Associação Brasileira de Antropologia

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THUG LIFE E ATIVISMO SOCIAL

 

construções de masculinidades de protesto nos bairros populares da Cidade da Praia (Cabo Verde)

 

 

 

Silvia Stefani

Doutouranda em Ciências Sociais
Università degli Studi di Genova

 

 

Introdução

O presente texto refere-se à pesquisa desenvolvida no âmbito do Mestrado em Antropologia Cultural e Etnologia pela Universitá degli Studi di Torino (Itália). Essa investigação analisa os modelos de masculinidades próprios da sociedade cabo-verdiana atual, visando a indagar os processos de construções da performatividade de gênero masculino, segundo a definição da Butler (1990), e suas atuais transformações. O estudo é baseado nos dados qualitativos recolhidos no ano 2014 ao longo de seis meses de trabalho de campo no contexto urbano da Cidade da Praia, capital de Cabo Verde. Cabo Verde é um arquipélago constituído por dez ilhas ao largo do promontório homónimo no Senegal. O arquipélago se encontra em pleno Oceano Atlântico, posição que o torna isolado, mas, ao mesmo tempo, ponto de conexão estratégico entre Africa, América e Europa. Essa característica se reflete tanto no passado das ilhas, nodo focal do comercio de escravos, quanto no atual fenómeno das migrações cabo-verdianas que se distribuem nos três continentes limítrofes. A capital, Praia, situada na ponta meridional da ilha de Santiago, foi centro do movimento de libertação contro a colonização portuguesa terminada no 1975 e hoje é a sede do governo e dos serviços nacionais.

O centro do campo etnográfico, em particular, foi o bairro de Achada Grande Frente, onde morei, e os bairros limítrofes de Lem Ferreira e Paiol, na zona Oeste da cidade. Esses bairros, entre os mais pobres da cidade, têm a característica de se situar muito perto do caís e da única zona industrial da cidade, constituída sobretudo por armazéns destinados a distribuição das merces do trânsito marítimo. Em virtude dessa significativa posição geográfica, a maioria dos moradores dos bairros em questão encontram ocupações de trabalho nesses dois espaços, principalmente como pescadores, peixeiras ou descarregadores. Todos esses trabalhos, todavia, representam formas de empregos extremamente precários, cansativos e de baixa renda, fortemente estigmatizados a nível simbólico na cultura local. Ao longo do trabalho de campo, foram utilizadas as metodologias da observação participante e das entrevistas em profundidade, com vista a desenvolver uma etnografia densa, segundo o paradigma da antropologia interpretativa (Geertz, 1987).

 

 

Fig. 1: Bairro de Achada Grande Frente.

 

Masculinidade em crise e juventude parada

No curso da investigação, destaquei como o ideal da masculinidade hegemônica (Connell et al. 2005) cabo-verdiana está hoje atravessando um momento de profunda crise e mudança. Este modelo é enraizado no passado colonial do arquipélago e é baseado em noções de força, exercício do poder no relacionamento intergênero, negociação competitiva da virilidade com outros homens, expressão ativa da sexualidade e defesa da própria honra masculina. No entanto, hoje os homens cabo-verdianos não encontram mais as condições para performar o próprio género segundo este modelo, que se torna cada vez mais um ideal inatingível (Massart, 2013). Existe atualmente um fosso entre os discursos sobre a masculinidade que é produzido pelos membros da comunidade e as condições sociais concretas. De fato, por um lado, as mudadas condições econômicas enfraqueceram o domínio econômico masculino nos agregados familiares e na sociedade; por outro lado, as mulheres começaram a adotar novas performatividades de gênero, inspiradas pelo movimento global de emancipação das mulheres, em que se envolveu também o governo cabo-verdiano. As reflexões para a mudança do sistema de gênero cabo-verdiano, entretanto, raramente focam no gênero masculino. A falta de reflexões acerca da masculinidade nessa altura de mudança social sustenta o crescimento das tensões nos relacionamentos de gênero, fato que se traduz concretamente na preocupante difusão da violência contra as mulheres, registrada em um estudo desenvolvido pelo INE[1] em parceria com o ICIEG[2]. Os dados recolhidos destacam como os casos denunciados de maus tratos contra a mulher no concelho da Praia foram 214 no ano 2010, desceram a 191 no 2011, mas subiram novamente no ano seguinte até 732 casos[3]. Embora seja evidente que esse crescimento (que reflete a situação geral do arquipélago) tem que ser interpretado em parte como a emergência de um fenómeno antes submerso, graça aos progressos na difusão e implementação da lei contra a violência de género, todavia não pode ser excluído que expresse também um real aumento dos maus tratos contra as mulheres como consequência das fortes tensões no sistema de gênero local.

