O ONDE ESTOU VAI DESAPARECENDO

Uma etnografia de crianças que brincam na rua



Ediane Hirle
Universidade Federal da Integração Latino Americana

I – Apresentação da Problemática

Pesquisar com as crianças a temática das infâncias surge a partir da convivência com crianças de comunidades vizinhas a Universidade Federal da Integração Latino-americana, na cidade de Foz do Iguaçu. É nesta região de fronteira trinacional que junto com as crianças experienciamos encontros itinerantes nas ruas, para realização de diversas atividades como brincadeiras, coletas de frutas, passeio ciclístico e cultivo de horta. Ao chegar neste território não esperava tornar-se centro de uma “pesquisa” específica sobre alteridade por parte das crianças: quem sou e porque estou nessa rua?

Aqui pretendo relatar como as crianças colocaram-me em uma posição que Roy Wagner (1981) chama de “antropologia reversa”, ao me designarem como “outra”. Para analisar essa experiência um pouco singular e bastante instrutiva sobre as categorias de cultura da infância, brincadeiras de rua, fronteiras e identidades trago o debate sobre a infância como um dispositivo do poder que se impõe a cada criança de maneira universal e única. Desse modo pretendo ampliar possibilidades de pensar o campo e epistemologias que possam se constituir de maneira singular, produzindo e criando novas/outras possibilidades de vida, de criança(s), de infância(s) e de pesquisa(s), que descentralizem, ou façam surgir modelos e lugares hegemônicos que centralizam sentidos, norma, estética.

Além disso, a presente pesquisa visa criar olhares e caminhos outros para pensar as infâncias e crianças da fronteira, que através de brincadeiras e vivências reconhecem a rua como território do brincar e local onde pensam, criam e recriam suas categorias sobre o modo de ocupar, de brincar e de estar nos espaços entendidos como natureza (árvores, grama, flores, plantas, açude, nascente). Sobre dados encontrados em campo, bem como a relação estabelecida com as crianças, o ponto de partida é entender o texto etnográfico como uma narrativa de representação dos encontros itinerantes do brincar, criando assim a possibilidade de ampliar o tema “Cultura da Infância”, que comumente tem sido esvaziado na área das Ciências Sociais. 

II – Referencial Teórico

 Ao longo das últimas décadas a cidade de Foz do Iguaçu tem sido apontada como uma das cidades mais violentas do Brasil. Vemos que concomitante à localização estratégica da fronteira trinacional, que faz com que se transite em suas bordas as mercadorias alvo do capitalismo transnacional – o escoamento de mercadorias – há ainda a exploração e reificação territorial das suas reservas naturais pelo turismo, bem como seu projeto excludente de cidade. São inúmeras combinações entre a violência de Estado e a violência dos projetos de desenvolvimento que impactam diretamente a vida da comunidade e consequentemente das crianças.

Os dados apontam altíssimos números quando no referimos à violação aos direitos das crianças e adolescentes na região da fronteira, por outro lado crescem também ações de enfrentamento à violência física, sexual, e, a erradicação do trabalho infantil. Nesta região vivem muitas crianças em condição do que chamaria de vida precária (Butler, 2011) em grande medida afetadas pelos desdobramentos das remoções forçadas decorrentes das dinâmicas territoriais acentuadas pela construção da hidroelétrica de Itaipu. É neste território em disputa onde o corpo, também enquanto um território, é reivindicado por todas as forças e ideais salvacionistas da infância, de tutela, de agenciamento, assistencialismo e evangelização. 

Giorgio Agamben (2002) tomou o conceito de “vida nua” ou “mera vida” – Blosses Leben – a vida sacrificável, que não deixaria de existir (muito pelo contrário) nos atuais Estados democráticos. Agamben é um autor fundamental das últimas décadas para pensar a relação entre violência e as novas formas de soberania. Seu conceito de “vida nua” nos coloca diante de uma pergunta básica para pesquisa: sobre que vidas é possível exercer a violência sem nenhum tipo de punição? Sobre este último ponto consideramos fundamentais também as recentes considerações de Judith Butler (2011) sobre as diferentes formas de distribuição da “vulnerabilidade” no mundo. Essa abordagem me inspira a considerar a narrativa da pesquisa com crianças como uma “memória do resto”. O “resto” não se refere aqui a uns poucos que sobraram ou sobreviveram a uma ação violenta. O “resto” é o contrário de uns poucos indivíduos, são “todos os demais” – uma multidão de seres que tem resistido e resistem e não cabem em nenhuma classificação identitária fixa.

