POSSIBILIDADES E DIFERENÇAS

Uma interpretação antropológica acerca de observações e narrativas surdas
numa universidade pública



Tamara Vieira da Silva
Universidade Federal do Ceará
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira



Apresentação da Problemática

A partir das relações com pessoas surdas, desde o meu âmbito familiar às minhas atuações profissionais, pude refletir em diversos momentos sobre as nossas possibilidades de vivências comuns; assim como sobre experiências específicas às pessoas com surdez com as quais me relacionei e me relaciono que são: minha irmã e as pessoas para quais interpreto e traduzo hoje. Atualmente, atuo como Tradutora/Intérprete de Língua de Sinais Brasileira – Libras em uma universidade pública, na qual trabalho diretamente com duas pessoas surdas. Além disso, faço parte de uma família com uma irmã surda filha de pais ouvintes. Localizar a minha fala nesse momento representa definir alguns pontos dos quais parto para essa reflexão.

A inclusão de pessoas surdas em espaços majoritariamente composto por pessoas ouvintes – que dizem respeito a pessoas como eu, que escutam – remete a um campo de conflitos que deve ser contextualizado para que tenhamos uma compreensão localizada de como essas relações se desenvolvem num determinado espaço de tempo. Aplicarei à categoria de surdez as considerações de Lopes (2019), segundo quem compreender etnograficamente a categoria da deficiência significa compreendê-la a partir das relações sociais em que elas se inserem. Isso nos permitirá interpretar tal categoria a partir das relações sociais que pretendemos investigar no campo de uma universidade pública.

Posto isso, esta pesquisa em desenvolvimento a partir do curso de mestrado no qual estou matriculada, investiga a surdez como uma categoria complexa, alicerçada na perspectiva da deficiência como uma produção sociocultural refletindo sobre como as experiências surdas dos interlocutores com os quais atuo estão sendo construídas na universidade. O que quer dizer que refletiremos sobre as histórias de vida trazidas, considerando a surdez numa perspectiva relacional da deficiência ao buscarmos descrever os contornos específicos que esta experiência traz em diferentes contextos socioculturais. Objetivamos, portanto, deslocar a deficiência da condição de experiência corporal substantiva pautada exclusivamente pela negatividade e ausência, para uma corporeidade experimentada em toda sua transitividade (Rios, Pereira e Meinerz, 2019).

Referencial teórico

A problemática apresentada está baseada nas discussões de Foucault (1977 e 1979) a respeito dos corpos como alvos de relações de poder inseridos num campo político mais amplo. Sendo assim, partimos do pressuposto que para compreendermos essas relações no campo da universidade, se faz necessário num primeiro momento identificarmos quais elementos nossos interlocutores evocam em suas experiências, que passam também pelos seus corpos enquanto refletores de uma realidade política, ou ainda como eles se tornam o que Foucault chama de corpo social. Concordamos também com Le Breton (2007) sobre a necessidade de antropólogos e sociólogos pensarem a condição corporal como um fenômeno social e cultural, com motivos simbólicos e enquanto objeto de representações e imaginários, portanto, provedores de significações e valores.

Considerando essas relações, pretendemos, a partir de Diniz (2003 e 2007), interpretar a deficiência enquanto um conceito relacional do corpo com a estrutura social, de modo que se considera a surdez no campo da deficiência como uma condição corporal que permite à pessoa surda uma experimentação de um corpo fora da norma, como uma das muitas formas de estar no mundo.

Assim, para então conhecermos as especificidades que envolvem as vivências dos interlocutores surdos começamos a investigar, em concordância com Mello (2006), atentos para a diversidade existente na surdez que perpassa por condições distintas de acesso à comunicação e informação, o que consequentemente faz com que os interlocutores também perpassem por essas condições de maneira distinta dentro da universidade.

Nesse contexto, objetivamos então, nos baseando na discussão de Munanga (2003), investigar antropologicamente como se dá a construção social das vivências dessas pessoas, partindo do pressuposto que elas se realizam num espaço-tempo determinado envolvendo indivíduos, grupos e sociedades. Concordamos então que essas experiências devem ser estudadas pela antropologia considerando suas histórias, estruturas de produção, memória coletiva, fantasmas pessoais e aparelhos de poder em contraposição a determinações sociais e projetos culturais. Considerando esse objetivo, buscamos identificar o que há de dialético e o que há de excludente entre os nossos interlocutores.

Metodologia

Segundo Mello e Nuernberg (2012), os Estudos sobre a Deficiência vêm despontando um sólido contexto acadêmico interdisciplinar que pretende refletir sobre o fenômeno da deficiência a partir do uso de metodologias e ferramentas próprias das Ciências Sociais. Posto isso, a metodologia que está sendo utilizada em nessa pesquisa é de cunho qualitativo, pois partimos da concepção da antropologia enquanto uma teoria interpretativa e dialógica. Essa relação dialógica, contudo, segundo Uriarte (2012), só é possível através da observação participante.

