Associação Brasileira de Antropologia

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FEIRA KRAHÔ DE SEMENTES TRADICIONAIS

cosmologia, história e ritual no contexto de um projeto de segurança alimentar

 

 

 

Júlio César Borges

Doutor em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento

 

 

Pra não acabar a história e a festa, tem que estar sempre fazendo, porque vai passando para os outros mais novos aprender a realizar. Para não acabar a festa. Porque essa história, desde não sei quantos mil anos atrás, faz parte dos Krahô. Através dessa festa é que mostramos que somos Me)hĩ – temos outras cantigas, outra forma de nos organizar. Isso tudo é que chama Me)hĩ, Krahô. A festa movimenta as músicas, as danças, as crenças. Por isso é que Me)hĩ tem isso. Porque se não tiver isso, não é Me)hĩ. Isso que mostra nossa identidade. É tudo isso. É a festa que faz fortalecer, tanto nas músicas [cantos] quanto no esporte [corrida de toras].

Pratica esporte durante as festas: no peso, na velocidade, na voz. Tudo! Então Pahpãm [“nosso pai”: Pyt: Sol] fez essas coisas pra nós. Tem nas histórias que as naturezas ensinaram e hoje não ensina mais. Mas não acabou. É isso que é importante saber. A festa é pra fortalecer, ficar mais forte, vivo. Pra sempre. De geração em geração. Porque sem a cultura, sem a língua, sem histórias, nós não somos mais índios Krahô. Sempre ouço: ‘Por que índio gosta de festa, de cantar?’ Aí digo sempre que é nossa crença. A música conta histórias da natureza. Quando tem festa, aí todo mundo vai estar falando dessa história. E os velhos contam para os mais novos durante aquele período em que vai estar sendo realizada a festa. Por isso é importante preservar, porque, digamos assim, essas coisas mostram a nossa cara.

 

 

O trecho acima reflete o esforço de um eminente professor krahô, Dodanin Piken, em ensinar a este antropólogo algo sobre um aspecto central da vida sociocultural do seu povo. Sua lição é simples e direta: as festas diferenciam os Me)! Elas lhes foram transmitidas pelas “naturezas” (animais, plantas, insetos) não se sabe há quantos mil anos atrás e desde então são praticadas para fortalecê-los, com as corridas de toras e os cantos. “A festa é pra fortalecer, ficar mais forte, vivo”, enfatiza, apontando alguns caminhos (pry) que procurei trilhar, em minha tese de doutorado, rumo auma interpretação da festa como elemento central da resistência étnica do povo indígena Krahô[i]

O argumento central da tese Feira Krahô de Sementes Tradicionais: cosmologia, história e ritual no contexto de um projeto de segurança é que as festas são o espaço-tempo responsável pela manutenção de aspectos centrais da sua visão de mundo, organização social e solidariedade política frente aos desafios impostos pela sociedade nacional[ii]. Ocorre aqui o que Coelho de Souza registra como constitutivo dos povos Jê: “[o] processo de diferenciação (recriação contínua da identidade humana) depende de uma constante incorporação de elementos que é preciso ir buscar no ‘exterior’ – um exterior que se vê sempre redefinido nesse processo de diferenciação” (2002: 230). No caso dos Me)hĩ, defendo que as festas são o espaço-tempo que abre a sociedade para o exterior e, na apropriação da alteridade, assegura sua continuidade frente aos múltiplos coletivos que povoam o Pjê Cuna, “Nossa Terra”.

Como fato social total (Mauss, 1974), a festa permite inúmeras entradas analíticas das quais adentrei pela cosmologia, história, relações interétnicas e sistema ritual com o intuito de demonstrar como a festa mantém vivos seu modo de vida e agencialidade frente ao cerco colonial. Procurei demonstrar que a apropriação (“furto”) e domínio do jogo de linguagem dos “projetos” é uma das principais estratégias atualmente utilizadas pelos Me) para (re)produção de suas festas. 

Meu caso etnográfico foi a Festa dos Peixes e das Lontras (Tep me) Têre), realizada no contexto da VII Feira Krahô de Sementes Tradicionais (Ampo Hy Per Xà 7º), no ano de 2007, com patrocínio da Petrobrás Cultural. Realizada bienalmente desde 1997, a feira faz parte de um projeto de segurança alimentar encabeçado pela associação indígena Kapey, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e a Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Como nas edições anteriores, a feira buscou fomentar a conservação on farm da agrobiodiversidade indígena através da troca de sementes[iii]. Minha etnografia sugere que o interesse dos Krahô pela troca de cultivares conviveu com a atenção dirigida à festa que eles apre(e)nderam, no tempo mítico, junto aos peixes no fundo de um rio.

