O ENCONTRO ETNOGRÁFICO E A DOMESTICAÇÃO EM UM ASSENTAMENTO DE REFORMA AGRÁRIA



Larissa Mattos da Fonseca
Universidade de Brasília


A perpetuação do ofício agrícola por mãos camponesas é um dos aspectos fundantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). No entanto, as práticas agrícolas, quando foco de análise, são reduzidas a aspectos utilitários sociais como os jargões populares “a terra é para quem planta”, “plantar para comer”, e o jargão acadêmico da subsistência, que apesar de válidos podem limitar nossa compreensão sobre a agricultura – aqui entendida enquanto a relação entre humanos e plantas – e sobre suas consequências, as transformações nos coletivos sociais e nas paisagens assentadas. Com o propósito de esboçar outras perspectivas sobre o fazer agrícola, descrevo a seguir alguns dos deslocamentos emergentes em minha relação etnográfica com o assentamento de reforma agrária 12 de Julho, localizado em Canguçu, Serra dos Tapes, paisagem acidentada do extremo sul do Rio Grande do Sul e localmente intitulada de “cordilheira”.[1] 

As relações entre as mulheres e as plantas do 12 de Julho são o foco de análise da monografia “Assentar gente e semente” (Mattos da Fonseca 2019), pesquisa contínua em meu atual mestrado. A relação etnográfica resultante dessa pesquisa, ou seja, a convergência entre o engajamento de pesquisa em práticas agrícolas e a perspectiva de uma antropologia da técnica permite que a domesticação seja compreendida enquanto ferramenta analítica do mundo rural. Portanto, discorro sobre o conceito de domesticação enquanto emergência de encontros etnográficos – e como tais, diversos – de acordo com autores que chamam a antropologia para contribuir a esta temática multidisciplinar (Sigaut 1988; Digard 2003; Sautchuk 2018). Com esse propósito, primeiramente exponho minha aproximação de classificações botânicas nativas que embaralham noções pré-estabelecidas entre plantas domésticas e não domésticas e em seguida realizo um breve esboço das diferentes práticas agrícolas do 12 de Julho, a fim de identificar uma dinâmica domesticadora entre agricultoras e plantas e entre hortas e matas.

Percorrer o pampa com persistência, por seus caminhos frios e seus verões, nos revela suas várias faces. Pradarias verdes que sustentam solitários umbus, campos em tons caramelos, ou o surpreendente colorido do final do inverno com simples flores amarelas. Estas pequenas flores eram o que mais me encantava naquele lugar. A paisagem do final do inverno era uma pintura romântica. As flores campestres do pampa escalavam a cordilheira, fazendo dos cerros altos, um pouco pampa e do pampa, um pouco coxilha alta. Campos cobertos de flores era o que eu consegui enxergar. 

A primeira vez que fui à cordilheira, em 2015, fiquei hospedada na casa da agricultora Irena, acompanhando um pouco de sua rotina. No final de uma das tardes saí para fotografar as flores amarelas. Na volta, quando entrava na cozinha, mostrei uma das imagens para a Irena. Quando ela viu a imagem comentou: “Que bonito, onde é?” Eu apontei para o lugar, um campo cheio das pequenas flores. A reação dela foi de espanto: “Aqui na imagem parece natural, parece flor.” Eu, também espantada, perguntei como aquele campo de flores poderia não ser natural, não ser flor. “Flor é o que tá no jardim, e natural é aquilo que é bonito. Aquilo ali é guaxa, mato que atrapalha o nosso roçado.” 

Guaxa é um termo que faz referência a plantas que nascem sem serem plantadas, termo que está em oposição ao termo miudeza, plantas domésticas cultivadas em roças e hortas. Mais tarde, no assentamento, descobri que essas guaxas amarelas eram chamadas de flores da miséria pelo mesmo motivo pelo qual não eram “flores” para a Irena: não deixavam as miudezas da roça crescerem e, portanto, nos meses em que brotavam era tempo de miséria, tempo de não colher alimento. “Tempo de flores amarelas” é na cordilheira uma expressão que significa tempos ruins. As flores que significavam beleza romântica para mim eram sinônimo de precariedade e sofrimento àquelas agricultoras. Irena e a fotografia foram, portanto, eixos de transformações das potencialidades do campo. Compreender as agricultoras, a partir de então, era compreender também suas interações vegetais. 

