Associação Brasileira de Antropologia

A- A A+

 

INTERCÂMBIOS ESTUDANTIS

dinâmicas migratórias contemporâneas e o (re)pensar antropológico

 

 

Leonardo Francisco de Azevedo

Mestrando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora
Bolsista CAPES

  

Pensar em dinâmicas migratórias contemporâneas requer, das ciências sociais, um alargamento de diferentes categorias que tradicionalmente nos serviram para explicar as diferentes formas de deslocamento existentes.  Sobretudo em contexto de globalização crescente, outros desafios nos são apresentados para serem melhor compreendidos e explicados.  A presente pesquisa se dispõe a investigar um tipo específico de migração, cada vez mais comum mundo afora: estudantes universitários em intercâmbio. Para tal, tenho como interlocutores intercambistas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que viajaram entre os anos de 2013 e 2014. A UFJF lança, anualmente, o edital de intercâmbio da própria universidade, referente aoPrograma de Intercâmbio Internacional de Graduação (PII-GRAD), a partir de convênios da própria instituição com universidades estrangeiras. Este programa contempla apenas alunos de graduação da UFJF, sendo que o estudante parte para o intercâmbio no segundo semestre do ano letivo brasileiro, ficando no mínimo um semestre na universidade estrangeira, mas podendo estender este período por até um ano. Com vistas a acompanhar todo o processo de seleção, preparação, o intercâmbio em si e o retorno, optei por acompanhar alunos que concorreram ao edital PII-GRAD no ano de 2013. Estes estudantes realizaram suas viagens concomitante à minha pesquisa de mestrado, o que me permitiu acompanhar todo o processo.

Conforme problematizado por Calvo (2013), o intercâmbio é uma junção de várias características migratórias distintas, como imigrantes trabalhadores, residentes estrangeiros e emigrantes em retorno, configurando novas mobilidades e gerando diferentes imagens sobre seu “destino”. Na dissertação de Dias (2007), por exemplo, a imagem dos migrantes em relação ao seu deslocamento para um complexo turístico de esqui nos Estados Unidos variava entre a busca por investimento na carreira e formação profissional; a possibilidade de vivenciar um “estilo de vida” e uma etapa de sua juventude; ou mesmo ver aquela oportunidade como uma chance de buscar ganhos monetários para suas redes familiares no país de origem. Além disso, este fenômeno também afeta a economia local, onde turismo, estudos, migrações e trabalho se cruzam.

Estes interlocutores, entretanto, apresentam para a antropologia a necessidade de repensar a produção de alteridades e a utilização do trabalho de campo nas pesquisas realizadas. Se o antropólogo, ao invés de estudar estudantes migrantes em determinado local, se propõe a investigar a migração de estudantes brasileiros para diferentes partes do mundo, como acompanhar e investigar estes deslocamentos, sob os referenciais metodológicos tradicionais da disciplina? Tal questão se torna ainda mais relevante quando, como na presente pesquisa, o pesquisador se vê impossibilitado de acompanhar presencialmente estes estudantes e as interações que eles irão estabelecer nos países estrangeiros. Tendo meu campo limitado ao Brasil, especificamente Juiz de Fora, cabe lançar mão de diferentes ferramentas analíticas e metodológicas que permitam realizar a investigação nestes termos.

A presente pesquisa, portanto, contribui com a reflexão antropológica a partir de duas perspectivas, que mesmo distintas se sobrepõem: uma delas, no campo analítico, é compreender as dinâmicas contemporâneas de migração através dos deslocamentos estudantis, considerando que este tipo de migração permite análises mais gerais, colocando em questão aspectos como a geopolítica do conhecimento científico e a internacionalização do ensino superior brasileiro. A outra perspectiva é metodológica:  quais os limites e as possibilidades de se realizarobservação participante e etnografia em contextos de mobilidade territorial e populacional e quais os espaços possíveis para se realizar tal investigação, como as redes e espaços virtuais; quais os limites, desafios e potencialidades de se fazer etnografia em casa, considerando “casa” o próprio ambiente acadêmico; e como a experiência do pesquisador, semelhante à de seus pesquisados, pode contribuir para uma revisão teórica acerca da ideia de alteridade. 

