Associação Brasileira de Antropologia

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MODOS DE CONECTAR CAMPO E TEXTO

sobre etnografia entre técnicas de estagiários do Projeto TAMAR




Ana Campos

Capa do documento “Projeto TAMAR, pesquisa e conservação: Lista de Publicações desde de 1980”. Crédito: site do projeto TAMAR

 


Ana Cecília Oliveira Campos

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Espirito Santo
Bolsista PIBIC


 

Introdução

Este artigo reflete sobre técnicas de agentes técnicos estagiários do Projeto TAMAR, ICMBio em Regência- vila de pescadores no Norte do Espirito Santo- conectam campo e texto. O que abordarei como “campo” do TAMAR são as atividades de monitoramento de praia. Enquanto a ideia de “texto” será usada para fazer referência à produção de pesquisa vinculada ao TAMAR. A intenção é tornar visível essa abordagem à partir de minha presença em campo, em especial, em reuniões e treinamentos- de caráter prático e teórico.

A justificativa para a escolha desse tema vincula-se a uma produção bastante em voga na antropologia- bem como, algumas lacunas, conforme aponta Latour “nossa indústria, nossa técnica, nossa administração, permanecem pouco estudadas” (Latour, 2008: 18).

Nesse sentido, abordagem pretende se inserir nos estudos da antropologia da técnica. Tema do qual me aproximei - em janeiro de 2013- no intuito de estudar a relação entre técnicos e tartarugas marinhas, no referido projeto. Com relação ao método, para além do etnográfico[1], utilizei entrevistas semiestruturadas com estagiários entre outros agentes do TAMAR, e analises de publicações científicas vinculadas ao Projeto (TAMAR- ICMBio, Lista de Publicações desde 1980) .

 Por vezes perguntas que abordavam o método utilizado em minha pesquisa me foram feitas por pessoas profissionalmente ligadas ao TAMAR. Perguntas como “Qual é seu ´N’?” ou “Você precisa fazer quantas entrevistas?”. O estranhamento à minha resposta “Não há um número pré-determinado” se inscreve no contexto da técnica do TAMAR em suas pesquisas que, conforme este escrito pretende destacar, conectam campo e texto.

Meu “N”, como diriam os interlocutores dessa pesquisa, chegou a dez entrevistas com estagiários de duas temporadas reprodutivas (2012/ 2013 e 2013/2014), realizadas em sete curtas viagens de campo à pequena Vila de Regência onde se localiza a Reserva Biológica de Comboios (Rebio Comboios) – sendo que em uma delas me hospedei no alojamento dos estagiários do TAMAR.

 

O Tamar das Tartarugas-marinhas

Definir o que é TAMAR é uma dificuldade que aparece inclusive na forma de me referenciar a ele: “TAMAR”? “Projeto TAMAR- ICMBio”? “Projeto TAMAR”? ou apenas “O Projeto”? Ao longo desse texto, usarei prioritariamente a expressão “TAMAR” entretanto as demais serão também usadas indiscriminadamente para me referir a uma única ideia de TAMAR, aquela mais voltada a sua atuação do que a uma definição.

Essa ideia de TAMAR e tartarugas marinhas que à seguir apresentarei são, na verdade, apontamentos sobre a fala do Coordenador Nacional do TAMAR e de um pesquisador vinculado à instituição, a partir de uma reunião de treinamento de estagiários - estudantes de biologia, oceanografia e áreas afins que permanecem no TAMAR por três meses - realizado em outubro de 2013 em Regência.

Participar do treinamento dos estagiários era um dos principais objetivos daquela viagem de campo. O interesse no treinamento era estava no ensino de técnicas executas pelos estagiários estarem entre os agentes do TAMAR cujas atividades permite maior proximidade corpórea com as tartarugas-marinhas, em especial em dois momentos do trabalho: no monitoramento de praia, também chamado, em Regência de carebada[2]; e na abertura de ninhos.  Por isso, minha expectativa era que o treinamento fosse especialmente voltado a questões que permeassem o contato direto com tartarugas.

