RETRATOS DE CABOCLOS E DE CORES

Um olhar sobre o caboclo de lança do Engenho do Cumbe de Nazaré



Paulo Airton Maia Freire
Universidade Federal de Sergipe

Este ensaio procura oferecer uma percepção sobre a festa que inaugura, a cada ano, o início do carnaval para o Maracatu Rural Cambinda Brasileira, que acontece no Engenho do Cumbe, na cidade de Nazaré da Mata, que está localizada na região da Mata Norte, no Estado de Pernambuco. A Festa da Chegada, como é conhecida, é vista aqui como um rito de passagem para os brincantes. Como tal, a festa marca uma liminaridade, bem como aprofunda sua experiência de communitas, uma vez que esses brincantes são “separados” de sua vida ordinária e levados a uma convivência intensa entre eles durante os três dias de carnaval em que estarão viajando por toda a região circunvizinha, entre apresentações e competições de grupos de Maracatu.

Para os brincantes, e de forma especial, para os caboclos de lança, principal protagonista da Festa da Chegada, esse tão esperado momento de abertura do carnaval se faz também como um momento fronteiriço em que esse brincante condiciona seu corpo por meio de processos rituais em que vai construindo uma corporeidade que se observa por meio de sua performance e de uma estética criadas para o momento de sua apresentação no terreiro do Engenho.

Parto do princípio que muitos dos elementos em torno ao personagem do “caboclo de lança” tem a ver com a realidade social, econômica e política, próprias da região da Mata Norte pernambucana. Tem a ver também com a própria necessidade de sobrevivência (e subversão) do cortador de cana de construir um corpo que suporte altas temperaturas geradas pelo esforço do trabalho entre o sol escaldante e a terra vermelha do canavial que fazem parte da construção de sua subjetividade. Esse corpo tem que ser resistente também ao peso do facão, aos espinhos penetrantes da folha da cana. Trata-se de um corpo que constantemente tem que recorrer aos meios mais distintos, inclusive misteriosos, para se manter resistente à penúria do labor cotidiano.

Ao mesmo tempo, trata-se também de reluzir um colorido único. Trata-se de um corpo que encanta seus expectadores por essa relação entre o peso dos adornos que carrega e a leveza dançante de seus passos que acompanha a sambada tocada no terreiro. Um misto entre um calor escaldante e o momento de ser protagonista. É isso que tenho encontrado no trabalho de campo: um corpo que está ali construído entre cores, força e segredos, trabalho, festa, ritual e simbolismos.