OS KARIRI-XOCÓ 
“SÃO POLÍTICOS, SIM!”

Na disputa eleitoral à Câmara de Porto Real Do Colégio



Manuela Machado Ribeiro Venancio
Universidade Federal Fluminense


Foto: Manuela M. R. Venancio. Centro de Porto Real do Colégio.

Introdução

Neste ano de 2020, estão previstas as eleições municipais para os cargos de prefeitos e vereadores, e a presença indígena nas eleições municipais, estaduais e federais é cada vez mais expressiva. Dentre os candidatos que concorreram nas últimas eleições (2018), temos Joenia Wapichana, eleita deputada federal pelo estado de Roraima, Sonia Guajajara, que concorreu à vice-presidência, e Kaká Werá, que disputou o cargo de deputado federal.

Se olharmos para o século passado, encontraremos Mário Juruna como o primeiro indígena a ser eleito deputado federal no Brasil, nas eleições de 1982 e empossado em 1983. Bem menos conhecido que Juruna, mas envolvido na política local nordestina, há Antônio Taré, vereador indígena pela aldeia Kariri-Xocó em períodos consecutivos: 1979 e 1983. Esta informação foi obtida no trabalho de campo que realizei na Aldeia Kariri-Xocó[1], localizada no município de Porto Real do Colégio, Estado de Alagoas, no período das eleições municipais de 2016.

Naquele contexto etnográfico, os Kariri-Xocó se envolveram no “tempo da política” (Palmeira e Heredia 2010), ativa e intensamente, sendo observados nos “arrastões” e nas “carreatas” eleitorais. Para Moacir Palmeira e Beatriz M. de Heredia (2010):

“[…] tempo da política, época da política ou simplesmente política corresponde grosso modo ao período eleitoral. Mas se trata apenas de uma aproximação. Seus limites cronológicos não necessariamente coincidem e o tempo da política não envolve apenas candidatos e eleitores, mas toda a população, cujo cotidiano é subvertido.” (p. 8).

Assim, a população Kariri-Xocó envolvida no “tempo da política”, se fez presente nos conhecidos “arrastões” formados pelos eleitores que seguem o candidato a pé, sendo que durante o trajeto, procura-se arrastar o maior número de eleitores possíveis. Já as “carreatas” ocorrem com os eleitores a pé, de carro e de moto (Venancio 2018: 95). As mobilizações e os recursos eleitoreiros são diversos: distribuições de santinhos, concentrações diárias em frente às casas dos candidatos na aldeia, bandeiras com os nomes dos candidatos e jingles políticos.

Na campanha eleitoral, as relações interétnicas eram intensas. A tabela a seguir mostra quais foram os indígenas que concorreram à Câmara de Colégio e os não indígenas que disputaram a Prefeitura. É possível ler os nomes dos candidatos Kariri-Xocó e a quais candidatos à prefeitura se coligaram:

Candidatos/as indígenas a vereadores Candidatos não indígenas a
prefeitos
Uilio da Aldeia (Partido Republicano Progressista). Sergio Reis dos Santos
Dadá da Aldeia (Partido Solidariedade) Dr. Eliseu
Chiquinho da Aldeia (Partido do Movimento Democrático Brasileiro). Lobão
Alcivanio Professor (Partido Solidariedade). Dr. Eliseu
Lourdinha da Aldeia (Partido da Social Democracia Brasileira). Aldo Popular

Importante dizer que mesmo aqueles Kariri-Xocó que não se lançaram a candidaturas de vereadores, envolveram-se diretamente nas eleições, uma vez que nesse contexto, a política Kariri-Xocó esteve envolvida em uma lealdade de parentes (Gluckman 1981 [1940]). Segundo um candidato indígena, seu grupo de apoio político foi uma equipe formada por sua família e amigos. Afirmou: “Aqui dentro, na política, para poder entrar numa política, tem que ter família em primeiro lugar”. Recorreu à categoria “família de casa” formada pelos genitores, irmãos e primos que atuaram por laço de fraternidade: “Eles não iam cobrar nada. Eles iam fazer por vontade própria”. À família de casa são atribuídos “cargos” e “funções” para poder ajudar o candidato na eleição. 