Festa é amjü)kin. Com este termo, os Me) recortam atividades sociais que se aproximam daquelas que os antropólogos denominam “ritual”. Sabemos que cada sociedade possui termos próprios com os quais nomeiam e recortam "performances e festividades que pode-se identificar como exemplos típicos ou focais de eventos 'rituais'" (Tambiah, 1985: 126). O amjü)kin que presenciei na Feira de Sementes - como tantas outras entre os Krahô e alhures - tem um aspecto ritual “dado que é também cerimônia, solenidade, ação formalizada, comportando regras de comportamento e expressões performáticas precisas e, no mais das vezes, rigorosas” (Perez, 2012: 25; cf. Van Gennep, 1978). Por esse caminho, chegamos à ordem cultural me)subjacente à noção de festa: uma sequência de atos que giram em torno das corridas de toras, preparação e consumo de alimentos (em especial o paparuto, bolo cerimonial), troca de presentes, encenação de papéis rituais, danças e cantos das metades cerimoniais. E o amjü)kin é mais do que disso. É também abertura aos encontros inesperados que (re)produzem vínculos anti-estruturais – aqueles de caráter existencial, diretos (Turner, 1974). A festa é o espaço-tempo da sociabilidade espontânea que gira em torno dos momentos fugidios levados pela cantoria do pátio, com maracá, e de outros espaços da aldeia. É fruição individual e coletiva da beleza e respiração do Cosmo. O amjü)kin é o estado “alegre, feliz” do universo, que requer a atuação protagonista dos Me)através da festa. “Festa” e “alegria” são sinônimos (Melatti, 1978: 14).

A Feira de Sementes foi indigenizada para manter o movimento do mundo com a alegria e beleza da vida ritual, que coloca os Krahô em conexão com os heróis civilizadores, tal como aquele que conheceu a festa de Tep m Têre junto aos peixes no fundo de um rio. A produção das festas, no contexto contemporâneo dos projetos, se presta à afirmação da humanidade dos Me) frente ao concerto de coletivos que anima o universo.  Por isso, o amjü)kin produz (e diferencia) os Me).

  

Bibliografia: 

COELHO de SOUZA, Marcela. 2002. O traço e o círculo: o conceito de parentesco entre os Jê e seus antropólogos. Tese de doutorado em Antropologia Social, Museu Nacional/UFRJ - Rio de Janeiro. 

FAO. 1996. Background Paper 1: Agricultural biodiversity. Netherlands: Conference on the Multifunctional Character of Agriculture and Land. 

MAUSS, Marcel. 1974. “Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da troca nas sociedades arcaicas”. In: Sociologia e Antropologia. Vol. 2. São Paulo: EPU, EdUSP. 

MELATTI, Julio Cezar.1978. Ritos de uma Tribo Timbira. São Paulo: Ática. 

PEREZ, Léa Freitas. 2012. “Festa para além da festa”. In: Perez, L. F; Amaral, L.; Mesquita, W (orgs.). Festa como perspectiva e em perspectiva. Rio de Janeiro: Garamond. 

TAMBIAH, Stanley. 1985. “A performative approach of ritual”. In: Culture, thought, and social action. Havard: Havard University Press. 

TURNER, Victor. 1974. Dramas, fields and metaphors: symbolic action in human society. Ithaca, London: Cornell Unviersity Press.

VAN GENNEP, Arnold. 1978. Ritos de passagem. Petrópolis: Vozes.

 

 

 

Júlio César Borges

Doutor em Antropologia Social
Universidade de Brasília
Consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
Currículo Lattes

 

 



[i] Os Krahô (Me): “Nós, mesmo corpo/carne”) falam uma variante da língua Jê, tronco Macro-Jê e são classificados pela etnologia como Timbira Oriental, por se situarem na margem direita do rio Tocantins. Os Krahô têm uma população de cerca de dois mil e quinhentas pessoas espalhadas em vinte e oito aldeias numa reserva no nordeste do estado do Tocantins.

[ii] Defendida, no dia 28 de fevereiro de 2014, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília (PPGAS/UnB). O trabalho de campo ocorreu entre os meses de março e dezembro de 2007, com novas imersões em março de 2008, outubro de 2010 e abril de 2012.

[iii] A conservação on farm ocorre com os recursos genéticos em uso (nas roças ou campos cultivados) e decorre dos interesses dos próprios agricultores locais. Assim, “agrobiodiversidade” deve ser entendida como a variedade de plantas importantes para a alimentação e agricultura resultante da interação entre o ambiente, recursos genéticos e práticas culturais integrantes dos sistemas de manejo (FAO 1996: 5).