Há várias possibilidades teóricas de se pensar tais tipos de deslocamentos. Desde as tradicionais análises, mais gerais, sobre as práticas migratórias, como reflexões contemporâneas sobre as implicações políticas e acadêmicas destes deslocamentos estudantis, ou mesmo o debate pós-colonial. O tema permite uma série de abordagens e problematizações. Para esta pesquisa, ainda em andamento, buscou-se focalizar sobretudo na experiência dos agentes, pensando de que forma tal experiência afeta suas trajetórias e projetos de vida. Para tal, tomou-se como referência os trabalhos de Gilberto Velho e alguns de seus conceitos, como “projeto”, “metamorfose” e “campo de possibilidades”. Amparado na tradição da Escola de Chicago, Velho (2003; 2010) busca analisar as transformações e possibilidades de agência dos atores sociais em contextos específicos. Desta forma, pensar como os intercâmbios afetam os campos de possibilidades destes atores se torna uma perspectiva interessante.

Além disso, há outros diálogos teóricos possíveis a partir deste objeto. Pensar a situação do intercâmbio como uma experiência liminar, em que a interação com os outros intercambistas e o sentimento decommunitasé mais visível do que distinções e diferenças é uma possibilidade consistente, logo, os estudos rituais de Victor Turner (2013) podem contribuir com a presente reflexão. Outro clássico que nos ajuda a pensar estes interlocutores é Simmel e sua discussão acerca da condição do estrangeiro em determinada sociedade. Para Simmel (1983) os “estrangeiros” mantém uma relação simultânea de distância e proximidade com o local onde se está, dialogando com alguns elementos daquela sociedade, mas sem qualquer tipo de laço pré-estabelecido, o que o coloca numa situação marginal na dinâmica social local. A partir desta perspectiva é possível pensar quais os limites do projeto cosmopolita da internacionalização do ensino superior frente às dinâmicas culturais locais dos países de destino destes estudantes.

Por fim, cabe também destacar que o deslocamento estudantil está diretamente relacionado a uma “reatualização” de dinâmicas coloniais. Se pensarmos a geopolítica internacional como um “sistema-mundial”, nos termos de Wallerstein (1974), fica claro que o conhecimento acadêmico moderno é estruturado por relações de poder e pela expansão do capitalismo eurocêntrico. Dados de 2006 apontam que mais de 50% de todos os estudantes estrangeiros estavam matriculados em universidades norte-americanas, inglesas, francesas e alemãs, ou seja, os principais centros do capitalismo ocidental. (Contel e Lima, 2007). Sendo assim, há uma correlação direta entre a geopolítica do conhecimento e a geopolítica econômica (Mignolo, 2003). Desta forma, o fenômeno aqui investigado, para além de reflexões possíveis referentes à sua própria dinâmica e características, nos permite também explorar esse contorno político em sua definição. Mesmo com a complexificação das relações de poder entre países, blocos e nações pós-Guerra Fria, ainda se mantém muitas das hierarquias e estruturas de poder moldadas no período colonial.   

No que tange às questões metodológicas, utilizar o recurso “tradicional” da investigação antropológica com tais interlocutores é uma tarefa quase impossível. Os raros momentos em que pude encontrar presencialmente estes atores em interação foram nas reuniões institucionais da universidade que antecederam suas viagens. Estas reuniões foram importantes para que eu compreendesse o discurso institucional que assenta a internacionalização da UFJF e também reconhecer quem seriam os próximos intercambistas. Porém, aquele espaço era insuficiente para conseguir me interagir com eles e elas. Um dos espaços profícuos que encontrei para a realização de uma etnografia da experiência destes intercâmbios foi a internet. O lugar virtual de investigação são as páginas pessoas do “facebook” dos intercambistas com quem tive contato anteriormente, fazendo o que alguns atores chamam de “netnografia” (Kozinets, 2002). Entretanto, cabe reconhecer os limites dos discursos e representações das redes sociais. Longe de tornar o ambiente virtual olócusprincipal de investigação, lancei mão desse recurso como forma de complementar os dados por mim já obtidos nas reuniões institucionais da UFJF e nas entrevistas com estes intercambistas.

A partir da minha participação nestas reuniões institucionais e também em um “grupo no facebook” organizado por estas pessoas, utilizei como critério me aproximar de alguns deles a partir dos países de destino.[1] Tive sucesso nos contatos com estudantes que iam fazer intercâmbio em Angola, Portugal, Itália, Argentina, Coréia do Sul, Estados Unidos e França. Além de acompanhar seus perfis no facebook, optei por entrevista-los duas vezes, uma antes da ida, apreendendo sobretudo suas perspectivas em torno da viagem, planos e preparativos, e outra assim que retornaram, para contarem de sua experiência, as surpresas e desagrados.