“Todo canto que você puxa é parente”, afirmou um jovem Kariri-Xocó, evidenciando a indissociável inter-relação parentesco e política na aldeia. Ocorreu de eleitores indígenas terem mais de um parente do mesmo “tronco” [2] lançado à vereança. Nesses casos, questionavam em quem votar, gerando tensões pessoais e familiares sobre quem apoiar no âmbito político-eleitoral das relações de parentesco. Consequentemente, durante as escolhas dos candidatos indígenas algumas estratégias foram colocadas em prática a fim de decidir em quem votar. Conforme explicaram, inicialmente existe uma fase de persuasão em que os membros da família tentam convencer um ao outro a votar em determinado candidato. Se em uma mesma família há três candidatos, os mais próximos a eles, como pai, mãe, irmão e/ou primo argumentam com os demais parentes para que deem o voto a determinada pessoa. Outra estratégia foi a divisão de votos:“Sempre quando tem cinco votos em casa, aí as pessoas fazem o quê: dá três [votos] a um [candidato] ou dá dois [votos] a um [candidato] e divide um [voto] para cada um. Aí, um ganha mais e o outro é dividido para poder agradar ambas as partes”. [3]

Articulação aldeia e cidade

O candidato Kariri-Xocó para ser eleito precisou de votos de pessoas de dentro e de fora da aldeia. Aqueles indígenas que moram fora da aldeia, em localidades como o Distrito Federal, nos estados de Sergipe e de Pernambuco, compareceram em Porto Real do Colégio no dia da votação. Ou seja, os “índios” fora de Porto Real do Colégio vincularam seus títulos eleitorais à aldeia. Segundo informações, um juiz despachou pedido judicial para que a Prefeitura de Colégio disponibilizasse ônibus para transportar eleitores indígenas que vivem em Águas Belas, Pernambuco, reconhecidos como Fulni-ô. Esses indígenas moraram na aldeia Kariri-Xocó e seus títulos de eleitores correspondem ao município de Porto Real do Colégio.

Conforme afirmado por Wythaia, a aldeia Kariri-Xocó “é o segundo maior curral eleitoral” do município de Porto Real do Colégio. A sua frente está a cidade de Porto Real do Colégio[4]. O eleitorado na aldeia Kariri-Xocó é estimado em cerca de 1.700 eleitores indígenas, conforme ouvi durante a pesquisa de campo. Um dos candidatos indígenas, Dadá da Aldeia, afirmou que as eleições sempre são decididas pelos votos da aldeia. Assim, segundo os Kariri-Xocó, somente por meio desses votos seria possível eleger de dois a três vereadores indígenas, mas como houve cinco candidatos, os votos de fora eram imprescindíveis. O movimento político de articulação exógena e endógena, i.e, dos de fora da aldeia para com os de dentro da aldeia e vice-versa, perpassou todo o período eleitoral, uma vez que os candidatos à prefeitura dependeram enormemente dos votos dos eleitores indígenas.

Torna-se necessário, assim, entender as motivações da inserção dos Kariri-Xocó na política brasileira: (i) consideram que estão desassistidos pelo Estado brasileiro; (ii) criticam a falta de ação da Fundação Nacional do Índio para com suas demandas; e (iii) evocam a representatividade como questão central para que os Kariri-Xocó se mobilizem politicamente, já que a representação política tem se dado de modo hegemônico pelos brancos, conforme afirmou Pawanã: “Esses representantes são brancos, não são indígenas. São deputados que são brancos. […]. Imagine um indígena. Ia ser diferenciado, né?”.

