(RE)PENSANDO A DIVERSIDADE SEXUAL E DE GÊNERO FORA DO(S) GRANDE(S) CENTRO(S)

Na disputa eleitoral à Câmara de Porto Real Do Colégio



Igor Erick
Universidade Federal do Pará


Figura 1 – Paisagem do desejo em Alter do Chão – PA. Foto: Igor Erick

“Como faço para encontrar um local voltado para gays em Santarém?” O questionamento sobre os espaços destinados ao público LGBTQIA+ acarretou questões e reflexões sobre o tema da diversidade sexual e de gênero, principalmente no lugar ao qual se referia, a Amazônia.

O interesse sobre a existência de um estabelecimento exclusivo para um público específico surgiu em uma conversa entre amigos oriundos da região Sudeste do país. A resposta não foi dada de imediato, pois a cidade de Santarém no Estado do Pará não contava com espaços voltados para o público LGBTQI+, como saunas, bares, boates, parques, banheiros públicos, cinemas pornográficos entre outros. Sobretudo a partir dos anos 2000, esses espaços, que nos estudos de sexualidade no Brasil são entendidos como espaços de sociabilidade homossexual, vêm sendo mapeados e descritos por inúmeros pesquisadores da área da antropologia e da sociologia nos grandes eixos de produção acadêmica, como no Sul, Sudeste e, até certo ponto, Nordeste (Magnani 2002; Simões et al. 2010; Nascimento 2014; Oliveira 2017). Com as investigações antropológicas e sociológicas no/do espaço urbano, alguns temas adquiriram maior importância, como é o caso dos marcadores sociais da diferença e os estudos de interseccionalidade que articulam gênero, geração, classe e raça (Moutinho 2004; França 2006; Piscitelli 2009).

Percebendo que grande parte das representações e informações que eu conhecia sobre o tema havia sido (re)colocada por meio das produções acadêmicas dos grandes eixos destacados acima, entendi que algo não condizia com a realidade que eu presenciava no interior da Amazônia. Por exemplo, eu acabava sempre encontrando lacunas epistemológicas e metodológicas quando se tratava de mapear locais de sociabilidades homoeróticas como cinemas pornográficos, parques/praça, saunas, bares, boates e banheiros público (Gontijo e Erick 2015). Isso me levou a perceber que o conceito de sociabilidade e os marcadores sociais da diferença ora usados nos estudos das sexualidades nos grandes eixos acadêmicos não acompanham a dinâmica e as particularidades na Amazônia. Sendo assim, o meu objetivo neste artigo é trazer algumas reflexões e resultados de uma pesquisa realizada em Santarém, Pará, agrupados em dois eixos, a partir das observações e descrições provenientes da minha dissertação intitulada “Entre corpos, sensações e paisagens: reflexões sobre a diversidade sexual e de gênero no interior da Amazônia”.

Primeiramente, analisarei os estudos urbanos e, consequentemente, os estudos dos espaços de sociabilidade homossexual no Brasil citados acima, a fim de realizar uma breve comparação do saber-fazer da antropologia das sexualidades em contexto urbano e o seu saber-fazer em um contexto de interior na Amazônia. Este último nos permitirá visualizar empiricamente a maneira como os interlocutores que contribuíram para a minha pesquisa de mestrado descreviam a cidade, o interior, a comunidade ribeirinha e a aldeia indígena durante as suas experiências de afetos, encontros, deslocamentos e vivências nas paisagens amazônicas, tendo como pano de fundo os igarapés, os campos de futebol, os barracões da comunidade/aldeia, as matas e as margens do Rio Tapajós (e suas praias).

Em seguida, essas paisagens serão compreendidas como paisagens do desejo. Logo, as particularidades das experiências nessas paisagens e suas relações a partir da ideia de sentimentos e sensorialidades fazem partes de um outro saber e fazer da antropologia das sexualidades fora dos grandes centros e que são vivenciados por dois interlocutores que trago aqui: um indígena e um ribeirinho.

Onde se faz etnografia fora dos grandes centros?

A cidade de Santarém tornou-se importante para refletir sobre o modo como os interlocutores articulam as suas experiências em um contexto de cidade no interior da Amazônia. Em particular, a vila de Alter do Chão[1], um distrito de Santarém situado a 30 km de distância do centro da cidade e um dos campos principais onde a pesquisa foi realizada, juntamente com a Chácara do Céu[2], localizada na periferia de Santarém. Além dessas duas localidades, outras foram citadas durante a realização da pesquisa como formas de moradias, refúgios/fugas, resistências e desejos pelos dois interlocutores, quais sejam: as comunidades ribeirinhas, as aldeias indígenas e os quilombos.

