Associação Brasileira de Antropologia

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ENTREMEANDO POSSIBILIDADES INFINITAS

os processos museológico, histórico e estético de objetos feitos de miçanga em povos indígenas da Amazônia





Tanga de Miçangas - Tiriyó. Acervo Museu Goeldi.

 


Carlos Eduardo Chaves

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas

Bolsista CAPES



A presente comunicação tem como intuito à divulgação da pesquisa realizada entre os anos de 2012 a 2014 no Museu Paraense Emílio Goeldi em Belém[1]. A atividade de pesquisa teve início após um período inicial de trabalho na Reserva Técnica Curt Nimuendajú (local de salvaguarda das coleções etnográficas) no qual tive contato com a cultura material de diversos grupos indígenas da Amazônia, objetos que datam do século XIX. Atualmente, no âmbito das doações para museus etnográficos, a renovação do acervo deste museu consiste na entrada cada vez mais frequente de objetos feitos de miçanga. Tendo isso em vista o objetivo da pesquisa foi analisar a miçanga como representação de contato com os “brancos” e outros povos indígenas, assim como as suas possibilidades estéticas no passado e no presente, juntamente com a circulação de mercadorias industrializadas nas aldeias. O intuito foi a realização de um estudo com caráter etnohistórico, estético e museológico referentes a objetos confeccionados de miçangas na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi e em trabalho de campo. O estudo forneceu critérios comparativos entre os Mebêngôkre-Kayapó, Wayana-Aparai e Tiriyó, possibilitando assim obter dados relativos à entrada de contas de vidros em sociedades de contato antigo e atual.

 

Os Wayana e Aparai e Tiriyó são povos de língua carib que habitam a região de fronteira entre o Brasil, o Suriname e a Guiana Francesa. Na parte brasileira, os primeiros estão concentrados nos rios Paru de Leste e com população em torno de 700 pessoas, habitando vinte e três aldeias localizadas em duas terras indígenas: Parque Tumucumaque e Rio Paru d´Este (VAN VELTHEM, 2010). No Brasil, os Wayana e Aparai mantêm há pelo menos cem anos de relações estreitas de convivência, coabitando as mesmas aldeias e casando-se entre si, estreitando dessa maneira suas relações de parentesco. Os Tiriyó que vivem na parte brasileira juntamente com alguns grupos vizinhos (principalmente Katxuyana, Txikuyana, Wayana e Aparai) também habitam a Terra Indígena Parque de Tumucumaque. Trata-se de uma área localizada ao norte do Pará e noroeste do Amapá, nos municípios de Oriximiná, Almeirim, Óbidos e Alenquer e sua população gira em torno de 1400 pessoas (Grupioni, 2005).

Deve-se ainda considerar que as informações disponíveis sobre a participação dos Aparai e Wayana nestas redes de relações, assim como toda a historiografia destas redes, se confunde com a introdução crescente de mercadorias europeias nestes sistemas de relações durante o período colonial. As transações comerciais se efetuaram entre os europeus e os índios da costa, na região da Guiana Francesa e Suriname, sobretudo nos séculos XVII e XVIII. Os Aparai e Wayana já se encontravam familiarizados e dependentes há muito tempo dessas mercadorias europeias e dos bens industrializados (Barbosa, 2005; Velthem, 2011).

Essa relação comercial com os “brancos” não é uma característica apenas dos Wayana e Aparai. Desde o século XVII foi documentado pelos viajantes que percorreram a região das Guianas[2] um extenso circuito de trocas entre as etnias indígenas que habitavam o lugar, o qual repousava na captura recíproca, entre inimigos, mulheres e troca de bens (Dreyfus, 1993).  Muitas mercadorias foram introduzidas aos Wayana e Aparai através dessa rede de relações desde o período colonial, por meio das transações comerciais na qual também participavam os europeus e os escravos fugitivos da Guiana Francesa e Suriname. Em vista disso, essas comunidades indígenas já se encontram familiarizadas e dependentes de mercadorias europeias e bens industrializados há muito tempo (Barbosa, 2005).

