O CAFÉ DE ZÉ VIADO

Performatividade de gênero e narrativas do cotidiano no mercado público de Crato-CE



Ribamar José de Oliveira Junior
Universidade Federal do Rio de Janeiro


Foto 1: Registro de Zé Viado nas práticas cotidianas do Mercado Walter Peixoto, em Crato-CE. Créditos: Ribamar Junior, 14 de março de 2017)

Neste texto, apresento uma reflexão sobre performatividade de gênero e narrativas do cotidiano a partir da atividade profissional de Zé Viado no Mercado Público Walter Peixoto em Crato, interior do Ceará. Para tanto, a partir da perspectiva dos estudos transviados propostos por Bento (2017), leva-se em consideração o queer nos trópicos de Pereira (2012) e as interações cotidianas de Bretas (2009) para se pensar nas tensões que a performance de Zé Viado provoca no arranjo cotidiano de uma cidade do interior.  

Através de fragmentos coletados durante a execução do projeto “Sertão Transviado: Outros Cariris”, apoiado pelas Pró-Reitorias de Extensão e de Cultura da Universidade Federal do Cariri (UFCA), durante os anos de 2016 a 2018, que tinha como objetivo produzir jornalismo cultural voltado para a apuração da memória LGBT+[1] na região do Cariri, foi possível desenvolver a pesquisa etnográfica nos moldes de Marques e Perillo (2014), principalmente, na forma com que os autores caracterizam o binarismo rural-urbano nas narrativas de condutas sexuais e performances de gênero, tanto no agenciamento local como também na mediação do lugar. 

De acordo Marques e Perillo (2014), é possível perceber que há uma forma de dinamização entre rural e urbano ligada para localizar vivências e lugares, principalmente diante da trajetória dos autores e do desenvolvimento de pesquisas nesse eixo. “As relações de gênero e sexualidade são instrumentais para a consolidação dessas pesquisas e desse modo de inflexão sobre as imagens consolidadas das localidades e cidades descritas” (Marques Perillo 2014: 11). Nesse caso, as práticas da diferença demarcadas na cotidianidade da cidade do Crato, aparecem nos dados etnográficos a partir do meu deslocamento como autor e das minhas questões particulares, pois compartilho experiências da localidade em que nasci, vivi e realizo o estudo. Desse modo, esta pesquisa procura abordar condutas sexuais e performances de gênero em contextos distantes dos “grandes centros”, de maneira a perceber nos interiores os contextos de agência e de mediação nas interações cotidianas. 

Amassando na palma da mão bolinhas de carne recém temperadas em uma frigideira de aço inox e com uma touca na cabeça em um cômodo de quase seis metros quadrados, Zé Viado conversa enquanto vende café, cigarro, recebe troco de uma cerveja e prepara o almoço do dia para os clientes. Há um ano e meio trabalhando no mercado público Walter Peixoto, ele conta que abandonou a atividade em um cabaré que cuidava com auxílio de oito mulheres. 

Natural do município Crato, Zé Viado ou Mainha, como também é chamado pelos clientes e transeuntes do mercado municipal, aos 57 anos diz que já quis ser travesti, entre 13 e 17 anos, mas desistiu e, logo após o falecimento da sua mãe, abdicou o que ele chama de “suas loucuras”. O pai dele o abandonou quando percebeu a forma com que o filho gostaria de representar e reconhecer seu gênero e até hoje não mantém contato. 

O prato do dia era almôndegas de carne moída, porém Zé Viado ressalta a diversidade da cozinha na rotina do mercado através do caldo de costela, do frango e do bife. Católico, ele tem quatro imagens de santos populares na cozinha improvisada, um deles é o São Jorge. Solteiro, acredita que romance só dá negócio na cabeça, prefere estar sozinho e dá graças a Deus por isso. É satisfeito com o corpo que tem, embora tenha feito hormonização por alguns anos. “Sempre tive medo de injetar alguma coisa no corpo e não dar certo”[2]

Há vinte anos trabalhando no ramo com profissionais do sexo, Zé Viado chegou a desistir por problemas, dentre eles, violência e drogas. “Sempre lidei bem com minhas meninas. Mas acabei com problemas de se envolver e me prejudicar. Tinham oito a dez mulheres e todas elas moravam comigo, algumas eram casadas, moravam juntas, e trabalhavam em outras coisas”, explica ele quando ressalta que há duas décadas não havia tanto acesso fácil a drogas ilícitas. 

Zé começou a trabalhar como auxiliar em casas de cabaré no Crato no bairro Gesso, antigamente conhecido como zona de prostituição na cidade. Na época, entre os anos 1960 e 1970, ele via Capela passar pelas ruas. Capela foi uma das primeiras pessoas que se tem notícia a performar o que seria uma identidade de gênero travesti em Crato (Oliveira Junior 2018). A fala de Zé Viado coincide com os dados etnográficos apresentados pelo autor, quando ele se refere a Capela pelo pronome feminino. “Ela tinha fama de ser muito valente, mas sempre foi gente boa”, conta. 

