensão RECânone/UFRN, descrito em Gretel et al. (2020). 

[13] Sobre o quilombo como território simbólico e o aquilombamento como necessidade de proteção e fortalecimento mútuos em espaços de pertencimento das pessoas que se identificam como negras, é possível consultar o texto de Maria Beatriz Nascimento (2018 [1977]).