O PROBLEMA – 

CORPOS, SENSAÇÕES E PAISAGENS

Lançando questões de fora do eixo sobre
a diversidade sexual e de gênero



Igor Erick
Universidade Federal do Pará

Bruno Rodrigo Carvalho Domingues
Universidade Federal do Rio Grande do Sul


Na década de 1930, Ruth Landes, antropóloga norte-americana, estava de passagem pela Bahia para estudar os cultos de possessão afro-brasileiros e ficou surpresa diante das experiências homossexuais que observou nos terreiros visitados.[1]Diante disso, Landes, escreveu o polêmico artigo intitulado Matriarcado Cultural e Homossexualidade Masculina. Mais de trinta anos depois, era a vez de Peter Fry. O antropólogo britânico radicado no Brasil realizou, em 1974, uma pesquisa etnográfica que desembocaria na publicação do artigo intitulado Homossexualidade Masculina e Cultos Afro-Brasileiros, divulgado inicialmente em inglês sob a forma de comunicação apresentada em congresso (FRY, 1982a). Sua investigação em locais de cultos de possessão na capital paraense versava sobre a relação entre homossexualidade e religiosidade, propondo um esboço do que chamaria de “sistema de representação hierárquico da sexualidade masculina”, comum, segundo ele, em cidades do Norte e Nordeste brasileiros, assim como nas periferias dos grandes centros urbanos industrializados do Sul e do Sudeste e eventualmente nas zonas rurais. A sua investigação seria aprofundada em seu artigo intitulado Da Hierarquia à Igualdade: a construção histórica da homossexualidade no Brasil (1982b), em que o autor desenvolve o estudo dos sistemas de representações sobre a sexualidade masculina que contribuiria para o esboço da sociedade brasileira como um todo, já que os sistemas de representações seriam produzidos num contexto político, o que para Fabiano Gontijo (2017) somente foi possível porque Fry teve a possibilidade de comparar distintas regiões do Brasil. 

Analisando o “que as pessoas dizem que fazem e o que acham que deveria ser feito” no tocante à sexualidade (Fry 1982b: 88-89), Fry identificou alguns modelos a partir da articulação entre sexo fisiológico como “atributos físicos que distinguem machos e fêmeas” (p. 89), papel de gênero como referência “ao comportamento, aos traços de personalidade e às expectativas sociais associadas normalmente ao papel masculino ou feminino” (p. 90-91), comportamento sexual como “comportamento sexual esperado de uma determinada identidade a exemplo de atividade e passividade” (p. 91),) e orientação sexual remetendo ao “sexo fisiológico do objeto de desejo sexual” ou seja, homossexual, heterossexual ou bissexual” (p. 91).

Nesse sentido, Peter Fry propôs dois grandes modelos ou sistemas de classificação: por um lado, o modelo hierárquico, que dividiria o mundo em “homens” e “bichas” e, por outro, um modelo mais simétrico ou igualitário, que dividiria o mundo em “homossexuais”, “heterossexuais” e “bissexuais”. Enquanto o primeiro modelo encontrava sua origem na história colonial brasileira e seria, no momento da escrita do artigo, “bastante hegemônico nas classes mais baixas e no interior do país” (1982b, p. 93), o segundo modelo, por sua vez, seria oriundo do sistema médico-científico que produzia a “condição homossexual” e se alastrava pelas camadas médias dos grandes centros urbanos brasileiros, representando a modernidade e a vanguarda em termos comportamentais. Os movimentos políticos homossexuais nascentes nas décadas de 1970 e 1980 no Brasil e se baseiam no segundo modelo, o que estaria gerando, naquele momento, uma tensão (política) entre as tendências identitárias dos movimentos e as experiências homossexuais efetivas (mais próximas do modelo hierárquico). 

Os escritos de Fry (1982a, 1982b), assim como os de Fry e MacRae (1983), e as obras de Guimarães (2004 [1977]), Parker (1986), Perlongher (1987), Mott (1987a, 1987b), Heilborn (1996, 2004 [1992]) e Costa (1992), dentre outras, geralmente com propostas de tipologias e mapeamentos, contribuíram decisivamente para a instituição do campo dos estudos sobre (homo)sexualidade no Brasil. Mas, quase sempre, (homo)sexualidade masculina, urbana, branca(ou negra urbana) e das regiões Sudeste ou Sul(Gontijo e Erick 2017).

Em 2006, uma tese de doutorado e uma dissertação de mestrado em Antropologia defendidas respectivamente na Universidade de São Paulo e na Universidade de Brasília, trataram, com abordagens diferentes, de aspectos relativos à temática da sexualidade no rural brasileiro, acrescentando, assim, novidades aos já tão consolidados estudos rurais brasileiros, por um lado, e por outros, aos também já tão consolidados estudos sobre gênero e sexualidade no Brasil, inclusive na perspectiva queer. A tese de Silvana de Souza Nascimento e a dissertação de Paulo Rogers Ferreira partiram da denúncia da (quase) ausência de pesquisa sobre gênero e de sexualidade no âmbito dos estudos rurais/campesinato. A tese de Nascimento, intitulada “Faculdades Femininas e Saberes Rurais. Uma Etnografia sobre Gênero e Sociabilidade no Interior de Goiás”, aponta as relações de gênero no mundo rural levando-se em consideração a experiência da vivência das sexualidades, ao passo que a dissertação de Ferreira, intitulada “Os Afectos Mal-Ditos: o indizível das sociedades camponesas”, tratou mais especificamente da experiência da sexualidade no interior do Ceará.

