“QUEM LÊ COMPARTILHA, IRMÃO”

Slam, entre leituras e poesias



Rhuann Fernandes
Universidade do Estado do Rio de Janeiro


Figura 1: Stella Carvalho declama sua poesia enérgica e diz: “Povo preto, teu quilombo te chama”. Créditos: Louise Wine.

Este artigo retoma fragmentos da etnografia que desenvolvi para pesquisa: “Territórios Literários: novas tecnologias, práticas de leitura e de compartilhamento na contemporaneidade”, realizada pelo Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESAP), na qual estive como auxiliar de pesquisa durante dois anos, quando ainda estava na graduação de Ciências Sociais. O objetivo central de meu trabalho esteve ligado a compreender se os poetas presentes nos slams — crescentes batalhas e campeonatos de poesias entre jovens que vem tomando posse das favelas e parte da cidade do Rio de Janeiro — praticavam leituras de obras para composição de suas letras, uma das evidências que mais apareceu durante meus trabalhos de campo. Como a resposta das dez entrevistas realizadas foi positiva[1], procurei entender, no segundo momento de minha pesquisa, como e por quais plataformas as leituras eram exercidas pelos poetas.

Atualmente, há um questionamento constante se estamos lendo menos ou mais, ou melhor, se temos paciência para finalizar uma obra literária, visto que há uma crença generalizada de que estamos no curso de um atrofiamento intelectual ocasionado pelas ondas tecnológicas e a ampla gama de redes sociais — o que supostamente atrapalharia no processo de leitura. Esta convicção é depositada, sobretudo, no público jovem que geralmente é visto como os mais afetados e desorientados quanto ao uso da internet.

Nesse sentido, minha intenção foi desmistificar este ponto de vista, muitas vezes baseado em “achismos” e pesquisas quantitativas com tendências generalizantes que não expressava os anseios e a realidade de muitos jovens, dado que desconfio de abordagens que coloca a leitura como global ou homogênea, bem como aquelas interpretações que descaracterizam um público específico, colocando-o como inerte com relação à leitura. Por conseguinte, esta investigação foi feita para compreender dinâmicas do ato de ler em um evento específico, cuja indagação central girava em torno da leitura. Com isso, estamos em consonância quanto à pertinência de mudar a pergunta em torno de “quanto se lê” para problemática de “como se lê” (Canclini 2014), principalmente pelos poetas que frequentam os slams.

De outro modo, este meu diálogo com os indivíduos foi exercido pelo meu interesse por trajetórias individuais e as supostas estratégias dos atores sociais na construção e participação do slam. De início, identifiquei que nos slams havia um enaltecimento do objeto livro e suas prósperas funções sociais na vida dos indivíduos que participavam. As indicações dessas leituras são apontadas quer nas bibliotecas itinerantes montadas para doação de obras, quer no discurso poético dos slammers (como são chamados os competidores do slam) sendo discutido, em princípio, como a leitura pode transformar as pessoas e, consequentemente, o ambiente onde elas vivem[2].

A apropriação desta leitura para composição dos versos fundamenta a poesia de referência, que é de suma importância para o poeta conseguir prestígio, pois indica uma apropriação de conteúdo ao utilizar a citação de acontecimentos históricos, líderes revolucionários e personagens épicos nos versos, sendo boa parte das poesias ricas em figuras de sentido, o que garante o reconhecimento singular da letra do poeta. Neste sentido, há, na disputa entre os slammers, uma construção do discurso em torno da leitura e a tentativa de medir sua efetividade.

Figura 2: Gabz se apresenta no Slam Laje, no Complexo do Alemão. Créditos: Bento Fabio / Slam Laje / Coletivo Papo Reto.

Em um ilustre comentário, Chartier (1998) ressalta que o leitor, ao apoderar-se de um texto, transforma-se em um caçador que andarilha terras alheias, apropriando, inventando e dando novos significados ao que se lê. Com os novos aparatos tecnológicos e suportes de leitura, este leitor reinventa, não só os textos, mas às maneiras de compartilhá-lo e excogita os espaços que anunciam a relação entre corpo e texto, de acordo com suas limitações materiais, convenções e hábitos que representa a execução da leitura. Além do mais, as ricas fantasias do leitor a partir de um determinado escrito, oferece uma liberdade de deslocar, modificar e transfigurar aquilo que o livro o pretende impor.