O ideal para os Kariri-Xocó seria um representante indígena que se articulasse politicamente à esfera local e nacional. Na visão de um homem Kariri-Xocó, esse tipo de articulação política poderia ajudar “para uma terra do índio sair mais rápido”, sendo que a homologação da área indígena Kariri-Xocó é ansiada por esse povo indígena há décadas. Desse modo, a reivindicação pelo território de ocupação tradicional foi relevante na hora de escolher o vereador indígena. A decisão de Pawanã para eleger um representante político de seu povo, nesse caso, Dadá da Aldeia, esteve diretamente relacionada ao envolvimento desse candidato na retomada do território Kariri-Xocó.

A noção de ser “diferenciado” em relação ao “cabeça-seca”[5] apresenta-se em termos de etnicidade em que a demarcação de uma “fronteira étnica” (Barth 2000) é comunicada em diversos momentos: (i) Tawanã enfatiza que os indígenas “são políticos, sim! E assim como os não índios da cidade nos dominam, dominaram há muito tempo, então hoje, nós temos que dominar. Mas, não esqueça quem você é: você é um índio, você tem o Ouricuri”; (ii) na divulgação dos nomes dos candidatos Kariri-Xocó ao associarem o termo “aldeia”: Uilio da Aldeia, Dadá da Aldeia, Chiquinho da Aldeia e Lourdinha da Aldeia; (iii) em algumas músicas eleitorais que começavam ao som do Toré; (iv) além de jingles políticos ritmados em forró. Citemos o referente à campanha de Uilio da Aldeia que traz marcadores étnicos: “índio guerreiro”, “índio bom”, “Kariri-Xocó de berço”, “a cultura é uma beleza”; além da relação interétnica, pautada em interesses políticos deste indígena e de um “cabeça-seca”, no caso, Sérgio Reis, candidato à prefeitura de Porto Real do Colégio, que não foi eleito.

Viva o Sérgio Reis, Porto Real do Colégio vai azular[6].  

Já faz tempo que ele vive cuidando da nossa aldeia,

Uilio é da nossa gente, todos podem confiar.

Índio bom, índio guerreiro, coração grande, valente,

Lutador e competente, nele eu voto para ganhar.

44444, esse é o voto da vitória do índio guerreiro.

O povo pulando grita: “o meu voto não tem preço”.

Kariri-Xocó de berço, só briga para ganhar.

Nossa luta não tem fim, a cultura é uma beleza.

Dois de outubro, com certeza é Uilio que eu vou votar.

Na beira do Velho Chico[7], Kariri-Xocó, sou índio e para me representar,

Para lutar pelo meu povo e se quiser grito de novo: “é Uilio que eu vou votar”.

Simbora, meu povo! Olha o furacão azul chegando aí gente.

(Bis).

Grande Uilio, o orgulho do povo Kariri-Xocó.

Mais uma vez, na defesa do seu povo junto com Sérgio Reis.

Olha o furacão azul chegando aí gente.

Resultados finais das eleições: “os dois índios”

Em dois de outubro de 2016, os Kariri-Xocó foram às urnas para votar. Após o dia intenso de votação, foi chegada a hora esperada da divulgação dos resultados. A concentração ocorreu em frente ao Cartório Eleitoral e na aldeia. A notícia da contagem dos votos e dos candidatos indígenas eleitos se deu de “boca em boca”, espalhando-se pela aldeia. Um menino gritou: “Dadá!” e abraçou outro menino que se encontrava na rua de terra da aldeia. Mulheres indígenas comemoraram a vitória de Dadá que foi eleito com 538 votos. Uilio da Aldeia foi eleito em quarto lugar com 616 votos. Ouvi durante a comemoração: “Os dois índios”. Esse resultado não era inédito, uma vez que nas eleições de 2000, já haviam sido eleitos dois Kariri-Xocó à Câmara de Porto Real do Colégio (Silva 2004 [2003]: 25).