 Como é sabido, adotar um referencial teórico significa passa pelo filtro do pesquisador. Para a Antropologia a questão de “autoridade etnográfica” (Clifford, 1998) permeia as teorias sobre trabalho de campo, e a problemática que se apresenta na Antropologia sobre como “dar voz” as crianças. Considero preciso que as crianças têm vozes, vozes ecoando nas ruas, nas fronteiras, nas escolas, nos pátios. Porém continuamente é gerido o que se fala, para quem se fala e porque se fala sobre as crianças. Parafraseando a Spivak (2014) surge a indagação: Podem as crianças falarem? E se podem falar, e, se falam a todo momento e reiteradas vezes, o que se escuta?

Paolo Virno (2012, p. 34), filósofo italiano e semiólogo, afirma: “Não é concebível um pensamento crítico que não seja também, em quaisquer de suas facetas, uma meditação sobre a infância”. Buscando entender o espaço da rua como um território de brincadeiras cujo caráter simbólico está para além das definições de nossas categorias de adulto, principalmente quando se subalterniza a presença infantil nestes espaços públicos, meu intento é apresentar a rede de signos que perpassam esta singular experiência das fronteiras do brincar e o estar nas ruas como fator de imaginação que conduzia o “estar ali” a uma outra experiência etnográfica com as crianças.

III – Metodologia

Há que se restabelecer as distribuições de posição, de lugar e de poder entre adultos e crianças, de maneira a emancipar e dar autonomia às crianças, segundo Schérer (2009, p.65): “pensar uma infância maior, emancipada, infantil, mas não infantilizada”. Na trilha deste pensamento, o que temos que nos esforçar em fazer é subtrair o consenso maioritário do que seria a Infância. Desconstruindo a ideia da anterioridade do adulto em relação a infância, o que faz com que a criança não seja mais do que uma potência, um potencial que a sociedade protege e põe a parte, como que em reserva, lhe prometendo um futuro que, por vezes, a deixa desprovida de presente.

Desenvolver projetos com crianças é um desafio que só consegue conhecer profundamente aquele que se arrisca no campo, aquele que se coloca cara a cara com as crianças, indagando-se curiosa sobre as minúcias e os emaranhados de seus cotidianos. Isso porque, desenvolver projeto com crianças não é o mesmo que desenvolver projetos sobre crianças, eu defendo a ideia de que a forma como entra, age e permanece no campo é crucial para que ele consiga desenvolver uma pesquisa com crianças, a qual elas não ocupem o lugar de “objeto de estudo”, mas sejam consideradas como “sujeitos ativos” nas produções de suas próprias biografias. 

Durante os encontros com as crianças na rua e no caminho que conduz a uma horta comunitária, foi possível utilizar câmera fotográfica, gravador e desenhos para registros do material fonte de minha análise de pesquisa. A ideia foi propor deslocamentos epistêmicos para compreender o modo como as brincadeiras se relacionam à constituição e utilização de um conjunto de regras, artefatos, formas de comunicação, rituais, rotinas e conhecimentos próprios das crianças.  Portanto, esta pesquisa tem como ponto central a construção de uma narrativa a partir das crianças (utilizando suas linguagens polissêmicas: desenhos, oralidade, escrita, fotografia), cabendo a mim, enquanto pesquisadora, organizar essas categorias e entender como esse conjunto compunha a relação com o espaço, espaço-rua e territórios do brincar. 

IV – Considerações sobre o Campo

Sobre o processo transportar os dados de campo para a escrita etnográfica, são necessárias algumas reflexões. Quando Malinowski (1976) cunhou o método antropológico etnográfico, ele iniciou seu texto com os dizeres: “Imagine-se o leitor sozinho, rodeado apenas de seu equipamento, numa praia tropical, próxima a uma aldeia nativa, vendo a lancha ou o barco que o trouxe afastar-se no mar até desaparecer de vista… Você nada tem para fazer a não ser iniciar imediatamente seu trabalho etnográfico”. O recurso “Imagine-se…” neste caso, permite ao leitor passear pelo texto malinowskiano como quem passeia por um texto literário. É claro que há diferenças e distâncias significativas entre o texto literário e o texto antropológico, contudo, em ambos os casos o autor precisa inventar uma história para contar a um leitor desconhecido.  

Me recordo ter dito reiteradamente às crianças que eu estava escrevendo uma história sobre tudo que costumávamos fazer pois eu era uma antropóloga. Em uma dessas ocasiões indaguei a uma criança se ela sabe o que é ser antropóloga. Foi então que tive a resposta surpresa: “Claro que sei, antropóloga é coisa de gente curiosa, não é verdade?!!” Em seguida outra criança disse: “É ter que estudar demais e não poder sair na rua para brincar” Neste caso observei que as perguntas/respostas dizem muito mais sobre o “eu outra das crianças” do que das crianças propriamente ditas.