Alter do Chão e a cidade de Santarém serviram como objeto de transformações, dominações e produções morais, religiosas e principalmente, uma educação estandardizada dos corpos e dos comportamentos durante a colonização europeia (Oliveira Filho 2014). Vale ressaltar que Alter do Chão, como a conhecemos hoje, remete a uma antiga aldeia indígena que, com a colonização portuguesa, principalmente de missionários católicos, tornou-se um lugar de dominação sobre as populações que lá viviam, como também um espaço de múltiplas formas de resistências. Os corpos, os territórios, as crenças, os saberes, o xamanismo e os valores dos povos indígenas em particular são partes de uma cosmologia indígena atingida diretamente pela conquista europeia e a consequente situação colonial-cristã que perdura até hoje em relação aos Borari. E nessa trajetória surgem Daniel (ribeirinho) e Jorge (indígena), os interlocutores que trago para essa apresentação[3]

As penetrações das diferenças entre cidade, interior, rural, capital, metrópole e as redes de relações consolidadas nos estudos urbanos sobre os espaços de sociabilidade homossexual são inspiradas nos estudos urbanos empregados por teóricos como Georg Simmel (1973 [1902]), Louis Wirth (1987 [1938]), Robert Redfield (1947), Gilberto Velho (1973), entre outros. Surge assim um intenso debate nas pesquisas sobre o urbano versus rural (interior), a relação entre cidade e psiquismo e sobre o caráter investigativo do estranhamento e do distanciamento, levando os antropólogos e antropólogas a se defrontarem com situações íntimas de suas realidades.

A preocupação em pesquisar na cidade e utilizar a cidade como campo de pesquisa e transformá-la em um “objeto exótico” e ao mesmo tempo familiar foi um trabalho árduo, tanto para sociólogos, quanto para antropólogos na virada dos séculos XIX e XX (Velho 1976). Para a realização da pesquisa no mestrado, as noções de cidades, comunidades, aldeias, interior, capital entre outras já citadas, são importantes para uma certa ruptura e continuidade das pesquisas sobre os espaços de sociabilidade homossexual.

Em suma, falar de aldeia indígena, da comunidade ribeirinha, do interior e da cidade e associá-las ao modo como são acionadas, experienciadas e vivenciadas pelos interlocutores, seja através dos corpos, seja por meio das paisagens, do sentir e do estar, da (re)produção da encantaria e do controle moral, significa trazer para o debate uma nova configuração do modo como pensamos a antropologia fora dos grandes centros urbanos e acadêmicos, assim como outras formas de saber-fazer[4] dos estudos de sexualidade no país.

Corpo, sensorialidade e Igarapé: uma breve passagem sobre a Chácara do Céu.

Antes de adentrar as narrativas das experiências dos dois principais interlocutores dessa apresentação, abro espaço para uma breve participação de uma terceira interlocutora, a Dona Lúcia. Moradora do bairro Jutaí, localizado na periferia de Santarém, Dona Lúcia é quilombola e mãe de um dos interlocutores quilombolas com o qual eu trabalhei no mestrado. O bairro Jutaí é o local onde a Chácara do Céu está situada. Dona Lúcia frequenta de forma esporádica o estabelecimento, mas a sua narrativa sobre o bairro foi a que se destacou em minha pesquisa. Nesse sentido, compartilho algumas de suas falas no intuito de apresentar e refletir sobre outros olhares e experiências fora dos grandes eixos.  

O banho conhecido como “banho de cuia” é o mais praticado entre os moradores do bairro Jutaí e por Dona Lúcia que utilizam o igarapé para tal prática. A água que escorre entre os corpos e se junta ao chão batido acaba exalando um odor de terra molhada que é identificado pelos moradores que se encontram perto ou nas proximidades de seus quintais: “alguém está tomando banho no quintal”, afirma Rafael, filho de Dona Lúcia. Essa experiência a faz recordar de quando morava no interior, no quilombo Bom Jardim:

Quando eu morava lá, a gente tomava banho de cuia no rio, não tínhamos caixa d’agua, toda a água que era usada por nós, era retirada do rio. E outra, meu filho, a nossa casa não mudou tanto do que era antes pelo fato de nós gostarmos da casa feita por madeira. Por exemplo Igor, essa minha casa foi construída pelo meu marido e pelo meu filho. Somos quilombolas e meu marido é pescador aqui no Jutaí, temos quase tudo, o lugar remete muito a minha comunidade, mas já lá para a banda do centro do bairro, onde fica a chácara, a paisagem já muda, o igarapé não era como antes, as árvores já estão sendo derrubadas. Aqui não, o igarapé ainda continua limpo e de vez em quando a gente toma banho de cuia, lava as nossas roupas, conversa e fofoca muito com minhas comadres (risos).