A miçanga, para os Wayana-Aparai, é uma mercadoria de longa data, introduzida antes mesmo do contato com os “brancos”. Com o circuito de rede de trocas das Guianas, os Wayana e Aparai se beneficiavam do recebimento de mercadorias europeias provenientes de outros grupos indígenas ou de escravos fugitivos, sobretudo os Saramaká. O uso das miçangas se intensificou com o contato com brancos que a partir do século XVIII massificaram a entrada de mercadorias industrializadas.


3 - acervo museu goeldi - tanga de miangas - wayana-aparai
Acervo Museu Goeldi - Tanga de Miçangas - Wayana-Aparai

 

Com a consolidação das miçangas dentro do circuito de trocas de objetos, foi então possível aos Wayana e Aparai seguirem outros patamares e incorporarem a miçanga na cosmologia e nos seus mitos. Os mesmos elaboraram um complexo esquema estético corporal onde as contas de vidro passaram então a ser compreendidas como uma espécie de vestuário ou uma segunda pele que reforça a condição humana de um indivíduo, pois estar enfeitado nos momentos adequados, seja em festas ou rituais, com a “roupa de miçangas” é estar na condição ideal de um ser humano, o que por sua vez fomenta a distinção e a singularidade dos Wayana-Aparai dentro do mundo natural, afastando-os da animalidade. Dentro desse esquema, o artesão é quase um “ser sobrenatural”, pois é o responsável pelo poder de metamorfose gerado pela pele de miçangas (Van Velthem, 2011).

 Podemos perceber a importância das miçangas entre os Wayana-Aparai e Tiriyó ao analisarmos a coleção etnográfica do Museu Paraense Emílio Goeldi. Dentro da Instituição há quinze coleções perfazendo um total 1711 peças correspondentes ao período de 1915 a 1990. Em todas as coleções é possível encontrar peças confeccionados de miçangas, basicamente tangas, colares e pulseiras e outros adornos corporais, objetos caracterizados por serem de uso cotidiano ou ritual. Podemos encontrar nas tramas de miçangas grafismos do repertório endógeno, também aplicado às pinturas corporais, ou desenhos introduzidos, de objetos de mercadorias industrializada, assim como cenas da vida cotidiana.

Nosso interesse também se volta para os Mebêngôkre que vivem no sul do estado do Pará e no norte do Estado do Mato Grosso, no curso dos rios Xingu e Araguaia e seus afluentes, em aldeias localizadas em 9 terras indígenas: Baú, Kapotnhinore, Badjônkôre, Capoto/Jarina, Kararaô, Kayapó, Trincheira/Bacajá, Xikrin do Cateté e Las Casas.As Terras Indígenas são cobertas principalmente de florestas de terra firme e cerrados, enquanto o resto da região sofre com fortes processos de desmatamento (Zimmerman, 2005). A população Mebêngôkre atual é estimada em mais 8000 pessoas, sendo que cada aldeia tem em média 200 a 500 indivíduos e poucas ultrapassam os 1000, como é o caso de Gorotire (Verswijver, 2002). Na Terra Indígena Kayapó (TIK), as aldeias relativamente próximas às cidades não ultrapassam um dia de viagem de voadeira, fazendo com que as comunidades tenham relativa facilidade de acesso a serviços de comércio e saúde. A língua Mebêngôkre pertence à família Jê do tronco linguístico Macro Jê e sua transmissão é considerada alta e bem estabelecida já que muitos são monolíngues (Rodrigues, 2011), e geralmente os bilíngues Mebêngôkre/Português são jovens de 20 a 40 anos, que já passaram pela escola e pela cidade.


2 - acervo musu goeldi - pulseira de miangas desenho representa a pele da cobra - kang-ok mebngkre-kayap

Pulseira de Miçangas (desenho representa a pele da cobra - Kangà-ok) Mebêngôkre-Kayapó. Acervo Musu Goeldi.