Mesmo assim, a comoção na aldeia foi enorme e visível: “Para nós índios é muita emoção. É muita emoção para nós índios”. Esse acontecimento histórico-político merecia e precisava ser comemorado: “Vamos dançar”. Ao longe, na entrada da aldeia era possível escutar um canto vibrante, com dezenas de Kariri-Xocó a pisar fortemente no chão de terra da aldeia. Era o Toré da celebração. Homens, mulheres, crianças e idosos formavam um só corpo no cantar e dançar. A letra foi adequada ao contexto: “É Uilio e Dadá. É Uilio e Dadá”.

Referências bibliográficas

ARRUTI, José Maurício P. A. 1996. O Reencantamento do Mundo Trama histórica e Arranjos Territoriais Pankararu. Dissertação apresentada ao PPGAS do Museu Nacional, Rio de Janeiro.

BARTH, Fredrik. 2000. “Os grupos étnicos e suas fronteiras”. In: Fredrik Barth. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Tradução de Jonh Cunha Comerford. Contra Capa Livraria, Rio de Janeiro. pp. 25-67.

GLUCKMAN, Max. 1981. “O reino dos Zulu na África do Sul.” In: M. Fortes e E.E. Evans-Pritchard. Sistemas Políticos Africanos. Tradução de Teresa Brandão. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa. pp. 63-115.  

PALMEIRA, Moacir; HEREDIA, Beatriz Maria Alasia de Heredia. 2010. Política ambígua. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Núcleo de Antropologia da Política (NuAP).

SILVA, Christiano Barros Marinho da. 2004. “‘Vai-te pra onde não canta galo, nem boi urra…’. Diagnóstico, tratamento e cura entre os Kariri-Xocó”. In: Luiz Sávio de Almeida. Índios do Nordeste: temas e problemas 5. Maceió: EDUFAL.

VENANCIO, Manuela Machado Ribeiro. 2018. Os Kariri-Xocó do Baixo São Francisco: organização social, variações culturais e retomada das terras do território de ocupação tradicional. Tese de Doutorado, Universidade Federal Fluminense – Niterói.

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* Bolsista CAPES.

[1] Tendo resultado em minha tese de doutorado Os Kariri-Xocó do Baixo São Francisco: organização social, variações culturais e retomada das terras do território de ocupação tradicional, defendida no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense, 2018. Neste artigo faço referência aos dados etnográficos e às análises antropológicas apresentadas e desenvolvidas na Tese, em especial, no capítulo 2. Organização Social e Parentesco.

[2] Ao conversar com os Kariri-Xocó sobre suas genealogias recorreram ao termo “tronco” como uma metáfora do parentesco (Arruti 1996). Ao explicarem a formação de seus grupos familiares referem-se a um antepassado em comum de descendência materna ou paterna. Os troncos são aqueles ascendentes (homens e mulheres) que estabeleceram relações exogâmicas entre uma ou diversas etnias (Kariri com Kariri, Kariri com Xocó, Kariri com Pankararu, Kariri com Fulni-ô e assim por diante), dando origem aos seus descendentes que atualmente vivem na aldeia Kariri-Xocó. O tronco é um grupo familiar que se iniciou com a aliança entre dois antepassados do sexo masculino e feminino, cuja reprodução do grupo familiar é feita pelos mais novos, ou seja, os descendentes (Venancio 2018: 13).

[3] Explicado por Tawanã Kariri-Xocó (Venancio 2018: 96).

[4] Município e cidade recebem o mesmo nome.

[5] Termo nativo para se referir ao “homem branco”, não conhecedor do Ouricuri. Para entender melhor essa noção indígena ver Venancio (2018).

[6] Azul era a cor da sua coligação política.

[7] Rio São Francisco. A aldeia Kariri-Xocó é em frente ao Rio. Para compreender a importância do Rio São Francisco na vida dos Kariri-Xocó consultar Venancio (2018).