 

Carebada: fazer a praia

Durante o trabalho de campo, participei de algumas atividades de treinamento de estagiários no campo. Nessa atividade eram citadas pesquisas do TAMAR que respaldavam o que se estava ensinando. Um dos aspectos mais destacados por parte dos treinadores era a responsabilidade por dados exatos.

Recordo-me de ouvir determinações aos estagiários como “se não tem certeza do número, não anote”, “peça para seu parceiro repetir”, “repita em voz alta para confirmar”, afirmavam que seria melhor a falta de uma informação do que uma informação incorreta.

Certa vez, depois da explicação sobre a relação do tamanho do rastro deixado na areia e a espécie de tartaruga perguntei “Então pode-se inferir a espécie pelo tamanho do rastro”, a resposta do executor “Não podemos inferir nada”. Se por um lado admitia-se uma correlação entre fatores, por outro não ter visto a tartaruga não permitia fazer o registro da informação, apesar da correção de dados.

A anotação de dados foi uma das únicas atividades relacionadas ao manejo que me foi permitida executar. As atividades realizadas por estagiários do TAMAR na praia de Regência são registradas ainda durante a ocorrência da atividade. Esse registro no início da temporada reprodutiva de 2013/2014 era feito em um caderno que era levado a campo; no fim da temporada era realizado em uma placa de acrílico, por conta de danos. Os danos no caderno remetem à prática de registrar que é mais frequente que o próprio manejo. As atividades do manejo às quais me refiro são em especial a carebada e a abertura de ninhos.

A carebada é um uma técnica de monitoramento de praia realizada pelo TAMAR nas épocas de reprodução de tartarugas-marinhas. Dentre outros aspectos, atualmente, essa técnica inclui: marcação de tartarugas com anilhas - cada tartaruga encontrada na praia, no momento da postura dos ovos é marcada na nadadeira com anilha de metal que contém um número de identificação e o endereço do TAMAR; transferência de ninhos - os ninhos que são postados em áreas de risco sua destruição por mudança nos bermas ou predação, são transferidos para outros locais; identificação de ocorrência - cada ocorrência de tartaruga é identificada com estacas, duas estacas fazem referência a uma desova, enquanto apenas uma estaca faz referência a uma ocorrência em que não ocorreu desova; telar ninhos - os ninhos são cobertos por telas de metal e/ou plástico para evitar predação animal.

A abertura de ninhos é a técnica posterior à carebada, em que os ninhos que foram telados para evitar predação são monitorados e destelados para que na eclosão dos ovos os filhotes não fiquem presos nas telas. Esse monitoramento segue um padrão de aproximadamente 60 dias após a postura dos ovos.

Mas o que de fato se registra dessas atividades? Eu particularmente, tinha um interesse peculiar em registrar a técnicas, e anotava em pequenas agendas, folhas, guardanapos ou qualquer superfície riscável que tivesse à mão. Os estagiários, por sua vez, registravam– em uma compulsão quase antropológica por fazer registros - letras e número: número de identificação de ninhos; número de identificação de fêmeas; quantidade de ovos; quantidade de filhotes; localização no GPD; número do quilometro da ocorrência. O que eu via como relato de campo para era, para os estagiários apenas a rotina de suas atividades, de pouco interesse para registro. O que para mim eram apenas números e letras, os estagiários viam como dados.

Os técnicos responsáveis pela carebada ou abertura de ninhos eram também responsáveis por passar os registros para o Sistema Integrado de Informações (SII TAMAR) ­­que é uma plataforma de dados para pesquisa. Mas, efetivamente, os registros das letras e números das atividades de campo se tornam dados tão logo quanto surgem em estacas, anilhas colocadas, localizações geográficas identificadas.

Para o TAMAR o dado existe antes mesmo de ser registrado. Para além do bom desempenho no manejo com as tartarugas-marinhas o que se espera é que os estagiários sejam capazes de fazer registros acertados. Tartarugas vem e voltam ao mar, o que permanecia delas eram números e letras.