 

O contato com a população branca entre os Mebêngôkre ocorreu “tardiamente”, no início do século XIX, sobretudo devido ao isolamento ocasionado pela interrupção do tráfego fluvial dos rios Araguaia e Tocantins devido à exploração aurífera no século XVII (Chaves, 2012). Também devido a esse processo, podemos afirmar que houve um relativo atraso na entrada de bens manufaturados dentro dessa população indígena.  Os Mebêngôkre, na literatura antropológica, são conhecidos por incorporarem objetos e matérias-primas para dentro de sua cultura material com a finalidade de agregarem valores estéticos e criarem distintividade para o indivíduo que o incorpora, tornando-o dono desse objeto, o que chamamos de nekrets[3]. A miçanga é um utensílio exógeno e está dentro dos critérios de incorporações Mebêngôkre, e nesse sentido pode ter sido introduzida através das trocas com a população “branca” ou como se habituou a chamar nos trabalhos acadêmicos entre os Mebêngôkre – as expedições guerreiras, que tinham como objetivo a obtenção de objetos, cantos, cerimônias. etc. através da guerra com o intuito de renovação das mesmas – nekrets (Turner, 1968, 1992, 1993).

Com a incorporação de novos materiais e a substituição do que era considerado tradicional, a miçanga sintetiza o sucesso na adequação de novas matérias-primas e a confecção de novos objetos. A entrada de novos materiais na cultura Mebêngôkre “popularizou” a produção de diversos utensílios, que muitas vezes pelo caráter restritivo do uso das matérias-primas, limitava a confecção de objetos em virtude dos nekrets legitimarem a exclusividade na fabricação de objetos e a posse de um indivíduo sobre determinado material. Com a entrada de novas matérias-primas, não proibitivas, consideradas de uso comum ou “vulgarizadas” de uso geral, seria então possível para novos artesões manifestarem seu potencial criativo e a miçanga, nesse sentido dá essa possibilidade de criação e transformação (GORDON, 2003).

Entre os Mebêngôkre encontramos uma variedade extensa de objetos feitos de miçanga: colares, pulseiras, braçadeiras, tipoias, entre outros.  Em monografias mais antigas sobre cultura material, no entanto, sentimos falta das contas de vidro, Dreyfus e Frikel são bons exemplos para aprofundarmos essa afirmação. Esses trabalhos realizados na década de 1960 expuseram pela primeira vez uma gama diversa de objetos cotidianos e rituais assim como aplicação de seus usos e funções, porém é raro encontrar miçangas em suas descrições.

Protásio Frikel, em 1968, fez um extenso trabalho sobre os objetos da cultura material Mebêngôkre, sendo seu objetivo catalogar todos os utensílios usados por a comunidade indígena aonde fez trabalho de campo – Xikrin do Cateté. Também percebemos a ausência de objetos constituídos de miçangas entre suas descrições, porém há um adorno em particular sobre o qual o etnógrafo faz referência do uso das contas de vidro, a bandoleira de contas pretas. Frikel analisa detalhadamente sua estrutura, que se trata de várias voltas de sementes arredondadas pretas enfiadas ao um fio comprido e “as vezes, inclui-se espaçadas de 10 a 15 cm, contas mais grossas de vidro de cor azul, amarela, rósea...” (67: 1968).

O fruto final do trabalho de Frikel entre os Mebêngôkre foi a entrega dos objetos que recolheu na aldeia para a formação de sua coleção etnográfica no Museu Paraense Emílio Goeldi. Ao adentrarmos nas coleções etnográficas Mebêngôkre da Instituição, além do etnógrafo alemão encontramos mais treze coleções que datam do ano de 1902 a 1987, totalizando aproximadamente 2500 peças (Chaves, 2011). Um fato interessante é que, apesar de quase um século de objetos reunidos, encontramos apenas algumas miçangas espaçadas em algumas bandoleiras na coleção de Frikel e dois colares e um brinco de miçangas na coleção de Darrel Posey de 1987, o que nos mostra como foi o início da entrada das contas de vidros entre os Mebêngôkre.