Nesse sentido, o encontro com as flores da miséria se revelou uma relação de alteridade. A convergência entre essas três viventes – Irena, eu e as flores – fez emergir uma questão: o que faz a distinção entre plantas cultivadas e não cultivadas? É fácil notar que ao se realizar tal pergunta, a etnógrafa se entranha em debates amplos sobre o que é agricultura, e portanto, sobre o que é domesticação. Logo, tornam-se inseparáveis categorias nativas e teóricas, afinal a fronteira entre o domesticado e o não domesticado só se desloca na emergência de múltiplas relações humanas/vegetais. Desse modo, o encontro entre tais viventes transformou-se em um encontro etnográfico. A partir de então, a domesticação seria o guia da minha relação com as agricultoras da Serra dos Tapes. 

A reflexão sobre a potencialidade da domesticação enquanto emergência de encontros etnográficos, no entanto, tomou uma forma mais clara a partir de algumas leituras etnográficas. Em seu primeiro encontro com os canaques da Nova Caledônia, Maurice Leenhardt (Leenhardt 1997 [1947]) recebeu um grande inhame de presente, o qual acabou derrubando desastradamente no chão. O ocorrido causou um grande desconforto entre ele os canaques. Mas como o inhame não rachou o jovem estrangeiro foi perdoado. Esse acontecimento mostrou-se relevante, pois provocou um deslocamento no olhar do pesquisador: compreender os canaques passava necessariamente pelo entendimento da relação deles com os inhames. Esse deslocamento possibilitou a escrita de uma etnografia capaz de suscitar reflexões profundas sobre interações humanas e botânicas. Descrever as relações com os inhames e com outras plantas fundamentais para os canaques era necessariamente falar sobre as relações sociais desse povo. 

Posteriormente, a descrição etnográfica da relação entre canaques e seus inhames foi pensada por André-Georges Haudricourt. É principalmente pela leitura de Leenhardt que o autor propõe a reflexão da socialidade imanente a processos agrícolas. Haudricourt, assim, atenta para os detalhes de tratamento dos canaques para com os vegetais, detalhes que permitem elucidar o tratamento do ‘outro’, um outro não humano e um outro não do kamo – verdadeira pessoa, ou pertencente à terra em língua canaque. Tal reflexão é expandida através de abordagens comparativas entre a domesticação animal e o cultivo vegetal (Haudricourt 2013 [1962]). Além disso, também estudando os canaques, o autor realiza, a respeito das atitudes canaques frente à alteridade, uma aproximação etnográfica que experimenta substituir a distinção cultura/natureza por outra, necessariamente dinâmica: culto/inculto, a qual ressoa, por exemplo, na agricultura, na chefia clânica e nas relações com estrangeiros (Haudricourt 2019 [1964]). Boa parte desse empreendimento decorre da atenção do autor às descrições da rotação agrícola lavoura-pousio na Nova Caledônia. É através deste processo tão comum aos sistemas agrícolas e pouco comentado pelas etnografias rurais brasileiras que vamos obter proximidade das relações domesticadoras que ocorrem entre mulheres e plantas assentadas no pampa. 

O pousio existe em relação à lavoura em um sistema cíclico. A lavoura é terra cultivada que após determinado período de uso é realocada para um novo espaço não cultivado nos últimos anos, o pousio. O pousio, por sua vez, é a lavoura abandonada para repousar. É um espaço em processo de recriação pela ação indireta do agricultor, através do ‘esquecer’ de colher algumas mudas e pelo descarte de sementes ‘defeituosas’. Assim, o pousio é uma lavoura em devir e vice-versa. 

Haudricourt descreve tal processo, particularizado na experiência agrícola neocaledônia, de modo a propor que o pousio é o lugar do não cultivado, que, no entanto, ao ser lentamente recriado por mudas e sementes esquecidas, guarda o potencial do cultivado. A descrição deste processo é o que permite a conceituação de inculto, não cultivado, e culto, cultivado. É importante, no entanto, atentar para a ambiguidade desses conceitos que contêm significados agrícolas e antropológicos. Atento aos processos cosmológicos canaques como os de vida-morte, Haudricourt descreve o pousio como o lugar do inculto e que guarda o potencial da cultura (Haudricourt 1964: 100-101). Este potencial encontra-se descrito nas possibilidades de recriação de lavouras, no sentido de qualidade da terra, através do repouso. No sentido mais abrangente, inculto é um ‘outro’ que, apesar de estar para além das fronteiras da cultura, guarda o potencial de tornar-se culto.