Essa pesquisa é focada, em particular, na população masculina juvenil de alguns dos bairros mais pobres da cidade da Praia, anteriormente mencionados. Por esta camada social, de fato, a tensão atual a respeito do sistema de gênero se junta a uma difícil condição juvenil. A transição do arquipélago para uma economia liberal tem produzido um incremento da riqueza nacional, que, entretanto, tem sido acompanhada por um significativo crescimento da desigualdade social. A situação atual de desigualdade econômica e falta de oportunidades de trabalho são fonte de frustração para os jovens moradores da Praia, também porque o aumento do nível de instrução e a difusão de objetivos desejáveis espalhados pelos meios de comunicação social alimentam neles aspirações de promoção social, que são continuamente negadas pela desigual distribuição dos recursos materiais e simbólicos. Além disso, esta situação, embora interesse aos jovens de ambos os gêneros, parece ter ulteriores repercussões no que diz respeito à camada masculina, porque prejudica os jovens dos bairros populares em sua possibilidade de alcançar determinados recursos que simbolizam a passagem para o status de homem adulto, como a autonomia residencial, a ocupação no trabalho e a capacidade de sustentar o próprio núcleo familiar. Em consequência, eles ficam presos na condição juvenil, num tempo de vida frustrante que pode ser definido como waithood (Singerman, 2011). As jovens mulheres, por outro lado, são afetadas em menor medida por essas implicações, porque o status de mulher adulta continua a ser veiculado principalmente pela capacidade generativa biológica. O sistema social dominante, então, oferece aos jovens machos da capital condições de integração na sociedade unicamente em posições subordinadas, que não proporcionam recursos materiais nem simbólicos úteis para a construção de uma imagem de si positiva.

 

Organizações de rua nos bairros populares como resposta à situação de marginalização

Face a inicial resistência dos meus interlocutores no utilizo da recolha das estórias de vida, ao longo da investigação foi utilizada com essa camada social a técnica da foto-elicitação, elaborada no âmbito da antropologia visual. Os jovens que tomaram parte do estudo tiraram fotografias que expressassem a própria representação das diferencias de gênero na sociedade, criando eles mesmo o material fotográfico sobre o qual foram construídas as entrevistas. O mérito dessa escolha metodológica consiste no promover entrevistas mais livre e igualitária: a fotografia produzida pelo jovem constitui a tradução visual do seu imaginário e ponto de vista e, desse jeito, é o entrevistado mesmo que escolhe quais são as temáticas centrais. Isso permitiu que, a partir das fotografias, a investigação fosse levada a se focar em direções inéditas, não prevista pela pesquisadora.

Com grande frequência, de fato, as fotografias eram narrações visuais de duas tipologias de organizações de rua (Brotherton, 2011), ligadas à construção da masculinidade desses jovens: as gangues urbanas, chamadas thugs, e os movimentos de ativistas sociais. De fato, em reação à situação de múltipla marginalização, os jovens machos dos bairros populares da Praia preferem entrar nessas organizações que constituem fóruns alternativos para a construção de identidades não subordinadas e que atuam em um processo de desfiliação em relação à cultura dominante (Lima, 2012). Ambas as organizações, pois, fornecem instrumentos para a construção da identidade e a afirmação de si baseados em diferentes aspetos, entre os quais a performance estética.