Para a Dona Lúcia, sua casa e suas experiências no dia a dia, principalmente quando se tem acesso ao igarapé, são experiências corpóreas e sensoriais. A utilização de uma cuia enquanto suporte para pegar a água do igarapé para tomar banho a faz lembrar da sua antiga residência na comunidade e do modo como se banhava. O ato de pegar a cuia, colocá-la no igarapé para encher d’agua, levantá-la acima de sua cabeça e posteriormente derramá-la em seu corpo são técnicas que se repetem em seu dia-a-dia, o seu corpo torna-se um instrumento técnico, um meio pelo qual suas dimensões corpóreas entre cima/baixo (levantar e descer a cuia) se transformam em informações através das técnicas do seu corpo (Mauss 2003).

Ribeirinho e Indígena: sexualidade(s) e realidade(s) outra(s)

 A Vila de Alter do Chão e a cidade de Santarém são os dois campos a partir dos quais pretendo dar continuidade à discussão nesta subseção sobre as paisagens e o modo como os interlocutores as experienciam. Jorge e Daniel surgem em contextos diferentes durante a condução da pesquisa. Conheci Jorge em um passeio de barco que partia de Santarém com destino a Alter do Chão. Nesse dia, ele se apresentou como guia local e também como um indígena da etnia Borari. Durante o percurso, Jorge compartilhava seus saberes em relação às localidades por onde passávamos durante todo o trajeto, dizendo: “ali que o grande pajé Merandolino foi visto em forma de cobra grande”, “aquela serra foi onde tudo começou”, “aqui na comunidade de Ponta de Pedra tem muito encantado” e “aqui para dentro tem vários igarapés só o filé”. Essas apresentações nos remetem à sua realidade nas paisagens, como será demonstrado mais a frente.

Minha aproximação inicial de Daniel se deu quando ele foi comtemplado com uma vaga no curso de Ciências Humanas na Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA. A partir daí, comecei a me aproximar do jovem rapaz, e com o passar do tempo, fomos nos tornando amigos. Em 2018, Daniel me convidou para conhecer a sua casa e tomar um banho de rio ao pôr do sol no Lago Verde, localizado em Alter do Chão. No dia marcado para ir até a casa do interlocutor, algumas mudanças foram feitas, como por exemplo o trajeto. Pois no lugar da água que foi usada como meio para se locomover com Jorge, o asfalto se tornou o nosso caminho principal até a vila de Alter do Chão.

O contexto e o modo como conheci os interlocutores são importantes para compreender a maneira que ambos se utilizam para narrar suas experiências, sejam elas nas paisagens, sejam na cidade, aldeia, comunidade… As narrativas que serão apresentadas a seguir nos mostra uma certa ordem discursiva que remete a um enredo associado ao que é permitido versus o que não é permitido, tecnologia versus ausência de tecnologia, pequeno versus grande, cabeças abertas versus cabeças fechadas, moderno versus tradicional. Além das dualidades apresentadas, existem outras formas usadas pelos interlocutores para descrever os locais onde residem:

[…] é questão de ser falado sabe. Aqui é muito pequeno, eu não quero esse tipo de atenção. Não é pelos outros, é por mim mesmo. Então, eu não quero uma atenção que vá me difamar entendeu? Inclusive eu não fico com os caras de Alter do Chão e se eu pegar uma pessoa daqui é criar uma prova contra você, pois todo mundo fala, e a fofoca vai passando de um para outro. (Jorge, entrevista concedida em 2018).

[…] já Santarém é uma cidade razoavelmente média, mas tem um hábito cultural muito de interior. Se você se denomina gay ou bissexual a cidade inteira já sabe… o que muda de Alter do Chão só é o tamanho e a quantidade de pessoas. Mesmo sendo pessoas enrustidas, o povo sabe por meio da fofoca. (Daniel, entrevista concedida em 2018).