Na cordilheira, como podemos notar no início do texto, o tratamento das agricultoras para com as plantas também constitui fronteiras entre plantas domésticas e não domésticas. Mais especificamente no 12 de Julho o eixo da relação doméstico e não doméstico é recodificado, pois ações não agrícolas como o forrageio nas matas constituem, também, o fazer agrícola, como veremos a seguir.

A relação entre as agricultoras e as plantas assentadas é aqui exposta por uma única planta, a radite. Essa relação é compreendida enquanto ação de domesticação através da descrição do seguinte circuito: forrageamento – busca e coleta de plantas nas matas –; cultivo; assementar – processo de transformação de plantas em sementes –; novos forrageamentos e novos cultivos. Perpetuado por ações cotidianas, contínuas e em devir no 12 de Julho. 

A radite é uma planta forrageada em pequenas matas que circundam as casas das agricultoras. Tal planta, posteriormente, habita as hortas do assentamento, espaços de cultivo de miudezas e excepcionalmente da radite, uma guaxa. Estes lugares aos poucos transformam-se em hortas velhas. Em outras palavras, as hortas velhas são espaços de cultivo que, com o início do processo do assementar, são abandonadas. O assementar diz respeito ao momento em que as plantas, por ação indireta das agricultoras, crescem de modo exponencial, deixando de ser hortaliças e transformando-se em sementes. A horta neste ponto fica tão bagunçada e habitada por insetos e plantas assementadas que é preciso buscar um novo espaço para ser horta. A ação do abandono, portanto, cria circuitos de rotação dos solos cultivados com miudezas e constitui verdadeiros berçários de sementes nos espaços abandonados.

Em resumo, as hortas abandonadas são espaços agrícolas extremamente ricos por guardarem o potencial de novos plantios em suas sementes e solos descansados. Por sua vez, as hortas atuais são espaços que transformam plantas guaxas em miudezas em um processo cuja constância se evidência no fato de que, mesmo que a radite cultivada assemente, as ações de forrageio de mudas guaxas seguem. Esse último espaço e suas relações servem, analiticamente, para demonstrar os limites de uma concepção de domesticação restrita a classificações mediante polos irreversíveis, algo que o foco na domesticação como conjunto de ações permite dinamizar de acordo com as práticas locais.

Lavoura/pousio, horta atual/horta abandonada, assim, podem ser compreendidos, não apenas como espaços, mas como pares de etapas distintas, por seus contextos etnográficos, que descrevem um mesmo processo de rotação agrícola.                   

Lavoura/pousio e horta atual/horta abandonada são, portanto, compreendidos enquanto unidades relacionais. O pousio está em relação à lavoura de modo a guardar tanto potenciais agrícolas bem como de tratamento para com o ‘outro’, assim como a horta abandonada está em relação à horta atual de modo a guardar potenciais agrícolas, em suas sementes, e o potencial de ser uma agricultora assentada, afinal ser assentada é ser gente que persiste em plantar. 

Referências bibliográficas

DIGARD, Jean-Pierre. 2003. “La domestication animale revisitée par l’anthropologie”. Ethnozootechnie, 71: 33-44.

HAUDRICOURT, André-Georges. 2013 [1962]. “Domesticação de animais, cultivo de plantas e tratamento do outro”. Série Tradução, 7, PPGAS/DAN.

HAUDRICOURT, André-Georges. 2019 [1964]. “Natureza e Cultura na Civilização do Inhame: a origem dos clones e dos clãs”. ILHA – Revista de Antropologia, 21(2): 208-227.

LEENHARDT, Maurice. 1997 [1947]. Do Kamo: La persona y el mito en el mundo melanesio. Barcelona: Paidós.

MATTOS DA FONSECA, Larissa. 2019. Assentar gente e semente: Circuitos domesticadores entre agricultoras e plantas no Assentamento de reforma agrária 12 de Julho – RS. Trabalho de Conclusão de Curso em Antropologia, Universidade Federal de Santa Catarina.

SAUTCHUK, Carlos Emanuel. 2018. “Os antropólogos e a domesticação: derivações e ressurgência de um conceito”. In: Jean Segata e Theophilos Rifiotis (Orgs.) Políticas etnográficas no campo da ciência e das tecnologias da vida. Porto Alegre: UFRGS. pp. 85-108.

SIGAUT, François. 1988. “Critique de la notion de domestication”. L’Homme, 28(108): 59-71.

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* Bolsista CNPq.