 

 

«Nos anos 2000, chega com os deportados, aquele estilo de vestir, o estilo thug. A gente veste roupão, assim que se chama, e escolta a música de Tupac, Big Notorius, esses caras aí! Nos vemos uma coisa no clipe, que os rapazes da América tinham, e nos queremos também. Porque ser thug é bazofu, é bonito.» (Entrevista com Jony, membro de um grupo thug)

 

 

Fig. 2: Cultura hip-hop no bairro de Achada Grande Frente: rap, roupão e graffiti.

 

Enquanto os grupos thug se referem à cultura transnacional hip-hop e adotam como modelo o rapper afro-americano Tupac, os ativistas desenvolvem uma proposta afro centrada, que visa a valorizar os caracteres de africanidade da cultura cabo-verdiana. Os ativistas recuperam a figura de Amílcar Cabral, herói nacional de liberação, e elementos da religião rastafári, criticando as posições filo-ocidentais da elite cabo-verdiana. Para além, ambas as organizações são portadoras de instâncias de resistência e crítica social, embora expressas de maneira diferente. As gangues, de fato, atuam numa crítica ao sistema dominante através da arma do estilo e expressões artísticas de sensibilização, como o gangsta rap. Todavia, esta crítica se acompanha a outras dimensões que a enfraquecem, como a guerrilha urbana entre grupos rivais, que produzem uma alta taxa de violência e se tornam um ulterior elemento de marginalização das camadas sociais mais pobres. Ao contrário, os ativistas fazem da denúncia social o foco das próprias organizações e desenvolvem ações de políticas urbanas concretas.

 

«Hoje thug é um nome… para marginaliza a gente! Eu gosto de Tupac, porque ele canta bom rap, dá uma boa fala, contra o sistema, o governo. Mas agora thug é um nome que o sistema mesmo dá nos, para marginalizar-nos. Porque thug é bandido, nos somos todos manchados!» (Entrevista com Silvio, membro de um grupo thug)

 

Atualmente, em alguns dos bairros populares da Praia, está em curso uma transição entre a difusão destas duas organizações de rua. A partir dos anos 2000 até hoje, de fato, a pertença a um grupo thug tem representado para os jovens machos da camada popular uma opção de vida eficaz em relação à sobrevivência econômica, assim como ao alcance do prestígio social. Como ressalta o extrato da entrevista, todavia, nos últimos anos, a identidade thug está em parte perdendo a sua eficácia, por causa da política repressiva atuada pelo governo, assim como pelas graves consequências sobre a população dos bairros pobres, em termo de violência urbana, perigos, marginalização, mortes precoces e violentas e segregação territorial dos jovens thugs. Em alguns dos bairros em que surgiram os grupos thugs, então, estão hoje surgindo movimentos de ativistas sociais que recolhem muitas vezes os mesmos jovens que pertenciam às gangues.

 

 

«Eu queria formar um movimento social, que apanhava todas as liderança thugs, mas de outro jeito, para junta-los contra os verdadeiros problemas que temos. Os thugs têm os olhos fechados… Queríamos um movimento com referência em Amílcar Cabral e nos seus princípios: igualdade, paz, luta. Acho que uma das formas de libertar a consciência dos jovens é mostrar a imagem de Cabral! Queremos despertar os jovens de como estão a agir, a vestir. Nos usamos muito a camuflada, por exemplo, para dizer que estamos na luta, sempre. Porque somos soldiers. E ouvimos música reggae e rap, porque são músicas de revindicação!» (Entrevista com Uv, leader da Korrenti de Ativistas, Achada Grande Frente)

 

 

Fig. 3: “Marcha Cabral” organizada pela Korrenti di Ativiztas.