[…] os que me conhecem e sabem que eu curto, de boa…, mas aqueles que não sabem começam a comentar, ai vira fofoca! Mas não falam só de mim, tem também outras pessoas que eu já ouvi. As vezes eu fico com pé atrás por conta da minha família, pois todo os indígenas se conhecem aqui. Então, tudo que acontece as pessoas ficam sabendo, sabe? (Jorge, entrevista concedida em 2018).

[…] veja só, Santarém era uma cidade pequena e que está se desenvolvendo bastante, mas não chega a ser como uma cidade grande, igual Belém (cabeças abertas). Por estar nesse processo de crescimento as pessoas não evoluíram, elas são muito cabeça fechada. Por isso que eu digo que é cultural do interior. (Daniel, entrevista concedida em 2018).          

A fofoca é uma das formas de caracterização dos lugares. Ela aparece por meio da ordem discursiva nas experiências de ambos como meio de informação sobre o comportamento tido como desviante (certo versus errado) de outro sujeito que está ausente à interação na qual este “informe” foi acionado (Oliveira 2014). E a fofoca também pode ser vista como um dispositivo de poder, controle, moral e do sentimento de honra e vergonha que surgem enquanto tecnologias de poder (Foucault 1987; Fonseca 2004).

A sensorialidade do mesmo modo, passa a ser um elemento importante para os dois como forma de ser/estar no mundo. É a maneira pela qual os interlocutores descrevem as paisagens e as sentem, assim como as constituem e por elas são constituídos. As encantarias subaquáticas acionadas por Jorge e Daniel a partir de suas experiências sensoriais, também são outras formas que podem ser compreendidas como meios outros de reflexões para os estudos urbanos:

[…] no igarapé, a água em si lhe deixa mais sensível ao seu corpo, você tem mais facilidade de ter uma ereção rápida. É uma resposta natural do nosso corpo (Jorge, entrevista concedida em 2018).

[…] nossos hormônios passam pela correnteza do rio e se misturam com os dos outros e nos deixa assim. Quem nunca foi para a água do rio e ficou com ereção? A água e a areia mexem com sua sensibilidade, né? Não é à toa que motéis tem banheira e colchão d’água, mas não tem os botos (risos) (Daniel, entrevista concedida em 2018).

[…] olha, não é com frequência que podemos ver Botos em Alter do Chão, mas eles aparecem no fim da tarde. Mas nesse dia, acho que era um boto gay (risos). Eu não entendi o porquê de um boto aparecer no meio de quatros homens gays. Creio que ele deva ter sentido o feromônio de todas ali ou foi o pitiú[5] (risos). Mas que levamos um susto grande, levamos. (Jorge, entrevista concedida em 2018).

[…] o mais legal dessa praia era os banzeiros, são aquelas pequenas ondas que embalam você para frente e para trás. O movimento da água né, ela acaba estimulando você. As vezes a gente ia somente para praia para lazer e quando íamos para água o banzeiro deixava você se aproximar da pessoa, é tipo, os corpos se atraem devido o balanço dos banzeiros, e isso me dava tesão e desejo para ter relação com o cara que eu estava ficando. Era muito bom! (Daniel, entrevista concedida em 2018).

Em seguida, Daniel e Jorge descrevem as águas dos rios e dos igarapés, assim como, o barracão e o campo de futebol da comunidade como sendo partes de seus corpos, do mesmo modo, sendo os lugares onde habitam, frequentam e experienciam:

[…] teve uma festividade em uma comunidade ribeirinha aqui perto de Santarém, sabe aquelas festas que tem torneio de futebol e depois festa no barracão com a banda da cidade? Pois é, depois e durante a festa todos vão para o campo de futebol, para atrás do barracão e até descem para a praia e o igarapé à noite, cansei de ver isso (Daniel, entrevista concedida em 2018).

[…] na adolescência, o meu primo disse que ele foi brincar em um barranco perto do roçado que fica próxima à praia e lá o cara começou a roçar o pênis dele na bunda do meu primo, depois teve penetração. Até hoje esse meu primo volta para a aldeia para manter os esquemas dele ativo, pois ele mora lá na cidade de Santarém. Outro fator curioso sobre o meu primo, é que ele gostava de manter isso na lembrança, pois a mãe dele, minha tia, ainda mora lá. Veja só, é de lá que ele gosta mais e não da cidade (Jorge, entrevista concedida em 2018)

A sexualidade aparece como um marcador importante que sempre estava presente nas narrativas e no campo, seja através das encantarias, seja por meio das descrições das paisagens. Pensar nas práticas sexuais no igarapé, no campo de futebol da comunidade, no barracão da comunidade e na praia, é compreender a maneira que todos encontraram para falar das suas experiências em um regime das águas.