A observação participante vem acontecendo durante as aulas de Libras ministradas por uma professora surda e nas aulas de graduação de um estudante surdo. A escolha desses interlocutores parte a priori de um discurso em que eles se autodeclaram surdos e têm exigido a partir desse discurso um espaço de fala e representatividade na universidade. Essas falas serão registradas não só através da escrita nos diários de campo, mas também a partir de entrevistas filmadas – a fim de que as falas sejam, quando pertinentes, registradas a partir da língua de sinais.

Acreditamos que as falas que serão analisadas nos aproximam das realidades observadas, pois, em concordância com Peirano (2018), as palavras na pesquisa de campo apontam, acentuam, evocam e até criam o contexto nas quais ocorrem e que trazem consequências, realizam tarefas, comunicam e produzem resultados. Partindo dessa abordagem então, concordamos com Suely Kofes (1994) quando ela afirma que ao analisarmos histórias de vidas podemos produzir nossa própria análise, explicações e interpretações. Sem esquecermos, no entanto, que esta escrita é contextual, política e histórica; portanto, reflete também parcialidade em suas demonstrações.

Assim, a fim de que possamos desenvolver essa análise, partimos de alguns percursos metodológicos: entrevistas semiestruturadas gravadas em vídeos, observação do cotidiano na universidade, reuniões e eventos que eles venham frequentar, assim como relatos de vida motivados pelo interesse da pesquisa.

Considerações sobre o campo e Articulação entre dados etnográficos

Atualmente, o campo de pesquisa no qual atuamos é composto, como já foi dito, por duas pessoas surdas que se relacionam com profissionais, discentes e comunidade externa nesse espaço acadêmico. Num primeiro momento, podemos pontuar que essas relações perpassam: os cursos de formação básica em Libras promovidos pela universidade, os estudantes do curso de graduação no qual o estudante surdo está matriculado, os colegas da profissão que atuam em conjunto com a professora surda, os estudantes das disciplinas de Libras ministradas nos cursos de graduação; dentre outras relações possíveis vinculadas à esses nichos e aos próprios interlocutores.

Diante desse contexto, os interlocutores delimitam um espaço de fala e demandas próprias na universidade tais como a presença de intérpretes nas aulas, reuniões e eventos. Esse discurso vem sido trazido em momentos de aulas, reuniões de colegiado, reuniões de planejamento e eventos acadêmicos. Dessa maneira, essas vivências me trazem uma inquietação ao perceber como a surdez se constrói e se reconstrói enquanto uma categoria relacional neste campo, tendo em vista que, podemos pontuar alguns contornos nesse contexto que envolve distintas classes sociais, por exemplo.

Nessa discussão, consideramos que os corpos dos nossos interlocutores podem ser objetos de representações e do imaginário daqueles que compõem os espaços que eles frequentam como, por exemplo, quando eles nos relatam as vivências que tiveram em ambientes de trabalho e também no próprio ambiente familiar.

“Na mesma empresa comecei a trabalhar no setor administrativo e eu ficava pensando que aquela área não era compatível com a que eu queria, mas pelo menos eu estava aprendendo coisas novas e adquirindo experiência. Não era tão repetitivo nessa área como era no estoque, por exemplo, então era bom apesar do salário ser baixo. Eu comparava as relações que eu tive nesses espaços com as que eu tinha em casa, pouca interação, pouca comunicação.” Interlocutor I, abril de 2020.

“Eu lembro da época que eu não aceitava língua de sinais, achava aqueles gestos parecidos com macacos. Eu via surdos sinalizando e não gostava. Eu entendo que é culpa da influência que recebi da minha família, mas eu não me arrependo, não acho ruim ou fico triste.” (Interlocutor II, abril de 2020)

Esses exemplos trazem alguns elementos que demonstram como as vivências se repetiram no ambiente familiar e no ambiente externo. No primeiro relato, há uma mesma problemática vivenciada em casa e no trabalho em relação à comunicação do interlocutor com as pessoas ouvintes com as quais convive. No segundo, há um exemplo de como a comunicação era vista a partir do ambiente familiar e como essa compreensão era levada em outros contextos a partir também da comunicação do interlocutor surdo. Nesse sentido, podemos entender como algo dialético entre os dois interlocutores os depoimentos que eles trazem e que demonstram os poderes exercidos a partir das relações familiares em seus próprios corpos, tendo em vista que as realidades com as quais eles estão vinculados no ambiente doméstico os marcam diante de suas compreensões acerca de como devem se comunicar ou não em outros espaços e com outros sujeitos.