Entretanto, quando os estagiários fazem referência a tal atividade não usam a expressão “coletar dados”; antes, o termo usado é “carebar” ou ainda - de forma menos frequente - “fazer a praia”. Carebar está relacionado a coletar informações geograficamente localizadas, que ao serem registradas se tornam dados sobre o local. Produzir esses dados da praia é ainda produzir a própria praia. É, no mínimo, curioso que essa praia na qual se realiza a carebada seja feita de dados sobre tartarugas, e tartarugas especificas, aquelas descritas pelo TAMAR. Assim, falar de TAMAR em praia em que é feita carebada, é também tratar de uma forma bastante especifica de compreender o que são tartarugas-marinhas.

 

Considerações finais

Continuei algum tempo bastante interessada na questão das tartarugas que fugiam ao padrão estabelecido pelo TAMAR, e na forma como isso era em parte obscurecido pelo Projeto em parte quantificado em novos padrões derivados da purificação de pesquisas.

Após o fim dos estágios mantive certo contato com alguns dos ex- estagiários do TAMAR, a um deles - que continuou trabalhando com tartarugas-marinhas - contei de minha vontade de escrever sobre as tais tartarugas que eram pontos fora das curvas dos gráficos do Projeto. Imaginei que o meu comentário provocaria algum interesse, mas ao invés disso o interlocutor afirmou que sua curiosidade residia na vida dos machos e no que eles faziam quando não estavam acasalando.

Eu havia, até então, obscurecido que a tartaruga-marinha com as quais as atividades dos estagiários do TAMAR em Regência têm contato, não é somente peculiar em um modo próprio do TAMAR de se compreender e compreender o que é “ser tartaruga-marinha”; mas é também especifico de tartarugas-marinhas fêmeas em desova (na carebada) e filhotes (na abertura de ninhos).

Essa situação me fez atentar para o interesse do TAMAR em de descobrir as conexões entre informações, que se tornam dados tão logo quanto registradas – estes últimos, por sua vez, se tornam padrões em textos, gráficos e tabelas. A intenção não pensar se as tartarugas marinhas “são mesmo tal qual” o TAMAR as descreve, mas observar que talvez tal qual eles a descrevam elas só possam ser pela forma com que são descritas: pela relação entre registros nas carebadas e aberturas de ninhos e o SII -TAMAR; pelo método de manejo; ou ainda pela forma de lidar com o campo como espaço de padrões registrados, mas também pela forma de lidar com seus próprios textos como delimitadores para metodologias em campo.

 

Referências Bibliográficas:

LATOUR, Bruno. 2012. Reagregando o Social. Bauru, SP: EDUSC/ Salvador, BA: EDUFBA.

Projeto TAMAR. Lista de Publicações desde 1980. Disponível em: tamar.com.br. Acesso em: 20.11.2013

RODRIGUES, J. 2004. Tartarugas Marinhas e sua Proteçaão: Encontros e Desencontros entre a População de Regência e o Projeto Tamar.  Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Políticas Socias, Universidade Estadual do Norte Fluminense.

WAGNER, Roy. 2010. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify.



Ana Cecília Oliveira Campos

Graduanda em Ciências Sociais
Universidade Federal do Espirito Santo
Bolsista PIBIC
Currículo Lattes
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[1] A questão dos meus método será pouco abordada – em função da economia desse escrito - entretanto, cabe ressaltar que Wagner (Wagner, 2010) muito proveitoso em suas observações com relação ao trabalho etnográfico, bem como o trabalho do TAMAR, enquanto invenção e inventor de um modo de criatividade.

[2] O termo e a técnica derivam da prática de caçar tartarugas no momento da postura, a questão é melhor explorada por Rodrigues (Rodrigues, 2004). O que aqui mais interessa, é que careba é um modo de chamar as tartarugas-marinhas, a carebada – aquela feita pelo TAMAR- estar vinculada a capturar de um modo especifico as tartarugas, o técnico-científico.