SERVIÇO E PRAGA NA AGRICULTURA DO ALTO VALE DO ITAJAÍ, SC

Notas multiespécie sobre produção agrícola



Yves Marcel Seraphim
Universidade de Brasília


Por entre roças e galpões no Alto Vale do Itajaí, SC[1], as longas horas de trabalho agrícola revelam duas noções opostas e complementares são elas: serviço e praga. Boa parte dos agricultores e das agricultoras com quem pude conviver se consideram colonos, ou seja, fazem da descendência teuto-brasileira marca do seu modo de vida e de trabalho. A produção nas roças se dá em grande parte através de um núcleo familiar distribuído em uma ou mais casas adjacentes. Soma-se a isso, sem no entanto descaracterizar a noção de trabalho familiar, o emprego de camaradas, os quais são pagos pelo dia de trabalho. O trabalho de campo se deu principalmente nas roças de fumo, mas como demonstra a latente versatilidade dos agricultores e das agricultoras e sua disposição a seguir a lavoura mais lucrativa, estar entre o fumo significa ouvir sobre outros serviços. Nas linhas a seguir, tentamos ilustrar as atividades que vinculam humanos e outros seres no ofício agrícola a fim de repensar qual a extensão dos agentes responsáveis pela produção nas roças e nas jornadas de diversos cultivos no Alto Vale.

Nas árvores e nos galpões do Alto Vale do Itajaí vivem muitas abelhas africanas. A convivência acontece sem grandes conflitos, de modo que o agricultor que identificar um abelheiro não irá o destruir, seja no mato ou em sua propriedade. Ainda assim, a abelha pode vir a ser uma praga. Elas podem sobrevoar a roça em grandes e perigosos enxames que forçam a pausa indeterminada dos agricultores, os quais se deitam no chão para evitarem contato com elas. As abelhas podem também ferroar a ponto de matar algum ou alguns animais criados, em especial os mais novos e frágeis. Após relevar uma ou outra ocorrência, o agricultor irá lidar com o abelheiro, algo que consistirá em um novo serviço a se realizar. Conforme me contou Antônio, fumicultor que já coleciona um histórico com as abelhas, há duas ações para se optar. Ou se destrói toda a colmeia, queimando-a. Ou se chama algum vizinho ou conhecido que tenha os equipamentos e as técnicas de apicultura para que capture o abelheiro para obtenção de mel. 

Uma lavoura quase que onipresente na região é o plantio de milho, pois serve como base da alimentação de animais de criação como vacas e porcos. Outro animal com gosto pelo milho é a saracura, considerada uma antiga praga na região. Tereza, uma agricultora de 80 anos, contou-me que os colonos logo perceberam que caçar uma ou outra saracura não daria conta do problema e a solução que adotaram foi outra. Grãos de milho são espalhados no perímetro da roça a fim de que as saracuras ali se saciem e não adentrem as carreiras de milho que crescem.

Em suma, é evidente a participação de outros seres além dos humanos nos processos produtivos para além da posição de “produto”. Ademais, o reconhecimento que os humanos conferem a tais agências é expresso através do mesmo vocabulário que descreve suas atividades, a condição generalizada do serviço. O serviço é um pressuposto que discursa sobre a produção de modo compartilhado entre os mais diversos seres.

Também no Alto Vale viver no mundo com outros entes inclui abraçar o inesperado e prescindir de uma exclusiva intencionalidade humana (Tsing 2018: 247)[2]. Ingold diria, de modo similar, que a vida com outras espécies é antes um envolvimento que propicia condições de crescimento, cujas formas variam historicamente, do que uma imposição de planos humanos sobre outros seres (Ingold 2000: 86). Essa noção ingoldiana é imprescindível pois faz convergir tipos distintos de relações produtivas entre plantas e humanos na história do Alto Vale do Itajaí.

Ao longo das grotas da região é possível avistar as folhas largas do pé de inhame. Em conversa com Afonso e Edla que antigamente criavam porcos para os quais o inhame servia de ração, descobri que por lá o inhame “dava na grota”, ou seja, era considerado nativo e nascia em meio à mata. No entanto, disso não se deve depreender uma solidão do inhame ou sua independência. O inhame também exigia serviço, cortar as gramas e o mato circundante a fim de que ele tivesse espaço para se proliferar, ou seja, era preciso contribuir propiciando condições para seu crescimento[3]. Outro alimento dos suínos que crescia nas grotas era o chuchu. O serviço a ele associado era apenas a coleta, a qual, era realizada, não obstante, com uma dupla atentividade. Muitos chuchus trepavam árvores até grandes alturas e ao derrubá-los bastava garantir que uns tantos fossem deixados no chão e que as árvores continuassem ao redor para que um novo baraço crescesse com a ajuda das árvores e, como vimos, dos humanos. Inclusive, a dispersão do chuchu é realizada de maneira singela, como pude observar na vez em que um velho agricultor entrou numa furna (mata fechada) e, em meio a várias árvores, deitou no chão, um chuchu vindo de outro lugar para que ali brotasse.

É difícil, como aponta Ingold, estabelecer portanto uma distinção efetiva entre coletar na grota e produzir na roça (Ingold 2000: 88). No Alto Vale, ambos são perpassados pela condição do serviço e ambas as plantas da roça e as plantas da grota estão ou estavam envolvidas em processos lucrativos, seja na venda de fumo e verdura, seja na alimentação do porco posteriormente vendido. Não é à toa que com o declínio na criação suína nas pequenas propriedades do Alto Vale, meus interlocutores apontem juntamente a diminuição significativa da quantidade e da dispersão do chuchu e, em especial do inhame, o qual, diferente do primeiro, raramente é aproveitado na culinária local. Como me disse uma agricultora nostálgica, cada vez menos as largas folhas do inhame servem como concha para beber as águas dos rios nos momentos de descanso do serviço. Cessar a intromissão humana no crescimento do inhame significou cessar a intromissão do inhame no crescimento do humano.

