Associação Brasileira de Antropologia

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MUSEU, OBJETOS E OS DIFERENTES TEMPOS CONFLUENTES

 

 

Fachada do Museo Nacional de Antropologia de Madrid 
Fachada do Museo Nacional de Antropología de Madrid. Créditos de todas as imagens: Renata Montechiare



Renata Montechiare

Doutoranda em Sociologia e Antropologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bolsa Capes



Museu, objetos e os diferentes tempos confluentes trata-se de uma síntese para pesquisa de doutorado em andamento. Resume o que parecem ser pontos centrais para compreender o que faz o Museo Nacional de Antropología de Madrid (MNA) apresentar-se como guardião das referências de um suposto universalismo cultural determinado por um tipo particular de museu do homem, através dos objetos que exibe.

Esta hipótese partiu das observações de campo nas salas de exposição do MNA, que atualmente se organiza classificando suas coleções em seis mostras: "America", "Africa", "Filipinas", "Regiliones Orientales", "Antropología Física", e a exposição de abertura[1] no hall central. A princípio, o museu poderia conceitualmente parecer um "museu do outro" (L’Estoile, 2007), por apresentar apenas objetos de territórios extra-europeus, a maioria deles ex-colônias. Entretanto, apesar de não ter uma sala destinada à Europa conforme o recorte geográfico proposto, o continente está presente em dois momentos da exposição: no hall central e na coleção de antropologia física que deu origem ao museu.

 

Vista interna do museu. 1º andar: Sala de Filipinas. 2º andar: Sala de Africa. 3º andar: Sala de America

 

Portanto, este "museu do homem" (Conklin, 2013) aparentemente se propõe a apresentar a diversidade cultural humana em suas diferenças e semelhanças. No entanto, assim como outras instituições constituídas entre as disputas coloniais do século XIX, o MNA se vê envolvido na oposição "colonial" versus "universal", e trabalha cotidianamente para sustentar seus posicionamentos teórico-políticos diante do crescente movimento de revisão conceitual, repatriação de patrimônios e reformulação das exposições.

A chamada “crise dos museus” surge no contexto dos museus de antropologia e etnologia especialmente em países que de alguma forma experimentaram a condição de colonizadores. Do Canadá à Austrália, os museus têm sido alvo de críticas e acusações especialmente a partir da descolonização, e as instituições europeias têm sofrido de forma bastante intensa os efeitos do recente interesse dos antropólogos, historiadores e críticos sobre suas atividades (Clifford, 1999; Hooper-Greenhill, 1989; Duarte, 1998).

Os museus espanhóis integram este ambiente não apenas quanto às críticas acadêmicas e embates diplomáticos nos pedidos de repatriação de patrimônios, mas também na pressão exercida pela presença de imigrantes de ex-colônias. Ademais, a crise financeira que o país atravessa reposiciona a instituição na defesa do papel que o museu supostamente exerce na sociedade. Comenta-se sobre a escassez de recursos para as atividades e manutenção dos espaços, além do fechamento parcial de museus, reduzindo gastos e salários de funcionários. Se o debate sobre a função social dos museus etnográficos no mundo de hoje está repleta de conflitos e acusações, lidar com as dimensões mais pragmáticas de gestão imposta pela recessão torna o problema ainda mais desafiador.

Desde os vários aspectos da crise, que em cada país são percebidos de maneiras diferentes, os museus de antropologia em todo o mundo têm realizado grandes mudanças, desde a criação de novas instituições (Musée du Quai Branly), fechamento temporário para reformulação (Royal Museum for Central Africa), novas políticas de montagem de exposição (Weltkulturen Musuem), circulação de coleções (Pitt Rivers Museum), repatriação de patrimônios (Royal Ontario Museum), entre outras experiências.

 

Vitrine da sala de Religiones Orientales

 

No campo teórico, este recente movimento vem acompanhado de reflexões sobre a trajetória destas instituições ao longo do tempo. Os museus de antropologia atravessaram o século XX reformulando sua atuação uma vez que a própria disciplina sofreu severas transformações: da ênfase nos estudos sobre cultura material até gradualmente afastar-se do ambiente de exposição de resultados de pesquisa através dos objetos. Destaca-se a relevância da cultura material até os anos 1920 e 1930, décadas que consolidariam a observação participante como prática dos antropólogos. A partir daí, a antropologia passa por uma forte dissociação do interesse relativo às coleções como mediadoras entre as chamadas “culturas primitivas” e suas transformações (Gonçalves, 2007), ao valor intrínseco dos objetos e à própria prática museológica. Já no início dos anos 1980, sob o novo enfoque do museu como instituição social, há uma progressiva reaproximação dos antropólogos, tomando-o como objeto de pesquisas e ainda como cruzamento de relações epistemológicas, sociais e políticas (Ibidem, 2007).

