Associação Brasileira de Antropologia

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EDITORIAL

 

Se é verdade que Novos Debates pretende ser um espaço de circulação de ideias, de inovação em termos formais e de debates necessários, este seu terceiro número é sem dúvida um passo nesse sentido. Ao mesmo tempo em que permanece o sentimento de que muito ainda pode ser feito, temos também a certeza de que temos avançado de maneira sólida neste projeto que, felizmente, guarda consigo certo espírito “laboratorial”. Ao investirmos em caminhos menos seguros, incertezas e, eventualmente, falhas surgem. Mas para alguém especialmente interessado na história da antropologia e de suas publicações, é bastante claro que essas imperfeições são inevitavelmente constituintes de projetos menos tradicionais e são mesmo parte necessária de movimentos de renovação.

Para este número, investindo na exploração de novos formatos para as publicações, estamos lançando Composições, uma seção de antropologia visual, destinada a ensaios fotográficos e vídeos etnográficos. Antes de qualquer comentário a seu respeito, é preciso dizer que Novos Debates só se realiza graças ao engajamento de muitas pessoas, e a criação de Composições é fruto do trabalho comprometido de Alessandro Ricardo Campos, editor de seção. Foram muitos os trabalhos recebidos, sejam eles fotográficos ou em formato de vídeo, implicando uma tarefa dolorosa de seleção. Com efeito, a grande procura e a qualidade dos trabalhos enviados apenas confirmam nossas suspeitas de quando da concepção desta seção: a produção antropológica contemporânea pede por espaços de publicação desse tipo, onde vídeos e fotografias – e por que não outros formatos que podem vir a ser publicados, ou mesmo ainda inventados? – tenham o mesmo status teórico e epistemológico que o texto escrito. A história do uso da imagem e do som na antropologia é tão antiga quanto a história da própria disciplina; e recentemente temos a possibilidade de uni-las em publicações eletrônicas.

A seção Fórum constitui-se novamente numa seção essencial ao espírito crítico de Novos Debates. Gleicy Mailly Silva e Guilhermo Aderaldo, novamente responsáveis pela seção, garantem-nos um conjunto de reflexões teóricas que articulam alguns dos temas e abordagens mais atuais da antropologia contemporânea. Pesquisas sobre transexualidades, prostituição, mulheres em situação de cárcere, exílio e refúgio, populações em situação de rua e juventude e delito nos permitem acessar a bibliografia mais atualizada no campo de uma antropologia interessada pelos processos políticos de produção de sujeitxs.

Já a seção de resenhas foi organizada por Cleiton Vieira do Rêgo, que foi incansável no trabalho de recepção e análise das submissões, assim como no diálogo com xs autorxs. É uma grande satisfação tê-lo conosco. Esperamos que as obras resenhadas, publicadas no Brasil e no exterior, sejam de interesse do público leitor.

Nossxs leitorxs perceberão que houve um aumento significativo de contribuições neste número de Novos Debates. A publicação ganhou corpo, expressa no aumento do número de contribuições. Isso se deve a um conjunto de fatores, além de, obviamente, a criação de uma nova seção. Primeiramente, houve um aumento de contribuições que têm se adequado ao formato proposto, ainda que a maior parte das submissões demonstre clara dificuldade em explorar as possibilidades de um texto sintético e objetivo. Se textos curtos podem parecer facilitar a tarefa de publicar, enfatizamos que a apresentação sintética de pesquisas antropológicas é um desafio, tanto no plano teórico quanto da escrita, que será avaliado de modo cada vez mais rigoroso por nós.

Outro ponto que ajuda a entender o crescimento da revista é o aumento do número de textos destinados à seção Opinião. Assim como no caso da produção audiovisual, percebemos que muitxs pesquisadorxs desejam mais espaços para a publicação de ensaios críticos sobre processos e eventos centrais para a vida acadêmica, política e social da comunidade antropológica, dxs interlocutorxs de pesquisa ou mesmo de contextos mais amplos. Novos Debates reafirma assim seu compromisso com a construção de um fórum crítico, politizado e aberto à diversidade de perspectivas. É verdade, avaliar a “pertinência” de textos recebidos nessa rubrica representa encontrar-se numa posição muito delicada, mas temos a certeza de garantir a vazão de todas as contribuições que atendam aos padrões da escrita acadêmica e observem o código de ética que rege o trabalho dx antropólogx.

Para este número, sublinhamos ainda o aumento das contribuições internacionais, visto que recebemos textos de pesquisadorxs filiadxs a instituições da Itália, França, Estados Unidos e Portugal, em quase todas as seções. Apesar de este ser um fato importante e potencialmente produtivo para qualquer publicação, é verdade também que ainda são poucas as contribuições oriundas de pesquisadorxs de países do Sul global. Esses são desafios centrais, e talvez mais complexos do que pensemos, o de estabelecimento de novos fluxos acadêmicos, que não sejam essencialmente mediados pelos “centros” globais. Mas essa é uma perspectiva que compõe o núcleo duro do projeto editorial de Novos Debates, para qual trabalharemos em números futuros. Além disso, sublinhamos a diversidade institucional nacional dos artigos publicados, enviados por estudantes e professorxs de todas as regiões do Brasil.

Algo que podemos aprender com mais este número de Novos Debates, no que diz respeito ao campo da antropologia brasileira de nossos dias, é que xs jovens antropológxs em formação têm, cada vez mais, assumido o protagonismo na realização de pesquisas inovadoras, em campos pouco reconhecidos e em temas e abordagens pouco usuais, mas extremamente importantes e poderosas para a contínua renovação da disciplina. E, enfatizo, isso pode ser visto através de todas as seções deste número.

Ainda, gostaria de agradecer de modo especial à Elisa Riemer, autora da obra que ilustra nossa capa. Elisa nos concedeu muito gentilmente a autorização para uso da imagem, o que nos deixou muito contentes a todxs. Não somente porque se trata de uma belíssima imagem, mas sobretudo porque ela expressa algo que nos parece bastante consonante com o tipo de reflexão que a antropologia nos impõe – e, mais precisamente, com temas e questões explorados neste número. O deslocamento, o desconforto, a sensação de sermos colonizadxs por aquilo que nos envolve nos diferentes contextos de pesquisa; mas também os povos e grupos com o quais trabalhamos, as categorias e estigmas com os quais nos deparamos e que nos interpelam eticamente; e, por que não?, quando ambas as coisas estão de mãos dadas, e, híbridxs, somos muito mais íntimos dos grupos do que muitxs acham “seguro”.

Finalmente, agradecemos à Associação Brasileira de Antropologia pelo apoio incondicional a este projeto, aproveitando estas linhas para desejar sucesso à nova gestão da ABA. Estamos certos de que este será um período de concretização de projetos importantes para a antropologia brasileira e para o avanço do reconhecimento político dos povos e dos grupos com os quais dialogamos no contexto de pesquisa.

 

Vinicius Kauê Ferreira

Editor de Novos Debates