Ademais, dizer que o serviço é uma condição generalizada é de fato levar em conta o fato de que para os agricultores, bem como existem animais e plantas que podem se tornar pragas, há também seres que contribuem no serviço. Nas roças de fumo, atestam os fumicultores, ter a roça perto de uma mata pode ser vantajoso por propiciar a presença do bem-te-vi que se alimenta das lagartas que assolam as folhas da planta. Da mata vem também um fungo que mata essas mesmas pragas. São exemplos assim que nos permitem perceber relações para além do que seria o padrão de um modo relacional da produção agrícola, nos moldes formulados por Descola que o define através da “existência de um agente claramente individualizado que projeta sua interioridade sobre uma matéria indeterminada a fim de dá-la forma e assim trazer à existência uma entidade pela qual ele sozinho é responsável …” (Descola 2012: 460) [grifo nosso]. 

Nesse sentido, não apenas a domesticação pode ser analisada como situada em transformações que podem ir da confiança à dominação (Ingold 2000: 75). Semelhante é o caso do serviço de outras espécies, as quais dificilmente podem ser consideradas domesticadas.  Assim, podemos aprender que se os agricultores e as agricultoras confiam na relação entre as espécies do mato e os cultivos da roça é porque reconhecem a emergência de certas socialidades-mais-que-humanas e, porque estão desde sempre imersos em um mundo habitado, sabem discernir e escutar o que dizem esses mundos que não falam diretamente conosco (Tsing 2013: 31). Ingold, por sua vez, já ressaltou que confiança não significa o fim de tensões (Ingold 2000: 75). Pelo contrário, os termos de engajamento interespecíficos da confiança implicam em contrapartida a desconfiança, algo aparente nos exemplos de relação com as pragas que descrevemos. Todavia, isso não significou o afastamento das mesmas, senão contínuas transformações nos modos de se engajar com os organismos e com o ambiente, algo que a narrativa sobre a saracura torna patente.

É devido a essa articulação entre a dominação da roça e a confiança e desconfiança em relação aos outros seres que nela habitam que a agricultura no Alto Vale do Itajaí é também um lugar relevante para conhecer sobre as artes da atentividade (Van Doreen; Kirskey; Münster 2016). Assim, o reconhecimento multiespecífico do serviço permite notar que não apenas os humanos propiciam as condições de crescimento de outros seres, como também se veem em meio a ações de outros seres que igualmente o fazem. As pragas, por sua vez, não deixam de ser igualmente um produto dessas relações. Elas são os índices das tensões implicadas em como viver com Outros demanda uma diversidade de alteridades mesmo nos lugares mais familiares.

Referências bibliográficas

DESCOLA, Philippe. 2012. “Beyond Nature and Culture: Forms of Attachment.” HAU: Journal of Ethnographic Theory 2 (1): 447–471.

HAUDRICOURT, André-Georges. 2013 [1962]. “Domesticação de animais, cultivo de plantas e tratamento do outro”. Série Tradução n. 7, PPGAS/DAN.

INGOLD, Tim. 2000. The perception of the environment: essays on livelihood, dwelling and skill. London: Routledge.

TSING, Anna Lowenhaupt. 2013. “More-than-human sociality: a call for critical description”. In: K. Harstrup (org.). Anthropology and nature. London: Routledge, pp. 27-42.

TSING, Anna Lowenhaupt. 2018. “Nine provocations for the study of domestication”. In: H. Swanson; M. Lien; G. Ween (org.). Domestication gone wild: politics and practices of multispecies relations. Durham and London: Duke University Press, pp. 231-251. VAN DOREEN, Thom.; KIRSKEY, Eben.; MÜNSTER, Ursula. 2016. “Estudos multiespécies: cultivando artes de atentividade”. ClimaCom Cultura Científica – pesquisa, jornalismo e arte. Ano 3, número 7.


[1]  Este artigo é fruto do trabalho de campo realizado para Trabalho de Conclusão de Curso em Antropologia na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o qual se limitou, diferentemente desse texto, à fumicultura no Alto Vale do Itajaí (Seraphim, 2019). Ademais, a monografia busca relacionar temáticas da relação humano/não-humano com fundamentos da Antropologia Rural, tais como o ethos do trabalho, as relações entre agricultores e empresas integradoras e a agroindustrialização. A pesquisa ocorreu através de diálogos dentro do Coletivo de Estudos em Ambiente, Percepções e Práticas (CANOA)/PPGAS-UFSC. 

[2]  Tsing (2018) aponta nove provocações para o estudo da domesticação. Refiro-me aqui à nona, “Cultivos não-intencionais e domesticação-como-reasselvajamento oferecem alternativas esperançosas para imaginar a vida mutiespécie com humanos enquanto um componente” a qual é bastante prestativa em particular para analisar a presença de pragas enquanto efeitos da domesticação, sem, no entanto, encará-las como residuais ou apenas negativas.

[3] Haudricourt faz um argumento semelhante ao descrever a ação domesticatória indireta negativa, a qual age indiretamente sobre o organismo, detendo-se mais, em contrapartida, no ambiente que o circunda e o conforma (Haudricourt 2013). Inclusive, o tipo-extremo de ação indireta negativa que usa para ilustrar sua teoria é precisamente o cultivo de inhame, porém pelos nativos da Nova Caledônia. Deve-se apontar, entretanto, que para o autor francês a intencionalidade da ação humana certamente possui um peso analítico que Anna Tsing parece rejeitar.