Estes questionamentos nos fazem repensar outro fator: a ambiguidade da obra literária, em que se permite, a partir da visão do leitor, variadas interpretações, diferente dos sentidos que seus autores, editores e comentadores deram. Nesta direção, Vilhena (1997) destaca que é necessário perceber a produção da leitura como um processo global que não é inteiramente controlado, nem por aquele que escreve, nem por aquele que lê, “ambos participam de um jogo de produção de sentidos muito mais amplo do que um mero exercício de decifração de sinais” (p. 112). Não podemos nos esquecer que o leitor não consome passivamente um texto, “ele se apropria dele, o interpreta, deturpa seu sentido, desliza sua fantasia e seu desejo, suas angústias entre as linhas e as mesclas com as do autor” (Petit 2013: 27).

Hoje, as constatações e os alardes jornalísticos em torno da leitura impressionam, em que se descaracteriza a pluralidade de modos de ler que se fazem presentes com as redes sociais, justificando o mito do leitor solitário presente nos grandes templos e bibliotecas, sem conceder atenção às novas modalidades de leitura que sinalizam para uma reelaboração das práticas leitoras. De modo oposto, concebemos os efeitos dos atuais suportes eletrônicos e como eles têm feito emergir novas formas de percepção e cognição. 

Por conta disto, a partir das problematizações de Vilhena (1997), incorporamos o ato de ler como uma produção exaustiva, em que o leitor apropria e vislumbra dinâmicas outras para alterar o local, o modo e a corporeidade, pois “sempre haverá uma pluralidade de práticas leitoras numa sociedade” (Vilhena 1997: 107). Nesta linha de argumentação, identifica-se que as formas de leitura e escrita nem sempre estão relacionadas com os livros em papel ou em lugares pré-definidos para elas, entendendo que isso não significa ausência ou inserção de qualidade e, ao problematizar este fator, contribui-se para um processo de expansão e de dessacralização da leitura.

Assim, entende-se que a introdução de novas tecnologias comunicativas, tais como celulares e aplicativos com acesso as redes sociais, diferente do que comumente é pensado, não coloca a escrita em segundo plano e muito menos prejudica a leitura, uma vez que ambas permanecem sendo utilizadas em seu interior, mediante o processo criativo dos agentes sociais que as fomentam e as fazem reaparecer nos seus múltiplos e novos formatos.

Figura 3: Poeta Ciindy Cemente (Grilo) no Slam Grito Filmes + Slam Resistência (Edição RJ). Créditos: Fernando Salinas.

Ao entender estes fatores e propondo o alargamento da concepção de leitura, ao considerar diferentes suportes e formatos, podemos inicialmente confrontar os famosos jargões repetitivos de que o brasileiro, e em especial, o público jovem, lê pouco. Tal como foi registrado na pesquisa intitulada “Retratos da Leitura no Brasil”[3]. Não podemos considerar a denúncia “se lemos menos ou mais” apenas na atualidade, pois se verifica esta proposição em vários momentos da história ocidental, trata-se de algo variável. Segundo Chartier (1998: 91), “sempre se leu ou nunca se leu suficiente, isto depende do ponto de vista (…) há multiplicidade de modelos de leitura, de práticas, de competências, portanto, há tensão”.

Por este ângulo, o leitor é interpretado como singular, variando segundo suas próprias circunstâncias, sendo cada leitura uma leitura única. De acordo com Petit (2010), a leitura é um hábito paradoxal e performático, pois ao mesmo tempo em que é uma ação solitária ela permite o encontro de múltiplos universos, ela é o meio de experimentar uma permanência onde não há e é talvez por isso que lemos tanto nos meios de transporte atualmente. 

Sob esta concepção, encaramos o caráter híbrido e, eventualmente, fragmentado da circulação de informações em um contexto de mobilidades e deslocamentos que implicam em reinvenções tanto da cidade, quanto do espaço íntimo hermético naturalizado como lócus da experiência da leitura (Almeida 2020). Alicerçada, mas não rebaixada aos fluxos contínuos das plataformas digitais, a leitura é atravessada pelo desejo de encontro e compartilhamento entre leitores que buscam, por intermédio das redes sociais, anunciar os variados eventos que podem contemplá-la, tal como os slams.