No caso específico do MNA, a última reforma museográfica (entre os anos 2004 e 2007) reorganizou as peças a partir de características culturais que proporcionassem ao visitante a comparação entre objetos, suas semelhanças, mudanças e diferenças (Blanco, 2009), embora tenham sido mantidas as divisões por continentes e critérios geográficos. Conforme apontado por Gonçalves (2007: 54), o “eterno presente” das culturas classificadas geograficamente dá às exposições um aspecto imutável, como se o que o visitante observa através da vitrine pudesse ser continuamente verificado no campo.

 

Vitrine Sala de Africa

Vitrine da Sala de Africa

 

Apesar da reformulação, não há grandes indicações de que as mudanças ocorridas no MNA embasaram-se em debates e intercâmbios com os grupos de origem dos objetos, movimentos sociais e outros grupos, como vem ocorrendo em museus com temáticas semelhantes. Manteve-se o uso de abordagens antropológicas pouco usuais atualmente, como no caso das explicações sobre a presença de agrupamentos humanos nas regiões do planeta, escalonadas por estágios evolutivos de desenvolvimento. Sobre a revisão das concepções imperialistas do período colonial, ao contrário, o museu não apenas tenta se eximir de supostas responsabilidades atribuídas a partir de relatos históricos[2], como também eximir a nação, representada nos textos pela Coroa Espanhola e pela Igreja Católica.

Movimentos como estes parecem bastante estranhos ao que vem sendo realizado por outros museus de antropologia, mas apresentam certa coerência se comparados com as narrativas presentes no seu correlato em Madrid, o Museo de America. Entre os exemplos das interpretações que este museu propõe sobre a relação da Espanha com a “America” estariam as questões sobre a escravidão durante o período colonial, chamada de "emigración africana" pela exposição permanente do Museo de America (González, 2007: 287). As semelhantes abordagens apresentadas, de forma mais ou menos sutis, suscitaram desde logo interesse de pesquisa.

Na contra mão de seus pares, o MNA investe no mito de origem do museu como memória de sua importância enquanto instituição social. O momento de sua fundação em 1875 por um médico evolucionista representante da vanguarda científica da época, em contraposição ao catolicismo do país (Tejada, 1992), é enfatizado em seus documentos e apresentado na exposição através da Sala de Antropologia Física. Aparentemente, o museu se reinscreve no tempo mítico acionando a presença de seu fundador através dos objetos de sua coleção inicial, como mecanismo de legitimação de sua permanência nos dias atuais.

Parece imprescindível tratar das questões coloniais, pois ainda que o museu oficialmente não discuta o tema, uma vez que desde sua fundação grande parte das regiões colonizadas pela Espanha já eram independentes, este assunto aparece como um problema. Comentava-se sobre a demanda de inclusão na exposição de objetos originários dos países da America do Norte e outras regiões onde não houve presença espanhola como colonizadores, visando ampliar o sentido “universal” da mostra. Algo como se o museu precisasse enfatizar para o visitante que não se caracteriza como um museu “colonial”. É possível que o MNA enfrente esse tipo de acusação em função de outros museus europeus contemporâneos a ele que tiveram suas coleções iniciadas em expedições e pesquisas em territórios colonizados nos séculos XIX e XX, o que os leva a enfrentar os recentes processos de repatriação de objetos (Borges, 2013). Por outro lado, os visitantes em Madrid manifestam seu incômodo com os aspectos “coloniais” do MNA também em função das coleções expostas serem majoritariamente originárias de territórios de ex-colônias espanholas.

 

Vitrine da Sala de America

Vitrine da Sala de América

 

Assim, objetos e coleções articulam dois temas principais. O primeiro deles se refere ao mito de origem do MNA no século XIX com a figura central de seu fundador, que celebra um período bastante relevante da história do museu. Parece haver o intuito de recuperar esta memória e inseri-la nos dias atuais para dar sentido a sua permanência enquanto instituição pertinente à sociedade. O segundo tema remete às formas como o MNA se aproxima e se distancia das questões coloniais, que irremediavelmente ressurgem.

O ponto-chave está, portanto, em conhecer a dinâmica com a qual o MNA opera. O museu parece responder à um interlocutor muito particular, diferente do que museus com perfis semelhantes dialogam. Entende-se que o diálogo nestas instituições, especialmente européias, de antropologia, construídas na segunda metade do século XIX, vem sendo travado em linhas mais críticas, democráticas e flexíveis especialmente no que se refere às narrativas que apresentam, ainda que com inúmeras resistências e disputas diplomáticas quanto às coleções.

Neste contexto europeu, observa-se também um especial tratamento dos objetos, que vêm sendo reclassificados a partir de status diferenciados. Em alguns casos de objetos exóticos a obras de arte; em outros, tomando-os como símbolos culturais importantes de terem respeitadas suas especificidades dadas por outros especialistas que não somente os antropólogos, mas também as autoridades locais (Clifford, 2013). Assim, coleções, vitrines e objetos vêm passando por experiências de montagem junto com representantes da cultura de origem da peça, valorizando não apenas o objeto mas o processo de construção de interpretações.