Ele conta que apesar do preconceito de antigamente, não havia tanta violência como hoje. “Eu nunca tive com malocagem, sempre fui reservado. Mas não havia tanta violência como vejo hoje”, diz. Sobre o apelido Zé Viado, ele explica que não sabe como apareceu, mas nunca incomodou. “Se for só Zé, ninguém conhece, tem que ser Viado, não me incomoda não, mas quem chega pra falar querendo zombar incomoda” explica. Geralmente quem chama são uns colegas, “vamos tomar uma lá no Zé Viado”. 

Através do relato de Zé Viado sobre a cotidianidade do trabalho em Crato, destaca-se o que Bretas (2006) considera ser tensões fortes da vida ordinária no rompimento do cotidiano. É possível retomar o pensamento de Oliveira Junior (2018) sobre os indícios da invenção da homossexualidade em Crato para perceber a forma com que os corpos dissidentes remontam espaços, sociabilidades e sujeitos que, não legitimados na memória coletiva oficial, passam da posição de exclusão para a posição legítima através da oralidade do testemunho LGBT+.  Para Bretas (2006), as interações sociais “possibilitam narrativas que, por sua vez, podem torna-se objetos de olhares narrativizantes na busca de compreensão sobre práticas comunicativas” (Bretas 2006: 40). O que há de narrativizante no relato de Zé Viado, em certa medida, aparece como indício dissidente capaz de romper com a cotidianidade padrão a teatralidade do gênero, não só na oralidade que compõe a memória, mas também no exercício performativo das práticas cotidianas na elaboração de um conhecimento comum.

Pode-se dizer a performatividade de gênero de Zé Viado aparece atravessada por práticas cotidianas envolvidas por atos comunicacionais, sendo estes mediados e relacionados a um tipo de performance comunicativa. “A vida ordinária habita o cotidiano que, apesar de suas ordenações, permite práticas de desvio e a diversidade de experiências” (Bretas, 2006: 30). No que diz respeito a teatralidade cotidiana, retoma-se a paródia do gênero de Butler (2016) para se pensar na constituição de saberes populares sobre a dissidência de gênero, principalmente, na possibilidade de subversão da performance no cotidiano. Uma vez que, “as práticas cotidianas, movidas por esse conhecimento encoberto, operam a partir de leis naturalizantes, espécies de acordos tácitos sem questionamentos, assim como são cumpridas as regras que regem as conversações cotidianas” (Bretas 2006: 34). 

Nesse sentido, ao levar em consideração o pensamento de Braga (2011) sobre o que há de “conversação” nas diversas instâncias e situações da vida social, aponto para a reflexão sobre forma com que a performatividade de Zé Viado, inserida em uma lógica de conversação, pode ampliar o espaço social, trazendo uma interface com as mediações da performance? O contexto da produção performativa de gênero em interface com as narrativas do cotidiano, no sentido tomar como exemplo o contorno com que a performance de Zé Viado se torna legítima ainda que balizada em um eixo de abjeção, aparece na perspectiva de Pereira (2012) diante da possibilidade de um gesto político queer se abrir para saberes subalternizados. Segundo o autor, “a forma de agir (a agência) não é a mesma em todos contextos ou independentes das histórias locais” (Pereira 2012: 388). Principalmente, quando a performance de Zé Viado parece tensionar as práticas do cotidiano, tornando os atos comunicacionais em enunciados performativos subversivos. Seria possível refletir sobre interações cotidianas transviadas, no contexto de cidade do interior, exercitadas pelas dissidências sexuais e de gênero?

Referências bibliográficas

BENTO, Berenice. 2017. Transviad@s: gênero, sexualidade e direitos humanos. Salvador: EDUFBA. 

BRAGA, José Luiz. 2011. “Constituição do campo da comunicação”. Verso e reverso, 25 (58): 62-77. 

BETRAS, Beatriz. “Interações cotidianas”.2006. In: F. Vera; G. César (org.), Na mídia, na rua: narrativas do cotidiano. Belo Horizonte: Autêntica. pp. 29-42. 

BUTLER, Judith. 2016. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade / Judith Butler; tradução de Renato Aguiar. 10ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 

MARQUES, R.; PERILO, M. 2014. “O ‘Rural’ e o ‘Urbano’ em estudos de gênero e sexualidade: etnografia, mediação e agência”. In: Anais do VII Congresso Internacional de Estudos sobre a Diversidade Sexual e de Gênero da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura: Práticas, pedagogias e políticas públicas (org). Rio Grande: Editora da FURG. 

OLIVEIRA JUNIOR, Ribamar José de. 2018. “La invención de la homosexualidad al margen del Río Granjeiro: incidencias entre la memoria subterránea y las prácticas no dichas en la literatura oral en Crato-CE. Crítica y Resistencias”. Revista de conflictos sociales latinoamericanos. (7): 80-91. 

PEREIRA, Pedro Paulo Gomes. 2012. Queer nos trópicos. Revista Semestral do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFSCar, 2, (2): 371-394.   VIADO, Zé. Entrevista concedida dia 14 de março de 2017 para Ribamar José de Oliveira Junior em Crato-CE.


[1]  LGBTT+ é a sigla de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros. O sinal + é utilizado para alcançar uma amplitude maior diante do movimento LGBT e ativismos queer.

[2]  Entrevista concedida a Ribamar José de Oliveira Junior em 14 de março de 2017 em Crato-CE.