Nesta direção, D’Alva (2011) observa que o crescimento do slam tem a ver com a necessidade das pessoas se organizarem coletivamente e na presença física, deixando de lado um pouco as redes sociais, mas utilizando-a como canais para divulgação. Não obstante, nestas ocasiões são encontradas bibliotecas itinerantes, que além de realizarem intervenções poético-visuais no tecido urbano, levam os livros às ruas e os celebram em torno do ambiente da cidade.

À vista disso, a leitura compartilhada no slam, bem como os modos de interação com o objeto livro e os jogos teatrais realizados, fazem-nos repensar alguns fatores, nos possibilitando discutir o espaço urbano como um componente ativo da conformação da experiência. Nota-se que a cidade se tornou palco de uma crescente efervescência destes eventos que promovem variados processos de socialização por meio da celebração da poesia e leitura, que envolvem dentro deles batalhas de rima e poesia, festivais literários etc. Por fim, destacam-se ações que entrelaçam de diferentes modos a leitura na contemporaneidade. Tais lugares têm sido reinventados para acolher o dinamismo das experiências de leitura na cidade e de seus respectivos impactos sobre as formas de experimentação e fruição do conteúdo escrito, além de produzir subjetividades e suas inflexões no mundo (Almeida 2020).

Ao entrevistar as pessoas presentes nos slams que acompanheipercebi que a prática de leitura e a vivência dos poetas e mc’s são indissociáveis. A leitura de textos aparecia, nos discursos, como algo formador que criou um “mundo novo” em suas vidas, capaz de oferecer horizontes múltiplos sobre um único problema, além de influenciar no poder da oralidade da linguagem.

A inspiração para escrever poesias, segundo Andréa Bak — uma das pessoas que tive o prazer de conversar no “Slam Grito Filmes + Slam Resistência” — vem de sua militância, em que ela busca ressaltar aspectos políticos que apontam o descontentamento com a infeliz condição social que vive enquanto mulher negra. Para Bak, a leitura é utilizada como ferramenta, já que ela transfere um conhecimento específico sobre os fatos, ampliando o conhecimento que a ajuda ganhar as batalhas de poesias.

A competição de poesia promove o discernimento e, os atores participantes, não saem de um slam da mesma forma que entraram. Segundo meus interlocutores, alguma coisa acontece e as palavras tocam profundamente quem assiste, numa troca incessante de ideias. Como ocorreu com Matheus de Araújo — também presente no “Slam Grito Filmes + Slam Resistência” — ele me informou que começou a ler há três anos, quando buscou formas de se expressar e procurava saber como as pessoas pronunciavam-se nos slams, “foi daí que eu comecei a ler mais”, comentou.

Para Matheus, a leitura se torna escrita quando as pessoas percebem a força dessa leitura, mas ela não vem do nada, a pessoa desenvolve este senso a partir daquelas pessoas que se tornam referências para elas numa batalha, quando falam de um aspecto e as tocam profundamente. “Eu me vi em várias poesias, li e ouvi a minha própria realidade escrita por outras pessoas, isso também te inspira a falar dessa realidade”, descreveu Matheus.

Em consonância com estes aspectos ressaltado por Matheus, Bak chama atenção que ela assistia vídeos da apresentação de poetas no slam pelo youtube e via que poderia fazer igual. A partir disto, o que a motivou foi saber que poderia passar a mensagens revolucionárias através de seus escritos, fazendo as pessoas refletirem. A leitura, para ela, não incentivou a participar do slam, ela foi utilizada como ferramenta neste evento. Porque, segundo suas palavras, “a leitura em si não é minha fonte de inspiração, porém ela me ajuda a me encaixar mais nesses eventos por que eu consigo ter uma base de como escrever e como eu escrevo”. Assim como ela, muitos ressaltavam o fato de que acessar os livros constitui hoje um espírito crítico de uma maneira distinta do que ocorria na escola, permitindo-os habitar o mundo poeticamente. Por isso, valorizavam a troca de livros nas ruas. Neste sentido, a leitura é um gesto muitas vezes discreto, que passa de um sujeito a outro.