Temos, como estudo de caso, sociedades que tiveram como experiência de contato um objeto catalisador e destinado à atração desses grupos indígenas mesmo em momentos históricos distintos, um no século XVII e o outro no século XIX. As contas de vidros entraram no sistema estético e cosmológico dessas sociedades em momentos diferentes, mas um fator eles têm em comum: estimulam a criatividade do artesão em suas tramas de infinitas possibilidades. Se de um lado a miçanga entre os Mebêngôkre possibilitou uma maior abertura no processo de confecção de objetos, criando estímulos para a formação de novos artesãos, uma vez que homens (motivados pelo aspecto comercial) e mulheres podem fabricar, temos em outra esfera os Wayana e Aparai com o uso mais restrito das miçangas, sendo considerada perigosa devido a sua carga simbólica, reservada a momentos específicos. Portanto, é pertinente o estudo comparativo sobre as miçangas nessas duas sociedades, assim como dos artefatos de miçangas no contexto social indígena e no contexto das coleções etnográficas como elo de ligação que norteou uma redefinição e transformação na história do contato e na estética desses dois povos.

Referências bibliográficas

BARBOSA, Gabriel Coutinho. 2005. Das trocas de bens. In : GALLOIS, Dominique Tilkin (Org.). Redes de Relações nas Guianas (Série: Redes Ameríndias NHII / USP). São Paulo: Associação Editorial Humanitas / FAPESP. pp. 113-150.

CHAVES, Carlos Eduardo. 2011. « La force vient des serpents: la massue Kayapó ». In: Índios no Brasil. Bruxelas: Europalia.

_____. 2012, Nas trilhas Irã Ãmrãnh: sobre história e cultura material Mebêngôkre. Dissertação de Mestrado. Belém: Universidade Federal do Pará..

COUDREAU, H. 1983. Chez nos indiens: quatre années dans la Guyane Française (1887-1881). Paris: Hachete..

CREVAUX, J. 1883. Voyages dans l´Amerique du Sud, 1878-1881. Paris: Hachete.

DREYFUS, Simone. 1972. Los Kayapó del norte de Brasil. México: Instituto Indigenista Interamericano.

_____. 1993.  “Os emprendimientos coloniais e os espaços políticos indígenas no interior da Guiana occidental (entre Orenoco e Corentino) de 1613 a 1796. In: Eduardo Viveiros de Castro & Manuela Carneiro da Cunha (orgs.), Amazônia: etnologia e história indígena. pp. 43-66. São Paulo: NHII-USP/FAPESP.

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GORDON, Cesar. 2003. Economia Selvagem. Rio de Janeiro: Instituto Socioambiental.

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TURNER, Terence. 1965. Social structure and political organisation among the Northern Cayapó.  Cambridje.

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VELTHEM, Lucia van. 2003. O Belo é a fera: a estética da produção e da predação entre os Wayana. Lisboa: Assírio e Alvim, 2003.

_____. 2010. Livro da arte gráfica Wayana e Aparai. Rio de Janeiro: Museu do Índio/Iepé.

_____. 2011. Objetos importados: a incorporação entre os Wayana. In: Indiana, vol 12, Berlim.

VERSWIJVER, Gustaaf. 1992. The club-fighters of the Amazon: warfare among the Kaiapó indians of Central Brazil. Gent: Rijksuniversiteit.

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ZIMMERMAN, Barbara. 2005. “Alianças de conservação com povos indígenas da Amazônia”. Megadiversidade, 1(1): 163-175.

 

 

Carlos Eduardo Chaves

Doutorando em Antropologia Social
Universidade Estadual de Campinas

Bolsista CAPES
Currículo Lattes

 


[1]                      Pesquisa realizada com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento e Tecnológico (CNPq)

[2]                      Ver Crevaux 1883 e Coudreau 1887.

[3]                      Prerrogativas herdáveis. Ver Verswijver 1992, Fisher 2000, Gordon 2003.