Associação Brasileira de Antropologia

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A HOMOSSEXUALIDADE NA MANUTENÇÃO DOS VÍNCULOS FAMILIARES

 

Créditos: Luciano Lobão

 

 

Alessandra Caroline Ghiorzi

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Mato Grosso

 

Flávio Luiz Tarnovski

Professor do Departamento de Antropologia
Universidade Federal do Mato Grosso

 

 

Expressar o desejo por uma pessoa do mesmo sexo, vivendo em uma sociedade heteronormativa (Butler, 2003), é um desafio que confronta parte das pessoas nos dias atuais. Entre outras dificuldades, muitos sujeitos enfrentam o processo de se “revelar” perante a família de origem, o que pode se apresentar de forma dramática, devido aos significados negativos associados à homossexualidade.

 A partir do referencial teórico construtivista[i], o presente trabalho objetiva descrever as consequências da “revelação” da homossexualidade para os vínculos familiares de mulheres e homens, por meio da análise de dados colhidos em uma pesquisa qualitativa realizada em Cuiabá (MT), entre 2012 e 2013[ii]. Foram entrevistadas onze pessoas: cinco mulheres e seis homens, de 19 a 44 anos, pertencentes a diferentes segmentos sociais.

 

 

Quadro de informantes[iii]

 

Nome

Idade

Escolaridade

Profissão

Grupo doméstico

Juliana

22

Graduanda

Estudante

Sozinha

Lucas

21

Graduando

Estudante

Companheiro

Camila

27

Graduada

Liberal

Sozinha

Eduardo

30

Ensino médio

Autônomo

Companheiro

Edmundo

19

Graduando

Estudante

Mãe, pai, irmão, cunhada e sobrinha

Pedro

19

Graduando

Estudante

Mãe, pai, irmãos

Aline

44

Graduada

Assalariada

Companheira e pai

Rafael

27

Graduado

Professor

Sozinho

Catarina

25

Graduada

Saúde

Mãe, pai, irmãos

Luciano

34

Graduado

Professor

Sozinho

Eduarda

41

Graduada

Enfermeira

Sozinha

 

 

A “revelação” da homossexualidade nem sempre é fruto de planejamento, ela pode se apresentar como resultado de uma vivência de gênero que a expõe ou no decorrer de sistemáticas situações reveladoras (Tarnovski, 2004; Paiva, 2007; Oliveira, 2013). Contudo, há casos em que a orientação sexual é verbalizada, por meio de um anúncio ou a partir de um flagrante. Nesses casos, a conversa se estabelece como um momento determinante para a relação familiar e a trajetória individual desses sujeitos.

 Alguns entrevistados relataram que enfrentaram tentativas de controle por parte dos pais, após a verbalização da homossexualidade, uma fase caracterizada por conflitos: “era um período meio de terror assim, eu diria” (Pedro). No entanto, depois de certo tempo, essas relações se transformaram positivamente, ao que parece, em função da própria situação de crise que esses sujeitos passaram. Em alguns casos, ocorreu uma busca por desenvolver atividades em conjunto, assim como conversas em comum e, com isso, os laços entre pais e filhos se estreitam de um modo que não existia antes[iv].

 Esse momento de verbalização também propicia que os pais exponham suas angústias sobre a homossexualidade e alguns discursos se repetem nos variados casos estudados: os pais acreditam que o(a) filho(a) sempre foi heterossexual; negam que ele(a) possa ser homossexual; que está sendo “influenciado(a)”; culpam-se pela criação do(a) filho(a) homossexual. Diante desses argumentos “construtivistas”, os(as) filho(a)s respondem com explicações “essencialistas”: “não tem como eu mudar isso, é como você pedir pra um negro virar branco” (Pedro). Apenas Camila disse à mãe que “está” namorando uma garota, sem se atribuir uma identidade fixa que a defina como homossexual[v]. 

Os pais também demonstram receio sobre os possíveis comportamentos dos filhos, como explica Pedro: “ela [mãe] só queria que eu fosse quem eu fosse, mas que eu tivesse [...] certa conduta cabível na sociedade [...] que eu não fosse muito espalhafatoso”. Portanto, falar sobre a orientação sexual com a família coloca o filho em situação de se explicar, devido ao estigma carregado na ideia do que é “ser homossexual”. Os sujeitos buscam esclarecer aos pais que não correspondem ao estereótipo do homossexual e a “aceitação” se mostra como o desvelamento de que o filho não deixa de ser uma pessoa “normal”.

É de se notar que, em alguns casos, os argumentos utilizados pelas filhas e filhos para positivar sua identidade sexual e de gênero são fundamentados na depreciação de outras identidades, como por exemplo, a da travesti ou da “bandeirosa”, discurso já identificado por outros pesquisadores (Tarnovski, 2004; Lopes, 2009). Essa comparação com outras categorias sociais no campo da sexualidade e do gênero segue a escala valorativa já descrita por Rubin (1989), em que se hierarquizam práticas sexuais, marginalizando identidades. Com isso, percebemos que a “aceitação” da orientação sexual também envolve uma performance de gênero. E ainda, os pais esperam e cobram que seus filhos “respeitem” (Lopes, 2009) a família, entre outras coisas, não trazendo o namorado em “casa”, local que se apresenta como espaço moral, ultrapassando a materialidade da habitação.

Além disso, ser filha ou filho homossexual pode se associar com uma dinâmica familiar específica, já que algumas atividades, vínculos e favores são desempenhados em função da identidade sexual e de gênero exercidas por esses sujeitos. Por exemplo, Edmundo relatou que é o único que ajuda sua mãe na limpeza da casa, atividade que não é realizada nem pelo seu irmão, nem pelo seu pai.