 

Conclusão

O elemento central que foi analisado em relação a estes dois grupos foi, todavia, a dimensão de gênero. De fato, a filiação, seja às gangues, seja aos movimentos de ativistas, parece ser um fenômeno quase exclusivamente masculino. Nos grupos thug as mulheres desenvolvem papéis instrumentais, sendo frequentemente sexualizadas, enquanto entre os ativistas a falta de participação feminina sofre um processo de invisibilização. A hipótese desenvolvida no curso da pesquisa considera este fato come consequência do caráter de masculinidade de protesto (Conell, 1995) de ambas as tipologias de organizações de rua. Esta definição se refere aos grupos sociais que reclamam a posição de poder garantida pela pertença ao gênero masculino, reforçando as características do modelo de virilidade hegemônico, como reação a um contexto social de múltipla subordinação e marginalização. De fato, os modelos de identidade difundidos seja entre os thugs, seja entre os ativistas se baseiam em características enfatizadas do modelo hegemônico de masculinidade, em um processo de continuidade cultural com o sistema social dominante (Bordonaro, 2012). Ao mesmo tempo, estes modelos proporcionam percursos e instrumentos que permitem aos jovens se adequar ao modelo de masculinidade hegemônico, fato que de outra forma seria hoje impossível para eles. Os thugs e os ativistas, com certeza, se diferenciam por inúmeras características, como a diferente relação com o gênero feminino, questão que lamentavelmente não pode ser analisada nessa sede. Em conclusão, é possível afirmar que estes grupos sociais não sejam portadores de performatividades masculinas inovadoras, mas, ao contrário, reforçem o modelo de masculinidade que legitima a hierarquia sobre mulheres e formas de masculinidades não hegemónica, refletindo as tensões existentes hoje no arquipélago a nível de relações intergêneros.

 

Referências bibliográficas

BORDONARO, Lorenzo. 2012. “Masculinidade, violência e espaço público: notas etnográficas sobre o bairro Brasil da Praia (Cabo Verde)”. Tomo, 21: 101-136.

BROTHERTON, David. 2010. “Oltre la riproduzione sociale. Reintrodurre la resistenza nella teoria sulle bande”. In: L. Queirolo Palmas (org.), Atlantico Latino: gangs giovanili e culture transnazionali. Roma: Carocci. pp. 29-45.

BUTLER, Judith. 1990. Gender Trouble. London & New York: Routledge.

CONNELL, W. Raewyn e MESSERCHMIDT, W. James. 2005. “Hegemonic Masculinities: Rethinking the concept”. Gender & Society, 19(6): 829-859.

CONNELL, W. Raewyn. 1995. Masculinities. Cambridge: Polity Press.

GEERTZ, Clifford. 1987. The Interpretation of Cultures. New York: Basic Books.

MASSART, Guy. 2013. “The Aspirations and Constrains of Masculinity in the Family Trajectories of Cape Verdean Men from Praia (1989-2009)”. Etnográfica, 17(2): pp: 293-316.

LIMA, Redy Wilson. 2012. “Delinquência juvenil coletiva na cidade da Praia: uma abordagem diacrônica”. In: K. Cardoso, J. M. Pureza, S. Roque (orgs.), Jovens e trajectórias de violências. Os casos de Bissau e da Praia. Coimbra: edições Almedina. pp. 57-82.

SINGERMAN, Diane. 2011. “The Negotiation of Waithood. The Political Economy of Delayed Marriage in Egypt”. In: S. Khalef, S. R. Khalef, Arab Youth. Social Mobilization in Time of Risk. London: Saqi Books, pp. 46-75.

 

 

Silvia Stefani

Doutouranda em Ciências Sociais
Università degli Studi di Genova

Currículo Lattes
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[1]Instituto Nacional de Estatistíca

[2] Instituto Caboverdiano para a Igualdade e Equidade de Gênero.

[3] INE e ICIEG, 2012. Mulheres e homens em Cabo Verde. Fatos e Números 2012, em http://www.ine.cv/index.aspx.