De acordo com Peirano (2008), as falas analisadas são um meio de nos aproximar das realidades observadas. Sendo assim, entendemos então que para que alcancemos uma análise desse contexto devemos contemplar também encontros fora da sala de aula. Os contornos específicos dos quais nos referimos que orientam a nossa compreensão dessas realidades dizem respeito às vivências destes vinculadas a classe social a qual estão inseridos demonstrados a partir dos seguintes depoimentos:

“Meu pai trabalhava e minha mãe também, era enfermeira. Os dois trabalhavam, meu pai era motorista de ambulância. As nossas condições eram realmente muito diferentes do que são hoje, vivíamos em condições precárias e fui crescendo durante um tempo nesse contexto. Meus pais não perceberam desde o meu nascimento que eu era surdo, não sabiam se eu tinha algum tipo de deficiência ou não até eu completar 3 anos de idade. Foi um momento difícil essa descoberta. Na época fui levado pelos meus pais ao médico e fiz alguns exames que diagnosticaram a minha surdez. Meus pais ficaram angustiados, tristes, não sabiam como se comunicariam comigo, não sabiam como reagir ou lidar com essa situação. Tivemos muitas dificuldades, surgiram questionamentos. Quem explicaria como se comunicar comigo? Como as pessoas lá fora se comunicariam comigo? Como seria na escola? Eu conseguiria aprender? Adquirir conhecimentos? Como seria meu futuro? Quais seriam as possibilidades pra mim? Não sabiam.” (Interlocutor I, abril de 2020)

“Na época não tinha tecnologia, não eram tratamentos tão tecnológicos como temos hoje. E aos seis meses de vida meus pais descobriram que eu era surda e procuraram fonoaudiólogas ou médicos que fossem especialistas aqui em Fortaleza. Procuraram e não encontraram, então resolveram voltar os dois a morar em São Paulo. Lá eu comecei o tratamento com uma fonoaudióloga, eu tinha um ano. Ela na época estava cursando doutorado e foi a primeira pesquisa dela em “comunicação total”. Então ela começou um trabalho comigo de estímulos visuais através da escrita, de fotos, imagens, desenhos; mas eu era muito bebê. Eu já comecei aí a ter contato com o alfabeto e língua portuguesa. Aí fui crescendo e meus pais sempre frequentaram uma instituição lá que tinha voltada para pais de crianças surdas. Então pegavam informações, faziam cursos pra saber como ensinar crianças surdas. Aí eu fui me desenvolvendo. Então nesse contexto meus pais sempre me ensinaram português. Também procuraram uma professora particular pra mim de português, da mesma instituição que eles já frequentavam.” (Interlocutor II, abril de 2020)

Considerando esses depoimentos podemos interpretar enquanto realidades que refletem como a deficiência e a classe social propiciaram contornos determinantes nas vivências dos interlocutores diante do diagnóstico da surdez e da assistência necessária para esse momento. Por conta do segundo interlocutor ter melhores condições financeiras, pai médico e uma estrutura material, o que difere das condições materiais trazidas no primeiro relato.

Nesse contexto, considerando a surdez em concordância com Barros (2015) entendemos que existem peculiaridades, que podem distinguir essas pessoas surdas dos demais grupos sociais de pessoas com deficiência – assim como dentro do próprio grupo de pessoas surdas, tais como: o uso de uma língua gestual legitimada por lei, a ressignificação da deficiência como marca de identidade e a luta pelo reconhecimento de uma cultura própria motivada por esses dois elementos anteriores. Posto esse debate acreditamos na relevância do desenvolvimento deste trabalho para compreensão local acerca de como nossos interlocutores tem experenciado a partir da surdez as vivências nessa universidade.

Referências Bibliográficas

BARROS, Eudênia Magalhães. 2015. Ações Coletivas, Identidade e Mobilizações Políticas: Movimento Social Surdo e a luta por reconhecimento. Dissertação de Mestrado em Sociologia, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.

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LE BRETON, David. 2007.  A Sociologia do Corpo. Rio de Janeiro: Vozes.

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MUNANGA, Kabengele. 2003. “Diversidade, Identidade, Etnicidade e Cidadania”. Cadernos Anped – Palestra proferida no 1º seminário de Formação Teórico-Metodológica. São Paulo.

PEIRANO, Mariza. 2008. “Etnografia, ou a teoria vivida”. Ponto Urbe 2: 1-11.

RIOS, Clarice. PEREIRA, Éverton Luís. MEINERZ, Nádia. 2019. “Perspectivas antropológicas sobre deficiência no Brasil”. Anuário Antropológico44(1): 29-42.

URIARTE, Urpi Montoya. 2012. “O que é fazer etnografia para os antropólogos?”. Ponto Urbe 11: 1-13.