 Em suma, não penso nas paisagens do desejo somente enquanto espaços que fazem parte das realidades de meus interlocutores, mas como paisagens que regem um contexto histórico mais amplo do sentir das águas em seus corpos e ao seu uso para narrar as encantarias subaquáticas. As paisagens conformadas por igarapés, praias, barracão da comunidade, campo de futebol da comunidade, entre outros, se inserem nas realidades dos sujeitos enquanto espaços habitados, vivenciados e experienciados. Entendo as paisagens a partir de Tim Ingold (2000), que as define como mundos habitados, experienciado e vividos. Os modos de habitar essas paisagens se realizam através dos corpos humanos e não humanos, como é caso das encantarias (aqui, o boto) que regem uma rede de significados ativadas por meus interlocutores para falarem sobre desejo, libido, ereção, lugares de encontro, conversa, namoro e sexualidade na Amazônia.

Considerações finais

Daniel e Jorge podem ser apreendidos sob a ótica do binarismo sociológico e antropológico e do saber-fazer dos estudos urbanos? Usar as paisagens enquanto base de reflexão para as experiências de um indígena e de um ribeirinho nos ajuda a refletir sobre outras categorias e entendimentos nos estudos da(s) sexualidade(s) no Brasil? Dona Lúcia, Daniel e Jorge e o modo como descrevem o mundo ao seu redor a partir dos seus corpos, podem ser exemplos etnográficos da necessidade de fomentarmos outras maneiras de se fazer antropologia fora dos grandes centros?

 A escolha do igarapé, do campo de futebol e da chácara não são aleatórias, pois esses espaços mostram certas particularidades amazônicas que diferem dos espaços citados e analisados dos estudos de sexualidade e gênero dos grandes centros acadêmicos e de produção brasileira (Sudeste, Sul e Nordeste). Entre as paisagens descritas até esse momento, o que se pode ter, é uma análise das formas de se conectar com os espaços através dos sentidos e da interação. Os modos de viver essas paisagens constroem as sexualidades e corpos dissidentes. A relação com o igarapé, por exemplo, é uma relação de sentidos e de interações, uma relação corpórea: sentir a água no ato sexual e o ato de tomar banho de cuia usando a água do igarapé, por exemplo, são experiências vividas através dos corpos na relação com as paisagens.

As formas e os mecanismos de construção de pertencimento, de resistências e de usos das paisagens do desejo (igarapé, campo de futebol, a maloca e a chácara) também são frutos de uma construção sensorial. As sensorialidades são percepções que constituem a base para o entendimento de como esses interlocutores experienciam ou percebem o mundo.

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* Pesquisa financiada por Bolsa CAPES.

[1] É importante destacar que a vila de Alter do Chão está em processo de identificação como território indígena Borari. No entanto, existem várias formas de retratação da vila. A primeira é o reconhecimento nativo como sendo um território indígena ocupado por Boraris durante os séculos XVI até XVIII e que foram silenciados ou “apagados” pela colonização. Hoje, tanto o termo Borari como Tapajó são reivindicados por populações indígenas da região diante das demandas políticas indígenas e dos órgãos indigenistas, como no caso de processos da demarcação de terra. Os dados sobre os trâmites judiciários dos processos de demarcações de terras indígenas estão disponíveis em: https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/4981#demografia

[2] Nome fictício.

[3] Daniel nasceu em Santarém, mas se mudou para vila de Alter do Chão quando era criança. Ele se reconhece como ribeirinho. Sua mãe é moradora da comunidade do Aritapera de Baixo e seu pai é da comunidade do Lago Grande, ambos ribeirinhos. Daniel é universitário e sonha com um mestrado. Jorge nasceu em Alter do Chão, se reconhece como indígena da etnia Borari, é universitário e mora só na vila de Alter do Chão. Sua mãe não se reconhece enquanto indígena, mas o pai sim. O seu sonho é se tornar uma referência no turismo local.

[4] Entende-se por “saber-fazer” um conjunto de ideias, epistemologia, teoria, conhecimento local em arranjo com a metodologia, o empírico, a escrita e a etnografia.

[5] É usado popularmente para designar o cheiro do peixe.