A partir da década de 2010, desenvolve-se no Brasil uma série de pesquisas a respeito da diversidade sexual e de gênero em contextos descentralizados e interioranos, como é o caso das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste brasileiras. As pesquisas realizadas por Martinho Tota (2012, 2013) e por Roberto Marques (2012, 2014), ambos no Nordeste, vêm abordando com primor a sexualidade divergente em contextos interioranos – seja entre indígenas, como Tota junto aos Potiguar, seja em festas de forró eletrônico, como Marques. Vale ressaltar as pesquisas recentes de Moisés Lopes (2014), na capital mato-grossense, junto a militantes e ativistas dos direitos de gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgênero, e as pesquisas de Guilherme Passamani (2015) na região pantaneira de Corumbá, Mato Grosso do Sul, junto a idosos homossexuais interioranos. E por último a organização dos dossiês “Diversidade sexual e de gênero em áreas rurais, contextos interioranos e/ou situações etnicamente diferenciadas. Novos descentramentos em outras axialidades”, publicado na ACENO – Revista de Antropologia do Centro-Oeste e “Experiência da diversidade sexual e de gênero em áreas rurais, contextos interioranos ou periferizados e/ou situações etnicamente diferenciadas; novos descentramentos em outras axialidades” publicado na Amazônica: Revista de Antropologia, em 2016 por Fabiano de Souza Gontijo, Estêvão Rafael Fernandes, Moisés Lopes e Martinho Tota. Sendo este último dividido em dois volumes, ele conta com artigos revolucionários no âmbito dos estudos da sexualidade e de gênero no/do Brasil, na medida em que se posicionam epistemopolíticamente por uma antropologia do gênero e da sexualidade feita a partir de “fora do eixo”. 

Destaquemos deste último dossiê o manifesto “Queer caboclo” de autoria de Estevão Fernandes e Fabiano Gontijo (2016).  O manifesto tem forte cunho crítico na forma como as ciências humanas vêm ao longo dos anos (re)produzindo lógicas acadêmicas que invisibilizam maneiras outras de viver a transgressão das normas que circunscrevem sexo, gênero, sexualidade no interior do Brasil, tensionando a discussão do quanto o binômio urbano-rural também criou não somente uma sexualidade muito atrelada às urbes, mas também às formas de grafar a diversidade dentro de nosso campo de pesquisa. Os autores propõem uma teoria decolonial e crítica das estruturas políticas, históricas e culturais de normalização e consolidação heteropatriarcal branca, moderna e de classe média, no sentido de apontar outros marcadores sociais que outrora se encontravam em lacunas no saber/fazer dos estudos de sexualidade e gênero, como é o caso da regionalidade e etnicidade.  Assim, o manifesto sugere uma quebra epistemopolítica e geopolítica radical e nos permite refletir sobre a nossa posição enquanto pesquisadores em contextos que estão à margem da produção científica nacional, fazendo com que este lugar “fora do eixo”, mais do que um campo de pesquisa, seja também um “lugar de fala”. 

Na direção do Manifesto Queer Caboclo, o trabalho de conclusão de curso de Bacharelado em Ciências Sociais da UFPA de Bruno Domingues, defendido em 2019 e intitulado “Entre tradição, desejo e poder: uma Amazônia cosmoerótica”, amplia as possibilidades do conceito de “interioridade” (Gontijo e Erick 2015). Nele, o autor aponta que é fundamental analisarmos como a construção histórica do “interior” se deu a partir da abjeção ao “natural” e apreço aos ideais de civilidade/cultura trazidos da Europa (centro/urbano) e, dessa forma, como a relação entre grandes, médias e pequenas cidades também tem sido moldada a partir da desigualdade entre aqueles que “atingiram” o status de “civilidade” pela urbanidade, as grandes metrópoles, e aqueles que são sempre tidos como um “atraso” à noção de cível (periferia/interior). 

Assim, estes autores vêm apontando que ao partirem para as pesquisas sobre a diversidade sexual e de gênero fora dos eixos, as preocupações com relação às trajetórias dos sujeitos estão entrelaçadas à outras problemáticas e binômios caros às ciências sociais. Nesse sentido, categorias como urbanidade, ruralidade, interior, comunidade, capital e metrópole dialogam intensamente com a elaboração dos sentimentos de pertencimento e da ideia de permissividade do ser/estar nesses espaços. 

Tendo em vista a produção dessas pesquisas e a criação de novos debates convidamos para este Fórum, reflexões teóricas, metodológicas e ou etnográficas em forma de textos que reflitam sobre as relações e/ou experiências da diversidade sexual e de gênero nos contextos interioranos, rurais, comunidades ribeirinhas, territórios remanescente de quilombo e aldeias indígenas que contemplem outros modos de compreender possíveis sexualidade(s) e gênero(s) a partir dos marcadores sociais da diferença (etnia, raça, geração, classe, regionalidade etc), do modo de habitar e experienciar o mundo ao seu redor (paisagens), do sentir e ser sentido (sensorialidades), da produção de sentimentos por meio da interação social e cultural (emoções), da produção, da circulação e das performances dos objetos (materialidades), das narrativas e práticas sobre e com as entidades espirituais (encantarias) e das performances identitárias de sujeitos que vivenciam outros modo de ser/estar no mundo (corporeidades) potencialmente distintos daqueles vividos nas grandes metrópoles e cidades. Nesse sentido, interrogamo-nos sobre como é viver a diversidade sexual e de gênero sendo interiorano/a, nortista, amazônida, nordestino/a, indígena, ribeirinho/a, camponeses, quilombola fora dos grandes centros urbanos ou mesmo dentro destes? Afinal, o deslocamento pode produzir formas outras de ser e estar, onde a corporeidade é a nossa condição e existência fundamental por meio da interação entre objetos, o mundo e as pessoas.

Referências bibliográficas

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* Ambas as pesquisas são financiadas por Bolsa CAPES.