A maneira pela qual a leitura era canalizada se manifestou de diversos modos nas palavras dos poetas. Em resumo, muitos deles afirmaram-me que davam prioridade ao livro físico, mas que a atualização do mundo político e seus possíveis desdobramentos, por exemplo, viam por intermédio do Facebook. As divergentes opiniões de amigos nas redes, nos famosos “textões”, também os informavam, tratando-se de uma eficaz forma de leitura.

Insubstituível e, ocasionalmente, latente. Nos slams, a leitura é manifestada como uma experiência única, em que as dimensões particulares se confundem com o que é dividido publicamente, estando ligadas de modo indesatável. O poema nesse contexto, expressa a vivência do autor, em seus mais diversos enfrentamentos, em que “o desejo de saber, a exigência poética, a necessidade de relatos e a necessidade de simbolizar a experiência constituem a especificidade humana” (Petit 2010: 32).

Nesta perspectiva, estou de acordo com Petit (2013: 31), pois acredito que a leitura pode ajudar as pessoas a construírem, a se descobrirem, “a se tornarem um pouco mais autoras de suas vidas, sujeitos de seus destinos, mesmo quando se encontram em contextos sociais desfavorecidos”. A exposição das poesias manifesta fatores, que à primeira vista, parece-nos distante. As experiências dos slammers são postas nos versos, sendo influenciadas pelo acúmulo de leituras que permite criar e reinventar fios condutores para suas histórias, em que são reescritas a cada evento e contexto. O aspecto da leitura, em suas diferentes formas e abordagens, nos mostra um lugar diferente do qual o imperativo do leitor estagnado se baseia. A oralidade é um traço manifestado e redescoberto que comunica o sentir, combinada as expressões do corpo e suas gesticulações, correspondendo e apropriando a cultura escrita.

Referências bibliográficas

ALMEIDA, Maria Isabel Mendes de. 2020. “O desassossego do leitor: subjetividades juvenis e leitura na contemporaneidade”. Cadernos IHUideias 296(18): 1-34.

CANCLINI, Néstor García. 2008. Leitores espectadores e internautas. São Paulo: Iluminuras.

CANCLINI, Néstor García. 2014. El mundo entero como lugar extraño. Barcelona: Editorial Gedisa.

CHARTIER, Roger. 1998. A aventura do livro. São Paulo: Unesp.

D’ALVA, Roberta Estrela. 2011. “Um microfone na mão e uma ideia na cabeça: o poetry slam entra em cena”. Synergies Brésil 9: 119-126.

GERTZ, Clifford. 1978. “Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura”. In: A interpretação das Culturas. Tradução de Fanny Wrobel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

PETIT, Michèle. 2008. Os jovens e a leitura. São Paulo: Editora 34.

PETIT, Michèle. 2010. A arte de ler ou como resistir à adversidade. São Paulo: Editora 34.

PETIT, Michèle. 2013. Leituras: do espaço íntimo ao espaço público. Tradução de Celina Olga de Souza. São Paulo: Editora 34.

SMITH, Marc Kelly. 2009. Stage a poetry slam. Napperville: Soucerbooks MediaFusion.

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* Bolsista CAPES.

[1] Dentro de dois anos de investigação dialoguei com mais de vinte poetas dos quatro slams que pude presenciar no Rio de Janeiro. Os slams foram: “Secunda Resiste: Slam e Festival de Poesia sobre Violência Policial”; “Slam Trindade – 2ª Edição”; “Slam Grito Filmes + Slam Resistência (Edição RJ)”; “Slam Vila Isabel – 4ª edição”. As entrevistas estão disponibilizadas no Banco de Dados do CESAP. Para mais informações, acessar: http://cesap-ucam.com.br/pesquisas.

[2] O objetivo destas bibliotecas itinerantes, pelo que pude observar em meus trabalhos de campo, é incentivar o hábito da leitura através da promoção de empréstimos de livros, revelando que a prática da leitura é prazerosa e que, através da arte, revela-se o poder da leitura e da escrita no desenvolvimento do indivíduo.

[3] Esta pesquisa encontra-se disponível para download no endereço: http://prolivro.org.br/home/index.php/atuacao/25-projetos/pesquisas/3900-pesquisa-retratos-da-leitura-no-brasil-48.