Entendendo que é essencialmente através dos objetos que um museu dá as pistas sobre sua visão de mundo e o papel que espera desempenhar na sociedade, o objetivo concentra-se em reconhecer nos discursos de funcionários, textos e materiais produzidos pelo museu, quais coleções exercem maior influência nas escolhas conceituais.

Outro caminho metodológico importante trata dos referenciais teóricos com os quais o museu opera, em especial a constituição da antropologia na Espanha. A história da disciplina no país atravessa ambientes conflituosos durante boa parte do século XX, momento em que a disciplina promoveu grandes transformações. Precisam ser considerados os embates no ambiente político da Guerra Civil (1936-1939) e do governo do Gal. Francisco Franco (1939-1975) na formação de intelectuais e pesquisadores, alguns deles exilados do país durante certo período e com trajetórias bastante diversas. A pesquisa através destes materiais poderá revelar como o museu vem se alimentando conceitualmente para apresentar suas coleções ao público.

Ao que tudo indica, a pesquisa tem caminhado para compreender e localizar o Museo Nacional de Antropología de Madrid no contexto das discussões sobre museus de antropologia hoje, em suas relações com os povos representados. Seja pela presença de visitantes de diferentes origens nos museus, seja pelas reivindicações do pós-colonialismo, as leituras sobre o campo dos museus etnográficos e suas recentes reformulações contribui para compreender a atual dinâmica do mundo dos museus.

Referências bibliográficas:

BLANCO, Javier Rodrigo del. 2009. “America en el Museo Nacional de Antropología de Madrid”. Artigrama, 24: 119-133. ISSN 0213-1498

BORGES, Luiz Carlos. 2013. “Relações político-culturais entre Brasil e Europa: o manto tupinambá e a questão da repatriação”. Revista das Americas, 5: (1-14).

CAPEL, Horacio. 2009. “La antropología española y el magisterio de Claudio Estevas Fabregat – estrategias institucionales y desarrollo intelectual en las disciplinas científicas”. Scripta Nova – Revista Eletrónica de Geografía y Ciencias Sociales XIII(287): 1 - 57. ISSN: 1138-9788. 

CLIFFORD, James. 1999. Itinerários Transculturales. Barcelona: Gedisa Editora.

_____. 2013. “Looking Several Ways”. In: Returns – becoming indigenous in the Twenty-First Century. London, Cambridge: Harvard University Press. pp. 213 – 260.

CONKLIN, Alice. 2013. In the museum of man: race, anthropology and empire in France, 1850 – 1950. New York: Cornell University Press.

DUARTE, Alice. 1998. “O museu como lugar de representação do outro”. Antropológicas, 2: 121 – 140.

DIAS, Nélia Susana. 1998. “The visibility of difference – nineteenth-century French anthropological collections”. In: Sharon Macdonald. Politics of Display – museums, science, cultureLondon: Routledge. pp. 31 – 45.

GONÇALVES, José Reginaldo Santos. 2007. “Coleções, museus e teorias antropológicas: reflexões sobre conhecimento etnográfico e visualidade”. In: Antropologia dos objetos: coleções, museus e patrimônios. Rio de Janeiro: IPHAN - Coleção Museu, Memória e Cidadania. pp. 43 – 64.

GONZÁLEZ, Marisa; MONGE, F. 2007. “El Museo de America, modelo para armar”. Historia y Política, 18: 273 – 293. Disponível em: http://www.cepc.gob.es/en/publications/journals/electronicjournals?IDR=9&IDN=647&IDA=26846[Acessado em 15 de julho de 2013]. ISSN 1575-0361

HOOPER-GREENHILL, E., 1989. “The Museum in the Disciplinary Society”. In: S. M. Pearce (ed.), Museum Studies in Material Culture. Londres: Leicester University Press. pp. 61 – 72.

L’ESTOILE, B. 2007. “À qui appartiennent les objets des Autres? Un patrimoine disputé”. In: Le Goût des autres: de l’exposition colonial aux arts premiers. Paris, Flammarion. pp. 323 – 367.

TEJADA, Pilar Romero. 1992. Um templo a la ciência – Historia Del Museo Nacional de Etnologia. Madrid: Ministério de Cultura – Dirección General de Bellas Artes y Archivos.


Renata Montechiare

Doutoranda em Sociologia e Antropologia
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Bolsa Capes
Currículo Lattes
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[1] Trata-se de uma exposição de fotografias que pretende representar todos os continentes e a diversidade humana.

[2] Os textos e materiais informativos da Sala de America, por exemplo, trazem inscrições que posicionam o museu na defesa contra possíveis acusações relativas ao papel desempenhado pela Espanha em relação à America Latina durante o período colonial.