Na situação vivida por Aline, quase todos os parentes do seu núcleo familiar já moraram com ela quando passavam por dificuldades financeiras, físicas ou emocionais. Aline foi quem cuidou de sua mãe quando esta perdeu os movimentos do corpo. É interessante notar que esse papel desempenhado por Aline está relacionado com a “aceitação” de sua orientação sexual: “porque como eu sempre fui muito independente, né, trabalhei muito sempre, aquela coisa toda, então eles me viam meio que como um exemplo assim, então nunca ninguém me encheu o saco com isso aí [orientação sexual]” (Aline). Nesse sentido, também falou Eduarda: 

 

Sou meio que motorista da minha mãe, eu busco minha mãe, levo minha mãe, faço tudo. Fico tentando agradar, né? Na verdade, a gente fala que a gente procura ser os filhos perfeitos, mas é que a gente fica tentando agradar porque também a gente se sente culpado de não ser como elas querem.

  

Essa transformação do estigma associado à homossexualidade, por meio do prestígio atribuído a outros papéis desempenhados pelos sujeitos, já foi observada por Peter Fry e Edward MacRae no caso de garotos que foram expulsos de casa após a descoberta de sua orientação sexual e, posteriormente, quando alcançaram prestígio dentro do candomblé, foram “aceitos” pela família. Segundo os autores: “Parece que a ridicularização é, de certa forma, contrabalançada com o prestígio de curador e profeta” (1991: 56). 

Por fim, gostaríamos de salientar o caráter inicial e provisório das análises, mas que abordam um tema de pesquisa que vem progressivamente se desenvolvendo no campo das Ciências Sociais (Oliveira, 2013). Percebemos a “rejeição” e a “aceitação” da homossexualidade como processos dinâmicos, que, apesar de amplamente utilizados na descrição dessas relações, não conseguem abarcar todos os aspectos das dinâmicas familiares. Assim, é complexa a coexistência de “aceitação-rejeição” nessas relações, que, para além de desavenças, desentendimentos e diferenças, também podem ser permeadas por afetos, vínculos e afinidades. 

 

Referências

BUTLER, Judith. 2003. Problemas de gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

FOUCAULT, Michel. 1997. História da sexualidade: a vontade de saber. 12. ed. Rio de Janeiro: Graal.

RY, Peter; MACRAE, Edward. 1991. O que é homossexualidade? São Paulo: Brasiliense.

HEILBORN, Maria L. 1996. “Ser ou estar homossexual”. In: R. Parker; R. Barbosa (org.). Sexualidades brasileiras. Rio de Janeiro: Relume Dumará/ABIA-IMS-UERJ. pp. 136-145.

LOPES, Moisés. 2009. “Casar e dar-se ao respeito”. In: M. L. Heilborn et al (org.). Sexualidade, reprodução e saúde. Rio de Janeiro: FGV. pp. 489-508.

OLIVEIRA, Leandro. 2013. Os Sentidos da Aceitação: família e orientação sexual no Brasil contemporâneo. Tese de Doutorado, Museu Nacional/UFRJ – Rio de Janeiro.

PAIVA, Antonio. 2007. “Reserva e Invisibilidade”. In: M. Grossi et al (org.). Conjugalidades, parentalidades e identidades lésbicas, gays e travestis. Rio de Janeiro: Garamond. pp. 23-46.

RUBIN, Gayle. 1989. “Reflexionando sobre el sexo”. In: C. VANCE (org.), Placer y peligro: explorando la sexualidade feminina. Madrid: Revolución Madrid. pp. 113-190.

SCOTT, Joan. 1995. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. Educação e Realidade, 20(2): 71-99.

TARNOVSKI, Flávio. 2004. “Pai é tudo igual?: significados da paternidade para homens que se autodefinem como homossexuais”. In: A. Piscitelli et al (org.). Sexualidade e saberes. Rio de Janeiro: Garamond. pp. 385-414.

VANCE, Carole. 1995. “A Antropologia Redescobre a Sexualidade: um comentário teórico”. PHYSIS Revista de Saúde Coletiva, 5(1): 7-31.

 

 

Alessandra Caroline Ghiorzi

Graduanda em Ciências Sociais

Universidade Federal do Mato Grosso

Currículo Lattes

 

Flávio Luiz Tarnovski

Professor do Departamento de Antropologia

Universidade Federal do Mato Grosso

Currículo Lattes

 
 


[i] Rubin (1989); Scott (1995);  Vance (1995); Foucault (1997).

[ii] A presente pesquisa foi realizada no âmbito do Plano de Trabalho Família e homossexualidade: estudo das relações familiares de homens e mulheres que se autodefinem como homossexuais na cidade de Cuiabá, inserido no Projeto de Pesquisa Gênero, sexualidade e construção de si: identidades e diferenças, coordenado pelo Prof. Dr. Flávio Luiz Tarnovski.

[iii] Os nomes são fictícios, com o objetivo de preservar a identidade das(os) entrevistadas(os).

[iv] Em nenhum dos casos aqui estudados a filha ou o filho foi expulso(a) de casa após a revelação da homossexualidade. Porém, o “espectro” do rompimento definitivo dos laços familiares é uma constante no discurso dos sujeitos, que contam casos de amigos (ou amigos de amigos) que tiveram que sair de casa após a revelação.

[v] Casos similares foram estudados por Heilborn (1996).