Minhas interpretações sobre interrogações das crianças partem, do ponto de vista teórico-metodológico, do que vem a ser o “caminho reverso” que a antropologia faz de volta pra casa a fim de relativizar o próprio campo do saber antropológico (Wagner, 2010), tendo em vista que no primeiro contato eu tentei pontuar de maneira racional, e, talvez biologizante, o que seria “coisa de criança” e fui impelida pelas próprias crianças a compreender o tipo de atividades que elas enquanto sujeitos – crianças – definiam como atividades de trabalho que são acostumadas a desempenhar no seu cotidiano e práticas de troca.  

A relação das crianças e seus pares também foi uma forma de equiparar as ações que serão organizadas para análise. Desse modo a continuidade desta pesquisa é baseada no entendimento de que as culturas da infância constituem formas de ações sociais situadas, ou seja, ressonantes com espaços, tempos e pessoas particulares (White, 2005).  O brincar, por sua vez, foi compreendido, desde o início, não como a síntese ou sinônimo das culturas infantis ou da vida social das crianças – imagem emblemática do que significa ser criança – mas como uma ação social também contextualizada, parte central de suas vidas, e experiência concreta pela qual, e na qual, agem sobre a realidade e a constroem, interagindo e desenvolvendo ações comuns com outras crianças, afirmando diferenças e semelhanças, cooperando, divergindo e negociando, reproduzindo, criando e partilhando significados, conhecimentos e regras e, sobretudo, se reconhecendo como membros de um grupo de pares. (Borba, 2005).

Portanto também é necessário se desprender para então compreender o que é ser criança desde esses territórios de brincadeiras fronteiriços, e em constante intercâmbio cultural. Na relação com as crianças tenho aprendido muitas coisas novas, brincadeiras e palavras em Guarani originárias da infância no Paraguai. Como exemplo, relato o episódio da descoberta das crianças de que eu sabia falar algumas palavras em espanhol. Surpresas, elas me disseram: “Tia Edi, eu também sabia falar em paraguaio!! Mas agora me esqueci, só que às vezes quando estou dormindo eu sonho, e sonho que estou falando em paraguaio!!” Outras vezes elas perguntaram: “Tia Edi, lá em Minas Gerais onde você nasceu também se fala em Guarani ou em brasileiro?” 

Um grupo de crianças me relatou como organizaram uma manifestação na Avenida Andradina, que dá acesso entre a UNILA e os bairros centrais. As crianças teriam fechado o acesso com pneus, madeiras e galhos, em protesto pela situação de abandono e descaso da gestão do Município sobre a construção de calçadas para acesso dos pedestres, e a ausência de semáforo no cruzamento, onde sempre ocorrem acidentes, e onde uma coleguinha das crianças sofreu um acidente fatal que resultou na menina ficar paraplégica. Foi quando a polícia chegou ao local evadindo as crianças e acionado a responsabilidade dos pais pelas mesmas, alegando que embora uma criança tivesse tido o “futuro ceifado” as outras crianças não poderiam ocupar aquele espaço público. Retomo assim a pergunta: podem as crianças falarem? O que se escuta, silencia ou agencia?

Concluo dizendo que é preciso considerar que em lugares diferentes a gente vive relações outras com o espaço público, relações outras com o território, relações outras com a linguagem. Isso leva a repensar o nosso modo de viver, as decisões identitárias, as concepções de infância e reconsiderar os desenhos de fronteira. A importância do olhar das crianças sobre a cidade, seja na fronteira, seja desde a cidade sob o olhar de uma criança se presta a novos trajetos e a novos traçados de vida. A cidade sob olhar de uma criança pode vir a ser vetor de imaginação. Ela cria mil e um tipos de cidade, insanamente e irresponsavelmente, e, sobretudo infantilmente. Com toda a positividade de ser infantil: um mundo possível e ainda desconhecido e isso permite ampliar as possibilidades de vida.

Referências Bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. Homo Sacer. O poder soberano e a vida nua I. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: ed. UFMG, 2002.

BORBA, Angela Meyer. 2005. Culturas da infância nos espaçostempos do brincar: um estudo com crianças de 4-6 anos em instituição pública de educação infantil. Tese (Doutorado), Universidade Federal Fluminense – Faculdade de Educação.

BUTLER, Judith. Vida precária. Contemporânea, 1, 2011.

CLIFFORD, James. Sobre a autoridade etnográfica. In: A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998. 320p.

MALINOWSKI, Bronislaw. Argonautas do Pacífico Ocidental. Tradução Anton P. Carr. São Paulo: Abril Cultural, 1976.

VIRNO, Paolo. 2012. “Infância e pensamento crítico”. Imprópria: política e pensamento crítico, Lisboa, n. 2.

SCHÉRER, René. 2009. Infantis, Charles Fourier e a infância para além das crianças. Belo Horizonte: Autêntica.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar?. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. Tradução de Sandra Regina Goulart Almeida; Marcos Pereira Feitosa; André Pereira Feitosa.

WAGNER, Roy. 2010. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify. WHYTE, William Foote. 2005 [1943]. Sociedade de esquina. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.