Com estas metodologias utilizadas considera-se possível, além de acompanhar a experiência destes intercambistas, narrada por eles próprios, identificar suas trajetórias profissionais e acadêmicas, bem como suas redes de relações. Desta forma, o objetivo inicial, de compreender como este fenômeno se caracteriza e como afeta os “campos de possibilidades” destes atores se torna possível.

Por fim, outro aspecto utilizado nesta pesquisa é a minha própria experiência, que fui intercambista durante minha graduação (cursei o segundo semestre de 2011 na Universidade de Coimbra, Portugal). Ter tido esta experiência anteriormente se torna um ganho para a pesquisa pois já vivenciei, de alguma forma, o fenômeno que se está estudando, como “nativo”. Entretanto, coloca para a pesquisa o desafio de repensar o sentido da alteridade, buscando outras formas de estranhamento necessárias para a reflexão antropológica, ou garantindo a distinção entre a experiência próxima e a experiência distante – nos termos de Geertz (2004). Além desta dificuldade, há que também se atentar para o objetivo da pesquisa, que é investigar o meu ambiente “nativo”, ou seja, meus interlocutoressão estudantes universitários, compartilham toda a rede de significados das quais compartilho, sabem o que é uma dissertação ou mesmo conhecem minha orientadora e colegas de turma. É possível pensar antropologicamente mundos dos quais estamos totalmente imersos, uma antropologia da academia? (Lima, 1997)

Há aqui, portanto, dois desafios metodológicos colocados. O primeiro é fazer etnografia de um fenômeno que não se encontra circunscrito territorialmente. O segundo é fazer uma investigação antropológica em seu próprio ambiente, encontrando o eco da minha própria experiência.

A partir da apresentação acima cabe destacar a atualidade e efervescência desse objeto de investigação, que coloca novos desafios e debates para o fazer antropológico. Cabe ao pesquisador buscar elementos teóricos e analíticos para conseguir realizar a presente pesquisa, considerando todo o acúmulo da disciplina, mas inovando nas formas de pensar e se fazer antropologia.

 

Referências bibliográficas

CALVO, Daniel Malet.2013. “Procesos de revalorización patrimonialenelbarrio de Alfama: el papelde losestudiantes Erasmusenlatematización de laciudad”.Etnográfica, 17(1): 31-50.

CONTEL, Fábio B.; LIMA, Manolita C. 2007. “Aspectos da internacionalização do ensino superior: origem e destino dos estudantes estrangeiros no mundo atual”.INTERNEXT – Revista Eletrônica de Negócios Internacionais da ESPM,2 (2): 167-193.

DIAS, Guilherme Mansur. 2007.Experiências de trabalho temporário nos Estados Unidos: uma abordagem etnográfica do Okemo. Dissertação de mestrado, Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Campinas.

GEERTZ, Clifford. 2004.“Do ponto de vista dos nativos: a natureza do entendimento antropológico”.In: Clifford Geertz.O saber local.Petrópolis: Vozes. pp. 85-107.

KOZINETS, R. 2002.“The field behind the screen: using netnography for marketing research inonline communities”.J. Mark. Res., 39: 61-72.

LIMA, Roberto Kant de. 1997.Antropologia da academia: quando os índios somos nós.Niterói: EDUFF.

MIGNOLO, Walter. 2003. Histórias locais/Projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar.Belo Horizonte: UFMG.

SIMMEL, Georg. 1983.“O estrangeiro”. In: Evaristo Moraes Filho (org.),Simmel. São Paulo: Ática. pp. 182-188.

TURNER, Victor. 2013.O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Editora Vozes.

VELHO, Gilberto. 2003.Projeto e metamorfose – antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

VELHO, Gilberto. 2010. “Metrópole, cosmopolitismo, mediação”.Horizontes Antropológicos, 16 (33): 15-23.

WALLERSTEIN, Immanuel. 1974.The Origin of the Modern World System.Nova York: Academic Press.

 

 

Leonardo Francisco de Azevedo

Mestrando em Ciências Sociais
Universidade Federal de Juiz de Fora
Bolsista CAPES
Currículo Lattes

 


[1] No edital de intercâmbio da UFJF para o ano de 2013 foram selecionados 137 alunos, sendo 57 com bolsas da universidade. Estes estudantes se dividiram por 11 países diferentes, sendo a maioria com Portugal como destino - nada menos que 99 estudantes, ou seja, mais de 70% dos aprovados.